domingo, 22 de março de 2015

Carta à destinatária impossível


Para minha destinatária impossível.

A noite de sábado engole não só a luz, querida, mas também meu dedilhado neste teclado sujo em que, certa vez, talvez você tenha fixado demais o olhar. Acho que você estava aqui, sentada ao meu lado, neste apartamento pequeno, úmido e vazio. Ainda me lembro de "Pictures of you" soando leve, ainda me lembro das fotos de sua infância que você me mostrou, ainda me lembro de seu sorriso doce. Tomado de espanto, acho que acabo por inventar essa noite, ou a memória não é uma construção do futuro mais do que do passado? Acho que você nunca esteve a meu lado e que você não passa de um desses fantasmas solitários a zombar dos solitários bichos que pensam ser os únicos a falar. Querida, gostaria de poder não escrever esta carta, mas é ela que não cessa de não se escrever (e acho que você entende essa tola piada, não?). A noite segue longa e não paro de me perguntar o porquê das cartas, o porquê de eu ter escrito, até que me deparo com versos de um chileno à meia luz:

"Estuve enfermo, sin lugar a dudas
y no sólo de insomnio,
también de ideas fijas que me hicieron leer
con obscena atención a unos cuantos psicólogos,
pero escribí y el crimen fue menor,
lo pagué verso a verso hasta escribirlo,
porque de la palabra que se ajusta al abismo
surge un poco de oscura inteligencia
y a esa luz muchos monstruos no son ajusticiados."

Querida, nenhuma palavra que dirijo a você é capaz de ajustar-se ao abismo da nossa impossibilidade. Nada sutura a distância e jamais poderemos atravessar um campo florido que nos entregaria a um alegre abraço. São apenas mapas; aliás, sempre foram minhas cartas os mapas desse campo cheio de flores onde pássaros inventariam a infâmia e cantam sem que ninguém os ouça. As ideias fixas que atormentaram o poeta também desenham-se nestas palavras que talvez você lerá. Mas essas palavras desajustadas não podem dizer que há pouco era sábado, que eu lhe escrevia esta carta e que você, para mim, talvez sempre estará, tal como Flora, vagando à espera do Zéfiro que jamais aparecerá.

Do seu remetente impossível.  

Imagem: Sandro Botticelli. Primavera. (detalhe) 1482. Galleria degli Uffizi, Florença. 

