domingo, 11 de janeiro de 2015

Carta ao pai



Pai,

Há pouco eu estava na sacada, tal como você gostava de ficar nas noites de sábado. Bebi e bebi até que o céu escuro desta noite ficasse um tanto mais leve (e, imagino, talvez era essa sua sensação). Mas não sei por que lhe escrevo esta carta se jamais a lerá. Aliás, você nunca foi dado às letras e muito menos àquelas que grafamos num papel; seu mundo é o de uma boa conversa, de perguntas e invenções pelo simples prazer de se deixar iludir pelo inventar. Mas, continuo, por que lhe escrevo? Uma pergunta sem resposta, como as que fazemos diante do assombro que é viver. Contam-me que mamãe me pôs a ver a luz dos dias num nove de agosto em que vocês comemoravam dia dos pais. Era um almoço, na casa da vó - ela que, naqueles dias, perdera seu pai, o velho Aleixo -, e eu, ligeiro, não quis esperar vocês comerem. Vim como a dizer: "Ei, pai, feliz dia!" Mas só depois, com os anos, fiquei sabendo que para você não havia dia especial para nada, mas que todos os dias eram dias de todos.
Anos depois, mais uma vez numa data festiva, insisti em querer chamar sua atenção. Era vinte e sete de abril de mil novecentos e oitenta e sete, seu aniversário de cinquenta e um anos. Vitor e eu jogávamos bola no quintal de casa - e jogávamos, e jogávamos. E, depois de perdermos a segunda ou terceira bolinha de plástico, insisti para que mamãe me desse dinheiro para ir à venda buscar mais uma bolinha. Claro, ela, trancando-me no quintal dos fundos de casa, colocou-me de castigo (porque, com razão, uma criança tinha que ter limites). Sozinho, naquele pátio, corri e, com toda minha força, chutei a porta de vidro que separava a garagem de fora da garagem de dentro, como chamávamos; e, se hoje escrevo, é por ainda lembrar de ver aquela artéria que pululava na minha coxa direita toda rasgada. Lembro-me, e isso nunca havia contado a ninguém, que no caminho do hospital, enquanto eu gritava, no banco traseiro daquele Fusca cujos dois ocupantes hoje jazem mortos, de o ter visto passar, pai. Era hora de almoço e você voltava do trabalho para casa enquanto eu, seu presente de dia dos pais, quase lhe dava, como presente de aniversário, minha morte.
Mas você nunca ligou para presentes, pai; qualquer festejo para o tempo cronológico era, para você, uma bobagem. Quantos aniversários, natais, révellions etc. em que, durante os festejos, você dizia: "Isso é tudo comércio". Os calendários quase em nada lhe diziam respeito, afinal todo dia era dia de tudo. Só muito depois é que fui me dar conta de que seu modo de perceber o tempo, sempre como uma oportunidade, poderia ser dito tempo oportuno, aquilo que os gregos (de quem você, com seu primário na escolinha ucraniana do Jangadinha, jamais ouvira falar) chamavam kairós (e que um filósofo alemão - que você também não conhece e nem teria nenhuma razão para tal - chamava de tempo-do-agora, Jetztzeit na língua que seu pai, meu dido, pelas necessidades de imigrante em terra alheia, também falava).
É nesse mesmo grego, pai, que certa vez um maluco, que se chamava Saulo, iria escrever um monte de cartas a partir das quais um monte de outros malucos iriam pensar isso que a gente chama de cristianismo (e o seu - que, na verdade, a você pouco interessava, e que você fazia questão de chamar ortodoxo - me fascinava naquelas míticas viagens ao sul, em que meus irmãos e eu, ainda crianças, ingressávamos num mundo a nós de todo desconhecido). Em algumas dessas cartas - infelizmente tão mal lidas e usadas como instrumento de dominação, pai - é que o tal Saulo (que depois resolveu chamar a si mesmo de Paulo) fala sobre a gratuidade da vida, sobre o que, em grego, ele nomeava charis, ou, para falarmos português, graça. A tradição latina, pai, que não lhe diz respeito (os ortodoxos estavam ligados a outras leituras), traduziu charis por caritas (poderíamos dizer: amor, afeto) que, por sua vez, ganhou uma versão, numa espécie de erro dissimulado, na ideia de caridade, de obra (a famosa ideia da obra necessária à : isto é, o esquecimento voluntário da gratuidade da charis, da gratuidade do amor). Hoje, pai, como você bem o sabe, essa gratuidade já é de todo tomada pela lógica capitalista da esmola, do dar em vistas de uma recompensa vindoura, aquele famoso "deus lhe pague".
A graça é, pelo contrário, o que você desde muito cedo nos ensinou: pura gratuidade, dom que nos é dado pelo acaso da existência e que, portanto, é sempre ligado não ao ritmo do tempo homogêneo e vazio a ser preenchido por ações (o tempo devorador da vida, que os gregos chamavam Kronos e os romanos Saturno - estes mesmos, travestidos em outras linguagens, a quem as comemorações ofertadas você tanto desdenhava), mas ao tempo oportuno, à vida que se doa, ao mero e banal estar no mundo para, de certo modo, tentar a boa vida, a vida feliz, que tanto e tanto atordoa quem quer que se dedique a pensar (e a viver) a ética ou a política (desculpe, pai, mas essas palavras que podem parecer tão bizarras hoje, e das quais, em suas vertentes idiotizadas do mundo contemporâneo, você nos poupou, são parte do que você nos ensinou sem o saber). A graça da vida, pai, garante-nos, contra todo o aparato das teologias oficiais (dessas coisas com as quais você, com razão, nunca se preocupou), a possibilidade de nem mesmo pecar. E você, um amante inveterado da boa mesa, sempre dizia, nas épocas de quaresma em que tolos lhe falavam sobre as interdições alimentares: "pecado é o que sai da boca, não o que entra".
De graça você nos deu a vida, pai; de graça nos ensinou que nada é perene na vida e que a vivemos para nada, ainda que não em pura perda. Só tenho a lhe agradecer por me ter doado a vida e, zeloso, ter mostrado que ela é pura gratuidade: e, mesmo que ela não leve a nada, que seja para nada, ainda assim não é em vão. E me lembro do velho Eclesiastes que, com sua vaidade enobrecida, sugeria, equívoco atrás de equívoco, ser tudo vão, tudo vaidade e, além disso, haver um tempo estruturado para cada coisa (tempo de plantar, tempo de colher, tempo de nascer, tempo de morrer etc. etc.). Penso que você, mesmo sabendo das coisas da terra, como bom homem do campo que era, intuía o tempo e a vida em outros moldes, nas vias da gratuidade, talvez como um outro judeu, pai, que, em poesia, também fala sobre o tempo e os infortúnios do Eclesiastes:

"Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.

Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.

O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.

Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,

com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.

E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir
o que a História necessita de anos para fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece,
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.

Só o seu corpo permanece sempre
um amador.

Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,

embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,

as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar

onde há tempo
para tudo."

Tempo para tudo, pai, é o que agora nos afasta lentamente. As margens do rio da vida que começam a se alargar num grande delta no infinito do sem sentido, o grande mar da morte. Você nos conta que a última vez em que viu seu pai, o dido, ele, já velho, fraco e ciente de que você, então longe da colônia, talvez nunca mais voltasse a vê-lo, lhe disse: "Vamos nos despedir já, porque você tá longe e depois não quero que venha correndo pra me ver morto". Esse sim, pai, é o adeus de que fala um escritor argentino super famoso, e que você também não conhece (mais uma dessas coisas que você me deu, gratuitamente, a possibilidade de conhecer); é o adeus de quem sabe que é imortal à medida da própria mortalidade, à medida em que sabemos que todo gesto nosso, sobretudo nosso adeus, tem o valor do irrecuperável e do inditoso, à medida em que vivemos para nada, mas não perdemos tudo e que, nesses gestos, restam as fagulhas da gratuidade que é a vida.
Pai, um poeta russo chamado Maiakovski certa vez disse que qualquer "eu te amo", mesmo sussurrado ao pé do ouvido, é como uma sirene repercutindo numa aldeia consumida pelo fogo. Nestes dias tão difíceis é só ao pé do ouvido que lhe falo - e você sabe que nem mesmo precisaria falar, pois isso nos dissemos, sem palavras, em cada cuia de chimarrão que tomamos juntos, em cada vinho e cada cachaça que bebemos, em cada minuto de silêncio das caminhadas que fazia com seu filho adolescente gordinho que precisava emagrecer. Esta carta - sei, pai, talvez um pouco longa - é a sirene que deixo soar na imaginária aldeia onde partilhamos nossa existência.

Um beijo amoroso do seu piá do meio...

p.s.: mando uma foto dos seus piás em anexo, pá...    

4 comentários:

Du disse...

Que texto, Vi! De chorar de lindo!


Dulce

Luciene Honesko disse...

Que lindo primo....emocionei e chorei.
Sem mais palavras, partilho com você e toda nossa família esta angústia que vivemos hoje sobre esta espera do amanhã...de qualquer forma,o amor verdadeiro levamos conosco seja na vida ou na morte.
Bjs

Mayara disse...

E eu que não conheço nem você, nem seu pai, me desmontei aqui. Te ler me fez sentir como se eu tivesse uma sacada com vista privilegiada "nessa imaginária aldeia" onde vocês partilham existência. Obrigada. :)

Rosivaldo Flausino disse...

Tocante Vinícius.
Obrigado por compartilhar.