sábado, 27 de março de 2010

Um epitáfio a Raísa



Na segunda-feira do dia 11 de fevereiro de 2009, atrás das pedras do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, próximo ao mar, foi encontrada, morta a pedradas e com marcas de violência sexual, uma menina de nove anos. Vestia apenas a parte de cima de uma fantasia de carnaval.


Uma diminuta nota de um jornal de grande circulação do dia 18 de fevereiro, uma quinta-feira[1], no canto universalmente ignorado pelos leitores-espectadores distraídos como somos todos, atesta o reconhecimento do cadáver. A menina desapareceu brincando nas proximidades dos Arcos da Lapa. Na última vez em que foi vista em vida, foliões afirmam o fato, pedia um enfeite carnavalesco a um estranho.


O relato sucinto vem implicitamente acompanhado dos porquês da brevidade da nota - abissal no contraste de uma página inteira dedicada à discussão sobre as modalidades de empréstimo de empresas de ensino junto ao BNDES: era filha de uma vendedora de balas, na rua. A mãe trabalhava no momento do desaparecimento. Morava com mais quatro irmãos em um prédio ocupado no centro do Rio. O pai, que não convivia com a menina, é pedreiro.


Dizia o filósofo alemão Walter Benjamin, em conhecido texto de 1936, que bastaria olharmos para qualquer jornal diário para percebermos que, da noite para o dia, não somente a imagem do mundo exterior, mas também a do mundo ético sofreu abalos que outrora julgaríamos inimagináveis. O ensaio tem como mote principal discutir, a partir da obra de Nikolai Leskov, sobre a crise da arte de narrar que vem acompanhada, na modernidade pós primeira guerra mundial, de um decréscimo cada vez mais extremo da possibilidade de intercambiar experiências (“Erfahrung”) humanas válidas. Esta constatação, que já antevia algumas das questões cruciais que só terão seus sombrios desdobramentos após o início da década de 40, soa como um prognóstico que o parque temático macabro (o parque temático é o não-lugar, prótese antropológica por excelência, onde toda a experiência autêntica é vetada em sua concomitante simulação) que tomou conta do mundo contemporâneo reafirma e constantemente ultrapassa em sua vileza. Ultrapassamento do trágico: para as catástrofes humanas que vivenciamos de forma cotidiana - diretamente ou narcoticamente mediatizadas pela informação espetacular - talvez não sejam mais adequadas as categorias de catarse e, conseqüentemente, de luto. Restaria, portanto, apenas esta irreconciliação permanente com os fatos, uma vertigem somatizada em náuseas e em uma profunda apatia.


Os fatos do dia 11 de fevereiro, nesse sentido, gritam por si. Não necessitam de tratados criminológicos e de patologia social – é sabido que a psicopatia perversa grassa como erva daninha nas esquinas do mundo. Tampouco da ladainha obtusa do discurso da “lei e da ordem” como resposta para “as doenças” da sociedade. Nem do sensacionalismo da indústria policial-midiática da miséria cada vez mais lucrativa. Não, nada disso. Fiquemos apenas com os fatos.


Uma criança morreu da maneira mais traumática possível. Os elementos do enredo macabro só reafirmam o caráter de Shoah - dano irreparável, termo quase intraduzível do hebraico, próximo a um mal radical, para lembrar Kant - que permeia este crime.


Em termos tão-somente normativos e hipotéticos (pura deontologia rechaçada pela vida tal qual é) não precisaríamos nem citar Adorno, que dizia não serem mais possíveis poemas após Auschwitz: os carnavais – estas festas midiáticas disciplinadas de culto pentecostal ao nada (longe, muito longe de ser uma festa pagã!) – simplesmente não deveriam mais ser eticamente tolerados após este fato. Jornais-empresas talvez devessem, por si sós, não por censura ou decretos executivos, mas por náusea, estupor e última trincheira de lucidez ainda existente em seus administradores e operadores, serem desativados, pois claro está sua instrumentalização a meros artefatos de classe, mantenedores de um estado fictício de exceção onde o burburinho, a bisbilhotagem e o oportunismo curvam-se ao pés sagrados da mercadoria. Até a arte é indiretamente maculada com este crime. Uma silenciosa cumplicidade: nas costas de um Picasso ou de Van Gogh, transformados que foram em fetiches e moedas de troca preciosíssimas no mercado enquanto tal - belo tornado esquizofrenia diante da vida cotidiana dilacerada - uma criança, vulnerável em todos os sentidos do termo (principalmente economicamente, sentido que hoje comanda e acarreta todos os demais) foi brutalmente morta sem que deste ato repercuta qualquer conseqüência, nem mesmo uma comoção pública - por mais cinicamente fascista que ela seja.


