terça-feira, 24 de novembro de 2015

Elbe


Alguns pensam fazer história do pensamento humano ao ensinar parágrafos assinados por um francês católico do séc. XVII, outros imaginam viver na história habitando seus confortáveis "eus" autossuficientes, aburguesados, protegidos da loucura, "o vaidoso vagar do indivíduo em torno de si mesmo em sua querida especificidade."      

A história talvez esteja em um casebre da periferia de Marabá, no rio impossível dos krenak, no anônimo sepultado no mediterrâneo, no barulho do vento nas tendas de um campo de refugiados. 

Mas também na fumaça de um cigarro, na sombra de um passante na madrugada de uma cidade interiorana, no grito de megafone do vendedor de frutas.  

Na erva daninha na calçada, em um cheiro, no resto de vinho da taça. 

Histórias sem memória, impessoais, tecidas por uma morte sem nome. 


Imagem: Gerhard Richter - Linogravura da série Elbe (1957) 

domingo, 22 de novembro de 2015

Pequeno parágrafo sobre a presença



A presença: pura fragilidade, um desenho obliterado da mesa e algum deus aborrecido. Nossa presença é somente o sorrateiro rapto das imagens da presença do trabalho divino. "Os deuses morreram, mas morreram de rir ouvindo um deus dizer que era o único". Todo relato que intente dizer nossa presença tem que lidar com esse riso dos deuses. Não há retorno - nem mesmo como lembrança - de algo como nossa outrora forma forte, como se alguma vez nosso desenho tivesse sido terminado e emoldurado pelo deus que, então, pretendia dizer-se único. Aborrecidos estamos todos na fragilidade e, ao nos depararmos com o já-não-mais de uma estela mortuária, podemos perceber com agudeza o sem sentido da presença. "Esteve presente entre nós...": a fórmula já não diz nada da presença, é o puro vazio do relato, a forma pura da memória que, como as estrelas e tudo o mais que nos circunda, há de dar passagem (e a todo instante não cessa de fazê-lo) para algo (que seja este algo o nada) do qual não temos a menor ideia. A presença que somos para os outros animais também nos aponta a fragilidade de nossa "grandeza": não os entendemos e, com isso, alçamo-nos às alturas do "único" que pode tal ou qual coisa, que pode se dar ao luxo patético de pretender ser o único que sabe que os outros não sabem. No entanto, talvez presença seja uma questão da ignorância. E não de qualquer ignorância, mas, sim, daquela que nos é fundamental: não damos conta do fato de estarmos aqui (ou aí, ou lançados, whatever...) e toda forma fajuta de compensar essa ignorância é, talvez, apenas uma das possíveis ficções (qualquer que seja o sentido para isso) para tentar dar uma ordem ao caos da presença. Somos um presente que escapou do tal deus aborrecido. Talvez um presente furtado por um outro deus sorrateiro, que ri como um louco dos novos rabiscos que, auxiliado por alguns de nós, o aborrecido insiste em fazer...

Imagem: Paul Gauguin. Mulher aborrecida ou o silêncio. 1891. Worchester Art Museum, Worchester.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Estudo sobre o sonho II



Somos os protagonistas de nossas ausências.
Aqueles mesmos que há pouco
estavam deitados nos trilhos da memória
e zombavam do anjo da história.

Caminhamos na esteira de
nossos velhos rastros,
como lobos farejando ovelhas,
outrora também elas
lobos da própria sorte.

Faz falta um pouco de tédio
para acalentar as trágicas
aventuras da memória.
Continuamos sendo, sem pudores,
continuamos sendo.


Imagem: Paul Gauguin. O deus Taaroa com uma de suas esposas. 1892-3, Musée du Louvre, Paris.

domingo, 25 de outubro de 2015

Pequeno parágrafo sobre a procura



Há sempre um limite imposto pela noite aos sonhos. Toco algumas metamorfoses pela manhã e logo vejo que "há sempre um amor procurando seu nome / Na solidão do livro dos tempos". Mas a saudade é só uma forma de perceber o tempo envelhecendo e, nas costas de um dos anéis de Saturno, ainda sentir uma brisa de ventos que sopram dos vívidos sonhos barrados pela aurora. Uma maneira de inventar (ou inventariar) as formas já deformadas, um suspiro que exala todo o ar do mundo, um livro de páginas em branco, de páginas com o angustiante branco que metamorfoseia o absoluto, o sem sentido da escuridão que domina todos os horizontes. O nome, mas qual? Tentei escrevê-los todos à margem dos livros que amo, mas desisti. O nome me assombrou e apenas me sobraram os ventos da brisa de uma além já tão desgastado por todas as histórias que tentam dar nomes às aventuras da memória. Provo a vertiginosa escalada no muro dos sonhos, das memórias e das noites, mas só consigo alcançar o cume de minha própria impotência. E o rosto que gostaria de dizer só pôde ser desenhado uma vez, num lugar onde jamais pus meus pés, e o suspiro que fez o mundo acabou com o despertar, e toda escrita desfez-se em letras soltas no infinito sem sentido que as compõe. Desperto, inerte, na solidão, no vasto amor que é só procura, essa insolente procura por aquilo que, sabemos bem, jamais iremos encontrar. 

Imagem: Paul Gauguin. A água misteriosa (Pape Moe). 1893. Art Institute, Chicago.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Estudo sobre o sonho I



Existo na forma selvagem
de uma pluma, de candura de vento
soprado do paraíso,
de danças de mulheres nuas
na história universal dos sonhos.

Existo tal qual cão solto
em pátio de luzes e sombras,
alegrias de vidas passadas
a preencher o mundo,
onde já não vivo.

