quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Poema de azar


Ninguém, absolutamente ninguém, deparar-se-á com este rastro
É morto de nascença, filho bastardo da escritura
Finalizarão o tempo e os mundos
Ele não será lido.
Nulidade saída de nulidade
Oca obstinação de alguém que já se sabe morto
Pistas ininteligíveis de um desconhecido
Acerto de contas com o infinito nada
Lance do acaso na jogatina metafísica da poesia...

Olhar espasmódico do lotófago em transe
Enquanto lhe observa, perplexo, um Odisseu-Leitor.

Gravura Francisco Goya y Lucientes.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O eu, a matéria e a barata...

Vittore Carpaccio - La visione di Sant´Agostino
O inferno é o meu máximo.
Eu estava em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta. E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono acordado, de uma dor indiferente. De um Deus que, se eu amava, não compreendia o que Ele queria de mim. Sei, Ele queria que eu fosse o seu igual, e que a Ele me igualasse por um amor de que eu não era capaz.
Por um amor tão grande que seria de um pessoal tão indiferente - como se eu não fosse uma pessoa. Ele queria que eu fosse com Ele o mundo. Ele queria minha divindade humana, e isso tivera que começar por um despojamento inicial do humano construído.
E eu dera o primeiro passo: pois pelo menos eu já sabia que ser um humano é uma sensibilização, um orgasmo da natureza. E que, só por uma anomalia da natureza, é que, em vez de sermos o Deus, assim como os outros seres O são, em vez de O sermos, nós queríamos vê-Lo. Não faria mal vê-Lo, se fôssemos tão grandes quanto Ele. Uma barata é maior que eu porque sua vida se entrega tanto a Ele que ela vem do infinito e passa para o infinito sem perceber, ela nunca se descontinua.
Eu dera o primeiro grande passo. Mas o que me acontecera?
Eu caíra na tentação de ver, na tentação de saber e de sentir. Minha grandeza, à procura da grandeza do Deus, levara-me à grandeza do inferno. Eu não conseguia entender a Sua organização senão através do espasmo de uma exultação demoníaca. A curiosidade me expulsara do aconchego - e eu encontrava o Deus indiferente que é todo bom porque não é ruim nem bom, eu estava no seio de uma matéria que é a explosoão indiferente titânica. Uma titânica indiferença que está interessada em caminhar. E eu, que quisera caminhar com ela, ficara enganchada pelo prazer que me tornava apenas infernal.
A tentação do prazer. A tentação é comer direto na fonte. A tentação é comer direto na lei. E o castigo é não querer mais parar de comer, e comer-se a sim próprio que sou matéria igualmente comível. E eu procurava a danação como uma alegria. Eu procurava o mais orgíaco de mim mesma. Eu nunca mais repousaria: eu havia roubado o cavalo de caçada de um rei da alegria. Eu era agora pior do que eu mesma!
Nunca mais repousarei: roubei o cavalo de caçada do rei do sabath. Se adormeço um instante, o eco de um relincho me desperta. E é inútil não ir. No escuro da noite o resfolegar me arrepia. Finjo que durmo mas no silêncio o ginete respira. Não diz nada mas respira, espera e respira. Todos os dias será a mesma coisa: já ao entardecer começo a ficar melancólica e pensativa. Sei que o primeiro tambor na montanha fará a noite, sei que o terceiro já me terá envolvido na sua trovoada.
E ao quinto tambor já estarei incosciente da minha cobiça. Até que de madrugada, aos últimos tambores levíssimos, me encontrarei sem saber como junto a um regato, sem jamais saber o que fiz, ao lado da enorme e cansada cabeça de cavalo.
Cansada de quê? Que fizemos nós, os que trotam no inferno da alegria? Há dois séculos que não vou. Da última vez que desci da sela enfeitada, era tão grande a minha tristeza humana que jurei que nunca mais. O trote porém continua em mim. Converso, arrumo a casa, sorrio, mas sei que o trote está em mim. Sinto falta como quem morre. Não posso mais deixar de ir.
E sei que de noite, quando ele me chamar, irei. Quero que ainda uma vez o cavalo conduza o meu pensamento. Foi com ele que aprendi. Se é pensamento esta hora entre latidos. Os cães latem, começo a entristecer porque sei, com o olho já resplandecendo, que irei. Quando de noite ele me chama para o inferno, eu vou. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Apresento-me no escuro, muda e em fulgor. Correm atrás de nós cinqüenta e três flautas. à nossa frente uma clarineta nos alumia. E nada mais me é dado saber.
De madrugada eu nos verei exaustos junto ao regato, sem saber que crimes cometemos até chegar a madrugada. Na minha boca e nas suas patas a marca do sangue. O que imolamos? De madrugada estarei de pé ao lado do ginete mudo, com os primeiros sinos de uma Igreja escorrendo pelo regato, com o resto das flautas ainda escorrendo dos cabelos.
A noite é a minha vida, entarece, a noite feliz é a minha vida triste - rouba, rouba de mim o ginete porque de roubo em roubo até a madrugada eu já roubei, e dela fiz um pressentimento: rouba depressa o ginete enquanto é tempo, enquanto ainda não entardece, se é que ainda há tempo, pois ao roubar o ginete tive que matar o Rei, e ao assassiná-lo roubei a morte do Rei. E a alegria do assassinato me consome em prazer.
Eu estava comendo a mim mesma, que também sou matéria viva do sabath.
Clarice Lispector. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, pp. 126-129.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sei lá... a vida tem sempre razão




Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é por exemplo que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação


Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, Sei lá
A vida tem sempre razão


A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não


Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão


(Vinícius de Moraes/Toquinho)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Pierre Menard - Autor do Quixote








Não queria compor outro Quixote - o que é fácil -, mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca enfrentou uma transcrição mecânica do original; não se propunha a copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir algumas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes. ‘Meu propósito é simplesmente assombroso’, escreveu-me em 30 de setembro de 1934, de Bayonne. ‘O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo externo, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias do seu trabalho e eu resolvi perdê-las. De fato, não resta um único rascunho que ateste esse trabalho de anos. O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros e contra o turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimento (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do séc. XVII), mas o afastou por considerá-lo fácil. Na realidade, impossível! - dirá o leitor. De acordo, porém o projeto era de antemão impossível e, de todos os meios impossíveis para levá-lo a cabo, este era o menos interessante. Ser no séc. XX um romancista popular do séc. XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu-lhe menos árduo – por conseguinte menos interessante – que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote mediante as experiências de Pierre Menard.







Borges, Jorge Luis. Ficções. (Tradução Carlos Nejar). São Paulo: Ed. Globo, 2001. p. 58. Gravuras: Gustave Doré / Cândido Portinari







sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O escritor no neutro: leitura de Kafka






“Em maio de 1921, escrevi um soneto que Ludwig Winder publicou no suplemento dominical da Boêmia.
Kafka disse-me na ocasião: “O senhor descreve o poeta como um ser de estatura prodigiosa, cujos pés estão na terra, enquanto a cabeça desaparece nas nuvens. É naturalmente uma imagem bem habitual no âmbito das representações convencionais da pequena burguesia. É uma ilusão, oriunda de desejos ocultos, que nada tem com a realidade. O poeta sempre é na realidade muito menor e mais fraco que a média da sociedade. Por isso sente o peso da existência terrestre com muito mais intensidade e força que os outros homens. Para ele, pessoalmente, cantar não passa de um modo de gritar. Para o artista a arte é um sofrimento, com a qual ele se libera para um novo sofrimento. Ele não é um gigante, porém um pássaro mais ou menos multicor na gaiola da existência.
- O senhor também? – perguntei eu.
- Sou um pássaro completamente impossível – disse Franz Kafka. – Sou uma chuca – um Kavka. O carvoeiro do Teinhof tem uma. O senhor já viu?
- Sim, ela fica correndo na frente da loja dele.
- Pois é, minha parenta tem mais sorte que eu. É bem verdade que lhe cortaram as asas. No meu caso, em compensação, isso nem foi preciso, pois minhas asas se atrofiaram. Esse é o motivo por que para mim não existem alturas nem distâncias. Desamparado, vou saltitando entre os homens. Eles me observam com grande desconfiança. Pois, afinal, sou um pássaro perigoso, um gatuno, uma chuca. Mas é só aparência. Na verdade não tenho percepção alguma das coisas que brilham. Essa é a razão pela qual nem sequer tenho penas pretas e brilhantes. Tenho a cor da cinza. Uma chuca que sonha desaparecer entre as pedras. Mas é só uma brincadeira, para o senhor perceber que hoje não estou bom”.



Gustav Janouch (Conversations avec Kafka), enxerto citado por R. Barthes em dos seminário sobre “O Neutro” ministrados no Collège de France entre 1977 e 78. (O Neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977/1978. Texto estabelecido por Thomas Clerc. Tradução Ivone Castilho Benedetti. São Paulo : Martins Fontes, 2003. PP. 266-267).

domingo, 6 de janeiro de 2008

Aos catedráticos


Em meio à azáfama obscena dos saturalattes

Em meio às rasteiras dos rastaqüeras -

Inteleqüeras

O pensante vagabundo sem-currículo

Filosofopoeta, com o combustível das coxinhas do boteco

Convivendo com a ralé, os ratos, o anonimato do espetáculo

(da indústria das celebridades de cérebros luminares)

Sem catequizandos e bolsas de fomento

Sem a empáfia estúpida do engodo sofisticado

Troça, pirraceia, profana

A secular glória semestral

Do último filosocrata pós-pós-pós-doctor

Funcionário bem comportado de máquinas anônimas

Cão servidor de patrões nada morais.