domingo, 15 de março de 2015

A guerra civil paradigma da política



Stasis, de Agamben, conclui Homo Sacer.
Andrea Cavalletti 

“Hoje há tanto uma “polemologia”, uma teoria da Guerra, quanto uma “irenologia”, uma teoria da paz, mas não existe uma “stasiologia”, uma teoria da guerra civil”. A partir desse diagnóstico, Giorgio Agamben constrói seu novo livro, “Stasis. A guerra civil como paradigma político, Homo Sacer, II, 2” (Bollati Boringhieri, 2015): trata-se da reelaboração de dois seminários ocorridos na Princeton University, em outubro de 2001, que agora são reunidos e compostos como última peça do mosaico Homo sacer. Na ordenação de toda a obra, esse novo volume segue “Estado de Exceção” e precede “O Sacramento da linguagem”, isto é, situa-se no ponto nodal da seção II, dedicada às formas jurídico-políticas e ao governo, e que se conclui com a “genealogia teológica” da economia, ou seja, com “O Reino e a Glória” (cuja exata numeração é II, 4 e não II, 2, como se lê, por conta de um descuido, no frontispício).
É certo que Agamben não pretendeu colmatar a lacuna ao propor uma teoria stasiológica. Como anuncia no subtítulo, Stasis, antes, analisa a guerra civil como “paradigma” da política ocidental, isto é – seguindo um rigoroso princípio metodológico – como fenômeno singular que, com sua exposição, torna inteligível o contexto problemático mais amplo.
O primeiro seminário é dedicado à Grécia clássica e baseia-se nos trabalhos de Nicole Loraux, a mais importante e notória estudiosa contemporânea da stasis. O segundo, dedicado a Hobbes, é uma penetrante e muito inovadora leitura do Leviatã, desenvolvida como uma “iconologia filosófica”, ou seja, como interpretação da célebre água-forte do frontispício de 1651. Assim, de pronto mostra-se ao leitor que o confronto com a teoria do estado (e, em particular, com Carl Schmitt) não será velado nem sem implicações. Apenas o gesto genuinamente arqueológico pode, com efeito, atingir o teor político mais relevante.
Vamos pela ordem. De modo completamente inovador, rachando o duro lugar comum segundo o qual o nascimento da polis assinalaria uma superação do oikos, da casa, e dos primeiros vínculos de parentesco, Loraux mostrou como as guerras civis que agitam periodicamente a cidade grega provêm, na realidade, da família. Elas revelam, portanto, a persistência do poder do oikos no seio da cidade. Mas não apenas isso. A relação entre cidade e família é em grande medida ambivalente, uma vez que a própria reconciliação que põe fim à stasis é realizada (como na Sicília, em Nakone, no século III) por meio de uma nova ligação parental, a dos “irmãos por sorteio”. Mas por que a família implica necessariamente o conflito? E por que pode então se representar como forma de pacificação? Agamben relê as fontes e dissolve a ambiguidade: se é verdade que a stasis se situa entre cidade e família, ela, todavia, não provém do oikos, mas se produz em um campo de tensões polares que vão do oikos à polis vice-versa, confundindo o que pertence a uma e a outra, o íntimo e o estranho. Na guerra civil “a ligação política se transfere ao interior da casa” enquanto “o vínculo familiar se aliena em facção”.
Além disso, guerra civil funciona no mundo grego como “revelador” da política: quem nela não toma parte acaba, de fato, punido com a infâmia e deixa de ser um cidadão. Isso significa não apenas que a stasis é consubstancial à polis (exige uma pacificação e não deve dar lugar a ressentimentos, e permanece ao mesmo tempo uma possibilidade aberta), mas que a própria política é “um campo incessantemente percorrido pelas correntes tensivas da politização e da despolitização, da família e da cidade”. A interpretação paradigmática do fenômeno “guerra civil” torna, por fim, inteligível o domínio mais amplo: a política, assim como o mundo grego a concebeu e nos transmitiu.
O segundo seminário (Leviatã e Behemoth) põe à prova o paradigma stasiológico na teoria moderna ou securitária do estado, ou seja, exibindo-o em sua mais severa construção, o Leviatã de Hobbes. Estudando a famosa água-forte como um compêndio de toda a obra, Agamben descobre na série de emblemas e, sobretudo, nas imagens enigmáticas do gigante composto de homens (que é ao mesmo tempo mito e artifício, Leviatã e produto de um dispositivo óptico) e da cidade deserta sobre a qual ele se levanta, as chaves interpretativas dos conceitos fundamentais de Hobbes: o “corpo político” e as duplas populus / mutitudo dissoluta; civitas / status naturalis. A análise da iconologia religiosa (o monstro do Livro de Jó que dá título ao livro assume traços até mesmo demoníacos na tradição cristã) induz então a reler todo o livro a partir da terceira parte: a grande teologia que Hobbes chamava de sua “política cristã”. E é uma política escatológica, do Reino de Deus na terra.
Se a cidade da água-forte aparece vazia, argumenta Agamben, é porque o povo é um conceito contraditório e fantasmático. O povo, que só pode ser representado, desaparece no seu representante – o qual é, por sua vez, o fruto do engano visivo que compõe muitos seres em um só. Portanto, a multitudo dissoluta, única presença na cidade, se dá por conta da constituição do soberano. Mas ela é também o sujeito da guerra civil (Behemoth) que permanece assim inseparável do Leviatã como uma projeção do estado de natureza, da luta de todos contra todos, no coração da civitas. Behemoth e Leviatã convivem e, seja segundo a tradição (na origem talmúdica), seja segundo a lógica rigorosa (isto é, profética) de Hobbes, acabarão por matar um ao outro. Somente então, com o desaparecimento do estado profano, poderá afirmar-se, entre os homens, o Reino de Deus: a ficção da representação será apagada e a multidão restituída a si mesma.
Estamos, portanto, no lado oposto da leitura schmittiana, que, como é notório, vê no estado de segurança o katechōn, a potência que impede o fim do mundo. Ora, se Schmitt permanece hoje atual é porque desenvolveu, de maneira imprudente, a visão política ainda dominante, que trai o modelo grego e força o de Hobbes no sentido da associação, excluindo a tendência à dissociação. Justamente a manutenção do mitologema associativo (securitário) implica, entretanto, como é sempre mais evidente, a contínua exposição ao perigo. Um mais sombrio “revelador” do político toma assim o lugar da stasis: aos membro do povo Schmitt requer “o ser disposto à morte”.
Esse livro desvela uma outra perspectiva, messiânica e fiel ao paradigma stasiológico. Ela rompe o encanto mortífero reconhecendo na soberania uma ficção que será destruída. E não diz respeito a Schmitt, mas a Benjamin: o estado não é uma categoria do Reino, mas (sendo internamente disposto à dissolução) “de seu mais silencioso aproximar-se”. 

