quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Salafrários e velhacos



Apenas grandes acionistas de grandes empresas serão beneficiados por um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Uma pessoa da classe média, da classe trabalhadora, um pequeno empresário ou um trabalhador de plataforma que vota nesse candidato ou é muito ignorante ou está imbuído de má-fé, mas, no fundo, acabará contribuindo para a própria ruína.

A presença de Daniella Marques, braço direito de Paulo Guedes há longa data, e de Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica do governo Bolsonaro, na formulação do programa econômico de Flávio, somada às declarações de Marques em defesa das políticas de austeridade radical de Javier Milei, a famosa motosserra, reforça o temor de que o Brasil esteja à beira de uma grave catástrofe social.

Congelar salários e cortar gastos visando ao superávit, desindexar o salário da inflação, é fazer com que milhões de pessoas percam o poder de compra, de subsistência. O mesmo vale para as aposentadorias. Isso pode levar à valorização de ações no curto prazo - essas políticas usam um país inteiro para beneficiar especuladores, uma espécie de cassino macroeconômico -, enquanto a economia real vai para a sarjeta. O motorista de Uber, o taxista, o pequeno empresário, o profissional liberal, a maior parte deles tragados pela onda bolsonarista, perderão boa parte do público que atendem e serão os primeiros a ser atingidos.

Mas essas pessoas são responsáveis pelas consequências de seu voto. Não cabe aqui infantilizar ninguém, seja quem vota de má-fé, na esperança de ganhos irreais, seja quem vota por pura burrice.

Sem falar nos cortes de programas sociais, na inviabilização do financiamento do SUS, dos Institutos Federais, das universidades e hospitais federais, da assistência social.  Na política de armamento - que serve apenas para abastecer o crime organizado e aumentar os feminicídios - e no afrouxamento na fiscalização dos desmatamentos pelo país afora. 

E Lula tem errado muito na campanha, e sua equipe parece não ter a exata noção do que está em jogo. As bets precisam ser proibidas (pois são máquinas de produzir dependência e miséria, programadas algoritmicamente para extrair até o último centavo de quem já perdeu o controle), mas são quase dois milhões de viciados no Brasil, e quem ainda vota são os dependentes, não seus filhos vitimados. Comprar uma briga com clubes de futebol nesse momento, e com suas torcidas, também é uma espécie de suicídio eleitoral. Há pessoas que estão mais preocupadas com o salário do maldito Paquetá do que com as condições de vida no seu país. Não me venham com cartilha de boas maneiras, com falar para as bolhas em programinhas estilizados e monetizados de podcast (Flow??), com uma postura aristocrática que há muito abandonou o corre diário. Tem gente pobre muito canalha e oportunista que espelha suas misérias no voto, mas essa pessoa precisa entender que Flávio Bolsonaro poderá levá-la a morar na rua, literalmente. Os governos Trump e Milei, nos quais o filhote de miliciano se espelha, mais do que pela retórica imperialista, levaram e levam milhares de pessoas para abaixo da linha da miséria.

Existe também uma esquerda aristocrática e dita radical que prega o voto nulo ou equipara as chapas, como se estivesse muito acima da plebe e das consequências materiais de suas escolhas. No entanto, na urna, cada voto tem exatamente o mesmo peso. Votar é um exercício de humildade intelectual para quem está no mandarinato universitário. Pode parecer pouca coisa, mas uma eleição determina os rumos de um país por décadas, sobretudo os da economia real, da qual dependem milhões de pessoas que vivem do próprio salário, sem condições de escapar das crises, sem a estabilidade do serviço público (em risco!) e sem rendimentos de patrimônio que lhes permitam atravessar políticas de destruição. Essa esquerda, instalada numa posição de suposta superioridade intelectual e moral, projeta uma utopia abstrata sobre uma realidade muito mais complicada e brutal que suas simplificações, e como tem condições de ter abrigos diante do que vem aí, caso a extrema direita volte ao poder, usa de seu moralismo supostamente radical para justificar sua mais completa apatia e resignação. Estão na mesma posição de quem vota em Bolsonaro por ódio ao PT, e não é um milionário acionista ou especulador. Uns e outros, os rentistas que lucram com a ruína coletiva, os iludidos antipetistas que votam contra os próprios interesses e uma esquerda nefelibata que, do alto de sua pretensa superioridade moral, prefere cultivar a própria pureza ideológica, compõem, cada qual à sua maneira, a velhacaria de nosso país. São salafrários por interesse, ressentimento ou impostura. É preciso chamá-los pelo nome e deixar claro que todos, inclusive aqueles que se imaginam acima das disputas eleitorais, terão sua parcela de responsabilidade pela catástrofe que ajudam a preparar.


