quarta-feira, 19 de novembro de 2014

À destinatária impossível


Para minha destinatária impossível.

Querida, por trás de cada desenho esconde-se a mão, o sopro de seus ágeis movimentos e o segredo arredio dos olhos que acompanham as linhas no papel. E o mundo se torna um erro nesses traços. Erro que não erro, mas que me leva adiante, querida, a um mar sem céu e sem ondas onde um dia erramos o lugar de nosso impossível encontro. Há um movimento também nas minhas mãos, mas meus olhos se escondem do que por elas, tão arredias, é gravado. O que era uma bússola a guiar meus sonhos, hoje é apenas uma esfera vazia, tal qual meus olhos perdidos em devaneios nesse mar sem ondas. Talvez aqui espere pela próxima lufada de vento, talvez aqui em mim sejam despertas - por não sei qual deus das águas - novas palavras com as quais desenhar um novo mundo, no qual não mais volte a perceber sua impossibilidade. Mas tudo isso são conjecturas, querida, como a vida que há pouco dava adeus ao poeta que cantava passarinhos. Não digo que este dia da despedida já chegou, ainda que o deus desconhecido das águas desde há tempos me fala que esse dia já passou (e desconfio pois o deus e o dia são a mesma coisa, são a luz que sobra em meio às sombras do uni-verso). Como dizer a você que já não há tempo para tudo, que não há tempo para cada coisa? Como dizer que o Eclesiastes estava completamente equivocado? Esta carta, escrita tal como as milhares de cartas dos marujos dos séculos, só diz que o mar ainda é grande, querida, e que talvez eu não consiga me livrar da falta de ventos e, sem eles, jamais encontre em você qualquer possibilidade. E cada desenho se faz mais incompreensível, e nenhum sopro de mãos parece dar conta das linhas, e todos os olhos carregam olhares vazios. Por que insisto em lhe dizer? Por que uma carta nova me surge a cada vez que mergulho a mão neste mar sem ondas? Não penso respostas e, tão logo tomo em mãos o papel que logo será seu, volto a errar o velho mundo, um velho mundo, o meu velho mundo, o único em que ainda posso traçar, em erro, um destino que jamais poderá cruzar com o seu...

Do seu remetente impossível.


Imagem: Johannes Vermeer. O astrônomo (detalhe). 1668. Museu do Louvre, Paris.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Estudo sobre a memória IX


A Manoel de Barros

É tempo de experimentar o tempo,
e as musas, as ditadoras do país da poesia,
sondam e espreitam o momento oportuno
para o próximo golpe.
Com as musas, um poeta tentou trocar olhares,
mas elas eram todas cegas.

Ah, gente tão pura recolhida na luz e nutrida de silêncio!
Amarrei, também eu, meus sonhos no poste da vida:
por que já pretendes ir, Manoel?
O tempo não é todo ele de sonhos?
Ainda é preciso muita inutilidade,
muita sombra no império da lucidez.

E minha musa cega perde também a palavra.
Silenciosa e muda, agora me dita em outra língua:
a dos mapas perdidos, a das cartas extraviadas,
a de um mundo que se foi.
O tempo se soltou do poste e correu
para um jardim onde, cegas e mudas,

passeiam nuas as inúteis musas de outrora.


Imagem: Johannes Vermeer. Mulher dormindo à mesa. 1657. Metropolitam Museum of Art, New York.



sábado, 8 de novembro de 2014

Estudo sobre a memória VIII



Louros de uma vitória injusta,
prados já há tempos queimados,
palavras em silêncio
agora que te ausentas.

Já não és uma presença
e qualquer sinal de Deus
se desvanece na injustiça
desses silêncios semoventes.

Apagados os traços das cinzas,
todas as almas se regozijam
com o uni-verso dos poemas
impressos nas tuas pegadas.

O cantar se faz sopro do tempo,
amálgama de sonhos e fogo,
promessas de um retorno impossível
e Ítaca que aparece no horizonte.

Não mais te percebo nem em devaneio,
apenas me dás uma imagem de outrora:
já veneno, abatida por estas armas
que são as palavras silenciosas

de todo poema...