Texto publicado no dia 01/03/2015 no suplemento de "Alias" (pp. 3-4), do jornal "Il manifesto". Tradução: Vinícius N. Honesko.

Imagem: Capa (água-forte) da edição de 1651 do "Leviatã", de Thomas Hobbes.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Estudo sobre o olhar



Percorro as ruas vazias
sem cores e vertidas em palavras
os horizontes preenchem cada esquina
são os traços de uma voz que se foi
desde os dias em que as vistas
ainda eram sonhadas

Cada passo é uma volta ao mundo
estranhas vozes em línguas desconhecidas
no mais íntimo espaço das vias
respiratórias, urbanas, romanas

Piso um campo de flores
saio com perfumes verdes
soltos pelos olhos da moça
que há pouco eu beijava

O sonho do caminho perfeito
a retidão, o cristo morto,
os burocratas que se deleitam
com sua baba

Volto ao caminho, deito nas flores
e espero a moça
ela que nunca esteve aqui
e o deus da noite vazia
zomba da felicidade e dança
com minha sombra arredia

A esquina está distante
como o mundo, como o mundo
silêncios em cada horizonte
sístole, diástole, sístole diástole
e os burocratas quase se afogam
de tanto gozar com suas babas


Imagem: Gerd Ludwig. Pripyat, Ucrânia.

domingo, 1 de março de 2015

Pequeno parágrafo sobre um cruzamento



Há um desperdício de vida em cada instante, disse, mais ou menos assim, uma poeta. Mas o que de uso, de aproveitável é a vida, ou melhor, o que não se perde na vida? Dou alguns passos e chego numa avenida movimentada, um emaranhado de carros e fumaça, barulhos e gente incrustada em latas como mariscos num canto de pedra junto ao mar. Tento não pensar muito e desvio o olhar para as acácias que nestes tempos esbanjam um amarelo que Van Gogh talvez um dia aspirou pintar. Quando criança, tomava as pétalas das flores de acácia para brincar. Eram dias incautos que corriam soltos e todas as cores brilhavam com algum sentido de liberdade: havia vida num mundo por vir, havia amarelos desperdiçados com alegria. Mas isso é bobagem que agora penso e que outrora sequer podia ter qualquer chance de ser pensada já que se perdia com a vida. O cruzamento continua movimentado: por mim passa uma menina com fones de ouvido, no carro parado no semáforo alguém discute pelo telefone, o ônibus está abarrotado de gente, o sol começa a se esconder, buzinam os motoristas nervosos. E se todos tivessem uma alma, esta não estaria perdida à flor do dia ou mesmo antes de ter nascido? Mas escuto ecos de vozes: "isso é coisa de poeta à toa, o mundo real é duro como as latas das quais agora você desvia o olhar." Tento não pensar e me encosto num canto com a caderneta em mãos para tomar estas notas. Mas qual o porquê dessas palavras se a vida é desperdício? As folhas em branco poderiam por acaso ser tingidas pelo amarelo das acácias? É porventura possível seguir pela cidade sem imaginar que tudo, neste dia, já está gasto e perdido? Nossa sorte não é obra do acaso, do inescrutável acaso? A vida, qualquer vida, não é um tecido de citações perdidas e, por isso, justamente desperdício? Consigo, por fim, atravessar o cruzamento e começo a caminhar pela rua que me conduz ao trabalho: e tudo parece já ter sido dito, e a confusão dos barulhos agora soam normal, e a constância das horas parecem ritmadas, e a fragilidade dos projetos parecem ter sentido, e as coisas à toa podem ser apagadas, e as acácias já não têm nenhum amarelo, e a náusea me parece ser o único sentido compartilhado enquanto esperamos a redenção da catástrofe que já aconteceu.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sonho real



