sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo


O zóio da cobra verde, foi hoje que arreparei... Cantava Caetano, revendo a longa e sinuosa estrada de Paul e John. Escutando hoje penso nos long ways da vida diária. Estou tentando escrever para frente; a balança que deixava rimar amor e dor agora me permite rimar sons que não são nem mesmo cacos de sentimentos. Pasternak já disse que a poesia é a etimologia do sentimento. Será que a palavra alcança o sentir? O vino rosso sobe, encantam-me os volteios de um pensamento que deixa para trás um rastro quase inegável: é arte de quem já conheço, cantada do alto de múltiplos braços que me abraçam em instantes em que penso encontrar-me a sós.
Sentimentos etimologicamente buscados, amor e dor, desencantam no canto belo e sibilino daqueles instantes em que Fellini era companheiro numa poltrona à pouca luz. Um ano que acaba não diz muita coisa; é mais uma noite que termina e que será aplacada pela luz de uma manhã que aqui chega mais tarde. O rumor do cômodo ao lado acode-me no sonho. Abro os olhos tremendo ainda com as impressões palpáveis daquele corpo.
Apanho meu barco à velas que espera que o vento matutino me carregue para longe, pela long and winding road. Mas só agora me dou conta de que estradas não existem no mar e de que o vento é o único a guiar. Os instrumentos de navegação são inválidos quando se trata de etimologia e a garrafa do rosso que bebo deve ser companheira de viagem a guardar minhas falas que se vão sozinhas. Chegaremos ao mesmo ponto? Quiçá... O vinho já se foi e a ocupar seu espaço agora está esta carta, lançada no instante mesmo em que abri as velas do meu barco. Refaço a estrutura dos meus sonhos sem entender que eles só estão quando não estou eu. Volto a pensar sobre o ano que vai se acabar, mas ele já se acabou. Tudo significa e nenhum significante pode ser preso num significado; e vejo que o tempo só começa quando os calendários são rasgados, quando o sono e a vigília se cruzam à velocidade do vento. As estradas longas e sinuosas não levam a lugar nenhum, só ensinuam... estou parado no mar revoltoso, as velas que antes estavam içadas agora estão recolhidas, a etimologia se vai com a garrafa, mas ainda me resta o sentir...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Do caderno de viagem

Em uma rodovia, com nuvens espaçadas no horizonte, campos alheios e estrangeiros, vultos humanos que passam velozmente, é inevitável o sentimento de partida e, a la Drummond, ser partido. Saber que mesmo as pessoas amadas estão rodeadas pela crosta de inacessibilidade e aparências ambivalentes que atravessam o mundo humano. Saber-se só e exilado, corpo afastado, pobre e confuso. Seguro da morte e das pequenas e grandes distrações que nos fazem esquecê-la. O espetáculo poeticamente escandaloso do viver.

Pasta ai frutti di mare


Era uma pasta com frutos do mar: camarões, lulas, lagostins. O molho vermelho descia-lhe os dedos delicados e seu sorriso matreiro radiava tanto quanto o reflexo solar que vinha da janela à minha frente. Eu olhava a decoração do lugar: telhas velhas como luminárias, máscaras típicas sicilianas, um jeitão meio anos 80 que se desprendia da aura daquele restaurante. Lá fora o sol brilhava radiante e iluminava o templo da Concórdia o qual, como que emoldurado pela janela do restaurante, mostrava-me sua face imponente do alto do vale. De soslaio percebo a fulguração de sonhos que me passavam ao lado: o Duomo de Milão (por que ele?), o céu arrebentado em luzes do interior paranaense, o som das ondas brandas da ponta do Sambaqui. São figuras retóricas a se insinuar naquele momento de intimidade? Não sei, sinceramente. Peguei meu guardanapo de pano e limpei-me como um cirurgião após cumprir todos os remendos plásticos da paciente (cliente) que gostaria de ter o nariz um pouquinho mais empinado. Olhei para meus dedos limpos, mas que ainda guardavam a gordura do meu prato - do qual não me lembro nem mesmo o nome -, e imaginei a que ponto as paragens que se me apareceram naquelas imagens sorrateiras seriam capazes de me retirar dali, daquele instante.
Olho em direção à janela do quarto onde agora escrevo. Vejo um empilhado de tijolos maciços que se levantam para guardar menores infratores. Paredes grossas, como as minhas, feitas em outro tempo, no qual talvez eu pudesse estar no instante em que as imagens me fisgaram naquele almoço. Ela, com sua presença quente, recupera-me do devaneio ao rir depois de sugar um pouco atabalhoada um resto de molho da casca de um lagostim. Era delicada e aquele jeito meio sem jeito tornava-a ainda mais bela. Eu lhe abri um daqueles meus sorrisos quentes, que involuntariamente saiam e que tanto lhe agradavam. Agora, diante do instituto penal infantil, o vermelho dos tijolos me faz embrutecer. A lembrança daquela tarde ensolarada é fagulha alegre que me salva do presente. Ah, a memória, tema que de reconstrução em reconstrução está me tomando nas últimas horas. Seriam estas também as minhas últimas? Não há como saber, é sempre assim.
Corroído pelas patéticas práticas rotineiras, reexamino o Duomo milanês. Não preciso voltar às fotos. Percorro a galeria da minha memória (devo confiar? Mas e as fotos, não eram seus ângulos prisões construídas pela minha mente no momento de fazê-las?) e vejo a imagem de São Bartolomeu sem a pele. Lembro-me da primeira vez que a vi, há uns 4 anos, e da impressão que me causou: fiquei assustado com a ideia de ser "despelado". Rasgado o órgão do tato, não resta que a sensação crua, na carne lacerada, exposta. Este ano vi uma representação de S. Bartolomeu que para mim é muito mais sutil do que a do Duomo: trata-se da imagem do santo no juízo final da Capela Sistina. Michelangelo foi muito mais "polido" que Marco d'Agrate, o autor da escultura presente no Duomo, e também menos sugestivo.
A força da escultura do Duomo está na impressão inequívoca que causa: dor, desprazer, desventura, martírio, ainda que a pose do santo pareça desprezar qualquer sensação de incômodo. No entanto, por que juntamente com a imagem do duomo, naquele soslaio repentino, apareceram-me também a luz paranaense e o som calmo de fim de tarde das ondas da Ilha do Desterro? A forte sombra de dúvidas continua a pairar... talvez a sensação nem mesmo tenha sido real, daquele momento, mas tão somente uma criação a partir da vista das paredes do instituto para menores; talvez o som do sambaqui seja algo que escuto agora, enquanto dedilho o teclado sujo do meu computador; talvez tenha sido a lembrança de suas mãos delicadas e de seu sorriso matreiro a romper a crosta do lagostim para sugar-lhe todo o molho o que despertou em mim essas imagens. Suas mãos que, ao contrário daquelas de d'Agrate - que no duro calcáreo trabalhava para expor uma ideia atrelada à vida transcendente -, rompia uma casca para dela aproveitar o sabor dos condimentos e temperos sicilianos.
As imagens me impressionam, a memória me pressiona. Há vida lá fora que grita como que querendo entrar sem cartão de visitas no meu espaço interior? Não sei... Outrora mesmo o templo emoldurado era incapaz de esboçar qualquer reação diante da atenção que eu dava àquelas mãos e sorrisos intermitentes; agora os calos dessas imagens salteiam em temperos ora amargos ora dulcíssimos as minhas lembranças, estas que, se não me falhe a memória, são e não são, vêm e se vão...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um buquê


