terça-feira, 9 de julho de 2013

Pequeno parágrafo sobre o grito


Sobre ele encontrava-se uma imensidão de entulhos: uma massa disforme das mais variadas coisas, todas elas habitantes de suas lembranças. Para ele, naquele exato momento, era impossível se mover. Permanecia inerte e sufocado pelo peso de tudo aquilo. Ao mesmo tempo, entretanto, num paradoxo inimaginável, era como se a possibilidade de livrar-se dos entulhos não pudesse liberá-lo, libertá-lo. Era como se tivesse que "acertar as contas" com cada um dos infindáveis objetos que lhe impediam o movimento. Era como o impossível (comparação desprezível e insignificante, pois o impossível é o interdito por excelência). Tomou, de repente, uma daquelas coisas sob as quais se encontrava e viu que se tratava de algumas frases de um colega de Che Guevara. Leu em voz alta: "A letra mata, talvez, porém faz durar e reviver." Imediatamente se deu conta da malfadada operação de libertação em que se encontrava. Jamais conseguiria novamente se mover; era agora a letra que, de modo contrário ao que pensam os juristas, jamais é morta, mas, tal como acabara de ler, o que mata. Estava morrendo (isso, este continuísmo no presente, também um insignificância no que diz respeito à morte). Inscrito, escrito, marcado, seu mundo não existia senão como as salutares coisas que agora o pressionavam com um peso inaudito (e, de fato, o espanto nunca se ouve, nunca é trabalho de uma voz, mas do corpus assustador que um dia se ousou dar nome, assinalar com o peso assassino da letra). Completamente perdido em si mesmo - esta, sua maior prisão -, não havia mais como respirar. Como alguém que acaba de perder a visão, desesperado, tentou aplacar o medo do encontro com o sem nome - que de algum modo, como um profeta, o dono da vox clamantis in deserto, intuía estar próximo - com um grito surdo. E tal grito, de maneira contrária àquela de Adão (que, ao decair, exclama um "ai", uma pura interjeição de dor que abre aos homens o tempo histórico, o tempo das letras e dos sons significantes), jamais poderá significar um tempo, isto é, nunca lhe dará uma história (seja a malfadada history ou as encantadas stories). Morre, não em silêncio, mas com o grito de mais puro silêncio: eis o último homem.

Imagem: Caravaggio. São Jerônimo. 1607. Museo di S. Giovanni, La Valletta. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Pequeno parágrafo sobre os hábitos



Usamos nossas vestes como se nos fossem próprias, isto é, os modos justos com os quais poderíamos dar a ver os nossos hábitos (e, não por acaso, hábito é o outro modo de dizer nossos costumes, nossas vestes, nosso modo próprio na impropriedade da exposição). Entretanto, nesse espúrio gesto apropriativo, acabamos por nos esquecer que o uso não é mais do que um servir-se ou um estar habituado, mas jamais uma propriedade, um próprio. As vestes, nossos hábitos, não cruzam o muro que nos separa do nosso ser próprio, pois não temos ou somos nenhuma propriedade, e só nos resta a impropriedade daquilo que chamamos história - e, talvez, por isso o paraíso, cuja etimologia remonta ao avéstico paridaéza (que significava os jardins cercados, os espaços fechados ao exterior), tenha sido, nos imaginários mitológicos - sobretudo judaico e cristão -, o único lugar em que ao homem não era necessária nenhuma veste, pois lá encontrava-se irremediavelmente investido, no seu ser, com a própria glória divina. Relegados ao exterior, lançados para fora dos muros que cercam o paraíso, só nos resta a percepção da nudez (a percepção do mal de nossa impropriedade) e, a partir disso, a tentativa de construção de um espaço de uso, onde, cientes da perdição (vagamos, erramos), tentamos ser com os outros perdidos, ousamos construir o nosso éthos, a nossa imprópria, e apenas passível de uso, morada habitual.

