terça-feira, 11 de junho de 2013

Ateologia política



Entrevista com Roberto Esposito

Professor Esposito, a ideia da fé como instrumentum regni é funcional apenas para uma ideologia conservadora ou esconde algo mais profundo?

A ideia de que sem valores religiosos dominantes não se mantém junta uma sociedade não é algo dos “ateus devotos”, como Giuliano Ferrara. Também pensadores refinados como Massimo Cacciari ou Mario Tronti creem que a referência às raízes teológicas seja decisiva. Eis a demonstração, se isso fosse necessário, do quão persistente e penetrante é esse modo de pensar.



Outros, entretanto, sustentam que vivemos na era da secularização, do relativismo, da moral do “faça por si”.

De fato, mas isso não significa que estejamos “liberados”. Categorias como “secularização”, “desencanto” e “ateísmo” são conceitos teológicos negativos ou invertidos. Existem apenas no interior do horizonte que, ao contrário, gostar-se-ia de ultrapassar.



Podemos dar um exemplo de alguns conceitos “teológicos” operantes na atualidade política dos nossos dias?

Posso dar muitos: pensemos no recente debate sobre o presidencialismo. Foi sustentada a ideia de que somos uma sociedade que não pode desprezar a figura do pai. Ora, a ação do presidente Napolitano foi um bem para todos, encontrou uma solução, desemperrou uma situação que tinha chegado à paralisia. No plano simbólico, entretanto, há algo que não está bem. Pois a democracia não deve ser um regime de “filhos”, mas, antes, de “irmãos”. Não é verdade que temos necessidade de uma instância superior, transcendente.



Mas em que consiste o mecanismo opressivo que o senhor atribui à teologia política?

É uma tradição de pensamento que corta em duas nossa vida. Que tende a realizar a unidade por meio da marginalização de uma das partes e que exclui enquanto pretende incluir. A igualdade, historicamente, sempre foi “cortada”: entre brancos e negros, homens e mulheres. E assim também o Ocidente que subjuga o resto do mundo, a globalização que empobrece grande parte da humanidade. 



Para o senhor, é chegado o momento de sair desse “dispositivo” que nos capturou e impede uma autêntica liberdade de pensamento. Mas como isso é possível?

Por certo que não é uma tarefa fácil. Ao contrário, é dificilíssima. Creio que o manto que nos mantém presos, e que temos que tentar romper, esteja fundado sobre o conceito de pessoa. De maneira mais precisa, sobre a ideia de que o pensamento pertença ao ser individual [singolo], ao indivíduo. Isso, é claro, depois de Descartes. Por outro lado, é preciso voltar a uma tradição que de Aristóteles chega a Bergson e Deleuze, passando por Averróis, Dante e Spinoza. É uma cadeia que remonta à antiguidade, na qual o pensamento é visto como um lugar que todos podemos atravessar, um patrimônio que todos podemos atingir. O primeiro e mais importante, seria possível dizer, dos bens comuns.



Chegamos à “teologia econômica” em que a parte central de seu pensamento se desenvolve em torno da ideia de dívida (débito).

Por ora, pensemos na ironia de definir as dívidas (débitos) dos estados com a expressão “dívida (débito) soberana” (e soberania é um conceito eminentemente teológico). Hoje, é claro, a soberania não pertence mais aos estados individuais, mas às finanças.



O que há de teológico no conceito de débito?

Walter Benjamin definia o capitalismo como “o único culto que não purifica, mas culpabiliza”. A origem teológica desse conceito é claríssima. Se pensamos que na língua alemã uma mesma palavra significa tanto dívida (débito) quanto culpa, entendemos muitas coisas. Compreendemos por que os alemães pensar viver como virtuosos e consideram, por exemplo, os gregos não apenas endividados, mas também culpados. Mas hoje, por meio da dívida (débito) pública, estamos todos endividados.



Somos todos prisioneiros da dívida (débito)?

