quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Memórias



O homem de boa memória nunca se lembra de nada, porque nunca esquece de nada. Sua memória é uniforme, uma criatura de rotina, simultaneamente condição e função de seu hábito impecável, um instrumento de referência e não de descoberta. A apologia de sua memória – “lembro-me como se fosse ontem...” – é também seu epitáfio e também indica a expressão exata de seu valor. Não pode lembrar-se de ontem, na mesma medida em que não se pode lembrar de amanhã. Pode apenas contemplar o dia de ontem, pendurado para secar juntamente com o feriado estival de maior índice de precipitação pluviométrica que se tem registrado, pouco adiante no varal. Porque sua memória é um varal, e as imagens de seu passado são roupa suja redimida, criados infalivelmente complacentes de suas necessidades de reminiscência. (...)

Estritamente falando, só podemos lembrar do que foi registrado por nossa extrema desatenção e armazenado naquele último e inacessível calabouço de nosso ser; para o qual o Hábito não possuía a chave – e não precisa possuir; pois lá não encontrará nada de sua útil e hedionda parafernália de guerra. Mas aqui, nesse ‘gouffre interdit à nos sondes’, está armazenada essência de nós mesmos, o melhor de nossos muitos eus e suas aglutinações, que os simplistas chamam de mundo; o melhor, por que acumulado sorrateira, dolorosa e pacientemente a dois dedos do nariz da vulgaridade, a fina essência de uma divindade cuja disfazione sussurrada afoga-se na vociferação saudável de um apetite que abarca tudo, a pérola que pode desmentir nossa carapaça de cola e cal. (...) Desta fonte profunda, Proust alçará seu mundo. Sua obra não é um acidente, mas seu salvamento o é.


BECKETT, Samuel. Proust. (Tradução Arthur Nestrovisky). São Paulo: Cosac & Naify, 2003. pp. 29-31.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Do passado o que importa é o que se esquece...

"O que importa, o que é destinado a sobreviver, sobrevive aparentemente em segredo, na realidade no modo mais óbvio, uma vez que sobrevive como matéria existente de quem experimentou o passado: como presente vivente, não como memória de passado morto."
Furio Jesi

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Elogio a Bartleby - ou contra a pseudoatividade



(...) Isto nos leva à noção de falsa atividade: as pessoas não agem somente para mudar alguma coisa, elas podem também agir para impedir que algum coisa aconteça, de modo que nada venha a mudar. Aí reside a estratégia típica do neurótico obsessivo: ele é freneticamente ativo para evitar que a coisa real aconteça. Por exemplo, numa situação de grupo em que alguma tensão ameaça explodir, o obsessivo fala o tempo todo para impedir o momento embaraçoso do silêncio que compeliria os participantes a enfrentar abertamente a tensão subjacente. No tratamento psicanalítico, neuróticos obsessivos falam constantemente, inundando o analista com anedotas, sonhos, insights: sua atividade incessante é sustentada pelo temor subjacente de que, se pararem de falar por um instante, o analista vá lhes fazer a pergunta que realmente importa - em outras palavras, eles falam para manter o analista imóvel.


Mesmo em grande parte da política progressista de hoje, o perigo não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser ativo e participar. As pessoas intervêm o tempo todo, tentando "fazer alguma coisa", acadêmicos participam de debates sem sentido; a coisa realmente difícil é dar um passo atrás e retirar-se daquilo. (...) Contra este modo interpassivo, em que somos ativos o tempo todo para assegurar que nada mudará realmente, o primeiro passo verdadeiramente decisivo é retirar-se para a passividade, e recusar-se a participar. Esse primeiro passo limpa o terreno para uma atividade verdadeira, para um ato que mudará efetivamente as coordenadas da cena.






ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. (trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Zahar, 2010. pp. 36-37.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Perspectivas... já de outrora...

Perdu dans ce vilain monde, coudoyé par les foules, je suis comme un homme lassé dont l’œil ne voit en arrière, dans les années profondes, que désabusement et amerture, et devant lui qu’un orage où rien de neuf n’est contenu, ni enseignement ni douleur.
Le soir où cet homme a volé à la destinée quelques heures de plaisir, bercé dans sa digestion, oublieux — autant que possible — du passé, content du présent et résigné à l’avenir, enivré de son sang-froid et de son dandysme, fier de n’être pas aussi bas que ceux qui passent, il se dit en contemplant la fumée de son cigare : Que m’importe où vont ces consciences ?