Imagem: Pieter Brueghel. Provérbios (detalhe). Rockox House, Antuérpia. 
 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pequeno parágrafo sobre a salvação


Não há senão o resto vermelho do tinto nos cálices, e tudo o mais é metafísica. A estranheza de estar num lugar inóspito, tal qual um marinheiro em águas distantes (e Ulisses, longe e consciente da impossibilidade de sua Ítaca). Toda e qualquer tentativa de encontrar-se é relegada a um modo de estar ao lado, de circular pelos espaços vazios da existência. Passando pelos tormentos alheios, como algum assistente de Virgílio na barca dantesca, vejo todo espectro de prazer circundado por lembranças, preso às sevícias da memória de alguém que sequer me lembro. Lembro aquilo que supostamente Kafka disse a Janouch: "há esperanças, não para nós", e, numa glosa paródica, digo: "há salvação, não para nós". Tento descer ao fundo dessas memórias de alguém, mas só percebo a insistência de uma memória do mundo - muito, muito maior do que a dos mortais. Há gritos pelas ruas e tudo o mais é silêncio. Estou só num mar arredio - o mar das falas outras, dos espaços outros, desse fio de insanidade que parece querer guiar-me são, porém, jamais salvo...

Imagem: Tintoretto. Descida ao inferno. 1568. San Cassiano, Venezia.   

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Molly Bloom



Enfrentando, em deriva, o vento de várias esquinas
não heroicas, esquinas de um bloom qualquer
saindo de bares quaisquer, com pensamentos quaisquer
forjei couraças, ouvi sereias, matei Cìclopes prestes a me devorar
meu mar foi a água que torrencialmente caía da rua Bartira
sozinho, irremediavelmente só, perdidamente exilado

Por que, Penélope, vem perturbar minha solidão
protegida contra intempéries e retornos?

Você me faz sonhar, em átimos, com a cama aquecida, com Ítacas-propriedades
com proteções

Mas minha não-esperança era uma educação sentimental
O mastro em meio ao vazio de desolação
Nec spe nec metu
Sem medo nem esperança
Não temo porque nada espero

Temer perdê-la é já tê-la perdido

Não há Ítacas,
Mesmo que meu coração sofra com o luto daquilo que não existiu
Não há Penélopes,
Apenas molly's que também sabem trair e fugir
Não há portos
Apenas devires, desespero e felicidades viajantes  


Imagem: James e Nora Joyce 


     

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sobre levantes


Nos comentários políticos recentes, há uma tentativa (cretina, por que não?) de dicotomização e de tipificação ideal do "manifestante" - algo que me incomoda muito. Uma coisa que parece fora do horizonte desses "comentários" - talvez por estar demasiado escancarado - é que a insígnia do Estado é o "monopólio do uso da violência", a racionalização do uso da violência. Ora, o quase querigmático "sem violência" me parece uma espécie de fantasia, de quase redentorista anseio (e a linguagem é teológica mesmo!!!) por uma salvação "an-histórica", de um "como se" fosse político.

Num levante, ser atento, forte e não vacilar, pode ser, por vezes, resistir com violência. E ainda que haja uma tentativa de nivelamento dos gestos que estão em jogo, existe uma diferença imensa nas violências: por um lado, uma violência na manutenção de uma "ordem", isto é, o uso "legítimo da violência"; por outro, a irrupção de um possível outro tipo de "violência" - valha-me Walter Benjamin! -, de um "acontecimento" sem rumos ou rédeas...

Acompanhando a "estetização" que muitas vezes acontece nessa "ida à rua" - e ontem, aqui em Florianópolis, senti um pouco disso: a "manifestação limpinha", um coaxar de nacionalismo fascistoide etc. - às vezes me sinto perdido em meio ao que tem acontecido nos últimos dias. Mas isso, esse incômodo, é muito bom! É, talvez, o sinal de que, ao menos por ora, não há prognósticos! Não há previsibilidade! E isso é Política! Isso tem um mínimo de "ação" em jogo!

Lembro do "thymós", a ira - uma das características da psyché -, dos gregos, tão esquecido nesses "comentários políticos" do momento: com esse discurso monocórdico do "ordeirismo", parece-me que qualquer "violência" (como resistência!) é colocada na compreensão que foi dada ao "thymós" pela tradição "teológica" (desde, ao menos, Gregório I): "superbia", o orgulho, algo que deve ser afastado de um "homem bom e ordeiro" pois, se a "tivéssemos", caminharíamos para a autodestruição.