Volto ao lugar do adeus
no voo das asas de um pássaro
e me encontro à beira da memória,
na fábula que um dia
era o nome da vida dos homens.


Imagem: Paul Gauguin. Hina te Fatou. 1893. Museum of Modern Art, New York

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Adeus a Paulo L.


Toninho Vaz me contou que você morreu um tanto esquecido, meu velho. Abandonado por uma poetisa na fria Curitiba, sua verdadeira lenda se mantém apenas na memória dos velhos beberrões que ainda perambulam pelos bares sujos próximos da rodoferroviária. Não sei se há algum vivo, nem estes botecos, que antes eram muito mais sujos. Nem seu compadre Ivo está aí para afiançar estas histórias. Tudo isso antes de você mudar para Tibagi, onde terminou seus dias, talvez mirando os campos gerais. Bandido que sabia latim, você sempre esteve mais próximo de João Antônio que de Jaime Lerner.  
Em um tempo em que o fracasso está fora de moda, sua imagem foi estilizada: seus óculos, seu bigode e roupas maneiras fazem a cabeça da moçada. O haikai sem o corte do samurai. A aura da transgressão sem a revolução da forma. O provincianismo, que você sempre demoliu, hoje é autossuficiente e presunçoso. É um tempo estranho de pastiches e bundões devidamente empacotados. Lucram com seu nome, ele está publicado em uma editora de peso, muito distante das edições artesanais que encalharam em seu sótão de madeira. Suas canções são cantadas em caros saraus e bares da moda, com caras cervejas artesanais da moda. Sem o Blindagem - a propósito, a banda continua, mesmo sem Ivo, em algum auditório mambembe do interior. 
Adeus ao poeta da Curitiba oficial, o poeta da pedreira e do hipsterianismo. Que este cadáver seja enterrado.

Restam: a flor no asfalto do terminal Guadalupe, poucas casas de madeira, o último bar aberto na madrugada gelada, um assovio de vento na cruz do pilarzinho e uma vontade de lutar.


Imagem: Ovídio Vieira, 1983. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Monograma XV - Jean-Luc Nancy




Lentamente, discretamente, o “impossível” se tornou uma categoria predominante de nosso pensamento a partir de um momento que podemos datar na virada do século passado [séc. XIX]. Em 1873 Rimbaud escreve “o Impossível” para falar de uma perda irreparável ocorrida nos “pântanos ocidentais”. Em 1899, depois do anúncio da condenação de Dreyfus, Zola escreve “estou no terror sagrado do homem que vê o impossível se realizar”. Entre o para sempre perdido e o demasiado real em que se crê, toda a obra de Proust compõe uma longa variação da aproximação e apreensão do impossível. Bataille, um pouco mais tarde, escreve que “toda vida profunda é carregada de impossível”. Esse fardo não é mais a gravidade pantanosa nem a espessura terrificante: ele tem o peso da profundidade, de uma profundidade que nenhum fundo encerra e tampouco sustenta. Uma profundidade leve, em suma, de uma leveza sem frivolidade. Nem drama, nem imprudência, mas um como ajustar a preocupação sem acalmá-la nem atormentá-la.


Eis como “impossível” não significa “não possível” (irrealizável) mas estranho à economia do possível e do impossível, do cálculo de uma (in)viabilidade, como se diz hoje em dia. O possível sempre é uma projeção extraída do real dado, diz Bergson. O “impossível” em relação a isso não acompanha o dado.


Exemplo: enquanto reivindicamos “um pai, uma mãe” para nos opor ao casamento para todos, acompanhamos o dado de uma suposta naturalidade; quando a favor desse casamento nos contentamos em convocar uma igualdade abstrata de direitos, remetemos a uma outra suposta naturalidade. De ambos os lados nos esquecemos de que se tratam de profundas transformações de sociedade e que, na história humana, as relações de parentesco tomaram e tomarão várias formas muito diferentes não endossadas por nenhuma “natureza” e que, portanto, em direito, nenhum “possível” nelas se delimita.


Os exemplos são numerosos tanto no que diz respeito à referência preguiçosa ao dado quanto à maneira – também preguiçosa ou mesmo partidária – a partir da qual escolhemos o que queremos considerar como “dado” (“natural” ou “divino”, “racional” ou “razoável”...). Podemos mensurar o possível e o impossível de um sistema de ensino no estado em que estava há cinquenta anos. Podemos mensurar o possível e o impossível de uma democracia em relação ao que representamos ter sido sua efetividade passada (Atenas, por exemplo...). Acreditamos mensurar o possível e o impossível em fontes de energia nas quantidades e nas formas dadas de seu consumo. Mensuramos o que nomeamos “humanismo” em relação ao que já carregou esse nome (e o que não o carregou?). E o próprio “homem”, homo sapiens sapiens, nós o imaginamos dado quando mal ele é buscado (o homem dos “direitos humanos”, por exemplo).


Pensar fora do possível é pensar o inédito, o inaudito – o que toda existência carrega com ela e que, entretanto, jamais é dado, depositado, seja para ser conservado ou para ser reformado. O mundo não é para ser mudado: ele está por ser criado.


É isso que muito bem disse Kamel Daoud, no Le Quotidien d’Oran, por ocasião da visita do presidente francês à Argélia: “A guerra é uma história de mortos. As desculpas são uma história de velhos. [...] E eu, eu sou uma história nova.”

Trad.: Vinícius N. Honesko

Imagem: Horts Faas. Criança carrega rifle com mãe próximo ao Palácio Bastilha em Oran, Argélia. 1962.