Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

La nada

Claude Audran, Arabesque, 1704.


La nada, ¿puede ser expresada de manera significativa? La nada nunca puede ser un objeto, pero en tanto sujeto precede siempre y en todas partes a cualquier cosa. Cuando el lenguaje está reducido a los límites que fija la lógica de los objetos, la nada no puede ser expresada. El lenguaje debe estar libre de la sujeción a la lógica de los objetos. En la red de la lógica de los objetos no hay verdaderamente un sujeto y la distinción gramatical entre sujeto y objeto es confusa y engañosa. Porque ¿cómo se distingue el sujeto de una proposición ontológicamente del objeto lógico? Ambos son objetos. No sólo falla aquí el lenguaje; la lógica de los objetos no está en condiciones de expresar al sujeto ontológico. Si el lenguaje se viera liberado de esa lógica, quizá podría expresarse en él hasta el silencio. 
Rodeado por la lógica de los objetos, Dios - si es que no se renuncia a él como nulo - queda sujeto a la soberanía de una idea; es evaluado como un valor entre valores. Todo aquel que valore a Dios como el valor más elevado o lo proclame como la idea suprema se hace culpable de la mayor blasfemia. Los superlativos que provienen de la esfera terrenal no adoran a Dios; lo profanan. Cuanto más alto se ubique a Dios en la escala de valores, más se lo profana. La teología, por lo tanto, nunca puede ser "natural"; pues en las relaciones terrenales ella no encuentra su punto de partida, sino su anti-tesis.
La nada como el sujeto ontológico es inmediatamente evidente por sí misma y no necesita de un fundamento. Sólo un "algo" puede ser objeto de una pregunta; la nada, en tanto sujeto, precede a todo. En cada "algo" hay una nada contenida como su fundamento; en cada "algo" que es sujeto ontológico la nada está implícita como sujeto. Toda investigación está dirigida a "algo" que debe dar prueba de sí respecto de la siguiente pregunta: ¿por qué hay algo y no más bien nada? 

TAUBES, Jacob. Sobre una interpretación ontológica de la teología In.: Del Culto a la Cultura. Elementos para una crítica de la razón histórica. Madrid: Katz Editores, 2007. pp. 264-265.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Elogio a Galy Gay


É o herói da comédia Um homem é um homem. Acabou de sair de casa para comprar um peixe a pedido da mulher, quando encontra casualmente soldados do exército anglo-indiano que, na pilhagem de um pagode, perderam um companheiro. Eles têm todo o interesse em arrumar rapidamente um substituto. Galy Gay é um homem que não sabe dizer não. Acompanha os três soldados sem saber o que pretendem com ele. Passo a passo adquire traços, pensamentos, atitudes, hábitos que se requerem de um homem na guerra; ele é inteiramente desmontado e remontado, renega sua mulher quando ela o encontra, e acaba tornando-se um temido guerreiro e conquistador da fortaleza Sir El Dchwr. O que lhe ocorre é explicado na seguinte passagem.

“O Sr. Bertolt Brecht afirma: um homem é um homem.
E isso qualquer um pode afirmar,
Mas o Sr. Bertolt Brecht também prova
Que qualquer coisa se pode fazer com um homem.
Esta noite, um homem é remontado como um automóvel.
Sem perder coisa alguma.
O homem é abordado com humanidade,
Solicitam-lhe com ênfase, mas sem desavença,
Adaptar-se ao curso do mundo
E deixar nadar seu peixe privado.
O Sr. Bertolt Brecht espera que os senhores vejam
Que o solo que pisam se derrete como neve
E que percebam com o empacotador Galy Gay
Que viver neste mundo é muito perigoso."