Há dias que fiz na opacidade minha morada:
e todos os verdes são tão iguais,
e qualquer palavra só faz o mesmo sentido,
e meus sonhos se tornaram reais.
Há coisa mais triste que um sonho real?
As árvores que só dançam com o vento
sem jamais se soltarem do chão,
e ondas de um sempre idêntico mar,
e cantigas de ninar à meia voz,
e amantes sorrindo como se só houvesse o amor,
e todos morrendo como se só houvesse a dor
e eu me perguntando:
pra que rimar amor e dor?


Imagem: Paul Gauguin. O Sonho (Te Rerioa). 1897. Courtauld Gallery, Londres.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Bater em retirada, um manifesto guerrilheiro



Texto achado no chão de uma ocupação da República, Pauliceia Desvairada, fevereiro de 2015.  


Os limites claustrofóbicos impostos às ações que busquem uma outra configuração da ordem do mundo – forma Estado-Capital mundializada, com suas dimensões tentaculares expressas no mercado internacional e na sociedade do consumo – debatem-se hoje com a impossibilidade da busca clássica por hegemonia, seja porque dificilmente conseguirão chegar às esferas decisionais sem alterar os princípios que fundamentam suas ações, seja porque não há mais um espaço comum de interlocução e convencimento político, associado desde o séc. XVIII ao termo “espaço público”, que poderia limitar ou interromper o vínculo de servidão das grandes massas à maneira estabelecida de vida, tornada naturalizada.

O que resta, portanto, à política, entendida como o campo de abertura das possibilidades de novas formas de vida? Em limites tão restritos, qual deve ser a estratégia? Como não sucumbir à derrota?

É preciso, antes de tudo, evitar as mistificações. Uma das características dos movimentos atrelados às mais recentes manifestações no Brasil, seja às chamadas jornadas de junho de 2013 como nas iniciativas contestatórias à Copa do Mundo de 2014, é a evidente negligência com a forma-Estado. Seja na maneira como buscam combate-la, em confrontos com os aparatos policiais que beiram ao ridículo – usando de fogos de artifício, pedras e instrumentos artesanais – ou na reação caricata quando surgiram as primeiras prisões: o apelo histérico aos  “direitos humanos”, às decisões judiciais “heroicas” no interior de uma máquina judiciária infame, à tentativa de separar drasticamente os detidos nas manifestações como “presos políticos” (pois, em sua maior parte, membros da burguesia) dos demais “presos comuns”, como se fosse possível fazer uma luta revolucionária dentro da legalidade, com proteções e imunidades em face do próprio Estado que visam destruir.

A iniciativa destes grupos apresenta-se como desastrosa, pois - com provocações distantes de uma estratégia abrangente e fundadas no puro espontaneísmo, dependentes do aparato espetacular da mídia (seus ativistas poderiam ser chamados de dublês de revoltados para consumo rápido dos telejornais, tendo como estereótipo vulgar a figura anódina do black-block), crendo piamente num fantasmático papel educativo do gesto veiculado massivamente, - levaram a um retrocesso na luta contra as forças policiais do Estado, fomentando de forma gratuita e não tática o fortalecimento destas, estimulando a opinião pública, facilmente cooptada pelos grades veículos massivos, a apoiar o fortalecimento e o estatuto intrínseco da polícia na contenção de tudo aquilo que pareça fugir à normalidade asfixiante. Aparatos policiais que já possuem um poderio técnico e de contingente cada vez mais inaudito. 

