sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"É parente seu?"


Às vésperas do terceiro aniversário de morte de meu pai, vou até o cemitério onde se encontra seu túmulo. O fato de eu passar pelo cemitério não tem nenhuma ligação específica com a data, aliás, sempre que posso vou até lá para, ao menos, dar uma passada pelo túmulo. Desta vez, no entanto, diferentemente das outras, quando as imediações do túmulo estavam sempre desertas, havia uma senhora fazendo a limpeza da lápide vizinha à de meu pai. Chapéu, calça jeans dobrada até perto dos joelhos, botas sete-léguas, um rosto com as marcas de quem já viveu seus aparentemente 70 anos, e com um sorriso simpático, ela me pergunta: "É parente seu?" E eu respondo: "É meu pai". Ela, sem mais, baixa a cabeça e, talvez pensando em me dar as devidas reservas como forma de respeito, continua a limpeza do grande crucifixo dourado a poucos metros da cabeceira do túmulo de meu pai.
Naquele instante, alguma coisa se mexeu em mim. Ali, diante de mim, havia apenas uma enorme lápide de granito, com uma cruz ortodoxa e uma pequena inscrição com o nome e as datas de nascimento e morte de meu pai (meus irmãos, minha mãe e eu havíamos optado por não colocar nenhuma foto). A inscrição, o nome, as datas, a cruz, e o gesto de respeito pelo meu silêncio daquela senhora me puseram a pensar, aliás, me colocaram em contato imediado - aquela espécie de punção aguda de sentido - com aquilo que Pasolini dizia ser o "sentimento da história": "uma coisa muito poética e (que) pode ser suscitado dentro de nós e comover-nos até as lágrimas por qualquer coisa, porque o que nos chama a voltar atrás é tão humano e necessário como o que nos impulsiona a andar adiante". 
O "É parente seu?" pronunciado por aquela senhora de rosto sofrido veio como uma espécie de acontecimento. Desde então, nos minutos seguintes à frase singelamente pronunciada - e em que compartilhávamos, a senhora e eu, o silêncio dos nomes inscritos nas lápides -, uma ciranda de imagens inundou minha imaginação: lembrei-me de "Morreste-me", de José Luis Peixoto, e do quanto esse livro, lido ainda antes do primeiro aniversário de morte de meu pai, me havia feito chorar; lembrei-me do texto de Jonathan Franzen sobre o cérebro de seu pai (um belo e pesado texto em que Franzen refletia a respeito do Alzheimer e de como a doença mudou sua vida; aliás, doença esta que também em meu pai pousou seus dedos de esquecimento); lembrei-me das vezes em que íamos, meus irmãos e eu, com meu pai nadar no clube, e de como ele colocava as costas nas bombas de circulação de água e nos dizia: "coisa boa essa massagem!"; lembrei-me também dos risoles do português que comíamos esfomeados depois das horas de piscina; lembrei-me de suas reclamações infindáveis no elevador, com uma mão apoiada sobre a botoeira e outra retirando as poucas sombrancelhas que lhe restavam; lembrei-me de alguns de seus porres e de como então, bêbado, assoviava aquelas músicas ucranianas e arrastava seus chinelos; lembrei-me dos dias de férias, dos churrascos feitos com as carnes dos porcos que ele mesmo matava (aqueles aos quais, algumas vezes, ele me levava para dar milho e ração); lembrei-me de quando me despedi no dia em que me mudei para Florianópolis e de como ele me dizia, chorando, "vai, vai!"; lembrei-me das manhãs em que nós dois, os únicos acordados na casa, tomávamos chimarrão sem trocar uma palavra; lembrei-me de quando ele me levava, nas manhãs muito frias, para tomar o ônibus para o colégio; lembrei-me do "Claro Enigma" de Drummond e daquele "Encontro" que lia e relia nos primeiros meses depois da morte de meu pai - "Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho / Se a noite me atribui poder de fuga, / sinto logo meu pai e nele ponho / o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga..."; lembrei-me de Nat King Cole, de seu disco de boleros, talvez uma das poucas coisas que meu pai escutava com paciência; lembrei-me de suas ligações diárias só para saber o que eu havia comido; lembrei-me do jeito carinhoso como ele dizia "bem" ao chamar minha mãe; lembrei-me, lembrei-me, lembrei-me... 
Nestes quase três anos de ausência, o que a singela pergunta da senhora hoje pela manhã me fez refletir é que, mais do que a inscrição do nome (o suposto sinal anti-esquecimento), a voz, esse efêmero efeito humano que se vai com o vento, talvez seja ainda mais capaz de suscitar a vida. Meu pai já não o posso ver, ouvir, tocar, e as memórias dele que em mim irrompem tampouco se cristalizam, mas estão sempre em movimento, um movimento que é parte do presente, desse constante esquecer que é o estar vivo. Talvez nunca mais encontre a senhora, aliás, acho que seu rosto agora por mim lembrado já em nada se parece do rosto que ela carrega agora em algum lugar da cidade; e sua voz, aquela que me veio como um forte sinal de vida, ainda ecoa silenciosa nas imagens que me preencheram a manhã, nas letras com as quais aqui e agora escrevo e em mim, apenas alguém que respira.  

2 comentários:

nicole lima disse...

"O mundo é a nossa pele", professor.

Mayara disse...

Talvez tudo isso tenha a ver com a sensação de começar a ler seu texto chorando e acabar sorrindo, mesmo que, só por sentir vida.