terça-feira, 26 de agosto de 2014

Carta à destinatária impossível



Para minha destinatária impossível.

Querida, acordo em meio à madrugada com o som da chuva. Lembro-me de que Borges certa vez disse ser a chuva algo que sempre acontece no passado, e que quem a ouve cair retoma o tempo em que a sorte venturosa revelou uma flor chamada rosa. Não sei se esse tempo que nesta madrugada me acorda trouxe a sorte ou apenas a sua imagem num passado distante, no qual chuvas torrenciais fizeram com que me esquecesse de meus sonhos. Um lamento? Não, querida, aqueles sonhos, como tudo passível de ser sonhado, eram apenas parte de um dos mundos desde sempre ancorados no passado, tal como esta chuva que hoje - ou ontem ou não sei quando - me acorda. E com esses sons do passado, sussurra-me ao ouvido o poeta que amava o perdido sabendo que "... as coisas findas / muito mais que as lindas / essas ficarão". Pode parecer um jeito estranho de acordar, querida, mas há algo mais estranho do que recobrar a consciência depois de uma noite de sono? Não seria o acordar a maneira cotidiana de iludir a finitude, de imaginar que o os sonhos não compõem senão desejos perdidos, imagens despedaçadas da esperança? O fim das coisas é o início de sua permanência e, como esquecidas, elas batem à minha janela junto com esta chuva impertinente, querida. E por que volto a lhe escrever, como que em meio ao sem sentido dos sonhos há pouco interrompidos? Esta carta, querida, mapeia apenas os rastros das gotas da chuva na janela e por certo não lhe diz nada de novo, nem revela nenhuma flor chamada rosa. Pode ser que você a rasgue tão logo a leia - e, penso, faz bem. Mas, porquanto findo, talvez este mapa um dia desenhe em algum sonho seu os rastros desta chuva, deste passado, que insiste em cair...

Do seu remetente impossível. 

p.s.: na minha mania de pós escritos, digo que, junto à carta, encaminho mais um dos estudos sobre monstros do Bosch - no passado creio ter lhe enviado alguns, não? (E, penso, não seriam estas minhas cartas também uma espécie monstruosa de estudo?)


Um comentário:

Braulio Freitas Teiga disse...

Muito bom...muito bom...prolfaças procê!