Um buquê de rosas de papel com o perfume dela era um aconchego das noites de neblina. A umidade da nova casa, os dissabores e desencontros com a vizinhança irritavam-no profundamente, porém, bastava um aspirar do perfume para que caísse de novo nas graças do fantasma da memória. A vida, como o andar desajeitado de um coxo, passava torta por entre as paredes estreitas cheias de quadros dos passado. Era um surto? Eram devaneios decorrentes do uso de entorpecentes? Era o álcool vibrando saltitante dentro da alma lamuriosa? Não se sabe. No mesmo instante lembrava-se das angústias juvenis e sentia o que sentia outrora; ou era a falsificação da memória a construir sentimentos no passado, sem alvará de licença, sem permissão da secretaria de obras? Um falsear de vida que o irritava. Queria a verdade das coisas. "Por que não posso sentir o que senti, saber o que soube, entender o entendido?!?!" Eis as indagações mais que constantes dos momentos de fúria.
Sentado num banco de praça qualquer arrancava do bolso seu caderno de anotações e relia cada passagem que havia apenas escrito. Já não eram dele aquelas palavras, já não eram dele as assombrações de dois, três dias antes. Olhava um passante com seu cachorro vira-latas, sentia o perfume de uma dondoca que acabara de passar, ouvia o maldito sino da igreja que todos os dias o acordava e, ao mesmo tempo, já não olhava mais nada, não sentia mais nada, não ouvia mais nada. Imergia nas profundezas da falsidade, nas profundezas da memória. Não sabia muito bem qual era o mecanismo que abria a casquinha da ferida, mas, tão logo aberta, bastava um suspiro meio torto para mergulhar fundo nela. O pus e a fedentina da área recém visitada misturava-se imediatamente com o odor do sangue e vida. Era como se o rasgar da pele traumatizada fosse a porta de entrada para as zonas capciosas em que pouco conseguia discernir entre passado, presente e futuro. O anjo da história de Klee! Era essa a imagem desejada: caminhar para frente sem tirar os olhos do passado. Mas que tarefa infernal!!! As mentiras, as invencionices da memória mereciam ser consideradas da ordem do dia? Não lhe restavam alternativas, cada passo era carregado daquelas imagens.
A brisa úmida daquela tarde fria começava a atacar seus pulmões; o latido daquele vira-latas irritava-o; o perfume azedo da dondoca lhe enjoava; os sinos não se dobravam de modo algum... Era um embuste, uma cilada preparada por uma cabeça que não parava de pensar, como se isso lhe fosse uma sina. Cansado de reler o caderno, arrancou-lhe as páginas num ato que parecia indiferente, porém, como que a tentar apagar aquilo que via a todo instante. Inútil! As páginas faltantes eram agora as que ele sabia de cor. A ferida da memória funcionava como as chagas do cristo que estão sempre lá, a mostrar para os fiéis que a travessia para a outra vida deve ser dura. Mas o cansaço já o tomava e, finalmente, parecia que não pensava mais em nada. Voltou para casa, aspirou o perfume do buquê e dormiu um sono profundo.

Imagem: Pierre-Auguste Renoir. Nature morte avec fleurs. 1890.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Excertos de moral epicurista


"O desejo parece tender para um limiar (o prazer) que ele alcança somente para decair em seguida e renascer. Mas não é o prazer que é somente uma aparência, é o desejo. O prazer não é o fim do desejo; ele é o efeito da necessidade quando se a satisfaz."
"Assim como os desejos ganham sua significação a partir das necessidades, também a vida se absorve na realidade do prazer (já que viver é sentir e que sentir de modo conforme à natureza é gostar do prazer); nós não temos necessidade de vida, mas necessidade de prazer. Uma vez que nos movemos no mito e que finalmente o desejo (e seu oposto, o medo, que com ele faz um, já que desejar é medo de não obter o que se deseja) junta-se à própria vida; a vida torna-se assim o último desejo, o fundamento dos outros, e, portanto, o medo de perdê-la, o fundamento dos outros medos. Como o desejo é uma necessidade imaginária, pode-se desejar qualquer coisa, acontece, por fim, que se termina por desejar a morte, enlouquecida por um destino que se opõe aos nossos outros desejos. A morte, no entanto, não deve ser um objeto de desejo, mas a garantia de um prazer puro, pois não somos forçados a viver, e temos sempre o meio de morrer."
"Se uma contínua renovação das excitações parece necessária para sentir, é por causa de nossa 'grosseria de alma'."
"A moral epicurista não consiste em desviar a alma do corpo. É preciso aumentar a sensibilidade da alma e não torná-la indiferente e solitária. Somente assim pode-se diminuir a importância da excitação. Palavra 11: 'Na maior parte dos homens a calma é letargia e a emoção furor'. Essa letargia não tem nada a ver com os estados calmos e esse furor é completamente diferente do prazer em movimento. São estados de desejo, não de prazer: a fúria que dorme e a fúria que vela.
Os prazeres não podem se acumular, diz Epicuro. Uma vida objetivamente lenta no uso dos prazeres pode ser uma vida espiritualmente aumentada no seu sentimento. Epicuro diz que não se pode forçar a natureza, mas que é preciso persuadi-la. Os estados calmos são apenas um movimento alegre que se tornou lento e floresceu-nos a alma. Eles são uma espécie de prazer em movimento, mas pacificados, um prazer bebido lentamente e saboreado com bondade e inteligência, um prazer alongado. 'Não é preciso intensificar o mundo'; essas palavras do hindu Vivekananda traduzem muito bem o espírito da moral epicurista. Intensificar o mundo é fazer com que nosso prazer dependa demasiadamente da excitação; é esquecer que nossa liberdade consiste num certo poder, não de nos separar de nossos prazeres, mas de controlá-los e de retardá-los o uso. O prazer em movimento é portanto necessário; absolutamente, não é para se desdenhar. Sem ele nós não acordaríamos para a vida feliz. O despertar para o prazer é, no entanto, uma só coisa com o despertar da sensibilidade, aquele da alma e do corpo."

FALLOT, Jean. Le Plaisir e la Mort dans la Philosophie d'Épicure. Paris: René Julliard, 1951. pp. 28-42. Tradução livre: Vinícius Nicastro Honesko.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Amarelos

Sentidos à flor da pele com uma mente quase insana: começo a girar por corredores em que linhas traçadas como que em meio a um tumulto se espalham inadvertidamente. Estou quase sentindo a circulação do meu sangue nas minhas mãos frias; assaltam-me pensamentos sobre meu passado recente (a memória é uma grande ferida, diria Chico na boca de um velho agonizante que tenta, como num ato de extrema unção, rever-se em sua própria história familiar). Agora estou sentado diante de um dos mais conhecidos girassóis de Van Gogh. Pena que estou surdo para mim mesmo e não consigo enxergar o que disse; um abandono, uma melancolia retardada, que chega sempre depois e a tentativa de expadir o amarelo dos girassóis para colorir minha vida.
Como nos últimos anos de vida, com a doença, Van Gogh abre o leque de cores e também abre uma troca. Linhas de pensamento era o que ele praticamente pintava a todo instante; cores quentes e mais frias. Quanta angústia estava a guiar estas linhas? Quão dolorosa foi a estrada da loucura?
A entrega para a morte também pode ser um inverso na vida; entregar-se incorrupto ao mar da corrupção: tenso fluxo que não para de impor-se na minha mente... perco-me...
Soltem as luzes da gaiola, abatam os pombos litorâneos, solucionem as questões de vida, lancem-me no mar da morte, no qual não morro ou desapareço, apenas pereço no vermelho escuro da sombra do louco que me chama. A tela "Night (after Millet)" se me mostra como uma obscuridade e me fala do obscuro em minha vida. A luz como uma espiral que se perde nas gotas de sombra até se diluírem e formarem lanças para o futuro, mas com tonalidades multicolores.
A imagem de uma caminhada na praia, a pouca luz de fim de tarde com seus tons amarelados e rosáceos são visões de um "warm short moment called life" (como diria Gilmour); piso em conchas, as pego, sinto como que casas abandonadas a acariciar minha palma da mão, já tão cansada, com suas rugosidades. Os grãos de areia roçam minha face e o calor faz as gotículas de suor aparecerem em seu buço, o qual estava a mirar quando escutávamos o som do mar. E a pouca claridade amarelada é como a luz dos girassóis... eu tento transpor o mar que está a minha frente com a força luminosa que libertei da gaiola.
Ainda corro o dedo pelo meu rosto como que a sentir dedos outros; meu magro rosto, desdenhoso da barba que insiste em crescer, agora quer descanso. A neve queima, o branco me deixa enjoado, corto o polegar direito tentando atingir com meu sangue um tucano que passa no céu da Europa. Volto à praia e a vejo novamente com a pele caramelada, com um sorriso que reluzia ao longe e que me dava a certeza de que era ela... e o pôr-do-sol cobre meus ouvidos como o piano do Thelonious que soa atonal o tom amarelo dos meus sonhos...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nuvens


Mil motivos encontro para seguir uma nuvem que passa sobre minha cabeça, numa manhã fria e límpida de dezembro. A variação das formas pode ser o primeiro: como uma nuvem, água, pode deixar-se apreender como coisa imaginada, como um cão, por exemplo? Mas, no instante mesmo em que vejo um cão, sinto a transformação, a ligação imediata da face canina com os dentes de uma gigantesca serpente... Subo na cauda dela e embarco na demora imaterial do céu. Imortal, eis talvez a palavra que mais se vincula à ideia de céu, ao menos na nossa cultura ocidental. A minha viagem na cauda da serpente começa com um balançar que me faz ver a morte de perto. Mas a imortalidade, a eternidade do céu está ali, pronta a receber um corpo morto. O jogo dos mortos e dos vivos se desfaz no passeio guiado pela serpente, a qual acaba de se transformar numa águia. Voo mais rápido, arranco dos meus olhos a visão mais que etérea da eternidade... uma cacofonia pouco escutada, porém que faz seus constantes ataques às profundezas de qualquer nefelibata. Ando no lombo gigantesco da águia e vejo, a partir da sua asa direita, um esplendor de cores de uma aurora boreal. O imortal céu anuncia mortes corriqueiras, mas as nuvens surgem e ressurgem na velocidade da minha vida. Às voltas com o turbilhão do bater de asas da águia, que agora é um lento hipopótomo, sigo a viagem no azul celeste. Agora as cores da aurora seguram o azul com mãos violetas e o hipopótomo procura o seu pântano... desaguamos em chuva; vou junto, ajudo a molhar a terra, penetro em raízes tubérculas que acabam de ser colhidas por um lavrador faminto. Sou cozido e retomo o lombo de um cavalo vaporizado que sai da panela e procura a janela... lá fora rencontramos novas nuvens.
Sinto a luz do sol e a revolta dos ventos que levam meu cavalo e eu ao encontro de faces conhecidas da infância que agora se balançam num gigantesco cumulus nimbus. A eternidade respira assim, no pulsar de vida e morte diário, num passeio elegante sobre uma serpente, ou no cambaleante titubear do bêbado que na esquina tenta diariamente esquecer seus problemas a cada gole. Solto a mão dos meus companheiros que voltaram a chover e voo ao encontro do próximo trem, que acabei de ver passar, cruzando o azul. Estou a vaporizar a vida em cada instante, na turbulência das meta-formas de qualquer nuvem; encontro azuis e vermelhos no negro dia infame e cavalgo ao longo de uma estrada sem caminho, de um eterno infimamente etéreo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Sentidos

Rabiscos plásticos de um corpo sem alma
que brinca com o amarelado das folhas de um caderno vermelho.
Cores e sonhos, sons e passeios mentais.
A volta do peão, a vida num susto, o vermelho dos olhos.

Paredes brancas, coloridas, assustadas
lampejos espasmódicos que estremecem e assustam.
Natureza morta, risos atemporais, um cristo nu
rasgado na página rabiscada do caderno vermelho.

Corro, cheiro, rio e choro tua ausência
Projéteis fictícios rasgam meu corpo fraco e forte.
Lances de dados mesmo que em circunstâncias eternas
sussurrando ao meu ouvido a palavra faltante.

E a conversa infinita que insiste em finir
As flores débeis nos jardins desgastados da memória.
Uma fragrância quase inusitada de outrora
que se desfaz e se refaz, na velocidade do peão.


...ouço um violino triste que te deseja
nas alturas das nuvens cambiantes.
Corais das vozes e dos mares, reluzentes e sonoros
nas paredes e páginas de um caderno vermelho.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ao mais recente morador dos Jardins, in memorian

pícaro tucura da província ainda fora do google earth
mateiro nas quebradas do parque temático urbanóide de vida
despacho e tocaia tiros de jazz na encruzilhada

macunaíma desarmado desamado enjaulado castrado esterilizado
com a assepsia dos contentes, dos leitores de jornal, dos especuladores
fornicadores aos domingos

literatura marginal de banca de jornal
foco permanente de guerrilha contra contra o tédio, a insônia, a depressão
a disfunção erétil, táctil, ontológica
combates mercenários sem mortos nem vivos

milhagens de horas-extraídas e assédios imorais
para a inextorquível e perpétua aquisição final:
a sepultura de mármore, placa de bronze, número e quadra privativos
no chiquetocharmoso cemitério da Consolação.

Sunday

restos de vinho nas taças
restos da chuva nas ruas
resto de festas, de orgias e marasmos
a cidade ressona, amanhã
"formigas que trafegam sem porquê"

salva-me um som de trompete de Marsalis ao fundo
uma náusea e uma pequena obstinação.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Duas poesias numa leitura




Metamorfoses... à "Beira-mar"...

"Eu consultei o mito,
Interroguei o céu que marcha:

Debato-me na gaiola do mundo
Até que me envolva o futuro.

Luzes ambíguas dançam,
Homens deslocam o busto
E a Esfinge prepara lentamente
O avesso da sua resposta.

Onda que vais, onda que vens,
Dá-me notícias de mim mesmo."

...e ou mergulhado nele...

"Esta noite eu te encontro nas solidões de coral
Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam às águas do paraíso."

M.M. nas "Metamorfoses" em leitura numa notte grigia-chiara...

Nota sobre a revolução


"(...) deve-se considerar que não há coisa mais difícil de lidar, nem mais duvidosa de conseguir, nem mais perigosa de manejar que conduzir o estabelecimento de uma nova ordem. Porque aquele que a introduz tem por inimigo todos os que se beneficiavam da antiga ordem e, por amigo, os fracos defensores que dela se beneficiariam; fraqueza que em parte deriva do medo dos adversários, que tinham as leis ao seu lado, e em parte da incredulidade dos homens, que na verdade não creem nas coisas novas, a menos que se assentem numa experiência sólida."



Nicolau Maquiavel. O príncipe. Trad. Luiz A. Araújo. São Paulo: Companhia das Letras-Penguin, 2010. p, 63-64.

Imagem: Alberto Korda. In: Cuba por Korda. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 66.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Despedida de Cefalù


Atrapalhadamente, lidando com as coisas da casa, eis que cai ao chão, sob o dito salamantino "Salamantini Sigillvm.Vnive-Rsitatis Stvdii", o livro aberto de Murilo... algo mais triste para hoje não poderia surgir: Despedida de Cefalù... espero muito que não seja um adeus, mas um até logo...
"Em pedra e horizonte ficas.
É triste deixar tua força
No duro penhasco plantada,
Que o sol vertical aumenta.
Respiras nesta grandeza
Que nos vem da água, da luz
E da terra percutida,
Do peixe. Contigo vamos
Na roda cósmica, e o vento.
Não te adornas para o culto:
Cefalù solene e pobre
Em duro penhasco plantada,
Teur rito é de antiga origem:
Vem da alma rude e sem véu.
Assim te amam os pescadores,
Com esta força e gravidade
Extraídas da tua rocha
Que o sol vertical aumenta."

Paisagem interior


Sol que vem, sol que derrete a neve,
sol que iluminou civilizações, que deixou-se ver como deus,
que guiou caravelas em mares sombrios.
Sol que nasce e que se põe,
que ilumina a lua para confortar a noite dos mortais.
Por que tu não me esquentas?

sábado, 20 de novembro de 2010

Bolonha


Rossa, terracotta, vermelha de sangue.
Sob pórticos mórbidos como ventres enaltecidos,
fantasmas de tempos outros.
Na sandice de uma mente espectral.

