domingo, 8 de novembro de 2009

A vida não é argumento

Armamos para nós um mundo, em que podemos viver - ao admitirmos corpos, linhas, superfícies, causas e efeitos, movimento e repouso, forma e conteúdo: sem estes artigos de fé ninguém toleraria agora viver! Mas com isso ainda não são nada de demonstrado. A vida não é argumento; entre as condições da vida poderia estar o erro.
F. Nietzsche. Gaia Ciência. parag. 121.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Visões da carne infinita...

Marta Hoepffner. Nudo, movimento, solarizzazione, 1940.
Fico assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar sub-repticiamente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de "uma verdade".
Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe nada existiu! Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.
A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida.
Mas como faço agora? Devo ficar com a visão toda, mesmo que isso signifique ter uma verdade incompreensível? ou dou uma forma ao nada, e este será o meu modo de integrar em mim a minha própria desintegração? Mas estou tão pouco preparada para entender. Antes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam uma sensação física de incômodo, em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa. Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os esbarros de minha pouca inteligência, e eu desdizia caminho. Sabia que estava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele. Como pois inaugurar agora em mim o pensamento? e talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão.
Já que tenho de salvar o dia de amanhã, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizada, já que fatalmente precisarei enquadrar a monstruosa carne infinita e cortá-la em pedaços assimiláveis pelo tamanho de minha boca e pelo tamanho da visão de meus olhos, já que fatalmente sucumbirei à necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar indelimitada - então que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma se forme sozinha como uma crosta que por si mesma endurece, a nebulosa de fogo que se esfria em terra. E que eu tenha a grande coragem de resistir à tentação de inventar uma forma.
Clarice Lispector. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. pp. 14-15.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sobre estar preso


Jogado num canto vazio de uma dessas salas da existência passo as horas. Sinto o frio do piso. Um frio invasivo, pegajoso, soturno como o rato apodrecido logo ali. Rato. Eu que o comi? Morreu e apodreceu sem que eu tivesse participado desse enredo? História suja, piso frio.

A hora do medo. Medo de que? Vida e morte... mais um dos pares dialéticos. A fedentida me enoja e horroriza. Quero distanciar-me dessa sala, quero a certeza de que o frio é irrisório e risível. De nada adianta. As pegadas que deixei na entrada da sala não podem ser apagadas. Cá estou, dentro. A luz branca está acesa; os candelabros são inúteis e, por isso, estão vazios; as velas que acalentam não podem ali estar.

O piso frio me invade. Sou o piso. Mania de sentir-se vivo, mania de passar as horas, mania de olhar para as paredes dessa sala e tentar ver, tentar sentir, tentar não ser o piso. Branco. Palavra branca como a parafina das velas que deveriam ter sido queimadas. Já não estão mais lá. Vazios estão os candelabros. Clamores pelo arredio são sons inuteis que bajulam e fazem rir. Rir pela dor da prisão... Fogo da vida, fogo da morte... consomem, consomem-se. Dialética da prisão. E ali está o rato...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

De aparência em aparência...

D.E.: Terminar uma série de livros como as Mitológicas com essa constatação desiludida de que, dos empreendimentos do homem, "nada" resta, é quase proclamar um credo filosófico. Já pretenderam enxergar nesse "nada" a expressão de sua filosofia profunda.