Nietzsche dizia que a dívida (débito) nos tornou escravos uns dos outros. E não apenas em sentido simbólico. O círculo biopolítico que liga o corpo do devedor ao credor tem origens distantes. A instituição romana do nexum consignava o destino da pessoa endividada ao seu credor, que dele podia dispor livremente, para a vida ou para a morte. O mercador de Veneza, de Shakespeare, pretende ser pago com uma libra de carne de quem não o pode fazer com dinheiro. Mas também hoje a dívida (débito) se paga com a vida. Pensemos nos imigrantes que devem pagar para sempre com o seu trabalho quem lhes emprestou o dinheiro para sair de seus países. Pensemos nos suicídios por dívidas.



Se chegamos a tal ponto, não é apenas por fruto da “máquina” teológica, existem também responsabilidades mais recentes.

Sem dúvida todo esse processo foi facilitado pela governança liberal, principalmente a partir dos anos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que não nos liberou. Ao contrário, transformou o welfare em um peso insustentável, teorizando o Lightfare, o estado leve. É a ideologia do “cada um por si” que levou à crise e deixou 99% da população mais pobre.



O senhor sustenta que para nos liberar como indivíduos é preciso agir coletivamente.

Creio que sim. O mecanismo de desenvolvimento mudou, devemos voltar a pensar nos investimentos sociais úteis, não nos ganhos pessoais. Para isso, ajuda-nos o conceito de communitas, que significa ter em comum um munus, palavra que na origem significava ao mesmo tempo dívida (débito) e dom. Nas sociedades arcaicas a dívida (débito) era vivida como uma ligação social. Ser comunidade não significa procurar oprimir um ao outro, mas sentir-se vinculados por um dom de fraternidade.    

Entrevista de Roberto Esposito a Leopoldo Fabiani, publicada no jornal La Repubblica no dia 27 de maio de 2013. (Disponível em: http://www.iniziativalaica.it/?p=15821) Tradução: Vinícius N. Honesko

Imagem: William Blake. Cristo como redentor do homem. 1808. Museum of fine arts, Boston.
         

   

sábado, 8 de junho de 2013

Destinatárias impossíveis


Para minha destinatária impossível.
Querida, há anos que lhe escrevo e só agora, bêbado, me dou conta de que cometia um crasso erro. Não há uma impossível destinatária - você, como impossível -, mas impossíveis destinatárias. Só agora percebo o quanto de você estava solto por todos os vocês que insistimos (?!) em falar. A impossibilidade é absoluta (palavra doentia), e, com isso, todo destino torna-se plural, assim como você. Os mapas que tracei e que traço, talvez em derradeira tentativa, são como a estranha fruta que Nina Simone sopra em meus ouvidos: impossíveis e destituídos de limites. Mas o que é um mapa sem o non plus ultra, sem a determinação do não ir além, do parar antes do tocar, do ser lido antes da peregrinação? Querida, sinto que você não é senão uma das vozes em meio à multidão barulhenta que habita minhas horas de silêncio. A impossibilidade nos une no momento exato em que todo nó é cortado, em que toda imagem parece acompanhar a fumaça do meu último cigarro. São apenas vozes, querida, vozes cujos traços mnemônicos - essa maldição à qual os homens se confiaram, as letras - marcam este espaço em branco, estas lembranças de coisa nenhuma que são nossas cartas. Desenho agora um esboço do modo como vocês - é, já me é impossível dizê-la; só me resta dizer-lhes - se mostram no plus ultra que vislumbro apenas de relance. E é difícil não tentar apagar este mapa, não tentar borrá-lo para lançar-me na indeterminação, no espaço jamais cartografado dos nossos encontros. Talvez jamais nos vejamos, talvez apenas construamos uma engenhoca de palavras que nos lance à beira-mar, onde Murilo Mendes espera notícias de si mesmo. Mas, mesmo assim, insistiria em tocar suas bordas, seus cantos imprevisíveis, suas vozes que jamais ouvirei, seus sorrisos impossíveis e, por isso, tão sublimes. Mesmo com nossas impossibilidades (algo como o inconstante monólogo que produzo com suas vozes), talvez jamais deixe de cartografar, querida; talvez nunca pare de tentar escutar ao menos os ecos de sua voz, a única coisa que porventura se faz possível nesse emaranhado de mapas. Eco, ecco... o italiano, esse além-mar de nossos incomunicáveis, parece querer me trapacear: eis aqui e distância; imediatez e retorno; não há mais sentidos imediatos que possam significar essas minhas missivas, querida. E, assim, mapeando meus sonhos, me despeço com um adeus impossível de remeter a qualquer deus, mas que insiste nas suas (e que fique a ambiguidade) ausências e impossibilidades. 