Imagem: We Are Making A New World (1918), Paul Nash. IWM Londres. 

Prefácio à publicação do roteiro de São Paulo, de Pier Paolo Pasolini



Alain Badiou


É bem sabido que a referência cristã desempenhou um papel de primeira importância na formação do pensamento de Pasolini, apesar da violência sexual e transgressora que animava sua vida pessoal, ou talvez justamente por causa dela, e que conferia uma tonalidade particular às suas escolhas políticas comunistas. Em certo sentido, foi um sacrifício próximo do sagrado, a morte misteriosa de seu irmão, um partigiano italiano, provavelmente morto pela resistência iugoslava no momento da Libertação, que determinou tanto sua maneira de julgar a História quanto a severidade que, a partir do final dos anos 1950, passou a demonstrar em relação ao Partido Comunista Italiano.

No fundo, aos olhos de Pasolini, o PCI era culpado por ter permitido que os jovens da Resistência morressem sem herdeiros legítimos nem uma verdadeira paternidade política, o que conduziu também ao abandono, à própria sorte, dos jovens proletários dos modernos conjuntos habitacionais. Entre outros textos, o amplo e esplêndido poema Vittoria apresenta a história dessa negação, sugerindo, ao fundo, a negação de São Pedro. Ao negar Cristo, Pedro demonstrara apego excessivo à própria segurança; e, contra Paulo, em Antioquia, apego excessivo aos antigos rituais que limitavam a universalidade da mensagem.

Foi Pedro, mais do que Paulo, quem prefigurou a esclerose da Igreja, assim como, de modo análogo, a do PCI. Consideremos esta passagem, que estigmatiza o “realismo” dos partidos políticos, presos ao “misterioso debate com o Poder” e surdos à voz dos jovens revoltados:

... Alegre 

de uma alegria que não conhece bastidores,

está este exército, cego no cego

sol, de jovens mortos, que vem

e espera. Se seu pai, seu chefe,

o deixa sozinho nos montes brancos, nas serenas

planícies, absorvido num misterioso debate

com o Poder, ligado à sua dialética

que a história renova sem cessar,

pouco a pouco, dentro dos peitos bárbaros

dos filhos, o ódio se faz amor pelo ódio,

ardendo somente neles, os poucos, os benditos.


De modo mais geral, Pasolini confrontou incansavelmente as formas que poderia assumir uma vida dedicada à verdade nua do sujeito diante das diversas figuras da Paixão e das armadilhas da santidade. Se o compararmos, por exemplo, a Bataille, é fácil sustentar que Pasolini assumiu a dialética da abjeção e do sublime com muito mais sinceridade, exposição ao risco e potência poética. Se o compararmos a Genet, temos, embora neste caso ambos se equivalham quanto à qualidade, toda a diferença entre uma sublimação pela poesia, ou pelo cinema, e uma sublimação pela prosa, e pelo teatro.

A primeira se orienta para as origens, as fábulas e os mitos, para as figuras da história, Édipo, Cristo, São Paulo, Dante, Gramsci. A segunda se dirige a uma narrativa íntima, mesclada e como que sustentada pela respiração latente da história dos povos: anjos carcerários do subproletariado, prostitutas, negros, palestinos... Mas, em todos os casos, encontra-se no horizonte da meditação a questão da religião. Não como uma possibilidade ainda aberta, pois não se trata de acreditar nela, mas como paradigma poético e histórico da possibilidade de um confronto radical, no coração da existência individual e coletiva, com as verdades implacáveis que a religião é capaz de expressar e com o sentido que essas verdades podem ou não receber do mundo tal como ele é.

É precisamente essa cisão entre sentido e verdade que está em jogo na figura de Édipo, tal como o admirável filme de Pasolini a restitui: assim que se descobre a verdade, o assassinato do pai e o incesto com a mãe, o único sentido que a vida ainda encontra está na cegueira e na morte. Mas essa é também a figura de Cristo: para que a verdade alcance o mundo desértico dos homens, Deus deve apresentar o absurdo de seu próprio suplício. Daí a força do filme que Pasolini extraiu do Evangelho segundo São Mateus. E não seria tentador ver na própria morte de Pasolini, que permanece tão obscura, a Paixão do verdadeiro desejo, consumada em sacrifício sob a lâmina insensata daquele que esse desejo encontra?

É perfeitamente natural, nesse contexto, que São Paulo tenha sido uma figura tutelar para Pasolini. De fato, ele via em Paulo a primeira encarnação do conflito entre a verdade política, sendo a emancipação comunista a forma contemporânea da salvação, e o sentido que essa verdade poderia assumir sob o peso do mundo.

