segunda-feira, 20 de abril de 2020

As dobras do mundo - Giorgio Agamben





A lenda começa com uma fábula: “Era uma vez, na cidade de Nicomédia, um homem de nome Dióscuro, ilustre por nobreza, que se destacava sobre todos pela abundância de bens temporais. Ele tinha uma filha lindíssima (speciosissima) que se chamava Bárbara. Seu corpo era tão belo que o pai a amava mais do que qualquer outra coisa. Por isso, mandou construir uma torre muito alta e aí prendeu a filha de modo que nenhum outro homem pudesse vê-la."

Nesse ponto, a lenda áurea toma a palavra da fábula, o apólogo edificante substitui a narração fantástica. “A beata menina era cheia de engenho (ingeniosa) e desde tenra idade, abandonando todo pensamento vão, pusera-se a pensar as coisas divinas (coepit divina cogitare)". Vendo em um templo as estátuas dos deuses pagãos que o pai venerava, compreendeu que estes eram, na realidade, humanos e não divinos. E uma vez que os quatro elementos de que é feito o homem não podem ser feitos por si, mas são criaturas, deduziu que devia existir um ser que os havia criado. E ao saber que em Alexandria havia um homem de nome Orígenes, que instruía os homens nas coisas divinas, escreveu-lhe uma carta contando sobre suas intuições e suas dúvidas. A resposta do sábio não tardou: "Deves saber, menina, que o verdadeiro Deus é um na substância e trino nas pessoas, isto é, pai, filho e espírito santo”.

E aqui a lenda de Bárbara se confunde com a da torre que o pai estava construindo. Ao ver que os arquitetos, seguindo as instruções paternas, haviam colocado na torre duas janelas, pediu insistentemente e conseguiu que fosse aberta uma terceira janela. E quando o pai lhe perguntou a razão dessa intrusão, ela respondeu: “três iluminam o mundo e regulam o curso das coisas, isto é, o pai, o filho e o espírito santo”. Neste ponto, o destino da mártir é traçado. O incestuoso ciúme do pai se transforma em fúria homicida. Depois de ter mandado torturá-la com tochas ardentes, à espera de que se arrependesse, Dióscuro primeiro fecha a filha na torre e na sequência a leva para um monte e a decapita. Mas enquanto desce do lugar onde consumou seu delito, é fulminado pelo fogo celeste.



Na grisaille de Van Eyck, Bárbara é representada em primeiro plano enquanto pensa nas coisas divinas. Às suas costas, uma massa de operários trabalha na construção da "altíssima torre", a qual lhe servirá como prisão. Alguns levam pedras, outros cozinham tijolos e preparam o concreto, outros batem os ferros. Os quatro cavaleiros à esquerda talvez sejam os arquitetos da imponente obra, cuja fachada gótica se levanta por trás da cabeça da menina. No alto, as três janelas testemunham que Bárbara foi bem-sucedida em sua intenção alegórica. E, no entanto, a impressão é a de que o pintor havia conferido à torre um significado ulterior, que vai além daquele contado na lenda. A torre – o número e a variedade dos mestres de obras e a posição isolada da cidade parecem sugerir isso sem reservas – é, na verdade, a mesma que os homens, na narrativa de Gênesis 11, 1-9, começaram a construir no país de Senaar e que foi chamada de Babel. Como esta – e assim o mostram as gruas e operários concentrados no trabalho no alto –, a torre de Van Eyck é interminável, e é possível que Bruegel dela se lembrasse enquanto pintava sua célebre imagem babélica.

Ao estudo das coisas divinas representado por Bárbara contrapõe-se a louca ciência dos homens ocupados na construção da torre que devia chegar até o céu e que foi causa da confusão das línguas. O edifício, tenha ele duas ou três janelas, pertence inequivocamente à esfera do poder paterno, simboliza a arrogância e, ao mesmo tempo, a prisão do mundo.

Também a menina, que Van Eyck curiosamente escolheu situar não em um interior mas sentada diante da torre, é uma alegoria. Como Babel, também o nome “Bárbara” alude a um balbucio, que, no entanto, é aquele da humilde razão humana diante da ciência divina. Ela busca, sem o conseguir, parar a obra interminável, nesta inserindo uma imagem da trindade. Suas cogitationes divinae são representadas não pelo livro aberto, que o olhar oblíquo da menina não parece ler, nem pelo ramo de palma, símbolo da justiça, mas pelo cruzamento das dobras na imensa veste que ocupa o terço anterior do quadro. Suas esparsas e quase tenras volutas pousadas no solo, sobre as quais a mão do pintor tão pacientemente se demorou, desmentem a rigidez da torre, que em vão se estende para o alto. E aqui Deus não é apenas uno e trino, mas, como nas páginas de Nicolau de Cusa que Van Eyck podia conhecer, está preso e envolvido nas inumeráveis implicações do mundo, nas dóceis dobras do ser cujo desdobramento infinito representa. 
 
Giorgio Agamben. Le pieghe del mondo. In.: Giorgio Agamben. Studiolo. Torino: Einaudi, 2019. pp. 9-14. Trad.: Vinícius Nicastro Honesko 
 
Imagem: Jan Van Eyck, Santa Bárbara, técnica mista sobre madeira, 32,3cm X 18,5cm. Assinado na moldura: Joh(ann)es De Eick me fecit.