domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pequeno parágrafo sobre o eco


Ouvi um rumor estranho numa voz conhecida. Era como se a voz, aquela mesma que havia me dito tantas coisas que já me era impossível não identificá-la, tivesse se recriado como eco do que outrora fora. Mas como reconheci aquele rumor estranho no que era conhecido daquela voz? Pensei ser tudo fruto da punição de Hera: agora a voz que havia me dito tantas coisas poderia tão somente repetir com seu som vozes estranhas. Era, portanto, uma voz vazia (e, nesse sentido, talvez a única voz pura por excelência, a que, ao não dizer nada por si, diz apenas si mesma - e para si mesma - com vozes outras). Porém, toda minha estranheza se avoluma quando começo a pensar que, talvez, nem mesmo as coisas que antes ouvira foram ditas por uma voz conhecida: era já sempre um outro, um estranho, um rumor, a me falar de coisas que são as palavras e de palavras que são coisas. Como as coisas (e sempre lembro do Doce Enigma de Murilo Mendes: "Coisas, e a morte que existe nelas,/ Experiência de desconsolo e de fatalidade/ Para as pálpebras que voltaram do amanhã"), isto é, também como as palavras, talvez o estranho que ouvi no som dessa voz - voz que agora é Ninfa - seja os pequenos chamados da morte, do nada que não é nem mesmo nada. Ecco, il Caproni:

Un'idea mi frulla,
scema come una rosa.
Dopo di noi non c'è nulla.
Nemmeno il nulla,
che già sarebbe qualcosa

Imagem: Nicolas Poussin. Eco e Narciso. 1628-1630. Musée du Louvre, Paris.

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