Charles Baudelaire. Fusées.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A barbárie é silenciosa


Sem a filosofia, sem a literatura, o mundo continuará sua marcha desenfreada
O fluxo da rodovia não necessita de Aristóteles, Kant ou Kierkegaard.
Tampouco a perambulação do cambista pai de duas meninas, morador de Parelheiros
Ninguém espernearia e arrancaria os cabelos se Max Brod, antes mesmo de se tornar o amigo célebre, tivesse comprado um galão de gasolina e riscado um mísero palito de fósforos.
Os asfaltos sem flor, as esquinas e seus anônimos apressados não verteriam lágrimas por um Drummond eternamente "deletado".
E se o filho de Fenareta tivesse sido morto na guerra do Peloponeso, ou por uma meningite na primeira infância, a filosofia socrática - nem Platão, nem Antístenes, Xenofonte ou Diógenes de Sínope - não faria falta a ninguém.
Nem as bibliotecas sentiriam a ausência de um Borges que na juventude optou pela alfaiataria.
Kafka, Kant, Drummond, Rosa... etc. Produtores de inutensílios - de excessos inutilizáveis (felizmente!). O problema básico da cultura é que seu extermínio pode ser silencioso, não são necessárias bombas nem derramamento de sangue.
A perplexidade surgiu depois de perceber que, na tarefa inglória de ser professor "da área de humanidades" para uma turma de técnicos, a incompreensão que estes possam ter de Montaigne ou Voltaire não mudará em nada suas vidas - talvez até os torne mais "felizes", mais "aptos" e obstinados para aquilo em que estão se "aperfeiçoando".
É como se Voltaire simplesmente não tivesse escrito nada, como se Montaigne tivesse se recolhido ao seu castelo e extraviado todos os seus manuscritos. Tanto faz se Brod queimou ou manteve intactos os textos de Kafka!
Não podemos amar a mulher que nem chegamos a conhecer. Isso não altera em nada nossas vidas. Conhecê-la talvez seria a "porta para outra vida nesta mesma vida". Mas, até aí, tudo paira na potencialidade, neste magma de virtualidades e consumações que formam o mundo.
Neste duro e espinhoso calvário que se tornou a terra, o pensamento é uma frágil bolha de sabão.
O silêncio destes espaços filisteus, cada vez mais vastos e desérticos, me apavora.


Imagem Peter Marlow

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A marcha da História

Miao Xiaochun: The Last Judgement in Cyberspace 2006


Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.

Murilo Mendes. As Metamorfoses. in.: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 332.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sais de uma lágrima que se vai

O estupor de momentos solenes na solidão não é traço de impotência, de falta de vontade, de vontade de solidão. Não, não é nada disso e não compreendem nada os que isso insinuam a respeito de outros e de si mesmos.
E o piano não canta e não soa mais do que uma verdade insólita que me devassa neste momento de quietude e solidão.
Verdade insólita, insipiente, inconsequente. Que consequências tem uma vida? Que clamores por estes negros que vejo tão sofridos por aqui?
Lasciva, pérfida, a vida é inconsequente e a voz do homem o último canto de desespero num mar de mansidão que se exaure em cada gota de lágrima derramada.
No choro a verdade se esparrama por vento, sol, chuva e canto.
O brilho da fração de luz que se refrata na gota que cai, numa intermitência de segundos, faz o choro ser a expressão mais pura da existência humana.
Milênios de clamores não são mais que sussurros diante da verdade de uma lágrima... tão límpida, tão perfeita em seu movimento... movimento sempre de queda.
E o anjo caído chora a verdade eterna perdida, remoendo e rangendo os dentes.
Se não esperasse, se não olhasse a queda de baixo, riria e dançaria com o brilho da gota de lágrima que cai.
Ouvir o espatifar da gota salgada... só no convívio íntimo consigo mesmo.
Não restam sais, nem em seus mínimos cristais. O abandono se cumpre ao som triste desse piano que soa, só
para mim, só...