domingo, 21 de dezembro de 2014

Estudo sobre a memória IX



Durma morte, minha irmã,
no coração dos apavorados
ainda sórdidos e mesquinhos.

A vida em tons arredios e ocre
pinta a porta de entrada e
se desfaz arrazoada e tola.

Entram santos e guerreiros
onde antes habitavam
a miséria, o luxo e o vento.

Desfaça, amada irmã,
o laço entre o sono e o sonho
e me convida a bailar
a última dança da noite.

E todo som e toda voz
serão silenciados em palavras,
e não restam poemas
tampouco amargor na boca.

Apenas a brisa suave do vento
que insiste em soprar
na porta de entrada que deixo,
para sempre, escancarada.


Imagem: Paul Gauguin. Eva bretã. 1889. McNay Art Museum, San Antonio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Presença do amor



O tempo do amor é o presente
o presente que tudo contém
a aparição real de tua alma e teu corpo
o ilusório de ti
teu encantamento
também tua distância
às vezes só um nome
e uma voz que eu escuto claramente a meu lado
és um sonho, és um pássaro ou o rumor de uma fonte?
e mesmo que estejas ou não estejas
sonho e pássaro e fonte
detiveram o tempo
como na velha cena
contada em uma fábula.

Grande desventura tua ausência
que eu procuro em vão conjurar
como vês
com pobres artes de imaginação
a pequena moeda que é dada
ao homem solitário
que te faz viver em sua memória
como uma gazela perdida no bosque
e encontrada na noite do regresso:
porque foste quem eras de vez
em uma hora
de esplendor não abolido
uma hora que sempre é o presente
e é todos os momentos
como tu
sempre igual a si mesma.

Pedro Lastra. Presencia del amor. In.: Antología del extranjero. Bogotá: Ediciones Brevedad, 2002. pp. 72-73 (trad.: Vinícius Honesko)

Imagem: Gustav Klimt. A fecundação de Dânae. 1907.  Galerie Würthle, Viena.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Carta à destinatária impossível



Para minha destinatária impossível

Querida, esboço laços solúveis entre as palavras e as coisas, mas nenhum deles dura mais que alguns segundos, uns poucos instantes entre um piscar e outro, entre a visão de Íris (a deusa das mensagens divinas) e a íris, que abre a porta de entrada da luz. A cada piscar, lembro-me de você soltando os cabelos, do mesmo modo como agora tento soltar esses laços que acabo de esboçar. A carta se faz presente pouco a pouco, tingindo a folha branca que, como a fita que prendia seus cabelos, agora se desfaz em letras soltas. Mas o presente, que é sempre a condição de uma carta, é também o futuro que se verte em palavras, na ânsia de estar aqui, desenhado, e nada mais. Drummond uma vez lhe enviou uma tartaruga de futuro, mas eu, na condição de passado, encho de areia as rugas da carapuça e finjo ser ela a ampulheta da felicidade, uma outra porta à luz que Íris insiste em mandar. Talvez minhas palavras hoje lhe soem confusas, querida, mas fundido em desesperança estão meus sonhos, todos eles já sonhados outrora, no mundo que jaz no laço que, mal esboçado, solta-se no chão do quarto por onde zanza a tartaruga e onde porventura vivemos noites confusas: meus pés com os seus, minhas mãos com as suas, seus cabelos com os meus. Mas por que lhe digo isso se você é apenas o impossível? Por que escrevo mais uma carta que só diz impossibilidades? Talvez porque certas palavras são demasiado duras para não serem escritas, para permanecerem guardadas nas coisas. Porém as coisas não querem palavras para dizê-las e, assim, riem do meu laço que se esvoaça na distância que esta carta tenta preencher. Para que insistir, me pergunto. Para que tecer sentidos se dos cinco que temos nenhum é capaz de dizer palavra? Por que as imagens de Vermeer continuam a me sondar como se as cartas que leem suas mulheres fossem estas que lhe escrevo? E por que não pensar que, de fato, você poderia ser uma dessas impossíveis mulheres do pintor? A confusão das noites agora é toda minha, querida. Já não há seus pés, suas mãos e seus cabelos, mas apenas esse laço solúvel que se desfaz a cada letra que rabisco.

Do seu remetente impossível.

Imagem: Johannes Vermeer. Mulher com sua empregada segurando uma carta. 1667. Frick Collection, New York.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Amor I



Eu, que nunca soube o que é o amor,
sempre disse: eu te amo.
Mas tampouco sabia o que era eu.
Agora, talvez, só me resta uma dúvida:
eu te amo?


Imagem: Tiziano Vecellio. Amor sagrado e amor profano (detalhe). 1514. Galleria Borghese, Roma.



domingo, 30 de novembro de 2014

Caproniana



A palavra só diz
quando se diz:
ninguém disse palavra.


Imagem: Vincent van Gogh. O semeador. 1888. Rijksmuseum Vincent van Gogh, Amsterdam

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

À destinatária impossível


Para minha destinatária impossível.

Querida, por trás de cada desenho esconde-se a mão, o sopro de seus ágeis movimentos e o segredo arredio dos olhos que acompanham as linhas no papel. E o mundo se torna um erro nesses traços. Erro que não erro, mas que me leva adiante, querida, a um mar sem céu e sem ondas onde um dia erramos o lugar de nosso impossível encontro. Há um movimento também nas minhas mãos, mas meus olhos se escondem do que por elas, tão arredias, é gravado. O que era uma bússola a guiar meus sonhos, hoje é apenas uma esfera vazia, tal qual meus olhos perdidos em devaneios nesse mar sem ondas. Talvez aqui espere pela próxima lufada de vento, talvez aqui em mim sejam despertas - por não sei qual deus das águas - novas palavras com as quais desenhar um novo mundo, no qual não mais volte a perceber sua impossibilidade. Mas tudo isso são conjecturas, querida, como a vida que há pouco dava adeus ao poeta que cantava passarinhos. Não digo que este dia da despedida já chegou, ainda que o deus desconhecido das águas desde há tempos me fala que esse dia já passou (e desconfio pois o deus e o dia são a mesma coisa, são a luz que sobra em meio às sombras do uni-verso). Como dizer a você que já não há tempo para tudo, que não há tempo para cada coisa? Como dizer que o Eclesiastes estava completamente equivocado? Esta carta, escrita tal como as milhares de cartas dos marujos dos séculos, só diz que o mar ainda é grande, querida, e que talvez eu não consiga me livrar da falta de ventos e, sem eles, jamais encontre em você qualquer possibilidade. E cada desenho se faz mais incompreensível, e nenhum sopro de mãos parece dar conta das linhas, e todos os olhos carregam olhares vazios. Por que insisto em lhe dizer? Por que uma carta nova me surge a cada vez que mergulho a mão neste mar sem ondas? Não penso respostas e, tão logo tomo em mãos o papel que logo será seu, volto a errar o velho mundo, um velho mundo, o meu velho mundo, o único em que ainda posso traçar, em erro, um destino que jamais poderá cruzar com o seu...

Do seu remetente impossível.


Imagem: Johannes Vermeer. O astrônomo (detalhe). 1668. Museu do Louvre, Paris.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Estudo sobre a memória IX


A Manoel de Barros

É tempo de experimentar o tempo,
e as musas, as ditadoras do país da poesia,
sondam e espreitam o momento oportuno
para o próximo golpe.
Com as musas, um poeta tentou trocar olhares,
mas elas eram todas cegas.

Ah, gente tão pura recolhida na luz e nutrida de silêncio!
Amarrei, também eu, meus sonhos no poste da vida:
por que já pretendes ir, Manoel?
O tempo não é todo ele de sonhos?
Ainda é preciso muita inutilidade,
muita sombra no império da lucidez.

E minha musa cega perde também a palavra.
Silenciosa e muda, agora me dita em outra língua:
a dos mapas perdidos, a das cartas extraviadas,
a de um mundo que se foi.
O tempo se soltou do poste e correu
para um jardim onde, cegas e mudas,

passeiam nuas as inúteis musas de outrora.


Imagem: Johannes Vermeer. Mulher dormindo à mesa. 1657. Metropolitam Museum of Art, New York.