Imagem: Johannes Vermeer. Mulher segurando balança. 1662-3. National Gallery of Art, Washington.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Estudo sobre a memória VII



Do lugar de onde provêm essas vozes, nada se sabe.
É um ermo, um vazio que, talvez, mais do que povoado de vozes,
seja ele mesmo as vozes que nos ludibriam e,
assim, fazem-nos inventar esse lugar.
Sobre o que falam tais vozes?
O que nos contam ao pé do ouvido?
A mim, soam como trombetas de arcanjos perdidos,
dizem-me "eu te amo" como se amor houvesse.
Elas, as vozes, aparecem aladas e em cada bater de suas asas
uma brisa me enche de torpor.

Ah, vozes antigas! Com a velocidade de suas asas,
caio para trás e me sento à espera de seu próximo rasante.
Mas por que me sondam se já não me dizem nada?
Por que voar no meu céu, onde só há o vazio?
E, por que, me pergunto, ainda as espero?

Imagem: Johannes Vermeer. O Concerto (detalhe). 1665-6. Isabella Stewart Gardner Museum, Boston.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pequeno parágrafo sobre a saudade


Se todas as cores do mundo pudessem ser vistas de uma só vez, não haveria lugar melhor para isso do que um olhar perdido em devaneios. A luz perdida nos olhos me faz perceber uma obtusa lógica da saudade. Mas, de pronto, percebo que nada é mais tolo do que sacar uma razão aí onde a desrazão encontra seu lugar absoluto. Todas as cores e nenhuma delas, todos os sonhos e uma tela em branco, todas as palavras à disposição e nenhum verso escrito. Os sonhos de um poeta marginal jamais se deixarão pintar e, em tais sonhos, apenas uma saudade doce devora o poeta. Ele só quer perceber as luzes da perdição, as luzes desse vazio (e não seria isso devanear?) que o preenche. Busca inspiração na saudade, mas logo percebe que o rosto que desenharia já lhe é de todo desconhecido. Pensa em escrever uma carta, e se dá conta de que jamais conseguiria endereçar algo a alguém. Resta-lhe aquela obtusa lógica e, com ela, seus passeios por esse vazio ao qual se dá o nome saudade...

Imagem: Johannes Vermeer. Mulher escrevendo um carta com sua empregada. 1670. National Gallery of Ireland, Dublin.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Estudo sobre a memória VI



Estranho tempo em que o tempo de seus sorrisos já não contam. Talvez numa tarde, tal como esta que se avoluma, haja tempos e sorrisos outros. Tempos já sorridos e sorrisos já transcorridos na alvura de uma folha em branco. Não conseguiria repetir as cartas que um dia lhe enviei (e penso na fixação de Vermeer por pintar mulheres lendo cartas: talvez sejam os retratos das cartas que ele nunca conseguiu escrever...). Aliás, nenhuma palavra seria capaz de dizer sorrisos e tempos. Tudo se esvai na lentidão deste suposto poema em prosa, desta inimaginável vontade de tocar com os dedos este nada de lembranças que povoa a tarde já avolumada. Conto o tempo e estranho; conto contos com letras em folhas e também estranho; não é estranho dizer que tento um poema em prosa a alguém tão presente nesta ausência quase absoluta que são as lembranças? Talvez, dos tantos poemas já feitos, e a tantos alguéns dedicados, não restem senão traços. Ou melhor: talvez não restem senão as montanhas de desterro e pó onde habita aquilo que se nomeia memória.


Imagem: Johannes Vermeer. Garota lendo uma carta com a janela aberta (detalhe). 1657. Gemäldegalerie, Dresden.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Ode à toupeira



Passa-se o ponto. Passa-se tudo, o que resta os vermes comem. Passa-se do ponto. Passa-se.

São Paulo, alerta de evacuação: os ônibus continuam lotados, milhares de carros trafegam, assim como os banhos regados a volume morto alkimista, o relógio ponto do trabalho sem sentido, as missas, jantares em família, giram giram os batentes da porta do banco.

E o tempo, com o trabalho implacável, a tudo desgastando, até as pedras.  

Mas pequenas doses de cinismo diário - mais corrosivo que absinto falsificado - pingam em meu cérebro cansado.  

Sim, José Sarney continua vivo e muito provavelmente terá uma morte natural.