Do seu remetente impossível.    

p.s.: não perco o costume de lhe enviar imagens aleatórias que, como essas cartas, são apenas águas de um rio para nenhum lugar... ademais, são as cadeiras vazias de uma conversa impossível...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Segunda tentativa de escrever o que escreveria se escrevesse


Estávamos destinados a algum outro planeta distante, ao outro extremo da galáxia. Eu me pergunto como estarão se arranjando aqueles que estavam destinados a viver aqui, como estarão se arranjando aqueles que estavam destinados a viver aqui, como estarão as coisas para eles nesse outro planeta. Será que nosso terror vem desse pequeno equívoco de tão grande importância? "Pode ser que sejamos um acidente biológico, o vírus mais bem-sucedido e potente que se tenha criado", diz John Banville, que pensa que nós, seres humanos, tivemos que aceitar forçosamente que o que somos é autêntico. Mais que isso, inventamos a palavra normal. E até nos atrevemos a chamar de estranhos alguns de nossos semelhantes. Para encerrar, os normais às vezes chamaram a mim de estranho.
Fico agora pensando nesse pobre marciano que um dia ficará empacado aqui, isto é, aterrado. Terá resolvido tudo acerca da humanidade e, num primeiro momento, pensará que o mundo pertence aos automóveis, mas não tardará a ver que os parasitas a bordo dos carros são os que, na realidade, controlam as rédeas. Quando achar que resolveu o problema, descobrirá de repente que espirramos, bocejamos, lançamos uivos silenciosos no meio da noite. Por acaso isso é normal? O marciano conhecerá o terror em que vivemos quando observar que a metade da população mundial raspa o rosto a cada manhã com uma navalha e a outra metade não.
Já desde o momento exato do nascimento, conhecemos o medo e preferimos, dadas as circunstâncias, servir a exercer esse Poder que, como demonstra a famosa História, nunca é de ninguém. Entrar na vida normal é entrar na suspeita de que aqueles que realmente estavam destinados a viver aqui se extinguiram há anos, pois não é possível imaginar que tenham podido sobreviver num planeta feito para nos conter. Não somos daqui. E só a literatura parece se ocupar com seriedade de nosso espanto. Quando Poe escreveu aquele conto de um homem a quem enterram vivo, contou nossa verdadeira história. Daí o terror que ainda perdura naqueles que leram esse conto que dizia a verdade, um medo que se converte num terror duplo se chegamos a Kafka, o morto em vida. Os homens normais olharam Kafka sempre com estranheza, na realidade com a mesma estranheza com a qual ele os olhava, consciente de que não tinha um lugar neste mundo: "Duas tarefas do início da vida: reduzir cada vez mais teu âmbito e averiguar mais de uma vez se não te encontras escondido em algum lugar fora dele", escreveu Kafka num texto de juventude, um Kafka que sempre quis nos transmitir que aquilo que nos parece uma alucinação inimaginável é precisamente a realidade de cada um. Se pensarmos bem - nos diz Philip Roth -, veremos que em todos os seus romances Kafka traça a seguinte crônica: alguém é educado para aceitar que tudo aquilo que lhe parece absolutamente injusto e fora de lugar (além de ridículo e muito abaixo de sua dignidade) é de fato o que realmente está lhe acontecendo. Dito de outro modo, isso que está tão abaixo de nossa dignidade acaba por ser nosso destino.