Parece que, para além da perspectiva "ruinosa", é preciso um furor timótico imprevisível! Insurreição é abertura, é construção de novos sentidos - a "mínima máxima" do um pouco de possível, senão sufoco! Diria Alain Badiou que "a única crítica perigosa e radical é a crítica política e em ação da democracia. Porque nos nossos países o emblema do tempo presente, seu fetiche, é a democracia. Enquanto nós não soubermos colocar em movimento, em grande escala, uma crítica criativa da democracia, estaremos estagnados no bordel financeiro das imagens."

Ora, o fetiche da ordem (e fetiche é algo típico da mercadoria, do capital, do que coloca a política num puro jogo "econômico"), é uma diagnose que não pode ser descartada. Não há que se esperar por nada! A contingência da ocupação do espaço público não é a expectativa de novas lideranças, de satisfação de anseios, de retratação pública por parte de políticos etc.. Não se trata simplesmente de um avance contra generalidades, abstrações (corrupção, governos etc.), mas de algo direcionado.

Para Florianópolis, p.ex., algumas dessas causas materiais poderiam ser elencadas: contra uma imprensa local que, estreitamente ligada ao poder público, defende interesses espúrios de grupos empresariais (o Estado como bancada de negócios...); contra a concessão de licenças para construção e ocupação de terrenos públicos (e, como exemplo, a Ponta do Coral - e aguardemos as cenas dos próximos capítulos...); contra um transporte público cretino que, numa ilha, sequer possibilita qualquer tipo de transporte marítimo. E, sobre os transportes: como estão os contratos de concessões? Quais as margens de lucro das empresas?

No plano federal, muitas outras causas podem ser apontadas: os contratos bilionários com as empresas nas construções dos "Estádios da FIFA." etc.; como o Estado, por meio dos governos, saneia instituições financeiras e grupos financiadores de campanhas (lembremos: Marka, FonteCindam etc.). Enfim, há coisas muito materiais em jogo!!!

De todo modo, é bom que se entenda que não postulo a uniformização das demandas. Só lembro que há materialidades nas lutas! Não uma simples fanfarronice que, tão logo alguém assuma um discurso político convincente, seja restaurada num "status quo" que limpe tudo, como uma onda faz com a marca de nossos passos na areia. Por isso, acho importante não fixarmos o olhar no horizonte dos "grandes ideais" (que, como o horizonte, nunca alcançamos), mas ser atentos para o que está a olhos nus na nossa frente.

O muito intrigante Furio Jesi, com uma inteligência e agudeza incríveis, certa vez disse:
"Pode-se amar uma cidade, podem-se reconhecer as suas casas e as suas ruas nas próprias memórias mais caras ou secretas; mas apenas na hora da revolta a cidade é sentida verdadeiramente como a 'própria' cidade: própria, pois ao mesmo tempo do eu e dos 'outros'; própria, pois campo de uma batalha que se escolheu e que a coletividade escolheu; própria, pois espaço circunscrito em que o tempo histórico é suspenso e em que todo ato vale por si mesmo, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando no alternar-se dos ataques, muito mais do que brincando como crianças por suas ruas, ou por elas passeando mais tarde com uma moça. Na hora da revolta, não se está mais só na cidade."

A suspensão do tempo histórico - aquilo que, de outro modo, os gregos chamavam "kairós", o "tempo oportuno" - é o que marca o "possível" enquanto tal. Não o possível no quadro dos arranjos, das escolhas, mas o novo, o inesperado, o imprevisto, o imponderável. A irrupção de algo! O dar-se conta da própria impotência - consciência essa que é, talvez, uma das únicas coisas capazes de constituir o nosso agir, isto é, nosso resistir. E, com isso, lembro Gilles Deleuze:

"Diz-se que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas (...). A única oportunidade dos homens está no devir revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao intolerável."