Disto se extrai uma importante tese em torno dos limites para ação política de esquerda: o estrito ativismo e a manifestação pública de massas apresentam-se inócuos no fim de superar as formas policiais do Estado em suas configurações contemporâneas. Os aparatos policiais se autonomizaram, mantendo-se impermeáveis à domesticação política, mesmo em nações ditas democráticas. Na sua configuração contemporânea, o poder policial se manteria mesmo na remotíssima hipótese de uma mudança de regimes, se isso fosse possível dentro do modelo político vigente. Esta autonomização e soberania da polícia se agrava em países onde o debate parlamentar apresenta-se como uma extensão da organização policial (vide a bancada da bala no Brasil) ou com poderes Executivos que usam da polícia como um ininterrupto braço de sustentação, mesmo em governos ligados a partidos autoproclamados "sociais-democratas".    

É preciso que a política de esquerda seja atravessada por uma preocupação com as dimensões técnicas, logísticas e a-significantes que determinam a forma-Estado no presente. Não basta um corpo-a-corpo com a polícia de forma amadorística, despreparada de artefatos e sem qualquer forma de organização. Uma política de esquerda que não encare de frente a manifesta superioridade da indústria capitalista de defesa, munida de armamentos impensáveis mesmo para as tecnologias existentes até o fim séc. XX (os Estados mundiais, hoje, podem dispor até mesmo de armas de micro-ondas capazes de conter levantes massivos em raio de quilômetros, desenvolvidas pelo Estado chinês), e que hesite em combater neste campo específico está fadada, de forma irremediável, ao fracasso.             

Obviamente, a dimensão do agir político, principalmente quando busca instaurar algo de novo no mundo, de forma não violenta, não está excluída de antemão. Ocorre que mesmo este agir estará condenado à impotência se limitar-se a ser apenas um instrumento reivindicatório no interior da forma-Estado estruturada. É impensável, nas condições do presente, imaginar um amplo levante revolucionário que levaria a minar a legitimidade do Estado, conduzindo, de forma automática, a um despertar de consciências, fazendo com que a própria polícia deponha suas armas e passe para o lado dos revolucionários. As últimas revoltas presenciadas no mundo árabe só nos demonstram um truísmo na política contemporânea: Estados sem qualquer resquício de legitimidade conseguem se manter a despeito desta “insustentabilidade” no plano dos princípios, mesmo quando atuantes na lógica do “um contra todos”. Os dispositivos policiais e de segurança permitem esta sobrevida fantasmagórica da forma-de-lei de maneira ininterrupta e com longa duração.

Portanto, toda a ação política de esquerda que pretenda um mínimo de coerência e capacidade de alteração das atuais coordenadas da forma-Estado, que não pretenda se limitar ao papel de gestora de um deus insondável chamado mercado internacional, tem de ser uma ação revolucionária.                 

Só a revolução, incluindo a luta armada em seu plano tático, no sentido sentido militar e não pirotécnico desta luta, tem chances de vencer e destruir o aparato policial, mas é preciso reconhecer que longe estamos das condições de uma revolução Russa ou Cubana nos países hoje assolados pelo capitalismo financeiro mais escandaloso. Primeiro, mesmo que a revolução conduza um grupo de pessoas ao poder, e que estes assumam a condução dos dispositivos estatais – não se pode pensar o Estado como uma unidade monolítica e mitológica – dificilmente conseguiriam instaurar uma nova forma das ruínas da antiga, dado que a presença do passado e da tradição é mais poderosa em momentos de declínio, e que não poderão e nem deverão contar com o apoio massivo da população deste determinado território: este apoio é imponderável e inevitavelmente entrar-se-á na fantasia da representação. Ou, no plano tático, seria muito difícil contar com tal apoio, visto que a guerra civil poria um termo nas comodidades cotidianas do homem médio capitalista (nas atuais condições, muitos pegariam em armas por uma conexão de internet ou para manter seu automóvel queimador de petroquímicos).

