sábado, 11 de dezembro de 2010

Sentidos

Rabiscos plásticos de um corpo sem alma
que brinca com o amarelado das folhas de um caderno vermelho.
Cores e sonhos, sons e passeios mentais.
A volta do peão, a vida num susto, o vermelho dos olhos.

Paredes brancas, coloridas, assustadas
lampejos espasmódicos que estremecem e assustam.
Natureza morta, risos atemporais, um cristo nu
rasgado na página rabiscada do caderno vermelho.

Corro, cheiro, rio e choro tua ausência
Projéteis fictícios rasgam meu corpo fraco e forte.
Lances de dados mesmo que em circunstâncias eternas
sussurrando ao meu ouvido a palavra faltante.

E a conversa infinita que insiste em finir
As flores débeis nos jardins desgastados da memória.
Uma fragrância quase inusitada de outrora
que se desfaz e se refaz, na velocidade do peão.


...ouço um violino triste que te deseja
nas alturas das nuvens cambiantes.
Corais das vozes e dos mares, reluzentes e sonoros
nas paredes e páginas de um caderno vermelho.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ao mais recente morador dos Jardins, in memorian

pícaro tucura da província ainda fora do google earth
mateiro nas quebradas do parque temático urbanóide de vida
despacho e tocaia tiros de jazz na encruzilhada

macunaíma desarmado desamado enjaulado castrado esterilizado
com a assepsia dos contentes, dos leitores de jornal, dos especuladores
fornicadores aos domingos

literatura marginal de banca de jornal
foco permanente de guerrilha contra contra o tédio, a insônia, a depressão
a disfunção erétil, táctil, ontológica
combates mercenários sem mortos nem vivos

milhagens de horas-extraídas e assédios imorais
para a inextorquível e perpétua aquisição final:
a sepultura de mármore, placa de bronze, número e quadra privativos
no chiquetocharmoso cemitério da Consolação.

Sunday

restos de vinho nas taças
restos da chuva nas ruas
resto de festas, de orgias e marasmos
a cidade ressona, amanhã
"formigas que trafegam sem porquê"

salva-me um som de trompete de Marsalis ao fundo
uma náusea e uma pequena obstinação.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Duas poesias numa leitura




Metamorfoses... à "Beira-mar"...

"Eu consultei o mito,
Interroguei o céu que marcha:

Debato-me na gaiola do mundo
Até que me envolva o futuro.

Luzes ambíguas dançam,
Homens deslocam o busto
E a Esfinge prepara lentamente
O avesso da sua resposta.

Onda que vais, onda que vens,
Dá-me notícias de mim mesmo."

...e ou mergulhado nele...

"Esta noite eu te encontro nas solidões de coral
Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam às águas do paraíso."

M.M. nas "Metamorfoses" em leitura numa notte grigia-chiara...

Nota sobre a revolução


"(...) deve-se considerar que não há coisa mais difícil de lidar, nem mais duvidosa de conseguir, nem mais perigosa de manejar que conduzir o estabelecimento de uma nova ordem. Porque aquele que a introduz tem por inimigo todos os que se beneficiavam da antiga ordem e, por amigo, os fracos defensores que dela se beneficiariam; fraqueza que em parte deriva do medo dos adversários, que tinham as leis ao seu lado, e em parte da incredulidade dos homens, que na verdade não creem nas coisas novas, a menos que se assentem numa experiência sólida."



Nicolau Maquiavel. O príncipe. Trad. Luiz A. Araújo. São Paulo: Companhia das Letras-Penguin, 2010. p, 63-64.

Imagem: Alberto Korda. In: Cuba por Korda. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 66.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Despedida de Cefalù


Atrapalhadamente, lidando com as coisas da casa, eis que cai ao chão, sob o dito salamantino "Salamantini Sigillvm.Vnive-Rsitatis Stvdii", o livro aberto de Murilo... algo mais triste para hoje não poderia surgir: Despedida de Cefalù... espero muito que não seja um adeus, mas um até logo...
"Em pedra e horizonte ficas.
É triste deixar tua força
No duro penhasco plantada,
Que o sol vertical aumenta.
Respiras nesta grandeza
Que nos vem da água, da luz
E da terra percutida,
Do peixe. Contigo vamos
Na roda cósmica, e o vento.
Não te adornas para o culto:
Cefalù solene e pobre
Em duro penhasco plantada,
Teur rito é de antiga origem:
Vem da alma rude e sem véu.
Assim te amam os pescadores,
Com esta força e gravidade
Extraídas da tua rocha
Que o sol vertical aumenta."

Paisagem interior


Sol que vem, sol que derrete a neve,
sol que iluminou civilizações, que deixou-se ver como deus,
que guiou caravelas em mares sombrios.
Sol que nasce e que se põe,
que ilumina a lua para confortar a noite dos mortais.
Por que tu não me esquentas?