domingo, 16 de junho de 2013

Polícia Soberana



Giorgio Agamben

Uma das lições inequívocas da guerra do Golfo é a entrada definitiva da soberania na imagem da polícia. A desenvoltura com a qual o exercício de um jus belli particularmente destruidor travestiu-se aqui, com modesta aparência, como uma “operação de polícia” não deve ser considerada (como fizeram alguns críticos justamente indignados) como uma cínica ficção. Talvez a característica mais espetacular dessa guerra é que as razões avançadas para justificá-la não podem ser descartadas como super-estruturas ideológicas destinadas a recobrir uma desenho escondido: ao contrário, a ideologia, nesse meio tempo, penetrou de modo tão profundo na realidade que as razões declaradas (em particular aquelas que concernem à ideia de uma nova ordem mundial) devem ser lidas de modo rigoroso. Todavia, isso não quer dizer, como juristas improvisados e apologistas com má fé quiseram fazer crer, que a guerra do Golfo tenha significado uma salutar limitação das soberanias estatais, dobradas para servir de polícia em favor de um organismo supranacional.
O fato é que a polícia, de maneira contrária à opinião comum, que vê nela uma mera função administrativa de execução do direito, é talvez o lugar em que se exponha com mais clareza a proximidade e quase a troca constitutiva entre violência e direito que caracteriza a imagem do soberano. Segundo o antigo costume romano, ninguém, sob nenhuma razão, podia se interpor entre o cônsul dotado de imperium e o lictor mais próximo que carregava o machado sacrificador (com o qual se executava as sentenças de pena capital). Essa contiguidade não é casual. Se o soberano é, com efeito, aquele que, proclamando o estado de exceção e suspendendo a validade da lei, marca o ponto de indistinção entre violência e direito, a polícia, por assim dizer, move-se sempre em similar “estado de exceção”. As razões de “ordem pública” e de “segurança”, sobre as quais ela deve decidir em cada caso, configuram uma zona de indistinção entre violência e direito perfeitamente simétrica àquela da soberania. Com razão observava Benjamin que:

a afirmação de que os escopos do poder de polícia sejam sempre idênticos, ou mesmo apenas conexos com aqueles do direito remanescente, é de todo falsa. Antes, o “direito” de polícia marca justamente o ponto em que o Estado, quer por impotência, quer pelas conexões imanentes de todo ordenamento jurídico, não está mais à altura de garantir, por meio do ordenamento jurídico, os fins empíricos que pretende atingir a todo custo.

Daqui a exibição das armas que caracteriza em todos os tempos a polícia. Decisiva não é tanto a ameaça contra quem transgride o direito (a exibição acontece, de fato, nos mais pacíficos lugares públicos e, em particular, durante as cerimônias oficiais), mas a exposição dessa violência soberana testemunhada na proximidade física entre o cônsul e o lictor.
Essa embaraçosa contiguidade entre soberania e função de policia se exprime no caráter de inatingível sacralidade que, nos antigos ordenamentos, associa a figura do soberano àquela do carrasco. E tal proximidade talvez nunca fora mostrada com tanta evidência como no acaso fortuito (narrado por um cronista) que, em 14 de julho de 1418, fez com que se encontrassem, numa rua de Paris, o Duque de Borgonha, recém chegado à cidade como conquistador na chefia de suas tropas, e o carrasco Coqueluche, que naqueles dias para ele trabalhara de modo infatigável: o carrasco, coberto de sangue, aproxima-se do soberano e o pega pela mão gritando “Meu caro irmão!...” (Mon beau frère!)
A entrada da soberania na figura da polícia, portanto, não tem nada de tranquilizador. É prova disso o fato, que não cessa de surpreender os historiadores do Terceiro Reich, de que o extermínio dos judeus foi desde o início concebido exclusivamente como uma operação de polícia. É notório que jamais se pôde encontrar um único documento no qual o genocídio fosse atestado como decisão de órgão soberano: o único documento de que dispomos a esse respeito é o processo-verbal da conferência que, em 20 de janeiro de 1942, reuniu no Grosser Wannsee[1] um grupo de funcionários de polícia de média e baixa patentes, dentre os quais se destaca para nós apenas o nome de Adolf Eichmann, chefe da divisão B-4 da Quarta seção da Gestapo. Apenas por que foi concebido e realizado como uma operação de polícia é que o extermínio dos judeus pôde ser tão metódico e mortífero; mas, por outro lado, é justamente enquanto “operação de polícia” que ele parece hoje, aos olhos da humanidade civil, tanto mais bárbaro e ignominioso.
Mas a investidura do soberano como agente de polícia tem um outro corolário: torna necessária a criminalização do adversário. Carl Schmitt mostrou como, no direito público europeu, o princípio segundo o qual par in parem non habet jurisdictionem excluía o fato de que os soberanos de um Estado inimigo pudessem ser julgados como criminosos. A declaração do estado de guerra não implicava a suspensão desse princípio nem das convenções que garantiam que a guerra contra um inimigo – no qual se reconhecia uma dignidade similar – se desenrolasse respeitando regras precisas (uma delas era a clar distinção entre a população civil e o exército). De modo contrário, nós podemos ver com nossos olhos como, seguindo um processo iniciado ao fim da Primeira Guerra mundial, o inimigo é primeiro excluído da humanidade civil e marcado como criminoso; apenas na sequência torna-se lícito aniquilá-lo com uma “operação de polícia” que não é submetida a nenhuma regra jurídica e pode, portanto, confundir, com um retorno às condições mais arcaicas da beligerância, população civil e soldados, o povo e seu soberano-criminoso. Esse deslizamento progressivo da soberania para as zonas mais obscuras do direito de polícia tem, no entanto, ao menos um aspecto positivo que convém aqui assinalar. Aquilo de que os chefes de Estado, que se lançaram com tanto zelo na criminalização do inimigo, não se dão conta, é que essa criminalização pode voltar-se a qualquer momento contra eles. Hoje não há sobre a terra um chefe de Estado que, nesse sentido, não seja virtualmente um criminoso. Quem quer que hoje vista o triste redingote[2] [manto] da soberania sabe poder ser um dia tratado como criminoso por seus colegas. E por certo não seremos nós a lamentar por eles. Pois o soberano, que de bom grado consentiu apresentar-se vestido de tira e de carrasco, mostra enfim hoje sua originária proximidade com o criminoso.