A revolução de nosso tempo só pode partir do reconhecimento de várias derrotas, está longe de adotar o vocabulário triunfal e otimista das revoluções do séc. XIX. Derrota dos princípios do Esclarecimento, de que seria possível educar e emancipar o homem pelo homem a partir do discurso racional e do livre convencimento (uma derrota imposta pela sociedade do espetáculo), derrota das possibilidades da política estatal, assimilada à vitória do mercado econômico sobre todas as esferas da vida humana: a metafísica do mercado auto-regulador só demonstra sobreviver no interior de um intricado hospedeiro chamado Estado. Derrota da ideologia de que inevitavelmente o progresso técnico, e com ele o futuro, carregará consigo melhores condições de vida.
   
Como reconhecimento da derrota, a revolução, hoje, só pode pode ser uma maneira de batida em retirada. Não pede tréguas, não foge, mas luta para evitar que a tragédia seja pior: que, no momento de sua derrota, abra flancos para que o inimigo desfira o golpe fatal. Ataque mortal às possibilidades intrínsecas de um movimento de esquerda efetivo (e não apenas fantasioso), algo que já está prestes a ser operado se o rumo da máquina que se tornou o mundo permanecer tal como está. 

O mito revolucionário oitocentista da guerra total, cujo corolário é a guerra civil global, está atrelado à suposição da busca por uma centralidade, seja do Estado, seja do poder, entendidos estes como entidades monolíticas.

A revolução, nas atuais contingências, só pode ser uma espécie de foquismo guerrilheiro.      

A revolução mobiliza, acima de tudo, novos afetos e novas subjetividades políticas. O(A) guerrilheiro(a) não teme, mas busca a ilegalidade. Não pode esperar proteções, imunidades, ou regalias do Estado que ele busca esfacelar. Sua posição é a mais perigosa de todas, exigindo uma disciplina ascética que poucos teriam a coragem de suportar. Na política, o(a) guerrilheiro(a) arrisca a própria vida.

Exemplo concretos, aplicados ao contexto brasileiro: 

Uma guerrilha rural lutaria para evitar que toda a região rural brasileira se torne espaço desertificado por pastos e grandes plantações de monocultura: não buscará derrubar os aparatos centrais, mas criar ilhas de emancipação e resistência de formas tradicionais de viver, ao estilo zapatista. Não pretende ir até ao deserto urbano, quer se proteger dos ataques que inevitavelmente sofrerá, não só do Estado, mas dos jagunços pagos pela grande indústria agropecuária – hoje, um dos cernes de sustentação do próprio Estado brasileiro. 

No campo, é preciso semear faxinais e comunas, fazê-los florescer e frutificar. Defender com armas e formas livres de produção as áreas ainda preservadas, agindo no apoio a índios, quilombolas e faxinalenses, mas também criando áreas autônomas que não visam a temporariedade. Para não ser dizimada, a guerrilha será um conjunto de colunas nômades, lembrando da experiência da Coluna Prestes. 

A guerrilha urbana, longe de atacar os prédios públicos e simbolicamente ocupar o poder, busca instaurar nas cidades multiplicidades de espaços para além do agenciamento estatal. Seus principais inimigos: grandes corporações financeiras, a polícia, especuladores imobiliários, a indústria petrolífera e suas irmãs em mutualismo predatório: a indústria automobilística e a política urbana voltada à construção de grandes avenidas para a circulação de automóveis, produtora de não-lugares e de lixo arquitetônico.

 A segurança e a seguridade, definitivamente, não são horizontes de um foco guerrilheiro.   