Walter Benjamin. "Bert Brecht" (trad. Margot Malnic). In: Documentos de Cultura, Documentos de Barbárie. p. 124.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Aforismo de outono


Onde um homem chega à convicção fundamental de que é preciso que mandem nele, ele se torna "crente"; inversamente seria pensável um prazer e uma força de autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda a crença, de todo o desejo de certeza, exercitado, como ele está, em poder manter-se sobre leves cordas e possibilidades, e mesmo diante de abismos dançar ainda. Um tal espírito seria o espírito livre par excellence.

F. Nietzsche. Gaia Ciência. parag. 347. Imagem: Ferdinando Scianna. 1982.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Rumores impertinentes

Entre um trago e outro, entre um ruído e outro, entre um barulho e outro vejo deus escapar pelas fissuras de tantos fonemas desperdiçados...

Suspiros



Numa bela tarde de sábado aquele tímido estudante não se cansa de suspirar. Parece querer apagar toda a mácula das vicissitudes diárias ao botá-las fora juntamente com o ar de seus pulmões. Suspira profundamente; suspira como se aquele ar carregasse consigo o peso etéreo de uma vida. Deveras o suspiro é a forma pronta e acabada da tentativa sempre frustrada de evadir-se do tempo, de socorrer-se em outro estrato atmosférico, senão quando ultra-mundano. Suspiramos por um algo outro que não a nossa intransponível existência. Falhamos. Restamos presos à nossa existência independentemente da vontade de dela esvair-se. O jogo de posições que tramamos na intimidade de uma suposta vida racional é ex-pirado nos momentos ansiosos de uma existência capenga. O escândalo de nossa presença a nós mesmos parece querer dar mostras de desgaste no mais simples e singelo movimento de suspiro. Suspiramos pela eloqüência de uma língua edênica; suspiramos pela remoção de nossa presença a nós mesmos; suspiramos pelos desejos que nos restam como fagulhas a tilintar nossos mais banais movimentos quotidianos. Cada suspiro parece soprar um segredo inefável daquele ser que vergonhosamente se sufoca; expõe em segredo toda a presença agonizante daquele que suspira. Porém, o gemido insuflado do suspiroso pode também não remeter a nada além daquele ser lançado no mundo. Assim, o movimento que prova a existência, o sopro de um suspiro, é o mesmo que tenta negar a presença no mundo ao intentar provar o gosto daquilo que nunca foi, senão no assombroso confisco da existência banal por uma suposta existência superior (um ser essencial). O meu suspirar é o meio de remeter-me à tristeza do que nunca foi no instante mesmo em que é o desejo irreparável de suturar a falha do não-sido; é o restar no meio termo entre uma positividade tacanha (que suspira na ansiedade de cumprir um trajeto, sem saber que o trajeto é infindável) e uma negatividade mesquinha (que pretende saber seus impossíveis, mas que deles faz o objetivo mais próprio – ou seja, a constante lamentação da vida); é prostrar-se diante do tempo de nossa existência, isto é, responder às exigências da massa amorfa daquilo que vivemos de modo banal mas que, justamente por isso, é de certo modo por nós carregado como possível, como re-atualizável, ainda que suspiros outros (os frequentemente exarados pela má consciência) possam tentar ilidir essa nossa (quiçá única) responsabilidade.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Entre as cebolas...

Cildo Meireles, Desvio para o vermelho


Amigo,
Iria responder com choro às cebolas descascadas.
O lance expatriado da vida lançada às chamas do tempo operativo.
O termo inquisitivo de nossos pensamentos; sim, pungentes, però non troppo...
Não nos bastam as angústias? Amargamos, com a boca cheia de fel, a provável alegria da vida.
É, talvez não nos reste muito; é bom que seja assim... 
o momento, um único e relapso instante de ternura, nas nossas fatídicas rotinas.
A vida desbanca, engana e se apaga; se apaga.
A esperança de sentido último elide nosso momento.
Vida, vida sentida, vida leve; talvez o choro irrefreável e inesperado dos compostos sulfurosos da cebola.
Vida, vida vazia, que com seu odor de enxofre, talvez seja só o que é; sem rancores ônticos-ontológicos; sem expectativas...
Aliás, pura expectativa: a espera pelo momento primordial, pelo momento em que o sentido vai aparecer... conversa fiada!
É, acho que é nessa espera, ou talvez numa conversa fiada, que nós, que talvez não mais aguardamos nada além do aguardar é que devemos nos lançar. 
A vida começa e termina numa espera, nada mais que isso. Isso, talvez isso, seja o modo de suportarmos nossa presença insolente aqui, onde os corpos não são gloriosos; suportamos essa melancolia sem sentido da vida justamente porque nos são dados os momentos de espera. Não a espera por algo, mas a espera pela espera... restos de tempo, restos da outra-vida, essa sim que vida não é... acho que é nesse meio-tempo, em algum desvio, entre uma cebola e outra...  
abril/2009

