quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Porra nenhuma


Não acredito em porra nenhuma!
Nem na porra que fecunda,
nem na porra imunda que escorre
pelas coxas de uma amada qualquer.

Nem na porra do saco de Urano,
saco este do céu lançado por seu filho,
Saturno, ao mar, logo após a castração.
Nessa porra com sangue e espuma que,
numa concha, gera o amor, Venus,
a bela deusa que não é mais do que
porra, sangue e espuma.

Não acredito em porra nenhuma,
porque fiar-se é aceitar a chantagem
de Ariadne e, tal como Teseu,
ser obrigado a voltar, ainda que
desejoso por tudo abandonar.

Imagem: Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi. Castração de Urano. 1560. Afresco do Palazzo Vecchio, Florença.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequeno delírio em parágrafo XX


No dia, em todo dia, há um momento em que a luz se faz lúgubre som de revolta. Todas as cores e odores, os sonhos tolos de outrora, a manhã que prenuncia as vontades de uma liberdade perdida, tudo se faz som obtuso de revolta. Escuto os passos daqueles que já se foram e que não olharam para trás. Mas isso não é senão o eco da voz divina no latido de um cachorro, este mesmo que por mim acaba de passar correndo. Os homens cruzam-se pelas ruas e pensam ser monolitos duros no turbilhão da vida. Não percebem sua desgraça? Não conseguem ver que nenhum sentido é possível no latido daquele cão? Anjos com asas estilhaçadas agora escutam meus pensamentos: "Achas mesmo que qualquer luz lhe é permitida?", me perguntam. Evito esboçar respostas em sua língua, pois, de qualquer forma, não me escutariam. Continuo a passos lentos, aturdido pelo latido, mas já sem nenhum medo. E agora escuto outra voz, a de um poeta centenário, que, com ironia nos lábios, desdenhava das vozes angelicais: 

"así pasa la gloria del mundo
sin pena
             sin gloria
                          sin mundo
sin un miserable sandwich de mortadela."


Imagem: Lucas "the Elder" Cranach. Judite segura a cabeça de Holofernes. 1526-1530. Staatliche Museen, Kassel.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pequena nota sobre os "coxinhas"



Uma dimensão da utopia, das mais utópicas, é a que Barthes lê em Sade: "A utopia sádica mede-se muito menos pelas declarações teóricas do que pela organização da vida cotidiana, pois a marca da utopia é o cotidiano; ou, ainda, tudo o que é cotidiano é utópico: horários, momentos de refeições, escolha de vestimentas, instalações imobiliárias, modos de conversar ou de comunicação...". No fluxo das horas, no irremediável e patético comportamento do homem médio, não há mais do que a singela e pura utopia. No não-lugar que é sua vida, na abstração em nome do programa da felicidade (sempre prescrito por preceitos, por demandas, por esperanças), instala-se o horizonte utópico chamado cotidiano: a forma pernóstica de desdenhar a urgência do pensamento e da luta diária contra as formas de destruição e cooptação da intensidade da vida. E nada mais cretino do que a maneira de portar-se do "coxinha"**, esse homem do cotidiano, incapaz de pensar e que dessa sua incapacidade vangloria-se (se vivo, certamente Pasolini daria ao "coxinha" os atributos que dera ao homem médio: um monstro, fascista, racista, sexista etc.). O "coxinha" nem ao menos se dá conta de seu sadismo (e, em certa medida, o "coxinha" também faz o papel de masoquista ao gozar com o fato de perceber que a lei - esta, personificada nessa fantasmática figura que é o cotidiano - goza ao humilhá-lo). Aliás, sequer percebe a utopia, em seu pior sentido, que é a organização de sua vida: uma vida da lei, da ordem, da estruturação sagrada da família - em suas dementes formas cripto-cristãs, católicas ou protestantes -, da estabilidade, do necessário, da completa e invariável falta de imaginação. Uma vida utópica e forjada nas certezas de que há uma felicidade plena a ser alcançada e que a alcançará tão logo cumpra todos os requisitos de passagem; ou seja, como sádico que é, deve organizar todos os procedimentos para, ao final, gozar até não poder mais (e a imagem do véu e grinalda e dos carrões ocupando suas garagens no presídio chamado condomínio de luxo são os amuletos de seu imaginário pobre e construído doutrinariamente pela TV, pelos espúrios jornalões e semanários e pelas subcelebridades das redes sociais). Com ardor do crente, o "coxinha" briga pelo cotidiano, afinal, é a única utopia (da qual, diga-se, não se dá conta) que lhe resta.       

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Maria vai com as outras



Maria, vai com as outras
e leva também sua saliva
babada em minha boca.

Maria, corte o tempo do adeus;
com as outras com quem veio
vai agora correr ao seu deus.

Maria, quem diria, Maria,
que na música que escutava
iria ouvir minha voz sussurrar:

é tempo de Maria ir com as outras.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Carta à destinatária impossível



Para minha destinatária impossível.

