sexta-feira, 20 de julho de 2007

Quinze teses sobre a arte contemporânea



1. A arte não é o descenso sublime do infinito na abjeção finita do corpo e da sexualidade. É a produção de uma série subjetiva infinita com os meios finitos de uma subtração material.


2. A arte não pode ser meramente a expressão de uma particularidade, seja étnica ou pessoal. A arte é a produção impessoal de uma verdade que se dirige a todos e a cada um.


3. A arte é o processo de uma verdade, e esta verdade é sempre a verdade do sensível; do sensível enquanto sensível. Isto significa: a transformação do sensível em um acontecimento da Idéia.


4. Há necessariamente uma pluralidade de artes e, seja quais forem suas intersecções imagináveis, não há maneira de imaginar a totalização de tal pluralidade.


5. Toda arte se desenvolve a partir de uma forma impura, e a progressiva purificação desta impureza compõe a história, seja da verdade artística, seja de sua extenuação.


6. Os sujeitos de uma verdade artística são as obras que a compõem.


7. Esta composição caracteriza-se numa configuração infinita que, no contexto artístico contemporâneo, constitui uma totalidade genérica.


8. O real da arte é a impureza ideal como processo imanente de sua purificação. Dito de outro modo: a matéria prima de uma arte é a contingência do evento de uma forma. A arte é a secundária formalização do acontecimento de uma forma como informe.


9. A única máxima da arte contemporânea é não ser imperial. Isso também significa que não tem de ser democrática, se por democrática se entenda: conforme à idéia imperial de liberdade política.


10. A arte não imperial é necessariamente arte abstrata, neste sentido: abstrai-se de toda particularidade e formaliza o gesto da abstração.


11. A abstração da arte não imperial não se refere a algum público em particular. A arte não imperial liga-se a uma espécie de aristocratismo proletário: faz aquilo que diz, sem distinguir entre pessoas.


12. A arte não imperial deve ser tão rigorosa quanto uma demonstração, tão surpreendente como uma emboscada na noite, tão elevada como uma estrela.


13. A arte só pode realizar-se hoje a partir daquilo que - para o Império - não existe. A arte constrói abstratamente a visibilidade desta inexistência. Isto é o que norteia o princípio formal de cada arte: a capacidade de tornar visível para todos aquilo que para o Império (e portanto, para todos, porém de um outro ponto de vista) não existe.


14. Convencido de controlar o inteiro domínio do visível e do audível através das leis comerciais da circulação e da comunicação democrática, o Império já não censura nada. Simplesmente abandonar-se a esta autorização de gozar pode ser a ruína de toda arte, como de todo pensamento. Devemos nos tornar impiedosos censores de nós mesmos.


15. É melhor não fazer nada que contribuir formalmente para a visibilidade daquilo que, para o Império, já existe.

Alain Badiou


(trad. Jnf).

Um comentário:

andre disse...

"Temos a Arte para que a verdade não nos destrua."

Zaratustra