Jogada na vala comum das estatísticas oficiais, sem direito a obituário. Silenciada em vida assim como na morte.


Um digressão pessoal final.


Para meu próprio pasmo e ira, contudo, em termos mundanos atuais tudo isso representaria ainda uma posição sentimental. As Raísas – seu nome era Raísa de Souza da Silva, e espero que com este texto pelo menos o seu nome fique marcado em minha memória também relapsa - são milhares. Da África ao Oriente Médio, da Europa Central e do Leste ao Extremo Oriente, passando pelas Américas e pelo Haiti - o centro nevrálgico e local de exposição da verdade deste planeta sonambúlico - incontáveis são os infanti sacri (uma versão infante e “pós-moderna” dos “homini sacri”[2] da antiga Roma). Mortos por bombas, fuzis, por traficantes de órgãos, sepultados em vida em porões, degolados, aniquilados por catástrofes evitáveis.


E o mais intrigante é que o espetáculo (que se tornou não apenas uma regra, mas a realidade genericamente aceita!), rompendo facilmente com o sollen ético, continua em ritmo carnavalesco e turbinado. O grande culto pentecostal a céu aberto que tomou conta de todo o mundo dá mostras de não poder ser interrompido.


Festejemos e observemos em nossos “reservados VIPS” este festival macabro. Narcotizemo-nos! Mesmo que os pedido de silêncio e basta sejam dos mais triste e intolerável luto. Mesmo que estejam além dos confins do próprio trágico. Grafado está o projeto civilizatório do capitalismo espetacular contemporâneo, sua tanatopolítica.


Um pensador brasileiro certa vez lançou um imperativo melancólico e quixotesco que talvez apenas hoje possa ser explorado em todas sua potencialidades: há apenas duas opções, a indignação ou a resignação. Dizia ele não querer se resignar nunca. Talvez esta seja a última batalha, quiçá já perdida de antemão, que se apresenta para aqueles que ainda ousam estar em vigília em um mundo onde tudo se tornou possível, mesmo o imponderável.








[1] Folha de São Paulo de quinta-feira, 18 de fevereiro de 2009. Caderno Cotidiano, p. C12.


[2] “Festo, no verbete sacer mons do seu tratado Sobre o significado das palavras, conservou-nos a memória de uma figura do direito romano arcaico na qual o caráter da sacralidade liga-se pela primeira vez a uma vida humana como tal. Logo após ter definido o monte sacro, que a plebe, no momento de sua secessão, havia consagrado a Júpiter, ele acrescenta: At homo sacer is est, quem populus iudicavit ob maleficium; neque fas este eum immolari, sed qui occidit, parricid non damnatur; nam lege tribunicia prima cavetur ‘si quis eum, qui eo plebei scito sacer sit, occiderit, parricida ne sit.’ Ex quo quivis homo malus atque improbus sacer appelari solet.” (“Homem sacro é, portanto, aquele que o povo julgou por um delito; e não é lícito sacrificá-lo, mas quem o mata não será condenado por homicídio; na verdade, na primeira lei tribunícia se adverte que ‘se alguém matar aquele que por plebiscito é sacro, não será considerado homicida’.”). AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. (Tradução de Henrique Burigo). Belo Horizonte, ed. UFMG, 2002. p.77.

Imagem. G. Giuggioli. Labirinto con cipressi. www.giuggioli.it

quarta-feira, 17 de março de 2010

Desertar


A pena do degredo sempre foi uma das mais severas na história do direito penal. Desterrado é aquele que, como sanção a seus atos, foi excluído da comunidade dos homens, tendo que conviver com as bestas no puro mundo da physis, além das muralhas protegidas da cidade. O equivalente espontâneo do desterro é a deserção. Desertar é ousar por conta própria enfrentar a solidão dos desertos. O gesto de insana lucidez do Timão de Atenas shakespeariano. Deserção de um rebanho, de uma facção, de uma versão compartilhada, de uma forma de vida genericamente aceita. A má-fé e a casca de virtudes da burguesia mantém uma completa ojeriza à deserção. A deserção é o mais perfeito desceuvrement. Ah quem tivesse a força para desertar deveras! Já dizia um inspirado Álvaro de Campos. O mundo dos dispositivos disseminados e hipertrofiados - que fazem com a que vida humana seja tão-somente sobrevida mantida por intermédio de aparelhos e antidepressivos - impõe-nos duas alternativas básicas e inconciliáveis: ser um canalha ou ser um desertor. Esta, a opção dos raros.



(Escrito em um momento de leninismo ou stalinismo de uma negatividade jogada contra si mesma, seja lá o que isso queira significar.)

Imagem: Abbas. México. Magnum photos. Província de Guerreiro, Vila de Santo Agostinho. 1985.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Bateu um vento na roseira...


O peso de uma caneca cheia de café com leite era equivalente ao peso de minha vida naquele instante. Figuras das mais diversas manhãs invernais: encasacados, perambulando por algumas ruas de mais uma das cidades planejadas pelos ingleses que cá estiveram. Tempos – muito depois dos ingleses – em que galhos no portão sinalizavam a presença daquele café com leite, de umas bolachinhas e de umas boas horas de conversa e risadas à toa, assim, pelo simples fato de rir. Galhos que às vezes traziam também algumas preocupações, aquelas contumazes, mas que sempre vinham de maneira diferente. Um caminhar lento e despretensioso, com muito sentido, não uma direção, mas as mesmas direções com muito sentido. E um café com leite na canequinha de louça, aquela, a do dia a dia, a de sempre. O gosto era mais especial, aliás, tão bom quanto esse era só a sensação de água fresca do filtro de barro na caneca de alumínio. Nesse filtro uma toalhinha com bordados de crochê tampava a marca “São João”. E o crochê estava por tudo: pelo chão da casinha nº2, em tapetes que a enfeitavam; nas camas, as colchas; nas janelas, as cortinas. Recentemente o crochê se tornara mais difícil, talvez pelos nozinhos dos dedos, bem mais grossos do que as falanges, que, acho, às vezes deviam doer (aquela silenciosa dor). Agora eram os aventais com passarinhos: proteção para os peitos e para os peitos que naqueles peitos mamaram. Na sala, os papeis desordenados, uma bagunça de contas de água, luz e telefone anotadas com uma caligrafia torta e desenhada. Números que às vezes pareciam pontas de narizes de rostos por desenhar, ou, talvez, a ponta de uma orelha? Não sei, não sei... eram porventura também fruto daqueles nozinhos dos dedos, que possivelmente dificultavam a escrita daquelas mãos com tão pouca habilidade nessas histórias de papel e caneta. Mas pra que tantos números e tanta correição se a vida estava lá fora, nas cadeiras de varanda, nos rostos felizes e sorridentes do pessoal que ali todos os dias se reunia, assim, para rir à toa? Vida reunida num só ventre, de um só ventre. Aquela vida, porém, que, como a minha, agora pesava justamente uma caneca de café com leite, nada exigia. Os dias, as tardes, passavam tão de pressa que aquele frequente “é cedo Tuta” soava sempre frágil e esperançoso, como que a desejar a tarde seguinte, e a seguinte, e a seguinte... Desejo estampado nos olhos e no sorriso maroto, pronto para suportar o cheiro e a força da solução do sal amoníaco em água, mistura imprescindível pro gosto daquelas tardes. Desejo de um ser qualquer, qual-quer... Quodlibet ens est unum, verum, bonum. E talvez os transcendentais a ela se aplicassem em demasia... E neste instante o café com leite na caneca de louça se equivale ao meu ser e se rarefaz na minha historicidade, esta, das tardes de sol com cadeiras de varanda com risos incandescentes, dos assombros sempre previsíveis diante de pequenos incidentes, dos passos lentos e compassados pelas calçadas das ruas planejadas, dos galhos enfiados em meio às grades dos portões e das rosas que me cobriam nas noites que dormia fora e me esquecia do cobertor...
quase 27 de fevereiro de 2010... Vini

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Poeta Prometeico

Gleichnis von den Blinden, Pieter Brueghel, 1568.

“La Poesia era la palabra... Mas cuando los mercaderes y los fariseos del templo la enturbiaron y la corrompieran utilizándola para encomiar sus mercancías y acatar las ordenes injustas del Sumo Sacerdote... Cristo habló en parábolas... La parábola... aún no está corrompida.” León Felipe. El Poeta Prometeico.