Enrique Vila-Matas. Doutor Passavento. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Trad.: José Geraldo Couto. pp. 332-333.

Imagem: Elliott Erwitt. Pasadena, California, 1963. 

Guevarismo


“Característica fundamental de uma guerrilha é a mobilidade, o que lhe permite estar, em poucos minutos, longe do teatro específico da ação e em poucas horas longa da região onde ela se dá, se necessário; que lhe permite mudar permanentemente de frente e evitar todo tipo de cerco”. Abrir flancos, criar condições, a guerrilha move-se constantemente, é fracionada em pequenos grupos, adapta-se ao campo de combate e às circunstâncias, seus acampamentos são provisórios, nada de pesado que impeça o deslocamento rápido, imperceptível, sob a selva. Uma guerrilha não exige a mobilização de uma grande tropa, sempre um alvo fácil e previsível, é de suas fragilidades e inconstâncias que uma guerrilha extrai sua maior força. Movediça comunidade guerrilheira de camaradas. Teoria do foco e teoria da deriva. Ser guevarista é saber-se de antemão perdido, mas não se resignar a isso. É ser um quixote na arte do possível, mesmo que este possível tenha de ser instaurado nas condições mais adversas, contra os possíveis claustrofóbicos de Otto Von Bismarck. Não há condições objetivas independentes de sujeitos que agem no mundo, “não há um só instante que não carregue consigo a sua chance revolucionária”.  Ser guevarista é pensar e agir com coragem e atenção, uma contínua mobilidade aliada a uma intransigência, nada aceitável na maleabilidade preguiçosa do presente, em torno daquilo do que não se pode compactuar. Piglia: “É aquele que queima sua vida na chama da experiência e transforma a política e a guerra em centro dessa construção. E aquilo que ele apresenta como exemplo, o que transmite como exemplo, é sua própria vida. (...) Uma figura extrema do intelectual como representante puro da construção do sentido (ou, em todo caso, de certa maneira de construir o sentido).” O guevarismo como o mais autêntico bovarismo político: um apátrida Che revivendo e politizando “O coração nas trevas”, de Joseph Conrad, no Congo da metade anos 60. 


Imagem: Che Gevara no Congo, 1965. 

sábado, 1 de junho de 2013

De fantasmas e espelhos


A especulação - teológica, metafísica -, esse fazer-se dois per speculum, está arraigada na pretensão ingênua de um sentido absoluto, o "um sentido", como modo de nos com-preender. Vagamos como corpos cindidos, destituídos de qualquer integração e, desde quando tal cisão se deu - talvez, no fundo de uma caverna, segurando uma tocha e fugindo do frio, ao soprar pigmentos sobre a mão espalmada no granito daquele interior sombrio e, com isso, ver o distanciamento de si, uma imagem, uma specie de si -, insistimos na tentativa incansável de união, de comunhão, de comunidade. Sob as sombras desse passado presente, elevamos monumentos de sentido, tentamos fazer do per speculum a razão suficiente de um mundo do qual somos os senhores e únicos habitantes. Tentamos arrancar a máscara da impossibilidade de solidão com as ferramentas da comunhão, e não nos damos conta da necessidade de uma com-solidão. Sozinhos uns com os outros e, também, com nossa própria imagem de si: somos os perfeitos fantasmas da imaginação; somos a construção absoluta do espaço vazio entre nosso corpo e nossa especulação. Nenhum sentido único, nenhum ponto de passagem à consecução de um sentido do ser (aí, aqui, acolá, pouco importa). Somos o resíduo, o chorume, disso a que demos o nome de história. Não há realização per speculum, tampouco in concreto, pois não há o real de uma ação. Não há senão vazio, e espaço percorrido por imagens, sentidos frágeis que se soldam e somem como os passos dessa mesquinha humanidade nas areias à beira-mar. Não há salvus, não há são, não há sanidade. Restam fagulhas de lucidez no torpor do fadigado e claudicante aglomerado de bichos que articulam aquilo que não sabem bem o que é, mas que é o pressuposto do saber: as letras. Atravessados por luz, somos os eternos duplos de nós mesmos.  

