quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Maria vai com as outras



Maria, vai com as outras
e leva também sua saliva
babada em minha boca.

Maria, corte o tempo do adeus;
com as outras com quem veio
vai agora correr ao seu deus.

Maria, quem diria, Maria,
que na música que escutava
iria ouvir minha voz sussurrar:

é tempo de Maria ir com as outras.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Carta à destinatária impossível



Para minha destinatária impossível.

Querida, acordo em meio à madrugada com o som da chuva. Lembro-me de que Borges certa vez disse ser a chuva algo que sempre acontece no passado, e que quem a ouve cair retoma o tempo em que a sorte venturosa revelou uma flor chamada rosa. Não sei se esse tempo que nesta madrugada me acorda trouxe a sorte ou apenas a sua imagem num passado distante, no qual chuvas torrenciais fizeram com que me esquecesse de meus sonhos. Um lamento? Não, querida, aqueles sonhos, como tudo passível de ser sonhado, eram apenas parte de um dos mundos desde sempre ancorados no passado, tal como esta chuva que hoje - ou ontem ou não sei quando - me acorda. E com esses sons do passado, sussurra-me ao ouvido o poeta que amava o perdido sabendo que "... as coisas findas / muito mais que as lindas / essas ficarão". Pode parecer um jeito estranho de acordar, querida, mas há algo mais estranho do que recobrar a consciência depois de uma noite de sono? Não seria o acordar a maneira cotidiana de iludir a finitude, de imaginar que o os sonhos não compõem senão desejos perdidos, imagens despedaçadas da esperança? O fim das coisas é o início de sua permanência e, como esquecidas, elas batem à minha janela junto com esta chuva impertinente, querida. E por que volto a lhe escrever, como que em meio ao sem sentido dos sonhos há pouco interrompidos? Esta carta, querida, mapeia apenas os rastros das gotas da chuva na janela e por certo não lhe diz nada de novo, nem revela nenhuma flor chamada rosa. Pode ser que você a rasgue tão logo a leia - e, penso, faz bem. Mas, porquanto findo, talvez este mapa um dia desenhe em algum sonho seu os rastros desta chuva, deste passado, que insiste em cair...

Do seu remetente impossível. 

p.s.: na minha mania de pós escritos, digo que, junto à carta, encaminho mais um dos estudos sobre monstros do Bosch - no passado creio ter lhe enviado alguns, não? (E, penso, não seriam estas minhas cartas também uma espécie monstruosa de estudo?)


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Onde alguém reconhece a própria força



Em suas derrotas. Onde fracassamos devido à nossa fraqueza, aí nos desdenhamos e nos envergonhamos dela. Mas onde somos fortes, aí desdenhamos nossas derrotas, aí nos envergonhamos de nossa má sorte. Reconhecemos nossa força através da vitória e da sorte?! Quem, pois, não sabe que nada nos revela tanto como elas mesmas nossas ais profundas fraquezas? Quem, depois de um triunfo no combate ou no amor, já não sentiu passar sobre si a pergunta, como um calafrio voluptuoso da fraqueza: Acontece comigo? A mim, o mais fraco? - Acontece de modo distinto com as sequências de derrotas, nas quais aprendemos todas as manhãs do soerguer-se e nos banhamos em vergonha como em sangue de dragão. Seja a glória, o álcool, o dinheiro, o amor - onde alguém tem sua força, não conhece nenhuma honra, nenhum medo do ridículo e nenhuma postura. Nenhum judeu usurário pode se conduzir com seu cliente de modo mais impertinente do que Casanova com a Charpillon. Tais homens moram dentro de sua força. Um morar especial e terrível, sem dúvida; esse é o preço de toda força. Existência num tanque. Se moramos nele, somos tolos e inacessíveis, caímos em todos os fossos, derrubamos todos os obstáculos, revolvemos sujeita e profanamos a Terra. Mas só onde estamos assim imundos, aí somos invencíveis. 

Walter Benjamin. Imagens do Pensamento. In.: Rua de Mão Única. Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 2000. Trad.: Rubens Rodrigues Torres Filho; José Carlos Martins Barbosa. pp. 210-211.

Imagem: Saul Steinberg.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Estudo sobre a memória V