Pulam os tempos, pulam memórias.
E Bolonha, a vermelha, vem do despertar
das vozes acessas nos recondidos cantos,
de rumores emergentes que estremecem meu coração.

Ecco, tanta luz apagada por rastros brandos,
tanta voz audível em frequências absurdas
e o solar desencanto do sangue a queimar.
Sub species aeternitatis.

Vermelho, terracotta, rosso,
baluartes de eras estranhas, de sons abafados.
Lamúrias de mulheres a chorar pelos mortos,
crianças a gritar pelas mães desaparecidas.

Fogo do céu e a bomba do novo mundo.
Figuras do tempo que em tempos de fim
dos tempos o tempo parece aplacar.
Sub species aeternitatis.

Sôfrego, caminhando e chorando
sob pórticos que dizem o não dito de uma história.
Irrompe o som, irrompe a lua,
são destronados os imperadores e malditos os papas.

O cânone está posto sob o vermelho das arcadas.
A vida sente o cheiro do desespero,
a pólvora não mais incomoda.
Canto do sábio perdido, do ignorante encontrado.

Bolonha, terracotta, terra cozida.
Tantos vermelhos pintam seu céu,
tanta luz se esconde nos seus pórticos
e vidas inteiras se dobram nos seus vicolos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ousia


Tenha eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais

Pois, por mais consciência que eu tenha, tudo é inconsciência

Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,

Porque é preciso existir para se criar tudo,

E existir é ser insconsciente, porque existir é ser possível haver ser,

E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.



Álvaro de Campos (Fernando Pessoa, "Poesia completa de Álvaro de Campos", Companhia das Letras, 2007. p, 255).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Terror


O que não necessita de ninguém, vive por si, não impõe exigências, sempre estará lá (mesmo quando nenhum humano restar).

Imperturbável, sombrio, aleatoriamente necessário.

Terror à razão em vigília, a mais pura imanência fechada em si.

Uma mônada, um aleph irracional representando, em seu enclausuramento asfixiante, o mundo e sua arbitrariedade.

Certamente está repleto de moscas, vermes e criaturas do submundo.

Em mim, apesar de não conhecê-lo (mas consigo espreitá-lo vagamente aos domingos, quando estou sozinho) e de nenhum prisma efetivo influenciar minha vida, causa-me uma profunda melancolia.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Memórias



O homem de boa memória nunca se lembra de nada, porque nunca esquece de nada. Sua memória é uniforme, uma criatura de rotina, simultaneamente condição e função de seu hábito impecável, um instrumento de referência e não de descoberta. A apologia de sua memória – “lembro-me como se fosse ontem...” – é também seu epitáfio e também indica a expressão exata de seu valor. Não pode lembrar-se de ontem, na mesma medida em que não se pode lembrar de amanhã. Pode apenas contemplar o dia de ontem, pendurado para secar juntamente com o feriado estival de maior índice de precipitação pluviométrica que se tem registrado, pouco adiante no varal. Porque sua memória é um varal, e as imagens de seu passado são roupa suja redimida, criados infalivelmente complacentes de suas necessidades de reminiscência. (...)

Estritamente falando, só podemos lembrar do que foi registrado por nossa extrema desatenção e armazenado naquele último e inacessível calabouço de nosso ser; para o qual o Hábito não possuía a chave – e não precisa possuir; pois lá não encontrará nada de sua útil e hedionda parafernália de guerra. Mas aqui, nesse ‘gouffre interdit à nos sondes’, está armazenada essência de nós mesmos, o melhor de nossos muitos eus e suas aglutinações, que os simplistas chamam de mundo; o melhor, por que acumulado sorrateira, dolorosa e pacientemente a dois dedos do nariz da vulgaridade, a fina essência de uma divindade cuja disfazione sussurrada afoga-se na vociferação saudável de um apetite que abarca tudo, a pérola que pode desmentir nossa carapaça de cola e cal. (...) Desta fonte profunda, Proust alçará seu mundo. Sua obra não é um acidente, mas seu salvamento o é.


BECKETT, Samuel. Proust. (Tradução Arthur Nestrovisky). São Paulo: Cosac & Naify, 2003. pp. 29-31.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Do passado o que importa é o que se esquece...

"O que importa, o que é destinado a sobreviver, sobrevive aparentemente em segredo, na realidade no modo mais óbvio, uma vez que sobrevive como matéria existente de quem experimentou o passado: como presente vivente, não como memória de passado morto."
Furio Jesi

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Elogio a Bartleby - ou contra a pseudoatividade



(...) Isto nos leva à noção de falsa atividade: as pessoas não agem somente para mudar alguma coisa, elas podem também agir para impedir que algum coisa aconteça, de modo que nada venha a mudar. Aí reside a estratégia típica do neurótico obsessivo: ele é freneticamente ativo para evitar que a coisa real aconteça. Por exemplo, numa situação de grupo em que alguma tensão ameaça explodir, o obsessivo fala o tempo todo para impedir o momento embaraçoso do silêncio que compeliria os participantes a enfrentar abertamente a tensão subjacente. No tratamento psicanalítico, neuróticos obsessivos falam constantemente, inundando o analista com anedotas, sonhos, insights: sua atividade incessante é sustentada pelo temor subjacente de que, se pararem de falar por um instante, o analista vá lhes fazer a pergunta que realmente importa - em outras palavras, eles falam para manter o analista imóvel.


Mesmo em grande parte da política progressista de hoje, o perigo não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser ativo e participar. As pessoas intervêm o tempo todo, tentando "fazer alguma coisa", acadêmicos participam de debates sem sentido; a coisa realmente difícil é dar um passo atrás e retirar-se daquilo. (...) Contra este modo interpassivo, em que somos ativos o tempo todo para assegurar que nada mudará realmente, o primeiro passo verdadeiramente decisivo é retirar-se para a passividade, e recusar-se a participar. Esse primeiro passo limpa o terreno para uma atividade verdadeira, para um ato que mudará efetivamente as coordenadas da cena.






ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. (trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Zahar, 2010. pp. 36-37.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Perspectivas... já de outrora...

Perdu dans ce vilain monde, coudoyé par les foules, je suis comme un homme lassé dont l’œil ne voit en arrière, dans les années profondes, que désabusement et amerture, et devant lui qu’un orage où rien de neuf n’est contenu, ni enseignement ni douleur.
Le soir où cet homme a volé à la destinée quelques heures de plaisir, bercé dans sa digestion, oublieux — autant que possible — du passé, content du présent et résigné à l’avenir, enivré de son sang-froid et de son dandysme, fier de n’être pas aussi bas que ceux qui passent, il se dit en contemplant la fumée de son cigare : Que m’importe où vont ces consciences ?

Charles Baudelaire. Fusées.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A barbárie é silenciosa


Sem a filosofia, sem a literatura, o mundo continuará sua marcha desenfreada
O fluxo da rodovia não necessita de Aristóteles, Kant ou Kierkegaard.
Tampouco a perambulação do cambista pai de duas meninas, morador de Parelheiros
Ninguém espernearia e arrancaria os cabelos se Max Brod, antes mesmo de se tornar o amigo célebre, tivesse comprado um galão de gasolina e riscado um mísero palito de fósforos.
Os asfaltos sem flor, as esquinas e seus anônimos apressados não verteriam lágrimas por um Drummond eternamente "deletado".
E se o filho de Fenareta tivesse sido morto na guerra do Peloponeso, ou por uma meningite na primeira infância, a filosofia socrática - nem Platão, nem Antístenes, Xenofonte ou Diógenes de Sínope - não faria falta a ninguém.
Nem as bibliotecas sentiriam a ausência de um Borges que na juventude optou pela alfaiataria.
Kafka, Kant, Drummond, Rosa... etc. Produtores de inutensílios - de excessos inutilizáveis (felizmente!). O problema básico da cultura é que seu extermínio pode ser silencioso, não são necessárias bombas nem derramamento de sangue.
A perplexidade surgiu depois de perceber que, na tarefa inglória de ser professor "da área de humanidades" para uma turma de técnicos, a incompreensão que estes possam ter de Montaigne ou Voltaire não mudará em nada suas vidas - talvez até os torne mais "felizes", mais "aptos" e obstinados para aquilo em que estão se "aperfeiçoando".
É como se Voltaire simplesmente não tivesse escrito nada, como se Montaigne tivesse se recolhido ao seu castelo e extraviado todos os seus manuscritos. Tanto faz se Brod queimou ou manteve intactos os textos de Kafka!
Não podemos amar a mulher que nem chegamos a conhecer. Isso não altera em nada nossas vidas. Conhecê-la talvez seria a "porta para outra vida nesta mesma vida". Mas, até aí, tudo paira na potencialidade, neste magma de virtualidades e consumações que formam o mundo.
Neste duro e espinhoso calvário que se tornou a terra, o pensamento é uma frágil bolha de sabão.
O silêncio destes espaços filisteus, cada vez mais vastos e desérticos, me apavora.


