quinta-feira, 3 de julho de 2008

A morte e a mosca


... em todos os tempos, todos, morremos como moscas que o outono lança nos quartos onde rodopiavam cegamente numa vertigem imóvel, atapetando de repente as paredes com sua tola morte. Mas, passado o medo, ele reupera a tranqüilidade evocando o mundo mais feliz de outrora, e essa morte mesquinha que lhe causava frêmitos parece-lhe revelar somente a indigência de uma época votada ao divertimento e à pressa.
Maurice Blanchot, O Espaço Literário, p. 120.

sábado, 28 de junho de 2008

Bares proletários


Se há um remanescente da tradição do proletariado oitocentista no séc. XXI, ele certamente não será encontrado nas indústrias assepticamente automatizadas (ou, para usar de um termo corrente, parques tecnológicos de viés toyotista). Não que a exploração não seja mais a condição de manutenção global e pedra de toque para avaliação do capitalismo do presente: o trabalho sujo de produção da mais-valia foi simplesmente deslocado para eixos de total desregulamentação representados seja na informalidade, seja no sub-emprego precarizado com parcas “garantias formais”. Entretanto, com o ocaso da figura dos sindicatos e de todo vínculo (para alguns marxistas: orgânico) entre trabalhadores, o boteco (botequim, bar, birosca, bodegas e significantes afins) incorpora um dos últimos redutos de comunidade entre os deserdados. É nele que sonâmbulos consomem-se no transe etílico em meio ao cheiro de frituras, balcões de fórmicas, mesas de sinuca, petiscos boiando na gordura reaproveitada e muita fumaça de cigarros baratos. No referencial semântico de botequim, em sentido genuíno e estrito, não devemos incluir o grande número de lojas temática que simulam a simplicidade ou rusticidade proletária para o consumo de desavisados turistas da pequena e média burguesia. Estes não-lugares se limitam a estilizar um ambiente da terna e heróica boemia proletária de um capitalismo industrial edulcorado: com suas imitações de gaiola, cervejas e chope tradicionais, grupos de choro contratados e pequenas quinquilharias de coleção (antigas flâmulas de clubes, fotos em branco e preto, placas com ditos populares e mensagens sacanas sobre o fiado). Museus para pseudo-intelectuais onanisticamente saudosos. Ao contrário, o boteco genuíno é a zona limiar onde quem entra sabe que correrá riscos factíveis de não voltar para casa. Aliás, seu freqüentador médio já não está inserido numa estrutura familiar estável, em regra nem a possui. O destemor, a carência e a brutalidade formam ali uma conjunção saturada de tensões (para lembrar de um dos únicos filósofos que costumava freqüentar os genuínos de seu tempo). Não há espaço para estilizações. Não é à toa que só se localizam nas periferias ou nas regiões decadentes. É o cru e o não intelectual da vida; uma negação e sintoma radical das relações materiais de nosso tempo. Território onde aqueles que nada têm a perder a não ser suas algemas, - que lhes continuam a aferroar -, bebem a mais barata das bebidas sonhando com a mais magnífica das desforras.



Imagem. Le Café de nuit - 1888 (V. Van Gogh)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Fragmento nômade



... Seriam apenas dois dias de caminhada até o campo dos Lotófagos. Percorremos em cinco. Era extrema a lassidão com que retornávamos ao local de nosso primeiro deslumbre, e mesmo esse torpor, que acometia desde o mais insignificante osso de nossos corpos, só poderia ter tido sua causa nas experiências vivenciadas naquelas paragens. Era a abstinência sentida, o vazio nos apresentado enquanto tal. Era preciso obturá-lo. Os lotófagos possuíam o que desejávamos com todo vigor da vida, mesmo ao preço dela.

sábado, 7 de junho de 2008

Elucubrações sobre a indi('o's)pensável indi(o)gestão

Pensável gestão dos índios? Indispensável gestão dos índios? Gestão indispensável dos índios? Gestão pensável dos índios? Ou apenas indigestão indispensável aos não acostumados às práticas antropofágicas? Quantos paradoxos sobram para os mandachuvas...

domingo, 1 de junho de 2008

Idéia do fim...


- Talvez um pouco de divagação seja aqui a solução entrópica. Desconexão. O tratamento é infindável. Própria perversão. Descontinuidade.

- Mas, a escrita que escapa ao fim da escrita não suporta pensar o fim. Silêncio.

- Não posso suportar o silêncio. Penso o fim.

- Instantes de fim, fins...

- Mas qual é o fim? Já não sei mais. Talvez existam fins.

- Fins para tudo sei que tem, mas talvez haja fim para o fim. Acho que é como Blanchot dizia da espera. Certamente é sempre espera pela espera... Talvez o fim deva ser tratado como o fim do fim do fim do fim.... Mas não sei.

- Angústias sempre surgem. Talvez seja o tempo.

- Quiçá...

- Escuta...

- Escuto.

- Há quanto tempo está angustiado.

- Não sei. Talvez tempo demais.

- Demais.

- Não, tempo.

- Interessante, parece-me que a vida não é tempo, mas a angústia sim... não sei mais quais limites para o tempo, para angústia, para vida... acho que você me angustia.

- Pode ser.

- Não, não pode ser.

- Quanta bobagem você fala.

- Falo.

- Podia silenciar.

- Não, falo, conto, narro, pretendo não parar... encerro com a morte.

- Então encerre.

- Não. Vivo.

- Não, está morto, desde sempre...

- Não te entendo.

- Não é pra entender, morre...

sábado, 31 de maio de 2008

O que é Flanar?





Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinhadas alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja...
É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela, como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no homem das multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.
João do Rio. A Alma encantadora das ruas. Crônicas. organização: Raúl Antelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. pp. 31-32.


sábado, 24 de maio de 2008

Vestígios


Um vestígio é o traço da ausência na presença, ou presença de uma ausência. Traço-traço indistinto da materialidade opaca, débil ou levemente presente. O vestígio é apenas a corporeidade de sua marca: involuntária e dissoluta assinatura. Ponte e substrato temporal limiar. O próprio tempo condensado nas coisas mundanas, em sua mais absoluta fragilitate. Exposição do tempo efetivo, sempre lá, posto ser o tempo modal mera representação psicológica. Imanência destroçada. História aos cacos irreparavelmente entregue à leveza da véspera do não-ser. Espírito imanente das coisas em colapso.


Traço-traço: pois não é uma transição ao acabamento. Aliás, põe em questão a metafísica encarnada nestes termos.