sábado, 25 de junho de 2011

Inocências


Nenhuma inocência pode ser perdoada, pois todo inocente já é culpado pela própria inocência. Há uma marca, há uma exibição de pureza já condenada. A vida acaba antes de seu começo e nada, além de sobrevivência, é o que nos resta. Todos somos culpados pela nossa inocência primeira: vir ao mundo. Antes de nossa existência há, em forma de ausência, a marca de culpa que colheremos em nossos rostos evanescentes: e a ausência é essa nossa inocência jamais perdoada. Ausentamo-nos do nosso julgamento primevo para evitar olhar nos olhos de nosso próprio ser condenado, mas isso de nada adiantará: o esquecimento dos rostos próximos, nossas mãos incapazes de tocar, a visão que insiste em desfocar, tudo isso aparece (o evento) numa sorte de culpabilidade inextricável, intocável, como o magma de um vulcão chamado inocência. O pedido de comida da criança inocente não vem desacompanhado das máculas de antes da existência, do nada que precede a vida. Ele, o nada - que nos chega na dança com a dama morte -, é o companheiro do ser, seu duplo, seu sonho. E nisso, que cremos ser nossa redenção porque é a forma da inocência (não sabemos, não há nossa consciência... como se existisse escusas...), há a revelação da culpa de toda inocência. Estamos todos num processo vital de condenação - e não há como nele entrar com esperanças de absolvição.
Ninguém bota os pés sobre a terra sem ser inocente e ninguém mergulha na terra perdoado por sua inocência: tudo está condenado, tudo é sinal do tempo, tudo é sinal da vida. E não há vida não condenada. Toda inocência já é condenada e, assim como toda existência é coroada com a morte, todo corpo padecerá pela inocência de desde antes da existência. Nenhum homem jamais se viu não culpado, senão após expiar a culpa de sua inocência com a morte... mas aí, já homem não há.
E um dos castigos ao inocente é deitar a palavra na folha branca, impávida, pura. O verbo, que se quis antes da existência, era em sua inocência a vítima de uma condenação. Foi-se a existência, foi-se para junto do nada que lhe é contíguo. Não há vítima imperfeita, não há delírio inocente. O rosto próximo está em mutação, a imagem é desfigurada e toda inocência é condenada. A vida acaba nas pequenas mortes diárias, nos pequenos lapsos em que nos esquecemos da condição de inocentes condenados e sonhamos com uma redenção na profundeza do ser. Nada, nada é o que nos resta. E isso é o que nos foi deixado como herança.

Imagem: Hieronymus Bosch, Ecce Homo. Philadelphia, Museum of Art. Por volta de 1490.

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