Imagem: Francisco de Goya y Lucientes. Até a morte. 1799.    

domingo, 26 de maio de 2013

O enraivecido sou eu



"Algumas manhãs, ao despertar, o pensamento sobre a idade é como um fulgor. A úlcera, um mês de cama, a fraqueza, os cuidados. Me senti velho, pela primeira vez." Já o velho Pier Paolo Pasolini: cinquenta quilos de uma raiva que é solidão, amor, timidez, incontinência, medo, gênio. Cinquenta quilos de homem.
Eis aqui o Pasolini (dele se falou tanto, se fala tanto), vive com a mãe na periferia de Roma, a casinha entre outras casinhas na colina do Eur, sobre o vale queimado pelo sol, terra, ervas, fabriquetas, um campo esportivo para "moreninhos" arrogantes e miseráveis. "Quando está um dia bonito se vê até o mar", diz. Que mar, Pasolini? Aquela coisa cinza lá embaixo, depois da areia? "Aqui se está bem e o jardim é fresco." Sim, Pasolini, a mesinha, o banco, as flores de banho, a mãe que deixa a casa em ordem. Mas não é isso que gera ternura ou desconforto, mas algo muito diferente: sentir-se em débito com ele por tudo e não saber o que fazer, como retribui-lhe pela inteligência que nos deu nesses anos generosamente. Não é o dinheiro que quer, mesmo se nós nos lembramos bem de dar-lhe; nem estamos autorizados a conceder-lhe aquela isenção da moral comum que pede com grande e ingênua insistência; demos a ele ao menos a estima intelectual que merece (que lhe é dada com corações moles e cabecinhas vazias), digamos que é a melhor de todas.
A mãe leva o café ao hóspede e a camomila ao filho. "Sentemos no jardim, tem um pouco de vento." Assim, para fugir do patético, ataco um pouco de modo estúpido:
"Escute, Pasolini, para o senhor quem é o verdadeiro enraivecido? Genet? Landroux? Germano Lombardi? Lenin?"
Fica mal: vim até ele para brincar? E é um outro sinal do verdadeiro talento: a ingenuidade diante do banal. De todo modo, mudamos o registro.
"Queria perguntar-lhe, seriamente, qual é a diferença entre entre enraivecido e revolucionário."
Ele passa a mão pelo rosto e fecha os olhos como alguém que sofre de enxaqueca crônica: "A contestação do enraivecido é interna ao sistema, para modificar o sistema, mas porque este vive. O revolucionário, ao contrário, nega o sistema no plano do real e a ele contrapõe sua perspectiva utopista. Não, deixe-me dizer, com frequência o revolucionário, depois de ter destruído a sociedade constituída, excede-se na reconstrução, quer que tenha todos os atributos e traz também o moralismo e a respeitabilidade burguesa. Ao passo que o enraivecido, por vezes, incide de maneira mais profunda do que o revolucionário. Mas uma coisa é clara: o enraivecido pode não ser, e quase sempre não é, um revolucionário, enquanto o revolucionário é sempre um enraivecido".
"Ainda que se diga que um caráter do grande revolucionário seja o seu desprendimento, o seu olhar gélido, de águia, a sua faculdade de prever e mover a história transferindo a sua raiva aos operários da revolução: Lênin que prepara a revolução na Suíça."
"A conotação com a qual o senhor fala, o soberano desprendimento, não pertence tanto ao revolucionário quanto ao gênio. Que Lênin tenha sido um gênio está fora de dúvidas. Entretanto, eu não estaria tão seguro sobre o seu desprendimento. Escavando-lhe a alma, provavelmente teremos descoberto a ferida profunda, aberta, deixada pelo homicídio do irmão. O Lênin enraivecido não é aquele que se lançava contra a burguesia reacionária, mas o outro, das polêmicas contra os mencheviques. E é um sinal de raiva autêntica, de paixão."
"Qual é então o modelo do enraivecido não revolucionário?"
"Sócrates, sem hesitar. Enraivecido, ele sim, com um desprendimento científico, ao ponto de renunciar à vida serenamente; e enraivecido, note-se bem, contra as admiráveis instituições democráticas de Atenas. O caso de Sócrates é perfeito: morre para respeitar a lei de um sistema que, no entanto, consente a vida do seu acusador, Meleto."
"E o senhor é um enraivecido? Digo de pronto, antes que a vanguarda conteste..."
"Deixe disso, sempre evitei a polêmica com a vanguarda. Nos primeiros anos por ela me interessei, mas não é preciso muito para entender que se tratava de nulidade. É gente de má-fé que faz joguetes. Inútil discutir; seria como litigar com uma prostituta."
"Desculpe-me se insisto, não é tanto a polêmica que me interessa, mas o tema, essa raiva da qual estamos falando, as formas e os conteúdos que deve assumir. Do senhor, por exemplo, dizem: 'Sim, Pasolini ofende, maldiz, fala palavrões, mas em um contexto narrativo, veja-se Uma vida violenta, que tem a estrutura do Coração, com a diferença de que o Coração é de esquerda e o seu livro não. O Coração no sentido em que o protagonista é um herói positivo, bravo e bom, e que, no fundo, a burguesia que observa a sua pobreza não é assim tão malvada'."