Imagem Peter Marlow

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A marcha da História

Miao Xiaochun: The Last Judgement in Cyberspace 2006


Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.

Murilo Mendes. As Metamorfoses. in.: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 332.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sais de uma lágrima que se vai

O estupor de momentos solenes na solidão não é traço de impotência, de falta de vontade, de vontade de solidão. Não, não é nada disso e não compreendem nada os que isso insinuam a respeito de outros e de si mesmos.
E o piano não canta e não soa mais do que uma verdade insólita que me devassa neste momento de quietude e solidão.
Verdade insólita, insipiente, inconsequente. Que consequências tem uma vida? Que clamores por estes negros que vejo tão sofridos por aqui?
Lasciva, pérfida, a vida é inconsequente e a voz do homem o último canto de desespero num mar de mansidão que se exaure em cada gota de lágrima derramada.
No choro a verdade se esparrama por vento, sol, chuva e canto.
O brilho da fração de luz que se refrata na gota que cai, numa intermitência de segundos, faz o choro ser a expressão mais pura da existência humana.
Milênios de clamores não são mais que sussurros diante da verdade de uma lágrima... tão límpida, tão perfeita em seu movimento... movimento sempre de queda.
E o anjo caído chora a verdade eterna perdida, remoendo e rangendo os dentes.
Se não esperasse, se não olhasse a queda de baixo, riria e dançaria com o brilho da gota de lágrima que cai.
Ouvir o espatifar da gota salgada... só no convívio íntimo consigo mesmo.
Não restam sais, nem em seus mínimos cristais. O abandono se cumpre ao som triste desse piano que soa, só
para mim, só...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Duração e diferença



Eis por que o segredo do bergsonismo está sem dúvida em Matéria e Memória; aliás, Bergson, diz que sua obra consistiu em refletir sobre isto: que tudo não está dado. Que tudo não esteja dado, eis a realidade do tempo. Mas o que significa uma tal realidade? Ao mesmo tempo, que o dado supõe um movimento que o inventa ou cria, e que esse movimento não deve ser concebido à imagem do dado. O que Bergson critica na idéia de possível é que esta nos apresenta um simples decalque do produto, decalque em seguida projetado ou antes retroprojetado sobre o movimento de produção, sobre a invenção. Mas o virtual não é a mesma coisa que o possível: a realidade do tempo é finalmente a afirmação de uma virtualidade que se realiza, e pra o qual realizar é inventar. Com efeito, se tudo não está dado, resta que o virtual é o todo. Lembremo-nos que o impulso vital é finito: o todo é o que se realiza em espécies, que não são à sua imagem, como tampouco são elas à imagem umas das outras; ao mesmo tempo, cada uma corresponde a um certo grau do todo, e difere por natureza das outras, de maneira que o próprio todo apresenta-se, ao mesmo tempo, como a diferença de natureza na realidade e como coexistência dos graus de espírito.


Se o passado coexiste consigo como presente, se o presente é o grau mais contraído do passado coexistente, eis que esse mesmo presente, por ser o ponto preciso onde o passado se lança em direção ao futuro, se define como aquilo que muda de natureza, o sempre novo, a eternidade da vida. Compreende-se que um tema lírico percorra toda a obra de Bergson: um verdadeiro canto em louvor ao novo, ao imprevisível, à invenção, à liberdade. Não há aí uma renúncia da filosofia, mas uma tentativa profunda e original para descobrir o domínio próprio da filosofia, para a atingir a própria coisa para além da ordem do possível, das causas e dos fins. Finalidade, causalidade, possibilidade estão sempre em relação com a coisa uma vez pronta , e supõe sempre que “tudo” esteja dado. Quando Bergson critica estas noções, quando nos fala em indeterminação, ele não nos está convidando a abandonar as razões, mas a alcançarmos a verdadeira razão da coisa em vias de se fazer, a razão filosófica, que não é determinação, mas diferença.


Deleuze, Gilles. Bergson, 1956 (Trad. Lia Guarino). In: Bergsonismo. São Paulo: Ed.34, pp. 137-138.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Cortázar, fotógrafo.


Entre las muchas maneras de combatir la nada, una de las mejores es sacar fotografías, actividad que debería enseñarse tempranamente a los niños pues exige disciplina, educación estética, buen ojo y dedos seguros. No se trata de estar acechando la mentira como cualquier repórter, y atrapar la estúpida silueta del personajón que sale del número 10 de Downing Street, pero de todas maneras cuando se anda con la cámara hay como el deber de estar atento, de no perder ese brusco y delicioso rebote de un rayo de sol en una vieja piedra, o la carrera trenzas al aire de una chiquilla que vuelve con un pan o una botella de leche. Michel sabía que el fotógrafo opera siempre como una permutación de su manera personal de ver el mundo por otra que la cámara le impone insidiosa (ahora pasa una gran nube casi negra), pero no desconfiaba, sabedor de que le bastaba salir sin la Contax para recuperar el tono distraído, la visión sin encuadre, la luz sin diafragma ni 1/250. Ahora mismo (qué palabra, ahora, qué estúpida mentira) podía quedarme sentado en el pretil sobre el río, mirando pasar las pinazas negras y rojas, sin que se me ocurriera pensar fotográficamente las escenas, nada más que dejándome ir en el dejarse ir de las cosas, corriendo inmóvil con el tiempo. Y ya no soplaba viento.


(Cortázar. Trecho de "Las babas del diablo", conto inspirador do filme "Blow-Up", de M. Antonioni).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Viscosidade e asco


Há uma viscosidade asquerosa entre os medíocres, algo que cheira mal, podre. A onda de gozo e satisfação patética (que, de fato, nada de pathos contém) dos seres medíocres das redondezas - os novos pequenos burgueses plenos, os escravos incônscios do novo poder fascista invisível do contemporâneo - se parece com um grande cocho onde qualquer porcaria colocada à disposição é deglutida de uma só vez. Os brinquedos eletrônicos, os sons fáceis e os motivos uniformes - essas papinhas tecnológicas de fácil absorção - são como o uníssono ponto final da história; são os apetrechos indispensáveis de entrada no reino divino para qualquer um destes seres medíocres. Os objetos que adornam os paramentos de todo e qualquer medíocre são as trompetas - ora minguantes - dos anjos decaídos de outrora. Ao contrário destas, que visavam cantar a glória de um (finado) deus altíssimo (falo sem tom elegíaco), as atuais sucatas tecnológicas só cantam uma coisa: o fedor de merda que exalam os seus portadores.
A fedentina se espalha, impregnando o globo e arrastando consigo os olhares clamorosos de todas as mariposas de asas gordurosas que se auto-intitulam humanos. (É o show da vida, dizem os mais idiotas.) Toda a parafernália tecnológica (técnica cujo controle e uso não é de competência de ninguém: qualquer pateta semovente é capaz de manipular e deglutir os altos produtos da tecnologia contemporânea) é utilizada como subterfúgio para anestesiar qualquer tipo de sensação, sentimento... que dirá pensamento. A vida passa aprisionada nestes dispositivos que conformam a praga humana e é nesta caixa que se produz a viscosidade. Uma remela asquerosa que gruda na pele de todos; e a mediocridade é cantada como numa festa: gozando em público (e em privado) a merda que exalam, os seres fétidos apodrecem a cada passo, a cada suspiro, a cada sinal vital.
De resto, um tapume de felicidade (!?) é colocado como veste de dia sacrificial, e muitos são os seus nomes: qualidade de vida, segurança, consumo sustentável, vida plena... os mais variados vômitos dessa civilização que assina seu atestado de insanidade com os louros dos sãos, cantando glórias à própria merda, ao próprio mal cheiro, à própria viscosidade que gruda em todos e faz deles a massa que queima aos poucos. Os medíocres caminham a passos largos para o fim sem perceber o movimento que fazem, anestesiados e inertes, cumprindo rigorosamente (diria religiosamente) os atos do mais alto culto contemporâneo: cantar o fedor, cantar a merda da existência com os requintes de um dandy.

