quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Pierre Menard - Autor do Quixote








Não queria compor outro Quixote - o que é fácil -, mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca enfrentou uma transcrição mecânica do original; não se propunha a copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir algumas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes. ‘Meu propósito é simplesmente assombroso’, escreveu-me em 30 de setembro de 1934, de Bayonne. ‘O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo externo, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias do seu trabalho e eu resolvi perdê-las. De fato, não resta um único rascunho que ateste esse trabalho de anos. O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros e contra o turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimento (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do séc. XVII), mas o afastou por considerá-lo fácil. Na realidade, impossível! - dirá o leitor. De acordo, porém o projeto era de antemão impossível e, de todos os meios impossíveis para levá-lo a cabo, este era o menos interessante. Ser no séc. XX um romancista popular do séc. XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu-lhe menos árduo – por conseguinte menos interessante – que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote mediante as experiências de Pierre Menard.







Borges, Jorge Luis. Ficções. (Tradução Carlos Nejar). São Paulo: Ed. Globo, 2001. p. 58. Gravuras: Gustave Doré / Cândido Portinari







Um comentário:

Salomão Rovedo disse...

Assim como Borges fez Menard, fiz "Borges, co-autor do Poema Sujo?", conforme está em:
http://virtualbooks.terra.com.br/osmelhoresautores/Tres_Vezes_Gullar.htm