L.S.: Nunca disse isso. Disse que o homem devia viver, trabalhar, pensar, manter a coragem, embora sabendo que não estará sempre presente na Terra, que esta Terra um dia deixará de existir, e que, nada restará de todas as obras do homem. Não é exatamente a mesma coisa.
Minha "filosofia profunda", como você diz, tropeça nessa contradição e curva-se diante dela. Tudo o que os físicos e os biólogos ensinam me apaixona; nada estimula mais minha reflexão. Ao mesmo tempo, parece-me que cada problema resolvido, ou que acreditamos resolvido, faz surgir novos problemas, e assim por diante, indefinidamente; de modo que nos compenetramos cada vez mais da certeza de que nossa capacidade de pensar é e permanecerá sempre indequada ao real, de que a natureza profunda do real escapa a qualqer esforço de representação. Foi Kant quem primeiro nos ensinou isso. Mas Kant, que se moldava a um poder de conhecer irremediavelmente enfermo, devido a algumas antinomias, esperava encontrar na vida moral um fundamento absoluto. Hiperkantiano, se me permite dizer, eu englobo a vida moral na problemática da razão pura: ela também tem suas antinomias, impossíves de superar. E mais ainda; porque se o conhecimento científico abre-nos para o imensamente grande e o imensamente pequeno de perspectivas bem mais vertiginosas do que Pascal imaginava, ele nos demonstra nossa insignificância. Quer desapareça a humanidade, quer desapareça a Terra, nada mudará na marcha do cosmos. Donde um último paradoxo: não temos a mínima certeza de que esse conhecimento que nos revela nossa insignificância tenha alguma validade. Sabemos que não somos nada ou que não somos grande coisa e, sabendo-o, nem sequer sabemos se este saber é um saber. Pensar o universo como imensurável pelo pensamento, obriga-nos a pôr em dúvida o próprio pensamento. Não saímos disso.
Então, como fica o ceticismo radical que você parecia imputar-me? Não existe. Porque mesmo que nos dediquemos a andar de aparência em aparência, não é indiferente saber que é sensato parar em algum lugar, e onde parar. Entre as aparências superficiais e a busca estafante de um sentido por trás do sentido que nunca é o certo, uma experiência plurimilenar parece mostrar que existe um nível intermediário em que os homens sentem prazer em situar-se, porque lá encontram mais conforto moral e intelectual, lá sentem-se melhor ou menos mal que em outra parte, sem recorrer a outras considerações se não as hedonistas: esse é o nível do conhecimento científico, da atividade intelectual e da criação artística. Pois bem, então nos apeguemos a isso e, resolutamente, "nos comportemos como se", a fim de acreditar nisso para todos os fins práticos, não sem, de tempos em tempos, acenarmos com um signo de inteligência para um memento mori que engloba nosso universo e, com ele, nós próprios.
Claude Lévi-Strauss & Didier Eribon. De Perto e de Longe. São Paulo: Cosac Naify, 2005. pp. 228-230.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Bloom


Cuando lo veo caminando por la calle, siempre me parece que está gozando de un descanso, de un descanso total. Nadie lo espera, y él no desea llegar a ningún sitio ni encontrarse con nadie. No. Pasea para estar consigo mismo. Tampoco lo hace por razones de salud. Camina. Camina porque nada lo detiene. Me imagino que si en su camino encontrase un muro alto y extendido no se alteraría en lo más mínimo. Tomaría otra dirección, y si esta tampoco fuese practicable, la volvería a cambiar y seguiría caminando, las manos apenas sacudidas por el movimiento natural de todo su cuerpo y las piernas trabajando sin esfuerzo alguno para alargar o apresurar el paso. No. Su paso es verdaderamente suyo y de nadie más, y no puede ser ni alargado ni acelerado. En reposo, todo su cuerpo es el de un deportista: cuando se mueve, el de un niño disminuido por el gran amor de sus padres. Yo sé que la vida no ha sido una madre cariñosa con él. De haber sido peor, igualmente el señor James Joyce hubiera conservado el aspecto de una persona que considera a las cosas como puntos que rompen la luz para divertirlo. Lleva gafas, y por cierto que las usa desde la mañana temprano cuando se levanta, hasta bien entrada la noche. Tal vez vea menos de lo que se pueda suponer por su aspecto, pero da la sensación de una persona que se mueve para ver. Seguramente no es capaz de combatir y tampoco lo desea. Va por la vida esperando no toparse con mala gente. De todo corazón le deseo que esto nunca le suceda.



Italo Svevo. James Joyce. Barcelona: Argonautas, 1990. p. 62
Imagem: Paris 1929. James Stephens, James Joyce, tenor John Sullivan

quarta-feira, 29 de julho de 2009


o embarque, no cais, e desde então
o mar é uma extensa e incessante
saudade salgada



Imagem: Mark Power. FRANCE. Port-en-Bessin-Huppain, 1995. Magnun Photos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Dois pensamentos de Monsieur Teste

Deve-se entrar em si mesmo armado até os dentes.
Liberdade - Generalidade. Tudo o que faço ou penso não é mais do que Espécime de meu possível. O homem é mais geral que sua vida e seus atos. Ele é como que previsto para mais eventualidades do que pode conhecer. Monsieur Teste diz: Meu impossível nunca me abandona.

Paul Valéry. Monsieur Teste. Trad. Cristina Muraschco. São Paulo: Ática, 1997. pp. 117 e 126.