O poeta prometeico fala, poetiza por parábolas. A parábola escapa ao jogo mercadológico, oikonomico, das trocas nefastas no qual a palavra se colocou; mas a parábola é o que se parece, a ressemblance, com o que é falado; é semelhança que afasta e dá ao parecido a sua forma singular, sua forma em imagem. Como um personagem imaginário, o poeta prometeico tem o semblante voltado para sua efemeridade e faz pantomima da verdade cósmica universal; não traça o logos, a Palavra, mas fala por Gleichnis, por semelhança, a partir da qual abre os olhos para ver a morte própria – sabe que seu cadáver (Leiche) já está consigo – e a morte espelhada nas coisas, nas paredes do mundo. O seu rosto carrega o peso da perda de si diante da semelhança que seu eu encara, isto é, na sua transitoriedade, de modo a poder ver a morte que se reflete nas coisas e a sentir o peso do tempo que está nessa distância dele consigo mesmo. O poeta prometeico inicia a história rompendo o círculo do eu que se identifica com o seu eu reflexo. Não crê na identidade e verdade de uma palavra que diz justamente a verdade unívoca das coisas; sabe que é dividido em si mesmo, que está numa contenda política consigo mesmo, pois, uma vez que ingressou na linguagem, sabe que o seu gesto poético não pode ser neutro e que só lhe resta um princípio de divisão infinita do qual não há saída (ele só é ressemblance, imagem, de si) apenas uma fuga, um constante movimento.
O poeta prometeico diz parábolas, pois sabe, de antemão, que seu corpo já padeceu sob os auspícios de algozes; sabe que para reconhecer seus pares, não é preciso aceitar a apresentação das vísceras como única forma de pertencimento à conjunção de coisas públicas (sua contenda é política desde o seu interno: sua própria divisão – o afastamento da mão da parede e seu consequente vestígio que nos chega ainda do tempo das cavernas). Da tortura e da estripação sacrificial ele tenta passar longe; essa é a tentativa de fazer com que os portadores dos rostos invisíveis não necessitem mais passar à exposição do interno: o externo e o interno não mais se contradizem e não precisam mais da expiação para terem seus lugares. Um se dobra no outro, sem ângulos e sem vértice, diria Murilo Mendes na sua Parábola, sem a esperança de uma retidão normativo-moralista, mas de maneira oblíqua e perifrástica, na tentativa de escapar de uma oikonomia dos corpos cujo único escopo é aguardar a vida do outro corpo, o glorioso e que, enquanto aguarda, só consegue manter-se com o eterno sacrifício diário do corpo – Hoc est enim corpus meum – num rito massacrante (o Reino) e aos olhos de todos (a Glória).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Las fiestas y el consumismo


