São instantes que se embriagam de passado e nada mais. O tempo de uma palavra, de um suspiro, de um adeus. E esses galopantes instantes bêbados passam ao largo daquilo que uma vez ousamos chamar de vida. Estúpida hora em que o desejo se esvaiu em gozo e desenhou, com tintas de presente arredio, uma fantasiosa imagem de sonhos prenhes de sentido. As palavras do poeta ainda tocam a borda de meu corpo, como que pedindo entrada para serem soltas nessa imensidão vazia de presentes e passados em que a cada instante me transformo. Não há vozes para uma palavra, nem sopro para um suspiro, nem forças para um adeus. Um caos informe é o campo onde vagam os instantes, um sonho com o nada preenche o que se chamava memória, os traços persistentes das letras insistem em deixar suas marcas nestas cartas destinadas a lembranças impossíveis, e os ecos do poeta ainda se fazem ouvir:
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu
Imagem: Jacob de Gheyn. Quatro estudos de uma mulher. 1602-3. Musées Royaux des Beaux-Arts, Bruxelas.
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