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Sobre cebolas e ontologia



Uma das causas da grande melancolia da condição humana é saber que o suicídio também é justificável. Basta, para tanto, lembrarmos da cínica metáfora da cebola e suas relações com a ontologia. A vida, tal como este bulbo vegetal, é oca - constitutivamente. Paradoxo que lança uma tarefa interminável e fatigante, equiparável a de Sísifo, ao filósofo, este sujeito do descascar. Lembremos o étimo-jargão do exemplar de filósofo que, de forma manifestamente moralizante, não detém nenhum saber ou sabedoria, tampouco se apresenta como um sophos, mas apenas se aproxima da verdade através de uma relação de philia, relação que se basta nesta aproximação amorosa e sempre incompleta (já na sua simples existência enquanto pathos). Ora, saber que as categorias são folhas que podem levar a outras folhas - ininterruptamente e incansavelmente - até o estupor (e choro, no caso das cebolas) daquele que se lança às chamadas “perguntas fundamentais” - e não até ao encontro de uma paragem segura de descanso ou termo absoluto do fluxo do pensar -, não deixa de expor uma via (crucis) trágica, neurotizante e pesada que Nietzsche tentou combater com sua celebérrima desconfiança em relação ao que chamará de vontade de verdade (ao mesmo tempo uma vontade de impotência, uma vontade de nada... Para alguns ainda preferível frente ao nada de vontade, este que pode ser comparado ao pós-gozo de um contato visceral de peles, e não apenas com o clichê zen-budista muito ao agrado da ajuda-ajuda disseminada na filosofia acadêmica de plantão). Saber que não há um solo categorial unívoco (seja um significante primevo e necessário, sejam condições transcendentais ou a priori de possibilidade, seja o monótono monossílabo “Deus” do monoteísmo, seja um falo ou fala matricial, tutti quanti...) para ancorar o “ser” evidencia-se perturbador para “indivíduos” “fadados” à mais radical e absoluta das finitudes. Em outros termos, se não há um ancoradouro seguro para isto, o ser (nem o conceito de existência em Sartre ou nos fenomenólogos revelou abertura para tanto), estamos condenados, de forma definitiva e irrecorrível, à liberdade mais completa e profana, baseada tão somente no estar-no-mundo (ter nascido) e poder agir, começar algo novo, brincar com a fala, o falo e assim sucessivamente ou sem regras explícitas. Porém, o que revela o sem fundo e teto da grande e estúpida (não num sentido feio e grave para este termo, que também poderíamos traduzir por prosaica ou, a la Drummond, besta) cebola de nostra vita é o fato de que o nada, o oco, na cebola é, em similitude, o próprio nada que nos envolve e nos constitui, cebolas prenhes de nada e a ele destinadas. Para falar com clichês mais fortes: a vida, em termos cosmológicos, é um átimo. Um suspiro belo, aleatório, comovedor e dependente de canções fúnebres.