Hace ya tres años que hago lo posible por no estar en Italia durante las Navidades. Lo hago adrede, con saña, desesperado ante la idea de no conseguirlo; aceptando incluso una sobrecarga de trabajo, aceptando la renuncia de cualquier modalidad de vacación, de interrupción, de desacanso.
No tengo fuerzas para explicar exhaustivamente el porqué al lector de Tempo. Esto entrañaría la concesión de la violencia de lo novedoso a viejos sentimientos. Es decir, una prueba "estilística" sólo superable mediante la inspiración poética. Que no viene cuando se quiere. Es un tipo de realidad que pertenece al viejo mundo, al mundo de la Navidad religiosa: y responde todavía a su vieja definición.
Sé perfectamente que incluso cuando yo era niño las fiestas navideñas eran una idiotez: un desafío de la Producción a Dios. Sin embargo, por entonces yo estaba todavía sumido en el mundo "campesino", en una misteriosa provincia situada entre los Alpes y el mar o en cualquier pequeña ciudad provinciana (como Cremona y Scandiano). Había hilo directo con Jerusalén. El captalismo no había "cubierto" aún totalmente el mundo campesino del que extraía su moralismo y en el que, por lo demás, seguía basando sus chantajes: Dios, Patria, Familia. Estos chantajes eran posibles porque correspondían, negativamente, en tanto que cinismo, a una realidad: la realidad del mundo religioso que había sobrevivido.
En la actualidad, el nuevo capitalismo no tiene ninguna necesidad de este tipo de chantaje, como no sea en sus márgenes o en los islotes supervivientes o en las costumbres (que se van perdiendo). Para el nuevo capitalismo es indiferente que se crea en Dios, en la Patria o en la Familia. De hecho ha creado su propio mito autónomo: el Bienestar. Y su tipo humano no es el hombre religioso o el hombre de bien, sino el consumidor que se siente feliz de serlo.
Cuando yo era niño, pues, la relación entre Capital y Religión (en los días navideños) era espantosa, pero real. Hoy en dia, dicha relación ya no tiene razón de ser. Es un absurdo absoluto. Y es posible que sea este absurdo lo que me angustie y me obligue a huir. (A países mahometanos.) La Iglesia (cuando yo era niño, bajo el fascismo) estaba sometida al Capital: éste la utilizaba, y ella se había convertido en instrumento del poder. Había regalado a las grandes industrias un niño entre un asno y un buey. ¿Además, no desfilaba bajo las banderas de Mussolini, de Hitler, de Franco, de Salazar? Hoy en día, sin embargo, la Iglesia me parece, en cierto sentido, más sometida que antes al Capital. Antes, en realidad, la Iglesia se salvaba por ese poco de autenticidad que había en el mundo preindustrial y campesino (en ese poco de artesanía que permanecía en las viejas industrias): ahora, en cambio, no hay contrapartida. Ni siquiera puede decir que a su vez utilice al Capital: porque, de hecho, el Capital utiliza a la Iglesia únicamente por costumbre, para evitar guerras religiosas, por comodidad. La Iglesia ya no le sirve. Si ésta no existiese, aquél no la echaría de menos. Sin embargo, en casos por el estilo, la utilización debe ser recíproca para que sea útil a ambas partes. En este punto la Iglesia debería distinguir, por ello mismo, las fiestas propias (si, aunque sea anticuadamente, aún las tiene) de las del Consumo. Debería diferenciar, por decirlo pronto y bien, las hostias de los turrones. Este embrassons-nous entre Religión y Producción es terrible. Y, de hecho, lo que de aquí se deriva es intolerable a la vista y a los demás sentidos.
A decir verdad, es innegable, la Navidad es una antigua fiesta pagana (el nacimiento del sol) y como tal era originariamente alegre: es posible que esta alegría ancestral aún tenga necesidad de manifestarse, periódicamente, en un hombre que va a roturar el Sájara con monstruos mecánicos. Pero en ese caso que la fiesta pagana se vuelva pagana: que la sustitución de la naturaleza natural por la naturaleza industrial sea completa, incluso en las fiestas. Y que la Iglesia se distancie de aquélla. Ya no puede jugar a la rusticidad y la ignorancia: no puede fingir que no sabe que la fiesta navideña no es ni más ni menos que una antigua fiesta celebrada in pagis ["en el campo"], pagana, y que la mezcolanza es arcaica y medieval. La tradición de los belenes y los árboles navideños ha de abolirla una Iglesia que de verdad quiera sobrevivir en el mundo moderno. Y esto no lo saben sólo los curas excéntricos, progresistas y cultos.
Como fiesta pagano-neocapitalista, Navidad siempre será terrible. Es un ersatz ["sustituto"] - con week-end y solemnidades afines - de la guerra. En tales días brota una psicosis indefectiblemente bélica. La agresividad individual se multiplica. Aumenta vertivinosamente el número de muertos. Es una verdadera barbarie. Se dice: muchos Vietnam. Pero los muchos vietnam ya están aquí. Ni más ni menos que en estas celebraciones festivas en que la fiesta es la interrupción del acostumbramiento al lucro, a la alienación, al código, a la falsa idea de sí: cosas todas que nacen del famoso trabajo que ha quedado reducido a lo que ensalzaban los carteles de los campos de concentración hitlerianos. De esta interrupción nace una liberdad falsa en que estalla un primitivo instinto de afirmación. Y se afirma agresivamente, gracias a una feroz competencia, haciendo las cosas más mediocres de la manera más mediocre.
Sí, es espantoso el comentario que acabo de hacer de la Navidad. Y sin ninguna excepción que hacer. Ninguna bondad. Ninguna blandura. Las cosas son así. Es inútil ocultarlo, auque sea un poco.


Nº1, año XXXI, 4 de enero de 1969.


Pier Paolo Pasolini, Las Fiestas y el Consumismo. in.: El Caos. pp. 119-121.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Vão



O poema é alheio ao insano dançar das náuseas que sinto nesta tarde sem sol

aos ruídos do mundo, seus desencontros fatais, súplicas e prazeres antes do alvorecer

é amargo em sua esterilidade lingüística, insosso como pedra bruta, deprimente como o álcool que exala de meus poros

O poema não é catarse, refúgio, jogo ocioso

Alheio ao desespero, ao sono, ao grito

É o soco metafísico que desfiro no vazio dos olhos da vida.



Imagem: Herbert List