(Continua) 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Carta ao pai



Pai,

Há pouco eu estava na sacada, tal como você gostava de ficar nas noites de sábado. Bebi e bebi até que o céu escuro desta noite ficasse um tanto mais leve (e, imagino, talvez era essa sua sensação). Mas não sei por que lhe escrevo esta carta se jamais a lerá. Aliás, você jamais foi dado às letras e muito menos àquelas que grafamos num papel; seu mundo é o de uma boa conversa, de perguntas e invenções pelo simples prazer de se deixar iludir pelo inventar. Mas, continuo, por que lhe escrevo? Uma pergunta sem resposta, como as que fazemos diante do assombro que é viver. Contam-me que mamãe me pôs a ver a luz dos dias num nove de agosto em que vocês comemoravam dia dos pais. Era um almoço, na casa da vó - ela que, naqueles dias, perdera seu pai, o velho Aleixo -, e eu, ligeiro, não quis esperar vocês comerem. Vim como a dizer: "Ei, pai, feliz dia!" Mas só depois, com os anos, fiquei sabendo que para você não havia dia especial para nada, mas que todos os dias eram dias de todos.
Anos depois, mais uma vez numa data festiva, insisti em querer chamar sua atenção. Era vinte e sete de abril de mil novecentos e oitenta e sete, seu aniversário de cinquenta e um anos. Vitor e eu jogávamos bola no quintal de casa - e jogávamos, e jogávamos. E, depois de perdermos a segunda ou terceira bolinha de plástico, insisti para que mamãe me desse dinheiro para ir à venda buscar mais uma bolinha. Claro, ela, trancando-me no quintal dos fundos de casa, colocou-me de castigo (porque, com razão, uma criança tinha que ter limites). Sozinho, naquele pátio, corri e, com toda minha força, chutei a porta de vidro que separava a garagem de fora da garagem de dentro, como chamávamos; e, se hoje escrevo, é por ainda lembrar de ver aquela artéria que pululava na minha coxa direita toda rasgada. Lembro-me, e isso nunca havia contado a ninguém, que no caminho do hospital, enquanto eu gritava, no banco traseiro daquele Fusca cujos dois ocupantes hoje jazem mortos, de o ter visto passar, pai. Era hora de almoço e você voltava do trabalho para casa enquanto eu, seu presente de dia dos pais, quase lhe dava, como presente de aniversário, minha morte.
Mas você nunca ligou para presentes, pai; qualquer festejo para o tempo cronológico era, para você, uma bobagem. Quantos aniversários, natais, révellions etc. em que, durante os festejos, você dizia: "Isso é tudo comércio". Os calendários quase em nada lhe diziam respeito, afinal todo dia era dia de tudo. Só muito depois é que fui me dar conta de que seu modo de perceber o tempo, sempre como uma oportunidade, poderia ser dito tempo oportuno, aquilo que os gregos (de quem você, com seu primário na escolinha ucraniana do Jangadinha, jamais ouvira falar) chamavam kairós (e que um filósofo alemão - que você também não conhece e nem teria nenhuma razão para tal - chamava de tempo-do-agora, Jetztzeit na língua que seu pai, meu dido, pelas necessidades de imigrante em terra alheia, também falava).
É nesse mesmo grego, pai, que certa vez um maluco, que se chamava Saulo, iria escrever um monte de cartas a partir das quais um monte de outros malucos iriam pensar isso que a gente chama de cristianismo (e o seu - que, na verdade, a você pouco interessava, e que você fazia questão de chamar ortodoxo - me fascinava naquelas míticas viagens ao sul, em que meus irmãos e eu, ainda crianças, ingressávamos num mundo a nós de todo desconhecido). Em algumas dessas cartas - infelizmente tão mal lidas e usadas como instrumento de dominação, pai - é que o tal Saulo (que depois resolveu chamar a si mesmo de Paulo) fala sobre a gratuidade da vida, sobre o que, em grego, ele nomeava charis, ou, para falarmos português, graça. A tradição latina, pai, que não lhe diz respeito (os ortodoxos estavam ligados a outras leituras), traduziu charis por caritas (poderíamos dizer: amor, afeto) que, por sua vez, ganhou uma versão, numa espécie de erro dissimulado, na ideia de caridade, de obra (a famosa ideia da obra necessária à : isto é, o esquecimento volutário da gratuidade da charis, da gratuidade do amor). Hoje, pai, como você bem o sabe, essa gratuidade já é de todo tomada pela lógica capitalista da esmola, do dar em vistas de uma recompensa vindoura, aquele famoso "deus lhe pague".
A graça é, pelo contrário, o que você desde muito cedo nos ensinou: pura gratuidade, dom que nos é dado pelo acaso da existência e que, portanto, é sempre ligado não ao ritmo do tempo homogêneo e vazio a ser preenchido por ações (o tempo devorador da vida, que os gregos chamavam Kronos e os romanos Saturno - os mesmos, travestidos em outras linguagens, a quem as comemorações ofertadas você tanto desdenhava), mas ao tempo oportuno, à vida que se doa, ao mero e banal estar no mundo para, de certo modo, tentar a boa vida, a vida feliz, que tanto e tanto atordoa quem quer que se dedique a pensar (e a viver) a ética ou a política (desculpe, pai, mas essas palavras que podem parecer tão bizarras hoje, e das quais, nas suas vertentes idiotizadas do mundo contemporâneo, você nos poupou, são parte do que você nos ensinou sem o saber). A graça da vida, pai, garante-nos, contra todo o aparato das teologias oficiais - dessas coisas com as quais você, com razão, nunca se preocupou -, a possibilidade de nem mesmo pecar (e você, um amante inveterado da boa mesa, sempre dizia, nas épocas de quaresma em que tolos lhe falavam sobre as interdições alimentares: "pecado é o que sai da boca, não o que entra").
De graça você nos deu a vida, pai; de graça nos ensinou que nada é perene na vida e que a vivemos para nada, ainda que não em pura perda. Só tenho a lhe agradecer por me ter doado a vida e, zeloso, ter mostrado que ela é pura gratuidade: e, mesmo que ela não leve a nada, que seja para nada, ainda assim não é em vão. E me lembro do velho Eclesiastes que, com sua vaidade enobrecida, sugeria, equívoco atrás de equívoco, ser tudo vão, tudo vaidade e, além disso, haver um tempo estruturado para cada coisa (tempo de plantar, tempo de colher, tempo de nascer, tempo de morrer etc. etc.). Penso que você, mesmo sabendo das coisas da terra, como bom homem do campo que era, intuía o tempo e a vida em outros moldes, nas vias da gratuidade, talvez como um outro judeu, pai, que, em poesia, também fala sobre o tempo e os infortúnios do Eclesiastes:

"Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.

Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.

O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.

Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,

com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.

E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir
o que a História necessita de anos para fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece,
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.

Só o seu corpo permanece sempre
um amador.

Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,

embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,

as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar

onde há tempo
para tudo."

Tempo para tudo, pai, é o que agora nos afasta lentamente. As margens do rio da vida que começam a se alargar num grande delta no infinito do sem sentido, o grande mar da morte. Você nos conta que a última vez em que viu seu pai, o dido, ele, já velho, fraco e ciente de que você, então longe da colônia, talvez nunca mais voltasse a vê-lo, lhe disse: "Vamos nos despedir já, porque você tá longe e depois não quero que venha correndo pra me ver morto". Esse sim, pai, é o adeus de que fala um escritor argentino super famoso, e que você também não conhece (mais uma dessas coisas que você me deu, gratuitamente, a possibilidade de conhecer); é o adeus de quem sabe que é imortal à medida da própria mortalidade, à medida em que sabemos que todo gesto nosso, sobretudo nosso adeus, tem o valor do irrecuperável e do inditoso, à medida em que vivemos para nada, mas não perdemos tudo e que, nesses gestos, restam as fagulhas da gratuidade que é a vida.
Pai, um poeta russo chamado Maiakovski certa vez disse que qualquer "eu te amo", mesmo sussurrado ao pé do ouvido, é como uma sirene repercutindo numa aldeia consumida pelo fogo. Nestes dias tão difíceis é só ao pé do ouvido que lhe falo - e você sabe que nem mesmo precisaria falar, pois isso nos dissemos, sem palavras, em cada cuia de chimarrão que tomamos juntos, em cada vinho e cada cachaça que bebemos, em cada minuto de silêncio das caminhadas que fazia com seu filho adolescente gordinho que precisava emagrecer. Esta carta - sei, pai, talvez um pouco longa - é a sirene que deixo soar na imaginária aldeia onde partilhamos nossa existência.

Um beijo amoroso do seu piá do meio...

p.s.: mando uma foto dos seus piás em anexo, pá...