terça-feira, 17 de julho de 2007

Idéia da luz

Acendo a luz num quarto escuro: certo, o quarto iluminado não é mais o quarto escuro, eu o perdi para sempre. No entanto, não se trata exatamente do mesmo quarto? Não é, portanto, o quarto escuro o único conteúdo do quarto iluminado? Aquilo que não posso mais ter, aquilo que infinitamente escapa para trás e, ao mesmo tempo, lança-me para frente é apenas uma representação da linguagem, o escuro pressuposto à luz; mas se abandono a tentativa de apreender este pressuposto, se volto a minha atenção para a luz mesma, se a recebo - aquilo que a luz me dá é, então, o próprio quarto, o escuro não hipotético. O único conteúdo da revelação é o em si fechado, o velado - a luz é apenas o acontecer do escuro a si mesmo.
(AGAMBEN, Giorgio. Idea della Prosa. Macerata: Quodlibet, 2002. p. 109. Tradução: Vinícius Nicastro Honesko)

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Manifesto Antropófago


Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Où Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha."
(Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* "Lua Nova, o Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães.

(OSWALD DE ANDRADE. A Utopia Antropofágica. São Paulo: Globo, 2001. pp. 47-52.)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Irreparável


Um ser que não é nunca ele mesmo, mas é só o existente. Não é nunca existente, mas é o existente, integralmente e sem refúgio. Ele não funda, nem destina nem torna nulo o existente: é apenas o seu ser exposto, a sua auréola, o seu limite. O existente já não reenvia para o ser: ele é no meio do ser e o ser é inteiramente abandonado no existente. O existente já não reenvia para o próprio ser: ele é no meio do ser e o ser é inteiramente abandonado no existente. Sem refúgio e, todavia, salvo – salvo no seu ser irreparável. O ser, que é o existente, é para sempre salvo do risco de existir como coisa ou de ser nada. O existente, abandonado no meio do ser, é perfeitamente exposto. (...)


Apenas podemos ter esperança naquilo que é sem remédio. Que as coisas estejam assim ou de outra maneira – isto é ainda no mundo. Mas que isso seja irreparável, que o assim seja sem remédio, que nós possamos contempla-lo como tal – isto é a única passagem para fora do mundo. (O caráter mais íntimo da salvação: que sejamos salvos só no instante em que já não queremos sê-lo. Por isso, nesse instante, existe salvação – mas não para nós).



AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. pp. 81-83.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ao fundo do abismo


Ao fundo do abismo! Não para buscar um novo fundo, não para procurar um in-fundado fundamento, mas para abraçar o nada num enlace negativo: eis a dýnamis do humano - anéantir le néant!


Não se trata de um niilismo que quer o nada, mas de um niilismo levado ao extremo na negação deste nada - anéantir le néant!


Num ultraje às formas pré-feitas, per-feitas, des-feitas do presente falsificado em nada - anéantir le néant!


Um tempo outro, uma história em coleção, na ruptura da seqüência historiográfica - anéantir le néant!


Somente se apreendermos a tão prometida (e sonhada) eternidade vindoura no átimo do instante presente (no kairós instaurado pelo messias - que já está sempre aqui; que desde sempre já veio) é que nos livramos do fundamento e o verdadeiro humano - o ser potencial - pisa o solo de sua terra, de sua pátria: um solo e uma pátria sempre faltantes - anéantir le néant!


O dia do juízo!!! Eis a nossa condição histórica normal, para além da qual não há um a-tempo eterno, um paraíso glorioso - anéantir le néant!


Ir ao fundo do abismo sem tocar seu suposto (pretenso, mítico) fim fundamental - anéantir le néant!


Experimentemos nossa impotência, porque é nela que somos pura potência, nela somos criadores - anéantir le néant!


Provemos da nossa condição para do seu amargo gosto criarmos os mais doces frutos - anéantir le néant!


Neguemos sim, mas não no remorso da lembrança daquilo que nunca foi - anéantir le néant!


Não há o passado com o qual sonhamos (e no qual está eternizado um futuro, no pretenso retorno daquilo que não foi), este sempre nos falta, é sempre ausência - anéantir le néant!


Resta-nos apenas uma coisa: encarar nossa condição de seres faltantes.


Eis aí o nosso sentido...

sábado, 7 de julho de 2007

Poemafásico


Em busca do espaço perdido
Tateamos nas rochas dessa prisão
O tempo,
Esse enigma,
Já o esquecemos em algum beco escuro
da caminhada que ainda prossegue

Rendemos libações a totens erigidos
Ao deus Absurdo
Que nos guia

Mas a fé não está entre nós.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O Castelo


