terça-feira, 5 de abril de 2016

Pequeno parágrafo sobre o amor IV



Certa vez o anti-poeta disse, com uma verdade própria, que a morte é um hábito coletivo. As vestes, os hábitos, portanto, que trajamos a cada manhã, com o primeiro rumor dos pássaros, envolve-nos por completo. O despertar do sonho - essa pequena morte travestida ora de paraíso ora de inferno -, o abrir de nossos olhos, é o convite para nos vestirmos, mais uma vez (e mais outra, outra...), com esse nosso hábito. Mas talvez o milagre do despertar e a cor dessa veste impossível de não vestir também sejam o caminho para nossa condição fundamental: somos seres amantes. Um filósofo italiano escreveu:
"Nós amamos porque morremos. Se não morrêssemos não amaríamos. Tanto é verdade que jamais amamos como no momento em que percebemos que a pessoa amada está para morrer. E por que a amamos? Porque sabemos que por mais esforços que façamos, por mais que tenhamos o desejo de iludir-nos, não podemos segui-la na morte. Nós a abandonamos ao seu destino: tampouco um pai pode seguir na morte um filho, e se por acaso o seguisse, por exemplo através do suicídio, não o segue de fato na morte, porque cada um morre sozinho. A minha morte não é a sua e, vice-versa, a sua morte não é a minha. E a morte não une, mas separa, para sempre. Só porque somos mortais somos capazes de amar. Não há experiência maior do que o amor por Deus, pela pessoa amada, pelos filhos, pelos sofredores... mas essa experiência é possível graças ao fato de existir a morte."
Morremos só, mas, ao mesmo tempo, caro filósofo, também um pouco juntos. Cada um que parte leva consigo um pedaço de nosso hábito e, assim, passamos a vida a remendar nossa veste coletiva com um pouco do tecido das vidas que vamos encontrando. Nesses encontros, partilhamos a vida com esses outros e, como que com linha e carretel em mãos, costuramos juntos, um ao outro, nosso hábito coletivo.


Imagem: Hieronymus Bosch. Jardim das delícias terrestres (detalhe). 1500. Museo del Prado, Madri.


2 comentários:

Erika disse...

A citação do filósofo italiano é de quem? Poderia dar a referência?

Vinícius Honesko disse...

Erika, é do Sergio Givone (Sergio Givone, “Amiamo perché moriamo”, in: Sergio Givone; Scialom Bahbout, Morte. Trento: Il Margine, 2013 - a tradução aqui é de meu amigo Davi Pessoa)