Querida, acordo em meio à madrugada com o som da chuva. Lembro-me de que Borges certa vez disse ser a chuva algo que sempre acontece no passado, e que quem a ouve cair retoma o tempo em que a sorte venturosa revelou uma flor chamada rosa. Não sei se esse tempo que nesta madrugada me acorda trouxe a sorte ou apenas a sua imagem num passado distante, no qual chuvas torrenciais fizeram com que me esquecesse de meus sonhos. Um lamento? Não, querida, aqueles sonhos, como tudo passível de ser sonhado, eram apenas parte de um dos mundos desde sempre ancorados no passado, tal como esta chuva que hoje - ou ontem ou não sei quando - me acorda. E com esses sons do passado, sussurra-me ao ouvido o poeta que amava o perdido sabendo que "... as coisas findas / muito mais que as lindas / essas ficarão". Pode parecer um jeito estranho de acordar, querida, mas há algo mais estranho do que recobrar a consciência depois de uma noite de sono? Não seria o acordar a maneira cotidiana de iludir a finitude, de imaginar que o os sonhos não compõem senão desejos perdidos, imagens despedaçadas da esperança? O fim das coisas é o início de sua permanência e, como esquecidas, elas batem à minha janela junto com esta chuva impertinente, querida. E por que volto a lhe escrever, como que em meio ao sem sentido dos sonhos há pouco interrompidos? Esta carta, querida, mapeia apenas os rastros das gotas da chuva na janela e por certo não lhe diz nada de novo, nem revela nenhuma flor chamada rosa. Pode ser que você a rasgue tão logo a leia - e, penso, faz bem. Mas, porquanto findo, talvez este mapa um dia desenhe em algum sonho seu os rastros desta chuva, deste passado, que insiste em cair...

Do seu remetente impossível. 

p.s.: na minha mania de pós escritos, digo que, junto à carta, encaminho mais um dos estudos sobre monstros do Bosch - no passado creio ter lhe enviado alguns, não? (E, penso, não seriam estas minhas cartas também uma espécie monstruosa de estudo?)


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Onde alguém reconhece a própria força



Em suas derrotas. Onde fracassamos devido à nossa fraqueza, aí nos desdenhamos e nos envergonhamos dela. Mas onde somos fortes, aí desdenhamos nossas derrotas, aí nos envergonhamos de nossa má sorte. Reconhecemos nossa força através da vitória e da sorte?! Quem, pois, não sabe que nada nos revela tanto como elas mesmas nossas ais profundas fraquezas? Quem, depois de um triunfo no combate ou no amor, já não sentiu passar sobre si a pergunta, como um calafrio voluptuoso da fraqueza: Acontece comigo? A mim, o mais fraco? - Acontece de modo distinto com as sequências de derrotas, nas quais aprendemos todas as manhãs do soerguer-se e nos banhamos em vergonha como em sangue de dragão. Seja a glória, o álcool, o dinheiro, o amor - onde alguém tem sua força, não conhece nenhuma honra, nenhum medo do ridículo e nenhuma postura. Nenhum judeu usurário pode se conduzir com seu cliente de modo mais impertinente do que Casanova com a Charpillon. Tais homens moram dentro de sua força. Um morar especial e terrível, sem dúvida; esse é o preço de toda força. Existência num tanque. Se moramos nele, somos tolos e inacessíveis, caímos em todos os fossos, derrubamos todos os obstáculos, revolvemos sujeita e profanamos a Terra. Mas só onde estamos assim imundos, aí somos invencíveis. 

Walter Benjamin. Imagens do Pensamento. In.: Rua de Mão Única. Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 2000. Trad.: Rubens Rodrigues Torres Filho; José Carlos Martins Barbosa. pp. 210-211.

Imagem: Saul Steinberg.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Estudo sobre a memória V


Provo do gosto inesquecível do lótus e, nesta ilha mediterrânea, passo a esquecer da minha viagem pelos mares impossíveis, e da ilha não desejo sair. O aconchego do esquecimento, o gosto doce dos frutos, colocam-me uma pergunta: memória de que? E um argentino, tal qual um Tirésias do sul, discorre ao meu ouvido: "o tempo é o rio que me carrega, mas eu sou o rio; é o tigre que me rasga, mas eu sou o tigre; é o fogo que me consome, mas eu sou o fogo." Descubro-me um lotófago e passo a consumir a mim mesmo com o veneno doce do passado - este, o passado, que agora passa ao largo, dançando ao canto das sereias, enquanto, absorto, devoro do lótus que, belo antídoto, aplaca o veneno. Sentado à beira-mar, observo as ondas que me trazem sonhos impossíveis de sonhar, posto que jamais lembrados; observo também as gaivotas que planam com as correntes de vento, e acabo me dando conta de que também elas me trazem sonhos, estes, já sonhados. Ulisses, que a todo instante lutava contra o esquecimento, também à beira-mar, certa vez chorou diante desse grande deserto; sem me dar conta, deixo-me rasgar ainda mais pelo tigre e, não deixando cair nenhuma lágrima, volto a lembrar da viagem do herói: penso que, ao final de sua jornada, Ulisses não se deixaria mais levar pela comoção diante da infinitude do mar, mas, como o fez, a este grande deserto de sal retornaria com o desejo de passar a vida esquecendo de Ítaca para, a cada retorno, lembrar-se de que dela deve sempre continuar a esquecer... 

Imagem: Parmigianino. Circe e os companheiros de Ulisses. 1527. Galleria degli Ufizzi, Firenze.