Provo do gosto inesquecível do lótus e, nesta ilha mediterrânea, passo a esquecer da minha viagem pelos mares impossíveis, e da ilha não desejo sair. O aconchego do esquecimento, o gosto doce dos frutos, colocam-me uma pergunta: memória de que? E um argentino, tal qual um Tirésias do sul, discorre ao meu ouvido: "o tempo é o rio que me carrega, mas eu sou o rio; é o tigre que me rasga, mas eu sou o tigre; é o fogo que me consome, mas eu sou o fogo." Descubro-me um lotófago e passo a consumir a mim mesmo com o veneno doce do passado - este, o passado, que agora passa ao largo, dançando ao canto das sereias, enquanto, absorto, devoro do lótus que, belo antídoto, aplaca o veneno. Sentado à beira-mar, observo as ondas que me trazem sonhos impossíveis de sonhar, posto que jamais lembrados; observo também as gaivotas que planam com as correntes de vento, e acabo me dando conta de que também elas me trazem sonhos, estes, já sonhados. Ulisses, que a todo instante lutava contra o esquecimento, também à beira-mar, certa vez chorou diante desse grande deserto; sem me dar conta, deixo-me rasgar ainda mais pelo tigre e, não deixando cair nenhuma lágrima, volto a lembrar da viagem do herói: penso que, ao final de sua jornada, Ulisses não se deixaria mais levar pela comoção diante da infinitude do mar, mas, como o fez, a este grande deserto de sal retornaria com o desejo de passar a vida esquecendo de Ítaca para, a cada retorno, lembrar-se de que dela deve sempre continuar a esquecer... 

Imagem: Parmigianino. Circe e os companheiros de Ulisses. 1527. Galleria degli Ufizzi, Firenze.

domingo, 17 de agosto de 2014

Estudo sobre a memória IV



Schubert, nos impromptus, talvez nos tenha dado as mostras do tempo oportuno, do tempo leve, do kairós. As vozes do piano, carregadas na improvisação, dançam ao relento e à neblina da manhã de domingo. A casa está cheia de lembranças que vagam entre alegres gritos que dizem: "não te lastimes", tal como Cortazar um dia percebeu em seu apartamento parisiense. As lembranças se misturam com as vozes do piano e por que a sombras de Ariadne insistem em lançar seus fios, como se do labirinto de memórias e esquecimentos, de passados e presentes, fosse possível sair? Aliás, dizia um poeta italiano, por que achar o fio do labirinto se o importante é viver dentro dele? As improvisações ao piano, os gritos alegres que ocupam o apartamento, a vista que se obscurece e se desfoca no instante em que a vida é toda prenhe de instantes outros, e a voz de Dionísio que canta: "Sê prudente, Ariadne!... / Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas: / Põe aí uma palavra sensata! / Não é preciso primeiro odiarmo-nos se devemos nos amar?... / Sou teu labirinto...". As vozes, talvez todas elas (a do piano, a dos gritos, a das lembranças), não são mais do que um apelo dionisíaco: descarregue, como um animal leve, a vida, porque "é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível, sem esquecimento, simplesmente viver." O impossível, assim, toca todos os instantes que habitam este instante, e viver, simplesmente, permanece - insondável - uma tarefa no labirinto... 

Imagem: Hugues Taraval. Baco e Ariadne. Metropolitan Museum of art, NY

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sou, sim



Sou, sim, esta fragilidade toda
inútil e zombeteira, fruto da
fadiga de uma mente torta.
Não me canso do fracasso,
é nele que sempre venço:
venço a sorte dos fortes e

encouraçados, dos tolos
perdidos nas carapuças
insensíveis da vida banal.
Sou, sim, fruto do corte frio
da última lâmina que a mim
sorria nos seus doces lábios.

Tomado de ira neste ditado,
calado e suspenso no estado
de morte onde encontro, só,
páginas com todos os poemas
que ainda não escrevi, mas que,
de improviso, um dia lhe sorri.

Sou, sim, um frágil esboço,
um desenho inacabado e torpe,
alheio às formas mais nobres.
Desesperançoso e sem futuro,
não clamo a sorte dos duros,
neste mundo sem paixões;

crio um outro passado já denso,
apagado e reescrito a cada vez
que a fraqueza sobre mim se abate.
Sou, sim, fraco e reticente,
mas na fraqueza é que sou forte:
não disse isso o louco de Tarso,

apagado em seus traços e sem
voz que lhe brotasse do peito?
Durmo e levanto menos sóbrio,
esquecido por todas as multidões,
com poemas engavetados e sujos,
apenas frágil, isto que não nego:

sou, sim.  
 

Imagem: Caravaggio. Amor vitorioso. 1602-3. Staatliche Museen, Berlin.


domingo, 10 de agosto de 2014

A Obra morre




Iñaki Echavarne, bar Giardinetto, rua Granada del Penedés, Barcelona, julho de 1994. Por algum tempo, a Crítica acompanha a Obra, depois a Crítica se desvanece e são os leitores que a acompanham. A viagem pode ser comprida ou curta. Depois os leitores morrem um a um, e a Obra segue sozinha, muito embora outra Crítica e outros Leitores pouco a pouco se ajustem à sua singradura. Depois a Crítica morre outra vez, os Leitores morrem outra vez, e sobre esse rastro de ossos a Obra segue sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar em sua esteira é um sinal inequívoco de morte segura, mas outra Crítica e outros Leitores dela se aproximam, incansáveis e implacáveis, e o tempo e a velocidade os devoram. Finalmente a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidão. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo que começa como comédia acaba como tragédia.

Roberto Bolaño. Os detetives selvagens. São Paulo: Cia das Letras, 2006. Trad.: Eduardo Brandão. p. 497.