imagem: Martin Parr, 1985.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O século XXI me dará razão



O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer-que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gangsters, seus gangsters ministros, seus partidos de esquerda-fachistas, suas mulheres navio-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da Direita, seus cérebros de água-choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro-fumê , seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de lata de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, sua tristeza,
seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.

Roberto Piva - Hora cósmica do búfalo

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Poema para Álvaro de Campos

Imagem: Renato Barbosa


Praça remota de uma infância
Eras o próprio mundo infinitamente extenso
Antes de ser pisada por olhos
Que só atingem um beco suburbano
Com balanços de ferrugem e solidão
Velho cão ancestral solto em um terreiro
Encarnando todos os cães amados que hoje só perambulam em minha memória
Velho fogão, velha fumaça de lenha, velho frio
O teria sido, o foi
E aquilo que acaso virá, se vier
A vida é a tal agonia frágil,
Constante mesmo às intempéries e à mudança
Vigília teimosa
O que faz o rio andar entre margens?
Volto aos sonhos da cidade após o morro, mortos um a um
Ruas e vielas me enviam sinais impossíveis
O que não existe nunca existirá o teria sido
Impõe-me sua exigência
Volto para uma criança
Volto eu ou o decalque já amarelecido de mim?
Ou de outro sonhado em mim?
Volto para fantasmas cheirando a tempo
E tudo em se envereda para a metafísica do mofo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

As últimas palavras do herege



O futuro não está privado de história, ao que eu saiba. Se a finalidade possível de nossa história é a industrialização planetária, isto não quer dizer que o futuro do homem se desenvolve mecanicamente. O futuro é previsível, a história, não. Ou seja, os sociólogos podem prever um monte de coisas: as formas das residências, a quantidade de botões de calções que serão fabricados na Alemanha, o número de crianças que nascerão albinas, talvez... Mas a fluidez histórica do futuro sempre lhes escapará. Ela não é exprimível.

Pier Paolo Pasolini. As últimas palavras do herege. Entrevistas com Jean Duflot. São Paulo Brasiliense, 1983. Trad.: Luiz Nazário. p. 78.

Foto: Elliot Erwitt. 1953. NY.

sábado, 15 de maio de 2010

O duplo placentário


Decir que la placenta ha acabado en los tiempos modernos en la basura, aunque sea en la basura de reciclaje, ya sería ciertamente afirmar demasiado. Porque, en el fondo, el órgano que nos prepara a empezar a contar desde dos, y a llegar hasta aquí desde allí, es algo que realmente no habrá existido jamás oficialmente en el nuevo mundo de individuos sin compañía. Incluso retroactivamente, al sujeto se le convierte en un ser aislado y se le acondiciona en su ser prenatal como un primero sin segundo. Sería fácil demostrar que el individualismo moderno sólo pudo entrar en su fase álgida cuando en la segunda mitad del siglo XVIII comenzó la general excomunión clínica y cultural de la placenta. El etamento médico oficial, como si se tratara de una inquisición ginecológica, tomó a su cargo garantizar que la recta creencia en el haber-nacido-solo se anclara firmemente en todos los discursos y disposiciones de ánimo. El positivismo individualista burgués, frente a débiles resitencias del romántico compañerismo anímico, impuso socialmente la radical e imaginaria incomunicación de los individuos en los senos maternos, en las cunas y en la propia piel. Ahora, habiéndoseles robado su segundo, todos los individuos se convierten en algo inmediato a las madres y, acto seguido, en algo inmediato a la nación totalitaria, que a través de sus escuelas y ejércitos extiende sus redes sobre los niños solos. Con el establecimiento de la sociedad burguesa comienza una época de falsas alternativas, en la que los individuos sólo parecen enfrentarse a la elección de o bien abandonarse al goce del pecho de la naturaleza o bien, en fusiones colectivas con sus pueblos, lanzarse a aventuras de poder potencialmente mortales. No en vano encuentra uno al maestro pensador del regreso a la absorbente naturaleza y al patético Estado nacional, Jean-Jacques Rousseau, como figura de portal tan cautivadora como grotesca, a la entrada del mundo estructuralmente moderno, individualistamente holista. Rousseau fue el inventor del ser humano sin amigo, que sólo podía pensar al otro complementador bien como madre naturaleza inmediata o bien como inmediata totalidad nacional. Con él comienza la era de los últimos seres humanos, los que no se avergüenzan de aparecer como productos de su medio y como casos particulares de leyes psicológico-sociales. Por eso desde Rousseau la psicología social es la forma científica del menosprecio por el ser humano.
Cuando, por el contrario, como sucede en la Antigüedad y en las tradiciones populares, se había dejado una plaza abierta para el doble del alma, los seres humanos, hasta el umbral de la Modernidad, podían cerciorarse de que no son algo inmediato a las madres ni algo inmediato a la "sociedad" o al "propio" pueblo, sino que durante toda su vida permanecen prioritariamente unidos a un segundo absolutamente interior, al auténtico aliado y genio de su particular existencia. Cuya formulación superior aparece en el mandamiento cristiano de que habría que obedecer a Dios más que a los hombres. Esto significa: ningún ser humano es un "caso", ya que cada individuo es un misterio, el misterio de una soledad complementada. En tiempos antiguos el doble placentario tambiém podía encontrar refugio con facilidad entre los antepasados y los espíritus de la casa. El medio íntimo arcaico de uno mismo procura al sujeto distancia frente a las dos fuerzas obsesivas primarias tal como se manifiestan modernamente: frente a las madres sin distancia y frente a los colectivos totalitarios. Pero cuando, como sucede en la Modernidad más reciente, el espacio-con es anulado y desechado desde el principio, al destruir la placenta, el individuo cae, cada vez más, bajo la influencia de los colectivos maníacos y de las madres totalitarias: o en la depresión, en su ausencia. Desde entonces, el individuo, sobre todo el masculino, fue empujado a enredarse cada vez más profundamente en la fatal alternativa: o el obstinado aislamiento autista o el dejarse-tragar por comunidades obsesivas - de dos o de muchos-. De camino aparentemente a la liberación personal surge el ser humano sin espíritu protector, el individuo sin amuleto, el sí-mismo sin espacio. Si los individuos no consiguen estabilizarse y complementarse ellos mismos mediante técnicas de soledad - como ejercicios musicales o soliloquios por escrito, por ejemplo -, practicadas con éxito, están predestinados a ser absorbidos por colectivos totalitarios.