Começamos a digressão, contudo, falando do suicídio. Não cometeremos a gafe de citar Camus. O fato de saber que a vida é um sem fundo (não fundado e não fundamentável), por si só não é razão suficiente para o suicídio, salvo para os sedentos por verdades eternas e outros maníacos (mitômanos, em sua maior parte). O problema se desloca quando, em meio a esta vertigem nauseada do próprio “existir”, estabelecem-se os domínios dos imperativos e dos controles que buscam dar sentido à(s) vida(s), projetá-la(s) ou mantê-la(s) nos estritos códigos da sobrevivência, ou dos mais variados fetiches. Em outros termos, acabar com a contingência e a espontaneidade inerentes à vida besta e inoperosa. Não é à toa que os campos de concentração representaram um laboratório macabro para produzir o inferno da necessidade e do fundamento inescapável no mundo e aí - sim - colocar-se-ia, no plano factual, a questão de que o suicídio também pode ser justificado e pode representar um ato em si mesmo louvável e de não-conformismo. (A propósito, possui alguma “aura heróica” a sobrevida após o campo? Mesmo aquele que o testemunha já sabe que carrega em si uma má-fé atroz, uma vergonha, como apontou Giorgio Agamben, pelo simples fato de se saber sobrevivente na condição mais próxima do inumano que se possa imaginar, enquanto outros simplesmente naufragaram. Talvez o suicídio fosse a via mais coerente para não se deixar capturar pela máquina de morte, dispositivo que não propicia tão-somente a morte física ou a produção de cadáveres. As testemunhas dos Lager nazistas são aquelas que encararam a face do nada absoluto encarnado na técnica sádica de mortificação e que, logo após, com sua sobrevivência, depararam-se com as “muitas folhas para descascar” na sobrevida fora do campo, tendo de retornar, não raro, para as antigas e usuais profissões, com a exceção daqueles que optaram, por exemplo, pela atividade da escrita/memorialismo, tendo de atender, dentre inúmeros objetivos declarados ou inconscientes, a um mercado editorial específico, como Primo Levi).

Mas podemos evitar um argumento tão limítrofe. O dia-a-dia dos oprimidos na periferia das grandes cidades está baseado, de certa forma, na lei da necessidade travestida em “economia de mercado”, salários, dívidas, horários, etc. Uma alternativa factível e cínica, no sentido pejorativo do termo, para estas coletividades talvez seria o suicídio (que é politicamente e simbolicamente inócuo), o crime (que só respaldaria a totalidade parcial existente) ou a política, no sentido mais genuíno (e grego) da palavra, conceito que está muito distante do que se entende por “política” nos espaços institucionais atrelados ao aparato econômico-estatal. A política seria o encontro com as potências insondáveis, imprevisíveis e impredizíveis que estão no homem que age. Encontro com o tempo e com a vulnerabilidade não domesticada de saber-se homem, ser genérico, e pronto para mudar o rumo dos ventos do mundo. Mas não é à toa que o campo de concentração volta a ser um modelo para a análise da questão contemporânea. Lá era impossível a política (o suicídio é não-político por excelência, por isso uma saída limítrofe para uma situação de esvaziamento limítrofe da capacidade política humana de agir e começar, tal qual o campo de concentração), assim como, de maneira isomórfica porém com intensidades distantes, parece ser extremamente difícil uma política genuína em meio aos escombros do presente, a prótese de mundo existente entre consumidores isolados e amedrontados. Para os que não estão de má-fé e insistem em não sucumbir ao terror, restam o nada, a obscuridade do espaço doméstico-laborativo e... Uma navalha sempre à mão.

Porém, felizmente, ainda, o mundo dos escombros não pode ser objeto de um total controle: domínio pleno é o sonho tanatológico dos técnicos contemporâneos e pesadelo concreto a prenunciar a catástrofe ou o terror absoluto que se aproxima velozmente.

Notas de desespero: 1. os freios de emergência estão cada vez mais obsoletos e adormecidos.
2. Talvez a catástrofe já tenha tomado conta de tudo, inclusive de cada um de nós. Apenas ainda não pudemos percebê-la de nossas salas de homúnculos autômatos e solipsistas.
[25.03.09]