Em nosso mundo, com efeito, a verdade só pode abrir seu caminho protegendo-se do exterior corrompido e estabelecendo, no interior dessa proteção, uma disciplina férrea que lhe permita “sair”, voltar-se ativamente para o exterior sem temer perder-se nele.

Todo o problema reside no fato de que essa disciplina, da qual Paulo é aqui o inventor sob o nome de Igreja, assim como Lenin o é para o comunismo sob o nome de Partido, embora seja inteiramente necessária, é também tendencialmente incompatível com a pureza do Verdadeiro.

Rivalidades, traições, lutas pelo poder, rotina, aceitação silenciosa da corrupção exterior sob a cobertura do “realismo” prático: tudo isso faz com que o espírito que criou a Igreja já não reconheça nela, ou só o faça com enorme dificuldade, aquilo em nome do qual ela foi criada.

Paulo é um dos possíveis nomes históricos da tensão entre a fidelidade ao evento fundador de um novo ciclo do Verdadeiro, metaforicamente, a ressurreição de Cristo; efetivamente, a revolução comunista, e o rápido esgotamento, sob a cruz do mundo, da energia subjetiva pura, a santidade ou a militância inteiramente desinteressada, que a realização concreta dessa fidelidade exigiria.

Pasolini quis realizar um grande filme sobre o caráter dialético de Paulo. Esse filme constituiria, essencialmente, uma continuação de seu filme sobre a Paixão de Cristo: a história da Igreja que, guardiã do sentido dessa Paixão, propaga e perpetua seus efeitos de verdade, seria também a história do fracasso dessa própria guarda. Pasolini não conseguiu financiamento para o filme. Mas possuímos um roteiro extremamente detalhado que, a meu ver, constitui por si mesmo uma obra literária de primeira grandeza.

Tal como fizera em Édipo Rei, Pasolini justapõe a referência antiga e a contemporânea, mas de uma maneira muito diferente.

A ação de São Paulo, com efeito, situa-se inteiramente no mundo contemporâneo, enquanto em Édipo Rei o drama contemporâneo com a mãe “duplica” a visibilidade correspondente à narrativa lendária. Aquilo que, em São Paulo, pertence integralmente à Antiguidade são simplesmente, e exclusivamente, as próprias palavras do apóstolo, o texto.

Poderíamos dizer que em Édipo temos uma “partilha do sensível”, no sentido que Jacques Rancière conferiu a essa expressão: a história, isto é, o texto lendário, distribui-se entre dois regimes distintos de visibilidade, o antigo e o moderno. Em São Paulo, ao contrário, o sensível é homogêneo, pertence ao nosso mundo, enquanto grande parte do inteligível, aquilo que é pensado e enunciado, por ser extraída das epístolas de Paulo ou dos Atos dos Apóstolos, constitui uma reprodução do antigo.

A aposta de Pasolini, portanto, consiste em afirmar que a verdade da qual São Paulo é o portador dividido, o militante sacrificado, pode produzir sentido no mundo de hoje, demonstrando assim a universalidade latente de seu pensamento.

Podemos ver os Estados Unidos no lugar de Roma, os intelectuais esnobes de Roma, que Pasolini detestava, no lugar dos filósofos da ágora ateniense, ou ainda os ecos da Colaboração e da Resistência na França: o texto de Paulo atravessa intacto todas essas circunstâncias, como se as tivesse previsto.

Para Pasolini, isso significava que todas as corrupções se assemelham, que os impérios em declínio e seus servidores exauridos se parecem uns com os outros e que os traidores de todas as verdades expostas à ausência de sentido usam a mesma máscara.

Com uma virtuosidade estonteante, Pasolini conduz essa construção extremamente arriscada, na qual a invariância de um texto portador de verdade, no fundo, a invariância da Ideia, aparece, na Paixão que sustenta, obrigada a encontrar um sentido aceitável em mundos que não lhe são apropriados.

Esse roteiro deveria ser lido não como a obra inacabada que de fato foi, mas como o manifesto sacrificial daquilo que constitui, aqui como em qualquer outro lugar, o real de toda Ideia: a aparente impossibilidade de sua efetuação. Pasolini era pouco otimista quanto à possível metamorfose desse impossível-real em um mundo que finalmente tivesse sentido.

Temos razões para ser mais otimistas do que ele?

A existência dos poemas e dos filmes de Pasolini certamente constitui uma dessas razões, pois o otimismo jamais foi outra coisa senão um pessimismo superado por seu próprio sujeito, na obra de significação universal que este, contra todas as expectativas, conseguiu produzir.


BADIOU, Alain. Préface. In: PASOLINI, Pier Paolo. Saint Paul. Caen: Éditions Nous, 2013

Imagem: Jacopo Tintoretto.  O martírio de Paulo, aprx. 1556.