Peter Soloterdijk, Esferas I. Burbujas. Madrid: Ediciones Siruela, 2003. Traducción: Isidoro Reguera. pp. 350-352.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Páthos

Man Ray, Observatory Time - The Lovers (1936).


mesmo ateu
anjos invento
apenas para velar teu sono.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Um despertar

(...) assim, quando acordava no meio da noite, e como ignorasse onde me achava, no primeiro instante nem mesmo sabia quem era; tinha apenas, em sua singeleza primitiva, o sentimento da existência, tal como pode fremir do fundo de um animal; estava mais despercebido que o homem das cavernas.
PROUST, Marcel. No caminho de Swann. (Tradução Mário Quintana). 3ª Ed. São Paulo: Globo, 2006. p.23.

sábado, 27 de março de 2010

Um epitáfio a Raísa



Na segunda-feira do dia 11 de fevereiro de 2009, atrás das pedras do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, próximo ao mar, foi encontrada, morta a pedradas e com marcas de violência sexual, uma menina de nove anos. Vestia apenas a parte de cima de uma fantasia de carnaval.


Uma diminuta nota de um jornal de grande circulação do dia 18 de fevereiro, uma quinta-feira[1], no canto universalmente ignorado pelos leitores-espectadores distraídos como somos todos, atesta o reconhecimento do cadáver. A menina desapareceu brincando nas proximidades dos Arcos da Lapa. Na última vez em que foi vista em vida, foliões afirmam o fato, pedia um enfeite carnavalesco a um estranho.


O relato sucinto vem implicitamente acompanhado dos porquês da brevidade da nota - abissal no contraste de uma página inteira dedicada à discussão sobre as modalidades de empréstimo de empresas de ensino junto ao BNDES: era filha de uma vendedora de balas, na rua. A mãe trabalhava no momento do desaparecimento. Morava com mais quatro irmãos em um prédio ocupado no centro do Rio. O pai, que não convivia com a menina, é pedreiro.


Dizia o filósofo alemão Walter Benjamin, em conhecido texto de 1936, que bastaria olharmos para qualquer jornal diário para percebermos que, da noite para o dia, não somente a imagem do mundo exterior, mas também a do mundo ético sofreu abalos que outrora julgaríamos inimagináveis. O ensaio tem como mote principal discutir, a partir da obra de Nikolai Leskov, sobre a crise da arte de narrar que vem acompanhada, na modernidade pós primeira guerra mundial, de um decréscimo cada vez mais extremo da possibilidade de intercambiar experiências (“Erfahrung”) humanas válidas. Esta constatação, que já antevia algumas das questões cruciais que só terão seus sombrios desdobramentos após o início da década de 40, soa como um prognóstico que o parque temático macabro (o parque temático é o não-lugar, prótese antropológica por excelência, onde toda a experiência autêntica é vetada em sua concomitante simulação) que tomou conta do mundo contemporâneo reafirma e constantemente ultrapassa em sua vileza. Ultrapassamento do trágico: para as catástrofes humanas que vivenciamos de forma cotidiana - diretamente ou narcoticamente mediatizadas pela informação espetacular - talvez não sejam mais adequadas as categorias de catarse e, conseqüentemente, de luto. Restaria, portanto, apenas esta irreconciliação permanente com os fatos, uma vertigem somatizada em náuseas e em uma profunda apatia.


Os fatos do dia 11 de fevereiro, nesse sentido, gritam por si. Não necessitam de tratados criminológicos e de patologia social – é sabido que a psicopatia perversa grassa como erva daninha nas esquinas do mundo. Tampouco da ladainha obtusa do discurso da “lei e da ordem” como resposta para “as doenças” da sociedade. Nem do sensacionalismo da indústria policial-midiática da miséria cada vez mais lucrativa. Não, nada disso. Fiquemos apenas com os fatos.


Uma criança morreu da maneira mais traumática possível. Os elementos do enredo macabro só reafirmam o caráter de Shoah - dano irreparável, termo quase intraduzível do hebraico, próximo a um mal radical, para lembrar Kant - que permeia este crime.


Em termos tão-somente normativos e hipotéticos (pura deontologia rechaçada pela vida tal qual é) não precisaríamos nem citar Adorno, que dizia não serem mais possíveis poemas após Auschwitz: os carnavais – estas festas midiáticas disciplinadas de culto pentecostal ao nada (longe, muito longe de ser uma festa pagã!) – simplesmente não deveriam mais ser eticamente tolerados após este fato. Jornais-empresas talvez devessem, por si sós, não por censura ou decretos executivos, mas por náusea, estupor e última trincheira de lucidez ainda existente em seus administradores e operadores, serem desativados, pois claro está sua instrumentalização a meros artefatos de classe, mantenedores de um estado fictício de exceção onde o burburinho, a bisbilhotagem e o oportunismo curvam-se ao pés sagrados da mercadoria. Até a arte é indiretamente maculada com este crime. Uma silenciosa cumplicidade: nas costas de um Picasso ou de Van Gogh, transformados que foram em fetiches e moedas de troca preciosíssimas no mercado enquanto tal - belo tornado esquizofrenia diante da vida cotidiana dilacerada - uma criança, vulnerável em todos os sentidos do termo (principalmente economicamente, sentido que hoje comanda e acarreta todos os demais) foi brutalmente morta sem que deste ato repercuta qualquer conseqüência, nem mesmo uma comoção pública - por mais cinicamente fascista que ela seja.


Jogada na vala comum das estatísticas oficiais, sem direito a obituário. Silenciada em vida assim como na morte.


Um digressão pessoal final.


Para meu próprio pasmo e ira, contudo, em termos mundanos atuais tudo isso representaria ainda uma posição sentimental. As Raísas – seu nome era Raísa de Souza da Silva, e espero que com este texto pelo menos o seu nome fique marcado em minha memória também relapsa - são milhares. Da África ao Oriente Médio, da Europa Central e do Leste ao Extremo Oriente, passando pelas Américas e pelo Haiti - o centro nevrálgico e local de exposição da verdade deste planeta sonambúlico - incontáveis são os infanti sacri (uma versão infante e “pós-moderna” dos “homini sacri”[2] da antiga Roma). Mortos por bombas, fuzis, por traficantes de órgãos, sepultados em vida em porões, degolados, aniquilados por catástrofes evitáveis.


E o mais intrigante é que o espetáculo (que se tornou não apenas uma regra, mas a realidade genericamente aceita!), rompendo facilmente com o sollen ético, continua em ritmo carnavalesco e turbinado. O grande culto pentecostal a céu aberto que tomou conta de todo o mundo dá mostras de não poder ser interrompido.


Festejemos e observemos em nossos “reservados VIPS” este festival macabro. Narcotizemo-nos! Mesmo que os pedido de silêncio e basta sejam dos mais triste e intolerável luto. Mesmo que estejam além dos confins do próprio trágico. Grafado está o projeto civilizatório do capitalismo espetacular contemporâneo, sua tanatopolítica.


Um pensador brasileiro certa vez lançou um imperativo melancólico e quixotesco que talvez apenas hoje possa ser explorado em todas sua potencialidades: há apenas duas opções, a indignação ou a resignação. Dizia ele não querer se resignar nunca. Talvez esta seja a última batalha, quiçá já perdida de antemão, que se apresenta para aqueles que ainda ousam estar em vigília em um mundo onde tudo se tornou possível, mesmo o imponderável.








[1] Folha de São Paulo de quinta-feira, 18 de fevereiro de 2009. Caderno Cotidiano, p. C12.


[2] “Festo, no verbete sacer mons do seu tratado Sobre o significado das palavras, conservou-nos a memória de uma figura do direito romano arcaico na qual o caráter da sacralidade liga-se pela primeira vez a uma vida humana como tal. Logo após ter definido o monte sacro, que a plebe, no momento de sua secessão, havia consagrado a Júpiter, ele acrescenta: At homo sacer is est, quem populus iudicavit ob maleficium; neque fas este eum immolari, sed qui occidit, parricid non damnatur; nam lege tribunicia prima cavetur ‘si quis eum, qui eo plebei scito sacer sit, occiderit, parricida ne sit.’ Ex quo quivis homo malus atque improbus sacer appelari solet.” (“Homem sacro é, portanto, aquele que o povo julgou por um delito; e não é lícito sacrificá-lo, mas quem o mata não será condenado por homicídio; na verdade, na primeira lei tribunícia se adverte que ‘se alguém matar aquele que por plebiscito é sacro, não será considerado homicida’.”). AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. (Tradução de Henrique Burigo). Belo Horizonte, ed. UFMG, 2002. p.77.

Imagem. G. Giuggioli. Labirinto con cipressi. www.giuggioli.it

quarta-feira, 17 de março de 2010

Desertar


A pena do degredo sempre foi uma das mais severas na história do direito penal. Desterrado é aquele que, como sanção a seus atos, foi excluído da comunidade dos homens, tendo que conviver com as bestas no puro mundo da physis, além das muralhas protegidas da cidade. O equivalente espontâneo do desterro é a deserção. Desertar é ousar por conta própria enfrentar a solidão dos desertos. O gesto de insana lucidez do Timão de Atenas shakespeariano. Deserção de um rebanho, de uma facção, de uma versão compartilhada, de uma forma de vida genericamente aceita. A má-fé e a casca de virtudes da burguesia mantém uma completa ojeriza à deserção. A deserção é o mais perfeito desceuvrement. Ah quem tivesse a força para desertar deveras! Já dizia um inspirado Álvaro de Campos. O mundo dos dispositivos disseminados e hipertrofiados - que fazem com a que vida humana seja tão-somente sobrevida mantida por intermédio de aparelhos e antidepressivos - impõe-nos duas alternativas básicas e inconciliáveis: ser um canalha ou ser um desertor. Esta, a opção dos raros.



(Escrito em um momento de leninismo ou stalinismo de uma negatividade jogada contra si mesma, seja lá o que isso queira significar.)

Imagem: Abbas. México. Magnum photos. Província de Guerreiro, Vila de Santo Agostinho. 1985.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Bateu um vento na roseira...


O peso de uma caneca cheia de café com leite era equivalente ao peso de minha vida naquele instante. Figuras das mais diversas manhãs invernais: encasacados, perambulando por algumas ruas de mais uma das cidades planejadas pelos ingleses que cá estiveram. Tempos – muito depois dos ingleses – em que galhos no portão sinalizavam a presença daquele café com leite, de umas bolachinhas e de umas boas horas de conversa e risadas à toa, assim, pelo simples fato de rir. Galhos que às vezes traziam também algumas preocupações, aquelas contumazes, mas que sempre vinham de maneira diferente. Um caminhar lento e despretensioso, com muito sentido, não uma direção, mas as mesmas direções com muito sentido. E um café com leite na canequinha de louça, aquela, a do dia a dia, a de sempre. O gosto era mais especial, aliás, tão bom quanto esse era só a sensação de água fresca do filtro de barro na caneca de alumínio. Nesse filtro uma toalhinha com bordados de crochê tampava a marca “São João”. E o crochê estava por tudo: pelo chão da casinha nº2, em tapetes que a enfeitavam; nas camas, as colchas; nas janelas, as cortinas. Recentemente o crochê se tornara mais difícil, talvez pelos nozinhos dos dedos, bem mais grossos do que as falanges, que, acho, às vezes deviam doer (aquela silenciosa dor). Agora eram os aventais com passarinhos: proteção para os peitos e para os peitos que naqueles peitos mamaram. Na sala, os papeis desordenados, uma bagunça de contas de água, luz e telefone anotadas com uma caligrafia torta e desenhada. Números que às vezes pareciam pontas de narizes de rostos por desenhar, ou, talvez, a ponta de uma orelha? Não sei, não sei... eram porventura também fruto daqueles nozinhos dos dedos, que possivelmente dificultavam a escrita daquelas mãos com tão pouca habilidade nessas histórias de papel e caneta. Mas pra que tantos números e tanta correição se a vida estava lá fora, nas cadeiras de varanda, nos rostos felizes e sorridentes do pessoal que ali todos os dias se reunia, assim, para rir à toa? Vida reunida num só ventre, de um só ventre. Aquela vida, porém, que, como a minha, agora pesava justamente uma caneca de café com leite, nada exigia. Os dias, as tardes, passavam tão de pressa que aquele frequente “é cedo Tuta” soava sempre frágil e esperançoso, como que a desejar a tarde seguinte, e a seguinte, e a seguinte... Desejo estampado nos olhos e no sorriso maroto, pronto para suportar o cheiro e a força da solução do sal amoníaco em água, mistura imprescindível pro gosto daquelas tardes. Desejo de um ser qualquer, qual-quer... Quodlibet ens est unum, verum, bonum. E talvez os transcendentais a ela se aplicassem em demasia... E neste instante o café com leite na caneca de louça se equivale ao meu ser e se rarefaz na minha historicidade, esta, das tardes de sol com cadeiras de varanda com risos incandescentes, dos assombros sempre previsíveis diante de pequenos incidentes, dos passos lentos e compassados pelas calçadas das ruas planejadas, dos galhos enfiados em meio às grades dos portões e das rosas que me cobriam nas noites que dormia fora e me esquecia do cobertor...
quase 27 de fevereiro de 2010... Vini

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Poeta Prometeico

Gleichnis von den Blinden, Pieter Brueghel, 1568.

“La Poesia era la palabra... Mas cuando los mercaderes y los fariseos del templo la enturbiaron y la corrompieran utilizándola para encomiar sus mercancías y acatar las ordenes injustas del Sumo Sacerdote... Cristo habló en parábolas... La parábola... aún no está corrompida.” León Felipe. El Poeta Prometeico.

O poeta prometeico fala, poetiza por parábolas. A parábola escapa ao jogo mercadológico, oikonomico, das trocas nefastas no qual a palavra se colocou; mas a parábola é o que se parece, a ressemblance, com o que é falado; é semelhança que afasta e dá ao parecido a sua forma singular, sua forma em imagem. Como um personagem imaginário, o poeta prometeico tem o semblante voltado para sua efemeridade e faz pantomima da verdade cósmica universal; não traça o logos, a Palavra, mas fala por Gleichnis, por semelhança, a partir da qual abre os olhos para ver a morte própria – sabe que seu cadáver (Leiche) já está consigo – e a morte espelhada nas coisas, nas paredes do mundo. O seu rosto carrega o peso da perda de si diante da semelhança que seu eu encara, isto é, na sua transitoriedade, de modo a poder ver a morte que se reflete nas coisas e a sentir o peso do tempo que está nessa distância dele consigo mesmo. O poeta prometeico inicia a história rompendo o círculo do eu que se identifica com o seu eu reflexo. Não crê na identidade e verdade de uma palavra que diz justamente a verdade unívoca das coisas; sabe que é dividido em si mesmo, que está numa contenda política consigo mesmo, pois, uma vez que ingressou na linguagem, sabe que o seu gesto poético não pode ser neutro e que só lhe resta um princípio de divisão infinita do qual não há saída (ele só é ressemblance, imagem, de si) apenas uma fuga, um constante movimento.
O poeta prometeico diz parábolas, pois sabe, de antemão, que seu corpo já padeceu sob os auspícios de algozes; sabe que para reconhecer seus pares, não é preciso aceitar a apresentação das vísceras como única forma de pertencimento à conjunção de coisas públicas (sua contenda é política desde o seu interno: sua própria divisão – o afastamento da mão da parede e seu consequente vestígio que nos chega ainda do tempo das cavernas). Da tortura e da estripação sacrificial ele tenta passar longe; essa é a tentativa de fazer com que os portadores dos rostos invisíveis não necessitem mais passar à exposição do interno: o externo e o interno não mais se contradizem e não precisam mais da expiação para terem seus lugares. Um se dobra no outro, sem ângulos e sem vértice, diria Murilo Mendes na sua Parábola, sem a esperança de uma retidão normativo-moralista, mas de maneira oblíqua e perifrástica, na tentativa de escapar de uma oikonomia dos corpos cujo único escopo é aguardar a vida do outro corpo, o glorioso e que, enquanto aguarda, só consegue manter-se com o eterno sacrifício diário do corpo – Hoc est enim corpus meum – num rito massacrante (o Reino) e aos olhos de todos (a Glória).