terça-feira, 29 de maio de 2018

Nota sobre revoltas lumpen

Sobre a greve dos caminhoneiros de maio de 2018

  

Antes de viver em São Paulo para fazer o doutorado, viajei várias vezes à cidade na boleia de um caminhão. Descobri os lados arborizados e solares da paulicéia como morador, mas antes disso só conhecia trechos cinzentos das marginais, com seus pontos de chapa, os rios nauseabundos e as buzinas dos motoboys - além da fábrica da Vila Maria onde descarregávamos. São Paulo era o lugar onde precisávamos ficar atentos, sempre com receio de fechar o trânsito ou perder-se, em um tempo em que não existia GPS e os telefones celulares, além de preciosos, não eram smart. Aliás, os chapas foram umas das primeiras classes lumpen a desaparecer com a automação e com os algoritmos de navegação: eram pessoas contratadas principalmente para guiar os motoristas em lugares desconhecidos, além de auxiliar no descarregamento. A relação entre o caminheiro e o chapa era marcada por práticas consuetudinárias impensáveis para os padrões securitários do séc. XXI: encostava-se o caminhão em um ponto de chapas, geralmente algum lugar do acostamento onde se viam fogueiras e uma placa escrita à mão, e logo subia algum maltrapilho para negociar o preço da navegação. Era uma relação de confiança e de puro reconhecimento sem contrato formal. Geralmente se confiava no chapa pois já havia feito outros serviços, ou simplesmente porque estava ali no ponto. A própria denominação da atividade explica o caráter inerente de sua confiabilidade: chapa. Pode ser que ainda existam remanescentes, assim como subsistem alguns caixeiros viajantes pelo mundo, mas o chapa enquanto classe desapareceu e este fim não foi narrado ou comentado pelos historiadores. 

Meu pai foi caminhoneiro autônomo. Pertenceu a esta classe extremamente fragmentada, lumpenizada e heterogênea. Um dos maiores erros da esquerda no Brasil foi não se inserir nem criar movimentos entre os caminhoneiros, ao contrário do que aconteceu na Argentina, onde têm melhores salários que muitos profissionais liberais. Há um persistente preconceito contra as classes pobres por parte de certa esquerda acadêmica no Brasil. Quando ouço colegas professores comentando sobre esta greve que parou o país, não deixo de me incomodar com o nível extremo de isolamento que a classe universitária mantém em relação ao entorno social mais amplo. Recorrentes são as piadinhas ou comentários que apelam a um seriado edulcorado da TV Globo ou, antes de se concentrar nos fatos, dirigem atenções apenas às placas com pedidos de intervenção militar. A diversidade de posições políticas na greve é o espelho da que está no restante do povo, com a diferença de que o caminhoneiro forma suas convicções políticas no lusco fusco da estrada, em um país profundo que não bebe em bares caros e limpos. O papel dos sindicatos entre os caminhoneiros é pífio. Dos fretistas "autônomos" aos de carteira assinada, passando por donos de caminhão também motoristas (meu pai trabalhava para alguém que também dirigia e tinha mais dois caminhões com fretistas), a regra é a submissão a um trabalho que é dos mais penosos - em geral feito apenas para a mais estrita sobrevivência. Esta grande greve, que há tempos estava para irromper, estoura justamente com Temer, que além de não ter legitimidade é politicamente muito tosco. Portanto, é um argumento inadequado, além de má-fé intelectual, comparar a greve que iniciou a derrubada de Allende no Chile com a situação vivenciada por Temer em 2018. O que é deflagrado em maio de 2018 no Brasil é simplesmente o medo que a elite tem – estejam suas predileções à esquerda ou à direita – de um levante feito por pobres.

Penso que há um cenário muito aberto, que pode ser direcionado tanto à direita golpista quanto à esquerda. Obviamente como a esquerda está derrotada e amedrontada com o fantasma da supressão das eleições - que já foram usurpadas pelo judiciário – o movimento tem sido capitalizado pela direita golpista que, diga-se, nada de braçadas no Brasil pós-2016.Ao analisar a greve de maio de 2018 eu não penso nos caminhoneiros pinochetistas. Lembremo-nos de Lenin e de seus trabalhos junto aos proletários mais humildes. Retornemos a 1917. É o momento, agora, de pensar a greve geral no Brasil, de resistir à neo-ocupação imperial de nosso território, contra os pacotes de maldades impostos por um governo golpista. Mas também é o momento, agora, de avançar pautas e lutas. Os petroleiros, por terem conhecimento direto do desmonte orquestrado, souberam agir no momento certo. E a militarização como resposta institucional retorna como uso habitual. O mecanismo de manutenção do golpe, com a tentativa de supressão das eleições, já está sendo gestado nos gabinetes a portas fechadas. A greve dos caminhoneiros e dos petroleiros é um ponto fora da curva. Agora é preciso que a esquerda no Brasil consiga perceber situações e intensidades revolucionárias, que só acontecem no momento em que logística e política se tornam indistintas. A apatia da esquerda brasileira é tão nonsense que mesmo sem passeatas ou piquetes tudo estará parado, sem que a situação seja devidamente politizada.

O Brasil é um país tão injusto que toda a produção está atrelada a uma distribuição feita por trabalhadores que convivem até mesmo com epidemias de uso de cocaína para manter o ritmo (para além de todo o debate sobre a estupidez do sistema rodoviário como escoamento de produção). E não há nenhum militante de esquerda radical caminhoneiro, quando com apenas um caminhão é possível parar uma avenida! Ligando-se a vários fatores, sobretudo a mudanças radicais na produção e aos avanços das estruturas do capitalismo financeirizado, as revoltas do futuro não serão mais revoltas proletárias, serão revoltas lumpen. É preciso saber cartografá-las, em suas derivas e potenciais, em seus fechamentos e regressões.   

Jonnefer Barbosa*

* ao contrário do que se poderia esperar, devido ao clima político no país, abandono o pseudônimo e passo a assinar os textos, para que a discrição e a crítica ao autor-persona, que motivou o uso do pseudônimo, não seja lida como covardia ou fuga ao debate político.   

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