domingo, 10 de fevereiro de 2008

A Ceia


Tive um sonho. Estávamos em Paris, participando do Congresso Mundial de Escritores. Depois da última sessão, em 5 de junho, Alfredo Bryce Echenique nos convidou para cear em seu apartamento, localizado no 8bis, 2º andar, lado esquerdo, rua Amyot – a Julio Ramón Ribeyro, Miguel Rojas-Mix, Franz Kafka, Bárbara Jacobs e a mim. Como em qualquer grande cidade, em Paris há ruas difíceis de encontrar; mas a rua Amyot é fácil para quem desce na Estação Monge do metrô e depois, do jeito que puder, pergunta pela rua Amyot. Às dez da noite, ainda com sol, nos encontrávamos já todos reunidos, menos Franz, que tinha dito que antes de chegar passaria para pegar uma tartaruga que desejava me dar de presente como lembrança da rapidez com que o Congresso tinha se desenrolado. Por volta das onze e quinze telefonou para dizer que estava na Estação Saint-Germain-des-Prés e perguntou se Monge era na direção de Fort d’Aubervilliers ou na direção de Mairie d’Ivry. Acrescentou que pensando bem teria sido melhor pegar um táxi. À meia-noite telefonou novamente para informar que já havia saído de Monge, mas que, em vez da saída certa, tomara a errada, e que tivera de subir 93 degraus para se dar conta no final de que as portas pantográficas de ferro que dão na rua Navarre estavam fechadas desde as oito e meia, mas que refizera o caminho para sair pela escada rolante e que vinha com a tartaruga, à qual estava dando água num café a três quadras de onde nos encontrávamos. Nós bebíamos vinho, uísque, Coca-Cola e Perrier. À uma da manhã telefonou para dizer que nos pedia desculpas porque tinha estado tocando a campainha do número 8 e que ninguém tinha respondido, que o telefone do qual falava estava a uma quadra e que já havia compreendido que o número do edifício não era 8, mas 8bis. Às 2 horas, a campainha soou. O vizinho de Bryce, que mora também no 2º andar, lado direito e não esquerdo, disse, vestido de roupão e meio alarmado, que havia poucos minutos um senhor tinha tocado insistentemente em seu apartamento; que quando por fim abriu a porta esse senhor, consternado sem dúvida pelo engano e por tê-lo obrigado a se levantar da cama, inventou que tinha deixado na rua uma tartaruga; que tinha dito que ia buscá-la; e nos perguntou se o conhecíamos.



Augusto Monterroso (Tradução Vilma Arêas e Samuel Titan Jr.)

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