"Boutade por boutade, poderia responder que também no Idiota de Dostoievski há um herói positivo. Aqueles senhores ainda não entenderam que um personagem, mesmo se de todo descrito, jamais assume um significado preciso e vinculante, não é uma declaração de fé nem de votos, mas a expressão, a medida do grau de consciência da realidade a que chegou o autor. A verdade é que o meu Coração, de direita, não se tornou o livro da burguesia, mas a levou a uma reação raivosa, racista e de ódio em relação ao sub-proletariado, e que a minha vigilância lombarda, se dela recordam-se aqueles senhores, desencadeou perseguições e punições das quais não fiquei de fora."
"Há outra coisa, Pasolini. Dizem que o senhor é um poeta 'do voo sobre Viena'[1], capaz de usar a luta de classe, como D'Annunzio usou a guerra mundial, para fins estetizantes."
"É uma acusação da qual não me defendo. Quer dizer que me sobrevalorizam."
"Que dizem ainda os vanguardistas? Ah, sim! Dizem que a linguagem é de importância fundamental para os enraivecidos, que é ridículo enraivecer-se em versos alexandrinos."
"Não gosto dos versos alexandrinos, mas, às vezes, parecem uma novidade em face às codificações mais recentes em relação aos versos alexandrinos."
"Pasolini, no seu lugar eu não levaria muito a sério a vanguarda. Onde estão, na república italiana das letras, os verdadeiros enraivecidos?"
"Os literatos italianos são, por definição, satisfeitos ou resignados. Salvo os poucos que vagam como larvas, na periferia, salvo os raríssimos que operam de modo aristocrático em nível internacional."
"E, para o senhor, por que a raiva é tão rara para nós?"
"Existem as grandes razões históricas: a Contrarreforma, a revolução liberal imitada, postiça, a resignação, o hábito secular da irresponsabilidade. Há uma burguesia frágil, improvisada, um establishment incerto, e a grande raiva, o senhor sabe, existe onde há a grande burguesia, onde há o grande inimigo como nos países anglo-saxões. Então, há um motivo mais recente: a guerra partisana entre nós foi algo importante, uma raiva verdadeira, dramática. Uma geração deu o melhor, outras creram de boa fé e razoavelmente que aquilo fosse o canal, o modelo de uma raiva séria, organizada, sem teatralidade. Foi um bem para alguns anos e depois, talvez, foi um mal e impediu novas e sinceras manifestações, exauriu energias jovens no casulo do antifascismo genérico."
"Raiva, protesto, o corvo revolucionário que morre comido, mas prevendo o sucessor, a raiva que continua, incansável. E a ironia, Pasolini? A resignação? A vida é vida, os homens homens, e tudo é previsível no imprevisível. Por que, grosso modo, alguém não deveria se cansar?"
"Não, o enraivecido não se torna razoável, não se cansa, não tira lições, é como azul de tornassol: ele reage. Só que quando é jovem, confia no futuro da sua vida, enquanto depois, com o passar dos anos, tomam-lhe as dúvidas, os desânimos. Então a raiva aumenta, torna-se obsessão. Sabe por que fiz cinema? Porque não suportava mais a língua oral nem a escrita. Porque queria repudiar com a língua o País do qual estive cem vezes a ponto de fugir."
"O senhor se diz enraivecido, um dos raros enraivecidos italianos, perseguido por amor à raiva. Entretanto, regularmente sua raiva acaba por resolver-se em vontade de vida, em obra útil aos outros, em pesquisa arriscada feita também para os outros. Que efeito teve, por exemplo, o seu último filme?"
"Como sempre, ambíguo. Conduzo uma guerra em dois frontes: contra a pequena burguesia e contra o seu espelho que é, por certo, o conformismo de esquerda. E assim desagrado a todos, torno-me inimigo de todos, sou forçado a ter relações complicadíssimas, feitas de explicações contínuas. Agora assumi uma nova fadiga: organizo uma coleção de ensaios sobre cinema."
"Eu lhe dizia que sua raiva melhor é esta: abrir novas estradas, fabricar novos instrumentos."
"E então o teatro. Levantando-me da cama depois de estar doente, comecei a escrever para o teatro."
O sopro quente do vento movimenta as pequenas plantas, no átrio, embaixo, há um camponês vestido de porteiro e aquelas casas de papelão são Roma. Ficamos em silêncio e então ele diz: "Talvez a única coisa a fazer é continuar a fazer aquilo que fizemos nesses anos." Bem, levantemos a cabeça e avante: é o único modo para não se dar conta de que se abriu uma porta para o escuro.

[1] O "Voo sobre Viena" foi uma ação realizada por Gabriele D'Annunzio em 9 de agosto de 1918. Com uma esquadra, chamada "A Sereníssima", que voou por cerca de 1.200 quilômetros - ida e volta - desde um aeroporto militar nas proximidades de Pádua até Viena para soltar 50.000 folhetos de propaganda pró-italiana. [N.T.]

Pier Paolo Pasolini. "L'arrabbiato sono io." In.: Pier Paolo Pasolini. Saggi sulla Politica e sulla Società. A cura di Walter Siti e Silvia De Laude. Milano: Arnoldo Mondadori, 2012. pp. 1591-1596. (Tradução: Vinícius Nicastro Honesko)
Originalmente a entrevista, concedida a Giorgio Bocca, foi publicada no jornal "Il Giorno" em 19 de julho de 1966.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pornografia da democracia



Alain Badiou

Uma magnífica peça de Jean Genet, “Le Balcon” [A Sacada], confronta o reino das imagens e o real da revolta. Começamos num bordel, um lugar fechado consagrado de modo integral  às fantasias. Genet vê perfeitamente que aquilo que prova a ferocidade escondida do poder contemporâneo é a proliferação da obscenidade das imagens. Fora, entretanto, os motins da classe trabalhadora continuam, como continua, hoje, fora do bordel ocidental, nos trabalhadores das minas da África do Sul, nas milhares de revoltas operárias na China, ou, ainda, no momento do nascimento da “primavera árabe”. Mas também nas residências onde, entre nós, amontoam-se os trabalhadores vindos da África.