- Permita-me, senhor prefeito, que eu o interompa com uma pergunta - disse K. - O senhor não fez menção, antes, a uma autoridade de controle? A administração, da maneira como o senhor descreve, é de uma natureza tal, que a pessoa se sente mal só de pensar que esse controle possa estar ausente.
- O senhor é muito severo - disse o prefeito. - Mas pode multiplicar por mil sua severidade que ela não será nada em comparação com a severidade que a administração emprega em relação a si mesma. Só uma pessoa completamente estranha pode fazer uma pergunta como a sua. Se existem autoridades de controle? Existem apenas autoridades de controle. Evidentemente elas não se destinam a descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, pois não ocorrem erros, e mesmo que aconteça um, como no seu caso, quem tem o direito de dizer de forma definitiva que é um erro?
- Isso seria uma novidade completa! - exclamou K.
- Para mim é uma coisa muito antiga - disse o prefeito. - Eu mesmo estou convencido, de um modo não muito diferente do seu, de que houve um erro e de que, por causa do desespero com isso, Sordini adoeceu gravemente; as primeiras instâncias de controle, às quais devemos a descoberta da origem do erro, aqui também o reconhecem. Mas quem pode afirmar que a segunda instância julga da mesma maneira e a terceira também e assim por diante todas as demais?
- Pode ser - disse K. - Prefiro não me intrometer nessas considerações, além disso é a primeira vez que ouço falar dessas instâncias de controle e naturalmente ainda não sou capaz de entendê-las. Acredito apenas que aqui se devem distinguir duas coisas: primeiro, aquilo que acontece dentro da administração das instâncias e o que, por sua vez, pode ser concebido administrativamente, de uma maneira ou de outra; e segundo, minha pessoa real, eu, que estou fora da administração e a quem ameaça um prejuízo tão insensato por parte delas, que ainda não consigo acreditar na seriedade do perigo. Para o primeiro ponto provavelmente vale o que o senhor, prefeito, narra com um conhecimento de causa espantoso, extraordinário, mas agora eu gostaria de ouvir também uma palavra a meu respeito.
- Chego também a isso - disse o prefeito. - Mas o senhor não poderia entender se eu não antecipasse ainda alguma coisa. Já o fato de eu mencionar neste momento as instâncias de controle foi prematuro. Volto portanto às divergências com Sordini. Como dizia, a mínima vantagem sobre alguém, ele já venceu, pois aí se intensificam sua atenção, sua energia, sua presença de espírito, e para a pessoa atacada é uma visão terrível e para os inimigos dela uma visão estupenda. Só posso falar dele assim como estou fazendo porque em outros casos também experimentei isso. Aliás, até agora nunca conseguî vê-lo com meus próprios olhos, ele não pode vir aqui para baixo, está muito sobrecarregado de trabalho, sua sala, conforme me descreveram, tem todas as paredes cobertas por colunas de processos volumosos empilhados uns sobre os outros, são apenas aqueles nos quais Sordini está trabalhando no momento, e uma vez que das pilhas são constantemente retirados processos e juntados novos documentos, tudo na maior pressa, as pilhas desmoronam e é justamente esse estrondo que se repete sem cessar que se tornou característico do escritório de Sordini. Sim, Sordini é um grande trabalhador e dedica o mesmo cuidado tanto ao menor como ao maior dos casos.

(Franz Kafka. O Castelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Tradução: Modesto Carone. pp. 102-104.)


domingo, 1 de julho de 2007

Glória

"Em toda obra de arte autêntica existe um lugar onde aquele que a penetra sente uma aragem como a brisa fresca de um amanhecer. Daí resulta que a arte, muitas vezes considerada refratária a qualquer relação com o progresso, pode servir a sua verdadeira definição. O progresso não se situa na continuidade do curso do tempo e sim em suas interferências, onde algo verdadeiramente novo se faz sentir pela primeira vez, com a sobriedade do amanhecer."
(BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006. p. 516)
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Gloria in excelsis Deo;
Et in terra pax
hominibus bonae voluntatis.
Laudamus te.
Benedicimus te.
Adoramus te.
Glorificamus te.
Gratiam agimus tibi
propter magnam gloriam tuam.
Domine Deus, Rex coelestis,
Deus Pater omnipotens.
Domine Fili unigenite, Jesu Christe.
Domine Deus,
Agnus Dei,
Filius Patris.
Qui tollis peccata mundi,
miserere nobis..
Qui tollis peccata mundi,
suscipe deprecationem nostram.
Qui sedes ad dexteram Patris,
miserere nobis.
Quoniam tu solus Sanctus.
Tu solus Dominus.
Tu solus Altissimus, Jesu Christe.
Cum Sancto Spiritu in gloria Dei Patris.
Amen.


Abertos os céus para o resplandecer da glória! O vazio que tanta atração exerce é preenchido com uma luz ofuscante. Não nos deixa vê-lo, quem dirá apreendê-lo. Na distância que dele nos separa, vapores lúdicos embaçam nossas vistas: entretêm-nos.
Na beleza da representação de nossa incapacidade está, inadvertidamente, nosso estatuto mais original. Nas pinceladas de Tiziano ou nas de El Greco, o vazio resplandecendete da glória encontra sua visível expressão, sem no entanto deixar de altear-se para o além. Nesta fusão do pintar com o pintado fulgura, ainda que numa dimensão inapreensível, a escondida inoperosidade constitutiva dos que restam para cá das nuvens...