Numa história de amor e ódio, li que "alguns de nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos". Essas palavras soavam desde as ruínas da civilização em meio à floresta: eram os passos d'A História a embrenhar-se no desconhecido para, tudo conhecendo, oferecer-se como nosso sonho, como sentido do progresso. E rumamos, desde então, munidos da onisciência como projeto e do futuro como destino certeiro, guiados pelas palavras que preencheram nossos pesadelos, esses que só a nós pertencem, acreditando que as manhãs seriam mais doces e que a brisa dos dias nos acariciariam a face já sem o suor do trabalho, mas plena da luz da glória da paresse. E nesse presente que é pura passagem, o tempo do projeto cumpre-se diuturnamente: a manhã nos brinda com mais um massacre, os poderosos mijam em nossas cabeças e nos fazem crer que é chuva, o nada que antes aterrorizava agora já não é senão um companheiro da precariedade de um mundo que se sustenta em fiapos esgarçados, e a exploração (de si e dos outros) dá a tônica dos nossos pesadelos que, agora, parecem acontecer muito mais na vigília do que no sono. Outrora, parece que esperávamos pelas palavras soterradas que, após terem sido derrotadas pelo esquecimento, um dia voltavam lentamente em pelo desejo do outro e, no outro, se reacendiam pelo nosso desejo: nem nossos mortos estavam seguros, mas lutávamos por eles. Não dormíamos muito e ainda podíamos sonhar um pouco mais longe, para além de nós mesmos, abdicando da propriedade sobre nossos sonhos e pesadelos. Agora nos tornamos senhores d'A História em que sonhos e pesadelos têm proprietários, em que deglutimos os desejos do outro crentes de já sabermos tudo, de não termos outro destino senão o d'A História na qual tudo já se cumpriu e tudo já foi conhecido. Às margens do desejo, A História nos quer fazer crer que só nos resta assistir ao que seria o fluxo inexorável do tempo que nos deixa, atônitos, sem palavras e sem memórias, sem mortos e sem vivos, apenas como proprietários e senhores de nossos pesadelos cotidianos.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
Glosas intempestivas à leitura de Jarry (Le Surmâle - 1902)
jonnefer barbosa
Partir,
de novo,
dali onde estamos,
agora.
Tiqqun - Comment faire (Como fazer)
1. O bailado niilista do deus morto esgotou-se. O Sujeito também morreu, mas não foi superado o niilismo deste fim. As tentativas de incutir vida a uma máscara mortuária - as evocações niilistas de uma "Humanidade" irrecuperável - são hoje perceptíveis em vulgares aclamações, seja ao líder fascista ou ao avatar superpop da rede social. De trump à bunda de kim kardashian, insígnias de um niilismo superesgotado.
Diante do desespero do niilismo narcísico, restabelecer o contato entre devires anônimos e forças comuns.
Diante do desespero do niilismo narcísico, restabelecer o contato entre devires anônimos e forças comuns.
Sem nostalgias ou ressentimentos.
2. Forma-de-vida não é um conceito forte, apesar das intenções de Agamben. Tanto forma (o outro da matéria) quando o próprio conceito de potência (o outro do ser em ato) carregam consigo resíduos mitológicos da máquina. Hífens não atam o que desde sempre está cortado. A Messalina ou o Supermacho de Jarry são forças|vida. Entidades.
3. Entidades são corpos sem órgãos. Elas não se referem à fraca ontologia da coisidade heideggeriana, muito menos são emanações de entes. Linhas de fuga à ontologia das formas e matérias, ao aristotelismo tomista-jesuítico-colonizador. Entidades são vidas imaginais-imanentes. Warburg, o alemão que delirou ser um índio mexicano, sonhava com entidades quando propôs o conceito de Nachleben. Uma canção, um golpe de capoeira, uma maneira de viver em conjunto. Um quilombo, uma ZAD, um caracol zapatista. Todas as entidades do candomblé.
Alguém, ninguém.
4. Não basta que no futuro Bolsonaro passe a faixa a Boulos. Brasília é resultado de uma imaginação delirante. Derrotar o bolsonarismo que nos atravessa exige restabelecer o contato entre nossos devires. Devir quilombo dos palmares, devir malês, devir cabanos, devir canudos, devir araguaia. Articulações com o que não adveio nesses passados destruídos, cujas cinzas ainda possuem brasas que podem colocar fogo no palácio.
5. Diante da hierarquia militar em moda no Brasil, com suas continências e comandos, proliferemos o gesto e a ética da insubordinação.
6. A tropicália e o desbunde como gesto político na década de 70 fizeram uso de uma fortalecida indústria cultural analógica e nacional. Retomar o desbunde como ancoragem política no tempo da pornotopia cibernética é fazer uma aposta demasiadamente trivial em um jogo de vida ou morte. Instagram e xvideos são feixes de um mesmo diagrama em cujo centro está a mais completa e indissolúvel financeirização e espetacularização do corpo humano. Apostar na estetização do corpo - ressuscitar a-historicamente Caetano Veloso e Zé Celso dos anos 70 -, como pretende uma certa esquerda micareta, é como tentar conter o aumento dos oceanos com baldes, mesmo que "coletivamente".
7. Não se faz uso da cibernética: urge derrotá-la, desativá-la.
8. As entidades são uma linha de fuga política e antropológica à dicotomia natureza e cultura.
9. Não há o corpo, apenas forças|vidas, entidades. O corpo sem atravessamentos históricos, sem a imanência que lhe circunscreve, é apenas soma (um cadáver, para os gregos). Contra as interdições dos neo-pentecostais instalados no palácio do planalto após 2019, não basta opor o escândalo de um corpo, seja supliciado ou nu. Urge restabelecer o contato entre devires anônimos e forças comuns nas quais os corpos são cintilações e intensidades.
Partir,
de novo,
dali onde estamos,
agora
Sem nostalgias ou ressentimentos.
1/1/19
3. Entidades são corpos sem órgãos. Elas não se referem à fraca ontologia da coisidade heideggeriana, muito menos são emanações de entes. Linhas de fuga à ontologia das formas e matérias, ao aristotelismo tomista-jesuítico-colonizador. Entidades são vidas imaginais-imanentes. Warburg, o alemão que delirou ser um índio mexicano, sonhava com entidades quando propôs o conceito de Nachleben. Uma canção, um golpe de capoeira, uma maneira de viver em conjunto. Um quilombo, uma ZAD, um caracol zapatista. Todas as entidades do candomblé.
Alguém, ninguém.
4. Não basta que no futuro Bolsonaro passe a faixa a Boulos. Brasília é resultado de uma imaginação delirante. Derrotar o bolsonarismo que nos atravessa exige restabelecer o contato entre nossos devires. Devir quilombo dos palmares, devir malês, devir cabanos, devir canudos, devir araguaia. Articulações com o que não adveio nesses passados destruídos, cujas cinzas ainda possuem brasas que podem colocar fogo no palácio.
5. Diante da hierarquia militar em moda no Brasil, com suas continências e comandos, proliferemos o gesto e a ética da insubordinação.
6. A tropicália e o desbunde como gesto político na década de 70 fizeram uso de uma fortalecida indústria cultural analógica e nacional. Retomar o desbunde como ancoragem política no tempo da pornotopia cibernética é fazer uma aposta demasiadamente trivial em um jogo de vida ou morte. Instagram e xvideos são feixes de um mesmo diagrama em cujo centro está a mais completa e indissolúvel financeirização e espetacularização do corpo humano. Apostar na estetização do corpo - ressuscitar a-historicamente Caetano Veloso e Zé Celso dos anos 70 -, como pretende uma certa esquerda micareta, é como tentar conter o aumento dos oceanos com baldes, mesmo que "coletivamente".
7. Não se faz uso da cibernética: urge derrotá-la, desativá-la.
8. As entidades são uma linha de fuga política e antropológica à dicotomia natureza e cultura.
9. Não há o corpo, apenas forças|vidas, entidades. O corpo sem atravessamentos históricos, sem a imanência que lhe circunscreve, é apenas soma (um cadáver, para os gregos). Contra as interdições dos neo-pentecostais instalados no palácio do planalto após 2019, não basta opor o escândalo de um corpo, seja supliciado ou nu. Urge restabelecer o contato entre devires anônimos e forças comuns nas quais os corpos são cintilações e intensidades.
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Sem nostalgias ou ressentimentos.
1/1/19
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Redescubramos a ética. Agamben: "Tentem viver segundo suas ideias"
Entrevista de Giorgio a Franco Marcoaldi
Em que acreditamos? Quais são as crenças civis, religiosas, políticas, científicas sobre as quais se estrutura a sociedade? A resposta mostra-se particularmente difícil em um mundo como o nosso, o qual vê as crenças tradicionais – objeto de uma constante erosão – transformarem-se em substitutivas, com a consequente propagação das mais diversas formas de superstição. Ou ainda, pelo contrário, o triunfo de um ceticismo e de uma indiferença que beiram o niilismo.
Tentaremos tratar da questão "crer, crença" afrontando-a desde diversos pontos de vista. E, para isso, pediremos a ajuda de um filósofo italiano de fama internacional: Giorgio Agamben. "Em nossa cultura existem dois modelos de experiência da palavra. O primeiro modelo é de tipo assertivo: dois mais dois são quatro, Cristo ressuscitou no terceiro dia, os corpos caem segundo a lei da gravidade. Esse gênero de proposições é caracterizados pelo fato de que dizem respeito sempre a um valor de verdade objetivo, à dupla verdadeiro-falso. E podem ser submetidas a verificação graças a uma adequação entre palavras e fatos, enquanto o sujeito que as pronunciam é indiferente ao êxito.
Existe, no entanto, um outro e imenso âmbito da palavra, do qual parece que nos esquecemos e que remete, para usar a intuição de Foucault, à ideia de “veridição". Nele, valem outros critérios, que não respondem à separação dura entre verdadeiro e falso. Nele, o sujeito que pronuncia certa palavra se coloca em jogo naquilo que disse. Melhor ainda, o valor de verdade é inseparável de seu pessoal envolvimento."
O sentido profundo do crer deveria ser procurado especificamente nesse segundo modelo?
Certamente. Mesmo se, ao longo do tempo, o triunfo do primeiro modelo, o assertivo, tem de fato apagado o segundo. Causam-me risos os confrontos, hoje muito em voga, entre crentes e não-crentes: verdadeiros diálogos entre surdos, visto que padres e cientistas partilham de visões opostas em relação ao mesmo modelo de verdade. Pouco importa que se discuta sobre leis físicas ou teológicas, que naturalmente elidem-se entre si. Trata-se, em todo caso, de proposições assertivas. A confusão entre aquilo que se pode crer, esperar e amar e aquilo que somos obrigados a considerar verdadeiro, hoje, nos paralisa.
Quando teria sido apagado o segundo tipo de experiência com a palavra?
Na tradição do Ocidente, foi Aristóteles a afirmar que a filosofia deve se ocupar apenas das proposições que podem ser verdadeiras ou falsas. Ainda que existisse, e exista, uma outra experiência da palavra: a da promessa, da oração, do comando, da invocação, e que foi excluída da reflexão filosófica. Naturalmente, isso não significa que não tenha continuado a agir: o direito e a religião se fundam sobre ela.
Um exemplo?
O mais importante de todos: São Paulo, que ao definir a palavra da fé não faz nenhuma referência a critérios de verdade, mas fala da proximidade entre coração e lábios. É significativo que, exceto uma vez, ele sempre use a expressão, por ele inventada, "crer em Jesus Cristo” e não, como seria normal em grego, crer que Jesus é o filho unigênito de Deus etc.. A diferença é substancial. A Igreja, por meio de seus concílios, procurou fixar a fé em dogma, numa experiência de tipo assertivo. E assim desapareceu um traço fundamental da natureza humana, que exige uma fé estranha a uma lógica puramente factual. A verdadeira fé não adere a um princípio pré-estabelecido, e é singular que justamente a Igreja, que devia preservar essa ideia, tenha se esquecido dela. Daí a fórmula “Creio porque é absurdo”.
Quais são os reflexos negativos dessa lógica assertiva sobre nossa vida social?
Infinitos. Pense na ética: afirma-se que para agir bem é preciso dispor de um sistema de crenças pré-fixado. Assim, agiria bem apenas aquele que tem uma série de princípios a que deve se conformar. É o modelo kantiano, ainda imperante, que define a ética como dever de obedecer uma lei. Quando trabalhava sobre a ideia de “testemunho”, me tocou a história de uma moça que, submetida à tortura da Gestapo, refutou-se a revelar os nomes de seus companheiros. Perguntada, mais tarde, em nome de quais princípios tinha conseguido fazer isso, ela responde: “assim o fiz porque me agradava”. A ética não significa obedecer um dever, significa colocar-se em jogo: naquilo que se pensa, se diz e se crê.
Mesmo porque, ultrapassada uma crença na infalibilidade de certa lei, resta um campo de ruínas.
Cedo ou tarde todos têm crenças de tipo objetivo. Na verdade: as crenças políticas foram literalmente esmigalhadas e as teológico-religiosas se fossilizam em dogmas contraditórios. Quanto às científicas: elas acabam completamente sem relação com a vida ética dos indivíduos singulares.
Em Crer e não crer Nicola Chiaromonte formula uma pergunta seca: pode-se crer sozinho?
É uma pergunta pertinente e que eu formularia do seguinte modo: como é possível partilhar uma verdade ou uma fé que não sejam de tipo assertivo? Penso que isso aconteça nos territórios da existência onde nos colocamos em jogo de maneira pessoal. Se a veridição é relegada às margens e o único modelo de verdade e de fé se tornam a ciência e o dogma, então a vida se torna invivível. Daí a indiferença e o ceticismo generalizado, além da depressão social galopante. Apenas procedendo à contrapelo, procurando essa diversa experiência da palavra, é possível voltar à relação originária com a verdade, irredutível a qualquer institucionalização.
Deixo um exemplo: a ciência observa a passagem do primata ao homem falante unicamente em termos cognitivos, como se fosse apenas uma questão de inteligência e de volume cerebral. Mas não há apenas esse aspecto. A transformação deve ter sido tão gigantesca quanto também do ponto de vista ético, político, sensível. O homem não é apenas homo sapiens. É um animal que, de modo diverso dos outros viventes, os quais não parecem dar importância às suas linguagens, decidiu ir até o fundo no jogo da palavra. E daí nasceu a consciência, mas também a promessa, a fé, o amor que extrapolam a dimensão puramente cognitiva.
É ainda um caminho aberto?
O homem ainda não terminou de se tornar humano; a antropogênese está sempre em curso. Menandro escreveu: “como é gracioso – isto é, capaz de gratuidade – o homem quando é verdadeiramente humano". É essa gratuidade que devemos redescobrir. Ainda mais porque os modelos de crença que nos são propostos não mais nos persuadem. São, como dizia Chiaromonte, mantidos à força, com má-fé.
Tentemos traçar um perímetro do grupo dessas crenças mais genuínas, mesmo se subterrâneas, submersas.
Tomemos a política: por que, finalmente, não se interroga sobre a vida das pessoas? Não a vida biológica, a vida nua, que hoje está continuamente em questão nos debates, com frequência em vão, sobre a bioética, mas as diversas formas de vida, o modo que cada um se liga a um uso, a um gesto, a uma prática. Ainda: por que a arte, a poesia, a literatura, são museificantes e relegadas a um mundo à parte, como se fossem política e existencialmente irrelevantes?
Também o escritor russo Alexandr Herzen lamentava, a seu modo, o apagamento da experiência vital subjetiva: afirmando que cremos em tudo, exceto em nós mesmos.
Vivemos em sociedades habitadas por um Eu hipertrofiado, gigantesco, no qual, no entanto, ninguém, tomado de modo singular, pode se reconhecer. Seria preciso voltar ao último Foucault, quando refletia sobre o "cuidado de si”, sobre a “prática de si”. Hoje, é raríssimo encontrar pessoas que experimentem aquilo que Benjamin denominava como a droga que tomamos sozinhos: o encontro consigo mesmo, com as próprias esperanças, as próprias lembranças e esquecimentos. Nestes momentos, assiste-se a uma espécie de afastamento do Eu, acede-se a uma forma de experiência que é o exato contrário do solipsismo. Sim, penso que seria possível partir daí para repensar uma ideia diversa do crer: formas de vida, práticas de si, intimidades. Essas são as palavras-chave de uma nova política.
Disponível em:
http://www.lavocedifiore.org/SPIP/article.php3?id_article=5078&fbclid=IwAR0KkjNTe6VlB5ypoN5GNvuZX1aRdriWs-3n8oJ53vvWqvX7ScTqzByIZR0 Publicado originalmente no jornal La Repubblica, em 09 de fevereiro de 2011.
(Trad.: Vinícius Nicastro Honesko)
Imagem: Fra Angelico. Cristo no limbo (1441-1442). Convento de São Marcos, Florença
terça-feira, 13 de novembro de 2018
Pequeno parágrafo à margem da alegria
A Ruy Belo
Há uns dias perguntava numa folha ao final de um caderno ainda incompleto: por que retomar a escrita? Qual o sentido da inscrição quando já não há motes para baixar a cabeça e encarar o caderno que parece não mais querer acabar? Há alguma retomada no gesto da escrita, ou esta tomou, nestes meses em que o caderno permaneceu silencioso, outros caminhos, outras vozes (se é que de vozes se trata)? Nos arredores, o canto dos homens parece ecoar suas verdades há tempos caladas. E, diante disso, mais uma pergunta: há modos de contra isso se insurgir na escrita? "Não sei se a vida vale um pouco mais que a vida / que a impertubabilidade de quem olha o céu / e se encomenda aos deuses da loucura / e vã é a palavra do poeta / se não atenuar a dor da vida e preparar / a serenidade visual visível na iminência do futuro". A dor da vida não se escreve e as letras antes vistas no caderno eram só o invisível a desvelar-se em sua charada mais habitual: o presente fugidio e apressado, aquele em que nem mesmo nos é dado a chance de dizer adeus. E o poeta de nome Belo despia-se da vida com o vinho que lhe abria o presente: por que então escrevia?
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
A realidade potencial - Visões do possível e do impossível
Eduardo Pellejero
Não somos mantidos vivos
por legisladores e militares, isso é relativamente óbvio. Somos mantidos vivos
por homens de fé, homens de visão. Eles são como germes vitais no processo sem
fim de nos tornarmos qualquer coisa.
Henry Miller
Não escolhemos o
tempo que nos toca viver. Estar lançados no mundo é próprio da existência
humana, conforme uma das marcas da finitude e constitui uma das dimensões da
nossa historicidade - a mais evidente, a mais dura, a mais difícil de aceitar.
Não escolhemos o tempo que nos toca viver.
Porém, o próprio
tempo não é simples. Sob a sua configuração histórica num estado de coisas
concreto, além do seu rebatimento sobre o presente, o tempo não deixa de fluir,
segundo uma pluralidade de linhas intempestivas, que dependem para devir-mundo
da nossa adesão ou do nosso compromisso - e essa é outra das dimensões da nossa
historicidade. Podemos trabalhar o tempo, no tempo, contra o tempo, em proveito
de um tempo por vir.
Entretanto
- o tempo é sempre um conjunto de tempos heterogêneos, de variações, de
modulações, de singularidades; isto é, de virtualidades num devir composto que
assombra a linearidade da história, o seu fechamento à conta de um sistema
qualquer de representação, deixando entrever nos seus interstícios, nas suas falhas,
figuras da realidade potencial; quero dizer, dando conta da contingência da
existência, da abertura do ser, do mistério da liberdade.
* * *
Habitualmente o
tempo se nos apresenta sob a forma das condições da experiência possível, dos
limites da experiência possível. De tanto fazer essa experiência,
internalizamos a necessidade de reconhecer tais limites - o que é possível e o
que não é, o que está ao nosso alcance o que não. Abrimos assim
mão do impossível, da imponderável potência do mundo, e de todas as dimensões
do tempo que abrem a experiência à experimentação.
Neste contexto, experimentação quer
dizer colocar em causa o sistema da representação. O possível e o impossível,
como assinala Badiou, só ganham sentido no marco de
algum sistema particular de
representação. O tempo pode desempenhar
um papel estratificador em cada um desses sistemas, como quando falamos, com
pesar ou resignação, do tempo que nos toca viver; mas também pode ser solidário
desses pequenos acontecimentos
que fazem ruir o próprio sistema da representação quando conduzimos a
experiência além dos seus limites ordinários, permitindo que o não
representado, o impossível de ser representado, venha à representação, abra
um horizonte de pesquisas, nos dote de novos órgãos.
Na experimentação o
tempo não é marco, mas desvio, e promove acontecimentos tanto no interior dos indivíduos como na espessura da sociedade,
dando lugar a novas
relações com o meio, com as
instituições, com os outros, com a natureza, com a cultura, com o trabalho, com a
linguagem e o corpo - e, em última instância, com o próprio tempo. Na
experimentação o tempo manifesta “a força de
contestação própria da vida poética”, como
diria Deleuze, isto é, através de mil deslocamentos, recusa, confronta,
desafia, e algumas vezes torna
inúteis os dispositivos do saber e do poder que tendem
a canalizá-lo (os dispositivos do tipo crise, reconciliação,
ameaça comunista ou inimigo interior, terrorismo, etc.).
* * *
A fabulação é um
dos modos de conceituar essas experiências que fazemos com o tempo, e também
com a linguagem e a verdade, com o corpo e as imagens, com o devir e a
história, com o possível e o real.
A criação e a
resistência, a imaginação e a revolta, estão intimamente ligadas à fabulação,
na medida em que a ruptura com o tempo que nos toca viver, com as condições da experiência possível,
passa por autênticas visões da realidade potencial, isto é, pela apreensão súbita
de singularidades, relações e afetos que insistem sob as figuras históricas que dominam o campo da ação, o horizonte da percepção
e o palco das ideias.
“Visões” não quer dizer fantasias. A razão rebelde manteve sempre um
profundo compromisso com o real. Por exemplo, a força de Lawrence - a
observação é de Deleuze - não está na sua imaginação (sobre a qual o próprio
Lawrence tinha sérias dúvidas), mas no modo em que Lawrence soube projetar no
real imagens arrancadas ao real (a si mesmo e aos seus amigos árabes).
Em verdade, o que se faz ao fabular não é afirmar algo que não é real - não se trata de um simples devaneio, nem de um erro, nem muito menos de uma confusão. O que se faz ao
fabular é afirmar que o real não se esgota nas totalizações estratégicas
do sistema da representação - trazendo à tona tudo aquilo que é negligenciado
ou depreciado, omitido ou descartado: todos esses elementos dos quais o
sistema da representação não quer ou não pode dar conta.
Noutras palavras, a
fabulação é um movimento, não de correspondência ao real, mas de produção ou
mobilização do real; um movimento expressivo pelo qual somos capazes de
recolher tudo aquilo que escapa à linguagem, tudo aquilo que excede os limites
do possível e do realizável, do verdadeiro e do consensual, em ordem a pôr em
comum esses fragmentos esparsos na experiência.
Enquanto fluxo de palavras
criadoras de universos inexistentes, mas insistentes, isto é, integrantes
da realidade humana, na fabulação confluem a virtualidade e a potência.
* * *
Sempre existem, em
todo o momento, em toda a sociedade, pontos fora do marco da representação - não importa o tempo que nos toque viver. À força de
trabalho e de imaginação, esses pontos vão abrindo o tempo ao tempo, isto é, a
história ao devir, a linguagem ao real, e o nosso
destino à tarefa e à festa da liberdade. Longe de furtar-nos às responsabilidades que nos
impõe a atualidade histórica, a fabulação nos convoca a agenciar os signos e as
coisas, os corpos e as ideias segundo uma lógica cujo valor só pode ser
conferido a posteriori - nas figuras às que possa vir a dar lugar: nos
encontros, nos movimentos, nas obras e nas instituições que de algum modo se
insinuam nas falhas da ordem que pesa sobre nós e que o nosso trabalho e a
nossa criatividade podem vir a atualizar.
* * *
As mulheres saem à
rua e fabulam relações já não determinadas pelas estruturas do patriarcado. Os
estudantes se reúnem em plenárias e fabulam caminhos para a emancipação
intelectual. Os migrantes caminham rumo ao norte e fabulam um mundo de
fronteiras abertas.
Certamente, o
sujeito de enunciação da fabulação é paradoxal, a meio caminho entre a
desujeição do mundo que procura deixar atrás e a subjetivação imponderável na
qual se encontra envolvido.
Logo, a sua palavra
é imprópria, como assinala Rancière sempre que fala dessas cenas de
desidentificação através das quais os seres humanos rompem com o lugar que lhes
é atribuído numa partilha qualquer.
Por fim, o porvir
que abre é indeterminado, diferenciado mas indeterminado, real sem ser atual.
Essa irresolução prática não é um defeito, uma falha no seu funcionamento, mas
o correlato dos princípios que estabelecem a sua potência. Carmen Rivera Parra me lembrava
que Virginia Woolf considerava que o caráter escuro do futuro, o caráter
incerto e indefinido do futuro, longe de preocupar-nos, devia animar-nos a
pensar, porque essa escuridão significa que o futuro não se encontra fechado,
que ainda está em jogo, mesmo se não somos capazes de entrever claramente como
se configura o futuro: para que o futuro venha à luz temos que adentrar-nos no
escuro!
* * *
Porque
não são a expressão de um sujeito constituído, e porque se endereçam sem
pressupor a sua adequação ou a sua verdade, as imagens que projeta a fabulação
são uma espécie muito particular de fantasmas; possuem a elusiva consistência
dos fantasmas, articulando indiscernivelmente espectros do passado e assombrações do
futuro. Com um olho nas ruínas que o progresso deixa ao seu passo, como o anjo
de Benjamin, e o outro nas alternativas ignoradas que balizam o seu porvir,
como o vidente de Rimbaud, a fabulação tece relações intempestivas, estabelece
familiaridades artificiais, projeta precursores obscuros e indetermina o
curso do tempo.
Antecipando-se à
atualização dos agenciamentos que esboça, agenciamentos que, à falta de condições
necessárias, existem apenas como “potências diabólicas do futuro ou como forças revolucionárias por construir-se”, a
fabulação complica o mapa da realidade. Coloca assim em questão as estruturas
que dão forma ao mundo e um sentido à história. Mas não troca uma imagem do futuro por outra. As suas imagens são
tateantes. Não prefiguram: movem.
* * *
Conjurada no
burburinho das ruas ou na solidão do quarto próprio, a fabulação é sempre da
ordem da expressão do comum, do que em comum temos e colocamos em jogo (o
mundo, os outros, etc.). Antropologia especulativa, a denominava Juan
José Saer, que definia o seu âmbito de intervenção ao nível das representações
que dominam a nossa vida imaginária e,
a partir desta, a nossa vida real.
Como esclarece Deleuze, a fabulação não é uma
forma de escapar do mundo que existe; é um modo de criar as
condições para a expressão de outros
mundos possíveis, por sua vez capazes de desencadear a transformação
do mundo existente. Contra a posição particular que
ocupamos como sujeitos na história, presos nas malhas do saber e do poder, as
palavras e a vida encontram na fabulação a potência do devir, da mudança, da
transformação - “seiva que faz florescer
uma e outra vez, contra qualquer intempérie, invencivelmente, a árvore do
imaginário”.
Cada vez que a configuração
do tempo que nos toca viver
parece decidir de forma palmatória e terminante o que podemos fazer como
indivíduos e como sociedade (e o que não, o que
é possível (e o que não), o que deve entender-se por real e quais são
os limites da verdade, cada vez que isso
acontece, digo, essa atividade genérica que define os animais que somos
manifesta a sua intrínseca potência, trabalhando os elementos
que constituem historicamente os núcleos de interpretação do real, desprendendo dos grandes conglomerados conceituais
pequenas percepções que insinuam uma multiplicidade de relações diferenciais entre si: redes de
afeto, matrizes de ideias, esquemas de agenciamento - envolvem mundos, essas pequenas percepções, uma pluralidade de mundos
possíveis!
* * *
A resistência e a
criação são sempre da ordem do acontecimento e estão acompanhadas de visões. O
acontecimento é sempre a ruína do sistema da representação; as visões, o
princípio de um ato de fabulação. Seja o
caso de Maio de 68. Deleuze escreve: “Maio de 68 é em princípio da ordem de um acontecimento
puro, livre de qualquer causalidade normal ou normativa... Houve muitas
agitações, gesticulações, palavras, idiotices, ilusões em 68, mas isto não é o
que conta. O que conta é que foi um fenómeno de vidência, como se uma sociedade
visse de repente tudo o que continha de intolerável e visse também a
possibilidade de outra coisa. É um fenómeno coletivo sob a forma: ‘Algo
possível, ou me asfixio...’”.
Resistir e criar
começam necessariamente por um fenômeno de percepção. Uma pessoa pode
aceitar o tempo que lhe toca viver, aceitar o inferno e tornar-se parte dele,
como dizia Calvino, até deixar de percebê-lo. Mas uma pessoa também
pode recusar esse tempo, negar que a vida seja possível enquanto tenhamos que
viver contemplando esse inferno. Ser de esquerda não é uma questão de moral, é
uma questão de percepção. Tal era a tese de Deleuze: simplesmente não é
possível viver vendo certas injustiças, não é possível viver enquanto certos
problemas não encontrem uma solução adequada.
Por isso mesmo, a
resistência e a criação devem prolongar-se na procura dos arranjos necessários
para mudar o horizonte da nossa percepção, dando corpo a essas fugazes visões
de novos espaços de liberdade. Recusar o tempo que nos toca viver é, sim, em
primeiro lugar, ver tudo de repente, lançar um olhar enviesado sobre tudo aquilo de que a nossa época se
orgulha e
entrever os trabalhos e as festas de outros mundos possíveis; mas é também, imediatamente,
abraçar tudo aquilo que, no tempo, anuncia outro tempo, e cuidar disso para que
prolifere, ganhe força, floresça. Isto é, mais uma vez, como dizia Calvino:
“reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e
abrir-lhe espaço”.
Quero dizer que para que essas aberturas de possível que caraterizam as descontinuidades históricas sejam algo mais do que um fenômeno de vidência, para que essas novas sensibilidades que associamos aos pequenos acontecimentos da percepção possam
desenvolver-se e amadurecer, é necessário articular arranjos apropriados.
Essa criação de laços, conexões e redes, era
para Deleuze a tarefa própria da pragmática militante a que abria espaço a sua filosofia, porque mesmo
que os acontecimentos escapem, em maior ou menor medida, à nossa vontade comprometida, envolver-nos neles e com eles, agenciar o nosso desejo com o que dão a ver,
está sempre ao nosso alcance - ainda que possa representar muito trabalho,
grandes sacrifícios, isto é, o tempo que nos resta viver.
* * *
Necessitamos do
possível - e, ainda mais importante, do impossível - para respirar. Mas ao
mesmo tempo ao (im)possível há que fazê-lo. A fabulação pode
clarear momentaneamente zonas do real ou parcelas do social que o sistema da
representação ignorava ou preteria, mas o seu devir-mundo depende sempre e para
sempre de nós.
Tive este sonho:
andava pela selva fechada a golpes de facão. Onde a folha golpeava, abria-se o
mato e eu via um caminho. Mas cada vez que olhava para trás para medir o
meu avanço constatava que a vegetação voltara a levantar-se como um muro e era
como se nunca tivesse passado ninguém por esses cantos.
Já cuidaram alguma
vez de um jardim no sertão? Com o devido cuidado isso é possível. A terra é
fértil, o sol não falta, as plantas prendem e florescem. Porém, basta um dia em
que, por cansaço ou negligência, uma pessoa não cuide da rega para que tudo
volte a confundir-se na mudez mineral do deserto.
Felizmente somos
muitos e entre todos damos conta de muito do muito que é importante, ainda que
por vezes nos distraiamos e algo que valorizávamos, algo que cuidáramos por gerações, algo
que dávamos por assegurado, de repente desapareça e seja necessário começar
tudo de novo (como aconteceu com os direitos laborais em tantos lugares do mundo),
ou, todavia, nem sequer seja possível recomeçar, porque não restou nada (como
aconteceu com o Museu Nacional no Rio).
* * *
Alguns momentos só
adquirem sentido pelos rodeios aos que nos obrigam, pela tensão que nos impõem,
e - a longo prazo - pela percepção a que nos abrem. O incêndio do Museu Nacional iluminou
fugazmente a noite em que nos adentramos - algumas pessoas (muitas) contra-efetuaram esse
acontecimento trágico e iluminaram e des(cons)truíram outras zonas sensíveis da
nossa atualidade. Guardamos uma dívida com eles. No meio do desastre as suas
palavras nos iluminaram e aqueceram. Que a noite não se abata definitivamente
sobre nós depende de uma infinidade de gestos análogos, que desafiam, ingênua
mas essencialmente, as leis da entropia (a fabulação é também, como Foucault
dizia da ficção, a negentropia do mundo).
O curso da história
obedece em certo sentido às leis da sucessão e da causalidade, mas a resistência ao curso
da história, as suas invenções e os seus acontecimentos, os seus
lutos e as suas lutas, coexistem como elementos heterogêneos que compõem um
plano temporal singular do tipo constelação. Nesse plano singular estamos
juntos de um modo imediato e definitivo, sempre que nos envolvemos num ato
de criação ou de resistência, toda a vez que recuperamos a nossa fé em nós e nos outros, e
acreditamos no mundo, “suscitando pequenos acontecimentos que
escapam ao controlo, ou fazendo nascer novos
espaço-tempos, mesmo de superfície ou de volume reduzido”.
Não escolhemos o tempo - este tempo - que
nos toca viver. A este tempo dizemos não. Mas não devemos esquecer que
essa negação é produto de uma afirmação anterior e em certo sentido essencial:
a afirmação do tempo como espaço de variação, a afirmação das visões que lançam
o tempo sempre além de si mesmo (e a nós com ele), a afirmação das pequenas
percepções e das grandes ideias que envolvem e desenvolvem tempos no tempo,
contribuindo para a atualização da nossa liberdade.
Alguém dirá que, perante a insuportável
configuração da realidade, fabulo. Como poderão entender, não me interessa negar
isso. Não acalento a pretensão de estar no verdadeiro. Mas também não sinto que
me encontre no falso. Se erro, o faço junto a todos, como todos - de olhos bem
abertos ao que é, e também ao que não é, pelo menos à primeira vista, visível. E falo do que vejo, apenas falo do que vejo.
Quiçá nem sempre com justiça e justeza, mas sim, sempre, com honestidade.
Tomara que, nas minhas palavras, consigam entrever
vislumbres de outras ordens de relações possíveis, e encontrem em vocês a força
necessária para que um dia venham a ganhar corpo e valor.
Imagem: Adriano Choque
sábado, 22 de setembro de 2018
Migrar, uma condição de existência do vivente
Por Gilles Clément, jardineiro, Emanuele Coccia, filósofo e conferencista na EHESS, Antoine Kremer, geneticista e diretor de pesquisas na unidade mista de pesquisas Biogeco, na Inra de Bordeaux, Jacques Tassin, agrônomo, ecólogo e pesquisador do Cirad, Sébastian Thiéry, politólogo, coordenador de ações do Pôle d'exploration des ressources urbaines (Perou).
Biólogos, ecólogos, geneticistas e paleontólogos estão de acordo em um ponto: os animais e os vegetais respondem às mudanças ambientais adaptando-se ou ajustando a distribuição espacial de suas populações. Esse ajuste, operado por uma fração juvenil apta à dispersão, procede de uma migração com frequência imperceptível e contínua, por vezes repentina, que reforma os mapas do vivo, transgride as fronteiras e miscigena as populações. Nesse sentido, as invasões biológicas sempre representaram uma chance para a manutenção da vida diante dos sedentarismos mortíferos. As migrações são uma condição da existência. A própria evolução é uma forma de migração do vivente em busca de formas e de funcionalidades novas, melhor ancoradas em um mundo que, sempre, se recompõe.
Essa verdade primeira também é válida para os homens? A biologia não é a política e a analogia com as migrações humanas em curso é complicada. Estas raramente são desencadeadas por uma degradação progressiva dos habitats usuais, mas, na maioria das vezes, por catástrofes que tornam esses habitats brutalmente insuportáveis à vida. Os povos obrigados a migrar, aspirando a condições toleráveis de vida, partem não em direção a espaços familiares equivalentes, mas para o estranho e o desconhecido de mundos possivelmente melhores. Nada disso, para ser exato, entre as feras e as plantas que, ao exemplo dos sapos e dos carvalhos durante as últimas glaciações, à medida do possível acompanharam a mudança de seus ambientes.
Há, no entanto, mais do que uma analogia entre os deslocamentos que acontecem entre os não-humanos e os humanos. Em particular, há a promessa de uma riqueza na transformação de nossa visão dos “migrantes”, termo este tão redutor. Mais do que não existir espécie migrante enquanto tal, não existe população humana em si. Toda migração viva é apenas a expressão temporal de uma contingência. Pensá-la como autônoma seria justamente fazer dela uma abstração, isto é, assimilar certos povos maltratados a portadores de coletes salva-vidas. Por trás do termo migrante não há nada. Por trás do homem que o termo designa há uma travessia do mundo. E por trás de toda selva, qualquer que seja o objeto que designa esse termo, há a emergência mesma de um mundo em devir.
Mais do que de migração, é uma questão de ambientes que são abandonados, de outros que descobrimos e ajudamos a se refazer, de confrontação entre populações, de posturas hostis e acolhedoras. Trata-se de contextos, de nuances em relação às quais a ideia ansiosa da grande substituição ou da aniquilação possível de nossas fundações não resiste nem um segundo. Trata-se também de riquezas novas, de recombinações, de forças conjuntas que geram planos de recomposição. Há apenas devires, escrevia Jean Borreil em A Razão nômade. Estes é que precisamos ver.
O mundo de hoje é um vasto jardim crioulo do qual nós já somos os frutos. Nós podemos tentar retardar seu advento, dissimular suas manifestações, calar os sofrimentos que ele recobre. Também podemos alimentar a destruição, fetichizar nossas fronteiras, enrijecer nossas identidades que contradizem nossas existências múltiplas e ceder às ditaduras ideológicas contemporâneas que, enquanto tais, ameaçam seriamente aniquilar o mundo. Por outro lado, podemos, diante de um movimento constitutivo do vivo e que ninguém saberia conter, acompanhar as transformações em curso em favor de um mundo vivível para todos. Entre as plantas e os animais, a migração que se vê de espécies pouco móveis e o enriquecimento da diversidade local já são empreitadas para facilitar a adaptação do vivo a um futuro que a mudança climática torna incerto. Pensar as migrações humanas também é pensar o acompanhamento do vivo. As migrações humanas exigem uma superação de si, tanto por parte dos homens que tomam seus barcos como daqueles que veem o desconhecido encalhar em suas praias. As experiências agradáveis testemunhadas por nossos concidadãos que acolhem “migrantes” também resultam dessa superação. Não é nem prudente nem fecundo tomar o fio da vida ao contrário.
As migrações convidam a reformular nosso mundo para além de toda indignação e a fazer comum sem fazer como um, isto é, sem ceder a nenhuma hegemonia do medo. Aquilo de que temos medo hoje é apenas o mecanismo mais banal da história do planeta e de seus habitantes. Agora é importante reintroduzir tanto o passado em nosso futuro como o futuro em nosso passado. Com a mudança climática, o deslocamento dos ambientes que operou no passado joga-se mais uma vez diante de nossos olhos: levará plantas, bestas e Homo sapiens, sem distinção. No fim das contas, uma só constatação se impõe: como para todos os outros seres vivos, que só podem sobreviver em um ambiente que, de uma maneira ou de outra, aceita e integra a presença e o devir, a hospitalidade se mostra como o único meio propício ao futuro de nossa espécie. (1)
(1) Este texto foi escrito após o colóquio sobre “Miscigenações planetárias" organizado por Patrick Moquay, Véronique Mure e Sébastien Thiéry em Cerisy, entre os dias 1º e 8 de agosto de 2018, com as contribuições de: Sylvain Allemand, Maxime Aumon, Serge Bahuchet, Ruedi Baur, Martin Bombal, Raphaël Caillens, Cécilia Claeys, Gilles Clément, Mathilde Clément, Sarah Clément, Emanuele Coccia, Olivier Darné, Hélène Deléan, Nicolas Delporte, Anne-Marie Fixot, Christian Grataloup, Antoine Hennion, Olivier Filippi, Sylvie Glissant, Emmanuelle Hellio, Antoine Kremer, Yann Lafolie, Camille Louis, Kendra McLaughlin, Bulle Meignan, André Micoud, Marie-José Mondzain, Dimitri Robert-Rimsky, Adrien Sarels, Jacques Tassin, Dénètem Touam Bona, Tom Troïanowski, Bénédicte Vacquerel, Sarah Vanuxem, e Camille Zéhenne.
Essa verdade primeira também é válida para os homens? A biologia não é a política e a analogia com as migrações humanas em curso é complicada. Estas raramente são desencadeadas por uma degradação progressiva dos habitats usuais, mas, na maioria das vezes, por catástrofes que tornam esses habitats brutalmente insuportáveis à vida. Os povos obrigados a migrar, aspirando a condições toleráveis de vida, partem não em direção a espaços familiares equivalentes, mas para o estranho e o desconhecido de mundos possivelmente melhores. Nada disso, para ser exato, entre as feras e as plantas que, ao exemplo dos sapos e dos carvalhos durante as últimas glaciações, à medida do possível acompanharam a mudança de seus ambientes.
Há, no entanto, mais do que uma analogia entre os deslocamentos que acontecem entre os não-humanos e os humanos. Em particular, há a promessa de uma riqueza na transformação de nossa visão dos “migrantes”, termo este tão redutor. Mais do que não existir espécie migrante enquanto tal, não existe população humana em si. Toda migração viva é apenas a expressão temporal de uma contingência. Pensá-la como autônoma seria justamente fazer dela uma abstração, isto é, assimilar certos povos maltratados a portadores de coletes salva-vidas. Por trás do termo migrante não há nada. Por trás do homem que o termo designa há uma travessia do mundo. E por trás de toda selva, qualquer que seja o objeto que designa esse termo, há a emergência mesma de um mundo em devir.
Mais do que de migração, é uma questão de ambientes que são abandonados, de outros que descobrimos e ajudamos a se refazer, de confrontação entre populações, de posturas hostis e acolhedoras. Trata-se de contextos, de nuances em relação às quais a ideia ansiosa da grande substituição ou da aniquilação possível de nossas fundações não resiste nem um segundo. Trata-se também de riquezas novas, de recombinações, de forças conjuntas que geram planos de recomposição. Há apenas devires, escrevia Jean Borreil em A Razão nômade. Estes é que precisamos ver.
O mundo de hoje é um vasto jardim crioulo do qual nós já somos os frutos. Nós podemos tentar retardar seu advento, dissimular suas manifestações, calar os sofrimentos que ele recobre. Também podemos alimentar a destruição, fetichizar nossas fronteiras, enrijecer nossas identidades que contradizem nossas existências múltiplas e ceder às ditaduras ideológicas contemporâneas que, enquanto tais, ameaçam seriamente aniquilar o mundo. Por outro lado, podemos, diante de um movimento constitutivo do vivo e que ninguém saberia conter, acompanhar as transformações em curso em favor de um mundo vivível para todos. Entre as plantas e os animais, a migração que se vê de espécies pouco móveis e o enriquecimento da diversidade local já são empreitadas para facilitar a adaptação do vivo a um futuro que a mudança climática torna incerto. Pensar as migrações humanas também é pensar o acompanhamento do vivo. As migrações humanas exigem uma superação de si, tanto por parte dos homens que tomam seus barcos como daqueles que veem o desconhecido encalhar em suas praias. As experiências agradáveis testemunhadas por nossos concidadãos que acolhem “migrantes” também resultam dessa superação. Não é nem prudente nem fecundo tomar o fio da vida ao contrário.
As migrações convidam a reformular nosso mundo para além de toda indignação e a fazer comum sem fazer como um, isto é, sem ceder a nenhuma hegemonia do medo. Aquilo de que temos medo hoje é apenas o mecanismo mais banal da história do planeta e de seus habitantes. Agora é importante reintroduzir tanto o passado em nosso futuro como o futuro em nosso passado. Com a mudança climática, o deslocamento dos ambientes que operou no passado joga-se mais uma vez diante de nossos olhos: levará plantas, bestas e Homo sapiens, sem distinção. No fim das contas, uma só constatação se impõe: como para todos os outros seres vivos, que só podem sobreviver em um ambiente que, de uma maneira ou de outra, aceita e integra a presença e o devir, a hospitalidade se mostra como o único meio propício ao futuro de nossa espécie. (1)
(1) Este texto foi escrito após o colóquio sobre “Miscigenações planetárias" organizado por Patrick Moquay, Véronique Mure e Sébastien Thiéry em Cerisy, entre os dias 1º e 8 de agosto de 2018, com as contribuições de: Sylvain Allemand, Maxime Aumon, Serge Bahuchet, Ruedi Baur, Martin Bombal, Raphaël Caillens, Cécilia Claeys, Gilles Clément, Mathilde Clément, Sarah Clément, Emanuele Coccia, Olivier Darné, Hélène Deléan, Nicolas Delporte, Anne-Marie Fixot, Christian Grataloup, Antoine Hennion, Olivier Filippi, Sylvie Glissant, Emmanuelle Hellio, Antoine Kremer, Yann Lafolie, Camille Louis, Kendra McLaughlin, Bulle Meignan, André Micoud, Marie-José Mondzain, Dimitri Robert-Rimsky, Adrien Sarels, Jacques Tassin, Dénètem Touam Bona, Tom Troïanowski, Bénédicte Vacquerel, Sarah Vanuxem, e Camille Zéhenne.
Original em francês disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2018/09/20/migrer-une-condition-d-existence-du-vivant_1680151 (tradução: Vinícius N. Honesko)
Imagem: Miguel Medina.
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