(Nada mais do que tentou Sartre exprimir em “A Náusea” com a figura do “salaud”, ou, em português mais chulo, o salafrário, usada para intitular os respeitáveis, ou figurões, de uma determinada cidade interiorana).
Mas além da figura do “homem sério” é possível observar outro “modelo antropológico” dominante que aparentemente se colocaria em posição antagônica ao primeiro, mas que, em verdade, apenas exporia a outra face, menos ingênua e mais niilista, do respeitável “salaud” (e que até não impediria sua concomitância). É o que também Sartre buscou delinear com a figura da má-fé. O individuo que age com má-fé consegue perceber a insuficiência e arbitrariedade de tais máscaras como instâncias de definição da vida socialmente permitida. Porém, seja por covardia, preguiça ou oportunismo, simplesmente age como se estivesse frente a uma heteronomia vinda das leis naturais. Hipocritamente serve-se desta forma de partilha do próprio mesmo que ao preço de ver sua própria vida cotidianizada, sitiada e insossa (com a contínua percepção pessoana de ser “uma cadáver adiado que procria”).
É desta impropriedade da situação da vida dos vencidos que talvez restem fagulhas potencialmente incendiárias para desmentir e profanar a propriedade séria e respeitável enquanto tal. Aí se elucidaria, de forma oblíqua, a enigmática alusão de Marx de que não se pode falar de um “proletariado” sem falar de sua própria (e potencial) abolição.





