segunda-feira, 26 de julho de 2021

Manifesto de "Rivolta femminile"



 

Em julho de 1970, aparece nos muros de Roma o manifesto da revista Rivolta femminile, baseado num texto elaborado por Carla Lonzi, Carla Accardi e Elvira Banotti.

 

"As mulheres sempre estarão divididas entre si? Jamais formarão um corpo único?" (Olympe de Gouges, 1791).

 

·             A mulher não deve ser definida em relação ao homem.

·             Nessa consciência se fundam tanto nossa luta quanto nossa liberdade.

·             O homem não é o modelo ao qual adequar o processo da descoberta de si por parte da mulher.

·             Em relação ao homem, a mulher é outra coisa. Em relação à mulher, o homem é outra coisa. A igualdade é uma tentativa ideológica de escravizar a mulher em níveis superiores.

·             Identificar a mulher com o homem significa apagar o último caminho de libertação. Libertar-se, para a mulher, não quer dizer aceitar a mesma vida do homem, posto que invivível, mas exprimir seu sentido da existência.

·             A mulher como sujeito não recusa o homem como sujeito, mas o recusa como papel absoluto.

·             Na vida social, recusa-o como papel autoritário.

·             Até agora, o mito da complementariedade foi usado pelo homem para justificar o próprio poder.

·             As mulheres são persuadidas desde a infância a não tomar decisões e a depender da pessoa “capaz” e "responsável": o pai, o marido, o irmão...

·             A imagem feminina com a qual o homem interpretou a mulher foi uma invenção do homem.

·             Virgindade, castidade, fidelidade não são virtudes, mas vínculos para construir e manter a família.

·             A honra é a consequente codificação repressiva desses vínculos.

·             No casamento, a mulher, privada de seu nome, perde sua identidade, e isso significa a passagem de propriedade que se desenrola entre seu pai e seu marido.

·             Quem gera não tem a faculdade de atribuir aos filhos o próprio nome: o direito da mulher foi cobiçado por outros e se tornou privilégio destes.

·             Somos obrigadas a reivindicar a evidência de um fato natural.

·             Reconhecemos no casamento a instituição que subordinou a mulher ao destino masculino.

·             Somos contra o casamento.

·             O divórcio é um enxerto de casamentos do qual a instituição sai reforçada.

·             A transmissão da vida, o respeito pela vida, o sentido da vida são experiências intensas da mulher e valores que ela reivindica.

·             O primeiro elemento de rancor da mulher em relação à sociedade está no fato de ser obrigada a enfrentar a maternidade como um dilema.

·             Denunciamos a desnaturação de uma maternidade, que é paga ao preço da exclusão.

·             A negação da liberdade de aborto entra no veto global que é feito à autonomia da mulher.

·             Não queremos pensar na maternidade a vida toda e continuar a ser instrumentos inconscientes do poder patriarcal.

·             A mulher está cheia de criar um filho que se tornará um péssimo amante.

·             Numa liberdade que sente ter de enfrentar, a mulher livra também o filho e o filho é a humanidade.

·             Em todas as formas de convivência, alimentar, limpar, atender e todo momento do viver cotidiano devem ser gestos recíprocos.

·             Por educação e por mimese o homem e a mulher já estão nos papeis desde a primeiríssima infância.

·             Reconhecemos o caráter mistificador de todas as ideologias, porque por meio das formas racionalizadas de poder (teológico, moral, filosófico, político) obrigaram a humanidade a uma condição inautêntica, oprimida e conformista.

·             Por trás de toda ideologia vemos a hierarquia dos sexos. Não queremos, de agora em diante, nenhuma proteção entre nós e o mundo.

·             O feminismo foi o primeiro momento político de crítica histórica à família e à sociedade.

·             Unifiquemos as situações e os episódios da experiência histórica feminista: nela a mulher se manifestou interrompendo pela primeira vez o monólogo da civilização patriarcal.

·             Nós identificamos no trabalho doméstico não retribuído a prestação que permite ao capitalismo, privado e de estado, subsistir.