                                                                                                (1991)




[1] Região de lagos a sudoeste de Berlin na qual se encontrava o edifício – Wannsee Villa –, onde os oficiais nazistas se encontraram para discutir o plano da Solução Final. (N.T.)
[2]  Espécie de vestido longo feito sob medida que passa a ser usado no século XVIII pelas mulheres dos círculos da corte inglesa, e que, entre 1785 e 1795, foi incorporado pela moda francesa e denominado redingote. (N.T.)


Giorgio Agamben. Polizia Sovrana. In. Mezzi senza fine. Torino: Bollati Boringhieri, 1996. pp. 83-86. (Tradução: Vinícius Nicastro Honesko) 


Imagem: Rogier van der Weyden. Philippe le bon. Depois de 1450. Musée de Beaux-Arts, Dijon.  

sábado, 15 de junho de 2013

Por uma polícia democrática



Levantemos uma hipótese absurda: o Movimento Estudantil toma o poder na Itália. De modo pragmático, claro, sem ter premeditado, por puro ímpeto ou ardor ideológico, puro idealismo juvenil etc. etc.. É preciso "agir antes de pensar", portanto... agindo pode acontecer tudo. Bem. O Movimento Estudantil está no poder: estar no poder significa dispor dos instrumentos do poder. O mais vistoso, espetacular e persuasivo instrumento do poder é a polícia. Assim, o Movimento Estudantil se encontraria com a polícia à disposição.
O que faria dela? Iria aboli-la? Nesse caso, é claro, perderia imediatamente o poder. Mas continuemos com a nossa absurda hipótese: o Movimento Estudantil, visto que tem o poder, quer conservá-lo, e isso com a finalidade de mudar, finalmente!, a estrutura da sociedade. Dado que o poder é sempre de direita, o Movimento Estudantil, portanto, para atingir o fim superior consistente na "revolução estrutural", aceitaria um regime provisório - por assembleia, não-parlamentar, em última instância - de direita e, desse modo, entre outras coisas, deveria decidir ter à sua disposição a polícia. 
Nessa absurda hipótese, como o leitor pode ver, tudo muda e se apresenta sob forma miraculosa, inebriante, diria. Só uma coisa não muda de fato e permanece o que é: a polícia.
Por que levantei essa hipótese maluca?
Porque a polícia é o único ponto cuja necessidade de "reforma" nenhum extremista poderia objetivamente criticar: a propósito da polícia não se pode ser mais do que reformista.
O que fez o Poder em Avola (o Poder atual: o da democracia burguesa, parlamentar centralista)? Causou quatro vítimas.
Por meio de um velho espírito de caridade (que, entretanto, vem a coincidir com a atualíssima exigência de democracia real), eu não saberia dizer se são mais infelizes os dois mortos ou os dois policiais que dispararam.
Pensemos por um momento: como o Poder criou os dois mortos? Discriminando os cidadãos privilegiados e os cidadãos não privilegiados. Criando "carne humana" de preço alto e "carne humana" de preço baixo.
Ser: 1) siciliano (ou seja, pertencente a uma área pré-industrial e pré-histórica), 2) boia-fria [bracciante] (isto é, pertencente à mais pobre das categorias pobres dos trabalhadores), significa ser um homem do corpo sem valor e que pode ser morto sem demasiados escrúpulos (a polícia, para dar um exemplo, praticou todo tipo de atos vis contra os estudantes, carne humana com valor médio bastante alto, mas jamais disparou contra eles).
