Apenas grandes acionistas de grandes empresas serão beneficiados por um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Uma pessoa da classe média, da classe trabalhadora, um pequeno empresário ou um trabalhador de plataforma que vota nesse candidato ou é muito ignorante ou está imbuído de má-fé, mas, no fundo, acabará contribuindo para a própria ruína.
A presença de Daniella Marques, braço direito de Paulo Guedes há longa data, e de Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica do governo Bolsonaro, na formulação do programa econômico de Flávio, somada às declarações de Marques em defesa das políticas de austeridade radical de Javier Milei, a famosa motosserra, reforça o temor de que o Brasil esteja à beira de uma grave catástrofe social.
Congelar salários e cortar gastos visando ao superávit, desindexar o salário da inflação, é fazer com que milhões de pessoas percam o poder de compra, de subsistência. O mesmo vale para as aposentadorias. Isso pode levar à valorização de ações no curto prazo - essas políticas usam um país inteiro para beneficiar especuladores, uma espécie de cassino macroeconômico -, enquanto a economia real vai para a sarjeta. O motorista de Uber, o taxista, o pequeno empresário, o profissional liberal, a maior parte deles tragados pela onda bolsonarista, perderão boa parte do público que atendem e serão os primeiros a ser atingidos.
Mas essas pessoas são responsáveis pelas consequências de seu voto. Não cabe aqui infantilizar ninguém, seja quem vota de má-fé, na esperança de ganhos irreais, seja quem vota por pura burrice.
Sem falar nos cortes de programas sociais, na inviabilização do financiamento do SUS, dos Institutos Federais, das universidades e hospitais federais, da assistência social. Na política de armamento - que serve apenas para abastecer o crime organizado e aumentar os feminicídios - e no afrouxamento na fiscalização dos desmatamentos pelo país afora.
E Lula tem errado muito na campanha, e sua equipe parece não ter a exata noção do que está em jogo. As bets precisam ser proibidas (pois são máquinas de produzir dependência e miséria, programadas algoritmicamente para extrair até o último centavo de quem já perdeu o controle), mas são quase dois milhões de viciados no Brasil, e quem ainda vota são os dependentes, não seus filhos vitimados. Comprar uma briga com clubes de futebol nesse momento, e com suas torcidas, também é uma espécie de suicídio eleitoral. Há pessoas que estão mais preocupadas com o salário do maldito Paquetá do que com as condições de vida no seu país. Não me venham com cartilha de boas maneiras, com falar para as bolhas em programinhas estilizados e monetizados de podcast (Flow??), com uma postura aristocrática que há muito abandonou o corre diário. Tem gente pobre muito canalha e oportunista que espelha suas misérias no voto, mas essa pessoa precisa entender que Flávio Bolsonaro poderá levá-la a morar na rua, literalmente. Os governos Trump e Milei, nos quais o filhote de miliciano se espelha, mais do que pela retórica imperialista, levaram e levam milhares de pessoas para abaixo da linha da miséria.
Existe também uma esquerda aristocrática e dita radical que prega o voto nulo ou equipara as chapas, como se estivesse muito acima da plebe e das consequências materiais de suas escolhas. No entanto, na urna, cada voto tem exatamente o mesmo peso. Votar é um exercício de humildade intelectual para quem está no mandarinato universitário. Pode parecer pouca coisa, mas uma eleição determina os rumos de um país por décadas, sobretudo os da economia real, da qual dependem milhões de pessoas que vivem do próprio salário, sem condições de escapar das crises, sem a estabilidade do serviço público (em risco!) e sem rendimentos de patrimônio que lhes permitam atravessar políticas de destruição. Essa esquerda, instalada numa posição de suposta superioridade intelectual e moral, projeta uma utopia abstrata sobre uma realidade muito mais complicada e brutal que suas simplificações, e como tem condições de ter abrigos diante do que vem aí, caso a extrema direita volte ao poder, usa de seu moralismo supostamente radical para justificar sua mais completa apatia e resignação. Estão na mesma posição de quem vota em Bolsonaro por ódio ao PT, e não é um milionário acionista ou especulador. Uns e outros, os rentistas que lucram com a ruína coletiva, os iludidos antipetistas que votam contra os próprios interesses e uma esquerda nefelibata que, do alto de sua pretensa superioridade moral, prefere cultivar a própria pureza ideológica, compõem, cada qual à sua maneira, a velhacaria de nosso país. São salafrários por interesse, ressentimento ou impostura. É preciso chamá-los pelo nome e deixar claro que todos, inclusive aqueles que se imaginam acima das disputas eleitorais, terão sua parcela de responsabilidade pela catástrofe que ajudam a preparar.
Imagem: We Are Making A New World (1918), Paul Nash. IWM Londres.