A questão profunda do “Balcon” que se coloca à incerta insurreição é então a seguinte: a emancipação política pode se subtrair às imagens? A dificuldade é que o poder nu, que se esconde atrás da sutil plasticidade e da sedutora obscenidade das imagens do mundo democrático e do mercado, não tem imagem: ele é uma realidade nua, aquela do Estado que, longe de procurar nos livrar das imagens, a estas garante sua potência.



O bordel das imagens



O personagem da peça de Genet que traz à cena essa potência sem imagem da imagem é, de modo demasiado normal, o chefe de polícia. Ele é o emblema do poder nu, pois ele é o “deixado à sorte” [laissé-pour-compte] das imagens. Ninguém deseja o chefe da polícia, contrariamente ao grande esportista, ao apresentador de televisão, ao profissional benfeitor, ao político democrata nas cúpulas do Estado, à top model ou ao milionário do show business, estes que são os aproveitadores do bordel das imagens.

O problema central, para quem quer se subtrair ao poder do poder, é de se desembaraçar do cárcere de suas imagens, e, para isso, de saber quem é o chefe de polícia de suas convicções mais íntimas. Qual é a compreensão subjetiva de nosso consentimento ao mundo tal como está? Desde que a ideia de revolução dele se ausentou, nosso mundo é apenas o recomeço da potência, sob imagens consensuais e pornográficas, da democracia de mercado.

Meu otimismo é que um pensamento forte, organizado e popular, que afronte tal reinicio, pode interromper o ciclo do retorno, o qual nos levou a um estado de coisas – a dominação ilimitada do capitalismo liberal – próximo daquele dos anos 40 do século XIX. Destruir nosso chefe de política interior – nosso consentimento em relação ao imaginário do bordel ocidental – não tem como núcleo ativo a crítica do capitalismo. Aqueles que se contentam com uma crítica da economia propõem invariavelmente um capitalismo regulado e adequado, não pornográfico, ecológico e sempre mais democrata. Nada virá dessas quimeras.



A nudez poética do presente



A única crítica perigosa e radical é a crítica política e ativa da democracia. Porque em nossos países o emblema do tempo presente, seu fetiche, é a democracia. Enquanto nós não soubermos colocar em movimento, em grande escala, uma crítica criativa da democracia, estaremos estagnados no bordel financeiro das imagens. Nós seremos os servidores do casal formado na peça de Genet pela dona do bordel e o chefe de polícia: um casal das imagens consumíveis e do poder nu. De quais sortes de imagens desimaginantes necessitamos, nós que tentamos manter aberta a porta pela qual evadimos da caverna de Platão, do reino democrático das imagens sem pensamento? Como encontrar a força de evadir da fantasia contemporânea e de se tornar os comunistas de um novo mundo? Como diz em “le Balcon” um dos revoltados: “Como aproximar a Liberdade, o Povo, a Virtude, e como os amar se a gente os idealiza e os torna intocáveis?! É preciso deixá-los em sua realidade viva. Que a gente prepare poemas e imagens que não deem prazer, mas que irritem.”

Preparemos, então, esses poemas e essas imagens que não satisfaçam nenhum de nossos desejos serviçais. Preparemos a nudez poética do presente.

Texto publicado no "Le nouvel observateur", no dia 24/01/2013. Disponível em: http://tempsreel.nouvelobs.com/culture/20130124.OBS6607/pornographie-de-la-democratie.html (Tradução: Vinícius Nicastro Honesko)  

Imagem: Cena de "Le Balcon", de Jean Genet (em 1974)