E como o mesmo Poder cometeu os dois assassinos? É simples: tomando dois daqueles homens "de baixo custo" (meridionais, potenciais boias-frias) e transformando-os: de "pobres" a "assassinos" (ao Poder, para fazer isso, basta dar um generoso salário de quarenta mil liras mensais).
Como faz o Poder para transformar os pobres em instrumentos inconscientes? (É uma operação fácil: de fato, a inocência dos pobres é indefesa porque é natural; e é por meio dessa "inocência" - inconsciência política - que o Poder, em centros de treinamento, depois de ter persuadido alguns dentre os pobres com o sonho das quarenta mil liras, cria reflexos condicionados: que são algo muito diverso de uma educação e assemelham-se muito mais a um adestramento de autômatos do que de homens. Aos pobres "inocentes" se contrapõem assim os mesmos pobres facilmente "corrompidos". É uma notória técnica fascista para cumprir sua influência sobre as massas lumpemproletárias.)
Me dirão: mas tu partes do pressuposto de que os dois policiais que dispararam, nas origens sociais e na "cultura", são de todo semelhantes aos dois mortos. Sim - respondo -, parto do pressuposto que representa melhor a condição média dos policiais, a massa dos policiais. É verdade que, fisicamente, os que disparam e matam podem ter sido dois velhos policiais, provenientes dessas classes médias desgraçadas e terrivelmente incultas; mas essa seria a exceção, que seria a intervenção "direta" do Poder, e que não representaria tanto a tipicidade da intervenção "indireta", consistente no opor pobres a pobres, inocentes a inocentes. Ambos "marcados", diria, racialmente.
O massacre de Avolo tornou-se então o pretexto para pedir uma "reforma" da polícia, consistente, para o momento, numa primeira medida radical: desarmá-la.
É apenas uma reforma e, como tal, a sua exigência é sentida também pela parte mais lúcida do Poder atual. Eu penso que também a parte mais avançada e extremista deveria apoiar a imediata realização dessa reforma.
Desarmar a polícia significa, com efeito, criar as condições objetivas para uma imediata mudança da psicologia do policial. Um policial desarmado é um outro policial. Ruiria nele, de pronto, o fundamento da "falsa ideia de si" que o Poder lhe deu ao adestrá-lo como um autômata.
De tal "mutação" psicológica derivaria, sempre "objetivamente", e talvez na própria consciência do policial, a necessidade de outras reformas: isto é, nasceria no policial "desarmado" uma nova consciência dos próprios direitos civis. E ele mesmo seria o primeiro a pretender um novo tipo de "treinamento profissional", que não se aproveite de modo tão brutal da sua inocência e pobreza. Por meio de tal consciência, ele se tornaria um policial social-democrata em vez de fascista. O que não é pouco. A menos que não se queira instrumentalizar as mortes provocadas pela polícia, fato que, entretanto, colocaria os opositores do Poder no mesmo nível de desumanidade do Poder.  

Pier Paolo Pasolini. Da "Il caos" sul "Tempo" 1968. In.: Saggi sulla Politica e sulla Società. Milano: Arnoldo Mondadori, 2012. pp. 1160-1163. (Tradução: Vinícius Nicastro Honesko) - Trata-se de uma parte da seção Il Caos, que Pasolini mantinha no semanário Tempo, de 21 de dezembro de 1968.

Imagem: Salò ou os cento e vinte dias de Sodoma.