terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Carta impossível



If you don't mind a ghost in the house it is all
right, but now I have told you about it.

Para minha destinatária impossível.

Querida, por pouco que não lhe envio por engano um papel de carta em branco. Seria um ato falho? Ou, melhor, talvez teria sido minha vontade de lhe enviar a minha mallarmaica blanche agonie? Tudo, querida, a não ser nossas impróprias impossibilidades, é da ordem da possibilidade. Talvez a carta em branco poderia ser mais lúcida do que esta; aliás, é óbvio que a carta em branco seria mais lúcida, pois estaria plena do fantasma (este brilho que é luz) que, em vez dos grammata - estes sinais da escrita, mas também da voz -, deixaria para você tão somente um brilho puro do nada dizer (e mesmo com tantas possibilidades, só me restaram os condicionais...). Porém, querida, ao contrário do que você poderia pensar, não há nada de mais escuro do que esse brilho do fantasma. É o fantasma deus, querida, é o fantasma deus. Já o barroco João da Cruz, lendo o velho Aristóteles, dizia que para o intelecto unir-se a deus seria necessário ficar cego nos caminhos a serem percorridos e, para isso, bastaria fixar o olhar na luz divina, nas coisas altas e luminosas. Mas acho que entendo seus desejos de abstinência de luz, pois acho que vi o fantasma de muito perto quando o colocava no envelope que teria chegado até você e nenhuma de minhas retinas se queimou. Apaguei a brancura do fantasma com o negrume da baixeza destas letras, destas palavras. E talvez você me entenda lendo esta carta só com os olhos, mas ouvindo o que você acredita ser a minha voz; ou talvez, nessa operação um tanto quanto arriscada, um completo sem sentido pode lhe causar risos e, aí sim, penso que talvez possa ter chegado até você, travestida de negrume, a minha blanche agonie.

Do seu remetente impossível.

p.s.: não consegui evitar, mas a epígrafe do Oscar Wilde talvez seja apenas o eco da minha agonia branca...
p.s.II: como em tempo evitei o envio do fantasma em branco, achei por bem escrever-lhe neste postal com o grande fantasma pintado pelo Tiziano...

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