·             Permitiremos aquilo que continuamente acontece ao final de toda revolução popular, quando a mulher, que combateu junto com os outros, encontra-se deixada de lado com todos os seus problemas?

·             Detestamos os mecanismos da competitividade e a chantagem que é exercida no mundo da hegemonia da eficiência.

·             Nós queremos colocar nossa capacidade laboral à disposição de uma sociedade que seja imunizada em relação a tais mecanismos.

·             A guerra sempre foi uma atividade específica do macho e seu modelo de comportamento viril.

·             A paridade de retribuição é um direito nosso, mas nossa opressão é outra coisa.

·             É suficiente a paridade salarial quando já temos nas costas as horas de trabalho doméstico?

·             Reexaminemos as contribuições criativas da mulher à comunidade e dissipamos o mito de sua laboriosidade subsidiária.

·             Dar muito valor aos momentos “improdutivos” é uma extensão de vida proposta pela mulher.

·             Quem tem o poder afirma: “Faz parte do erotismo amar um ser inferior”. Manter o status quo é, portanto, seu ato de amor.

·             Acolhemos a liberdade sexual em todas as suas formas, porque deixamos de considerar a frigidez uma alternativa honrosa.

·             Continuar a regulamentar a vida entre os sexos é uma necessidade do poder; a única escolha satisfatória é uma relação livre.

·             São direitos das crianças e dos adolescentes a curiosidade e os jogos sexuais.

·             Olhamos por 4000 anos: agora vimos!

·             Às nossas costas está a apoteose da milenária supremacia masculina.

·             As religiões institucionalizadas foram o mais firme pedestal dessa apoteose. E o conceito de "gênio" foi sua etapa inalcançável.

·             A mulher teve a experiência de a cada dia ver a destruição do que fazia.

·             Consideramos incompleta uma história que se constituiu sobre pegadas não perecíveis.

·             Nada ou quase nada foi transmitido da presença da mulher: cabe a nós redescobrir isso para saber a verdade.

·             A civilização nos definiu como inferiores, a Igreja nos chamou de sexo, a psicanálise nos traiu, o marxismo nos vendeu à revolução hipotética. Chamamos referências de milênios de pensamento filosófico que teorizou a inferioridade da mulher.

·             Consideramos os sistematizadores do pensamento como os responsáveis pela grande humilhação que o mundo patriarcal nos impôs: eles mantiveram o princípio da mulher como ser adicional para a reprodução da humanidade, vínculo com a divindade ou limiar do mundo animal; esfera privada e pietas. Justificaram na metafísica o que era injusto e atroz na vida da mulher.

·             Cuspamos em Hegel.

·             A dialética senhor-escravo é um acerto de contas entre coletivos de homens: ela não prevê a libertação da mulher, o grande oprimido da civilização patriarcal.

·             A luta de classes, como teoria revolucionária desenvolvida a partir da dialética do senhor-escravo, da mesma forma exclui a mulher.

·             Nós colocamos em discussão o socialismo e a ditadura do proletariado. Não se reconhecendo na cultura masculina, a mulher retira desta a ilusão da universalidade.

·             O homem sempre falou em nome do gênero humano, mas metade da população terrestre o acusa agora de ter sublimado uma mutilação.

·             A força do homem está em sua identificação com a cultura, a nossa está em refutá-la.

·             Depois desse ato de consciência, o homem será distinto da mulher e deverá escutar dela tudo o que concerne a ela.

·             O mundo não será omitido se o homem não tiver mais o equilíbrio psicológico baseado em nossa submissão.

·             Na ardente realidade de um universo que nunca revelou seus segredos, nós retiramos muito dos créditos dados às obstinações da cultura.

·             Queremos estar à altura de um universo sem respostas.

·             Nós procuramos a autenticidade do gesto de revolta e não a sacrificaremos nem à organização nem ao proselitismo.

 

Roma, julho de 1970

 

Comunicamos apenas com mulheres    

 

 

Trad.: Vinícius Nicastro Honesko.

Nenhum comentário: