quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Glosa delirante aos delírios


A vida é a arte da tauromaquia. Envolve o risco, a trapaça, o gesto, o bailado contra uma natureza estúpida e bela.
Mas não é a tauromaquia cantada por Goya e Leiris, o épico tauromático, o espetáculo viril e trágico.
Esta vida é sórdida como a corrida de touros magros no pequeno coliseu mexicano, onde a mística do toureiro sub-proletário não ultrapassa o escapulário e o mezcal.
Afinal, nada ultrapassa a sordidez, Blanchot morreu em uma solidão teatral e sórdida: Des Esseintes em uma quinta pequeno burguesa de Île-de-France. Sonhando em ser um dos moleques mexicanos de Buñuel.
Todo épico e toda tragédia são parodicamente farsescos. A metafísica não explica os gritos desesperados do mundo.
O desespero é sempre mundano, sem edulcorações.
A vida bebe em botecos baratos, onde os espelhos de Narciso foram quebrados a pauladas. Os cacos estão cobertos pela poeira misturada ao suor.
A vida é a memória da mulher assassinada na periferia de Ciudad Juárez, como nos livros daquele chileno intempestivo.

Imagem: Fotograma de "Los olvidados", de Buñuel. 

Pequeno delírio em parágrafo IV


"A comunidade não é o simples colocar em comum, nos limites que ela se traçaria, uma vontade partilhada de ser em muitos, seja para nada fazer, isto é, fazer nada mais do que manter a partilha de 'algo' que precisamente parece ser já sempre subtraído à possibilidade de ser considerado como uma parte para uma partilha: palavra, silêncio." Maurice Blanchot

Corneando as plásticas noites de domingo, o touro aquático - que, outrora, poderia ter sido o enviado de Poseidon a Minos - desfaz-se do rebanho para saborear o ardor da conquista. No mesmo outrora, assola uma ilha e, talvez, é a peça chave dos embustes de um sequestro. Porém, nas noites em que o presencio, desfere seus golpes em silêncio. É um chiste, a própria imagem dos homens solitários que golpeiam seus corpos, numa espécie de ritual masoquista infinito, em busca da parte que lhes falta. Tolos homens, tolo touro, não sabem que a parte sempre lhes falta, não importa quão hábeis sejam na arte dos golpes. Em seus quase loquazes movimentos, os cornos do touro fazem faísca ao raspar o chão e resplancescem o céu da noite dominical, tal qual seus reflexos, os perdidos e silenciosos homens, faziam ao sair das cavernas atemporais ao frio e descoberto céu das eras glaciais. Sombras e luzes são os espasmos dos corpos em silêncio; metáforas vazias (e qual não o é?) do périplo dos homens na busca por seu "algo". O touro e o silêncio tentam rebater firmes meus delírios - e qual a tolice de se contar os delírios? São sempre incontáveis. Há somente um espectro: o in-comunicável - que, aqui, em meio ao vazio dissimulado da moça que uma vez fora raptada, faz-se ainda audível. A partilha é desde sempre interdita e a palavra, ou o silêncio, soltam-se em riso incontrolável diante da patética e, por isso, deliciosa existência... 

Imagem: Rembrandt. O rapto de Europa (detalhe). 1632. J. Paul Getty Museum, Los Angeles.     

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pequeno delírio em parágrafo III


A realidade é inegável. Não por um seu suposto caráter evidente, pois não há dar-se a ver. Não por uma impossibilidade de dela escapar, pois o que são as palavras senão adendos fugidios à realidade? Não, a realidade não é uma conta das idades do Real - isso que não cessa de não se escrever -, mas tão-somente uma das pontas de um dos icebergs da possibilidade. Supor um inexorável, supor um tempo composto de coisas, supor, su-pôr, é sobrepor realidades: eis as falácias da inegabilidade da realidade. Mas nada diz o caráter inegável da realidade. Não por sua proximidade com a morte (que só sabemos por sermos compostos pelas potencialidades falsas chamadas palavras), não por sua aparente intransigência em relação às consciências (aparência e consciência, mais uma vez, apenas nosso toque Real na realidade). Não. A realidade é inegável porque não se nega o que nunca se afirma.

Imagem: Nicola Scafidi. Luchino Visconti durante as filmagens de "Gattopardo". Palermo. 1962.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Pequeno delírio em parágrafo II


As palavras me vêm como pedregulhos atirados por esses insolentes moleques da vizinhança. Armo-me com uma tesoura para cortá-las, melhor, para dissecá-las e colocá-las à luz. Insuspeitado, como o velho Murilo, vejo-as como elementos que se assanham e querem me ajudar a organização do meu lúcido delírio. Moleques travessos! Não tenho mais forças e sucumbo com a primeira pedrada em minha cabeça. Tento, mais uma vez, apanhar os resquícios de sentido que elas poderiam me trazer. Petardo! E nada mais. Dominam-me impressões avassaladoras do inconveniente de ter nascido (mas que bom inconveniente...). Batalho em vão. São as imagens das Highlands que minam o Canal Grande de Venezia e, como as pedras, derrubam-me. Se um livro é um suicídio diferido, Cioran, sua matéria, as palavras, é a morte a conta gotas.

Imagem: Nicola Scafidi. Emigrante. Palermo, 1960.

Glosa marginal ao Soneto de Fidelidade


e se a vida não fosse mais que esta sequência de estórias indefinidas, imponderáveis, incompletas
um grande labirinto sem centro e sem buracos para se esconder
e se meus dias não se passassem neste úmido equador metafísico
entre a indecência e o desespero
talvez eu pudesse cuidar de você

as portas-estandartes das femmes authentiques me chamariam de canalha, ora esta,
cuidar de uma mulher autônoma
mas cuidar não é carregar a bolsa
(tenho vontade de dar voz de assalto ao modernóide com a bolsa da companheira à tiracolo)
nem respeitá-la como a putinha sacra da princesa da Inglaterra
é tratá-la como mulher, ponto.  

todos nós inautênticos metafísicos canalhas poetas desesperados
leitores do Bolaño e de outros cachaceiros
precisamos é de um colo

quer ser sugada para o buraco negro de uma vida bretoniana?
às travessuras e travessias de um huckleberry finn crescido
que ainda sonha em se alistar em alguma guerrilha de quinta
por mera aventura?

aceitaria minha intolerância à presunção literária bundona que nos ronda
ao ponto de dizer que o tal de galera, que você gosta, é um cretino sem precisar ler nada do sujeito?
aceitaria meus pesadelos e, por vezes, meu mutismo? 

aceitaria minhas derivas etílicas ao lado de um insurgente Marechal
conduzindo as moças do centro velho?
aceitaria que a vida finda e que nenhum jardim ou cercania poderá ser planejado
se sonho com selvas e desertos?
aceitaria um amor tuaregue
sem videoprogramas dominicais
mas com uma rede e a ideia repentina de morar um tempo no Tocantins?

e, se for responder sim a estas provocações,
que isto não fosse feito na frente de um padre, pároco, pastor, professor, cartorário
ou outro filho da puta deste mundo das merdas administradas?

Imagem. Edward W. Kemble, Ilustração da edição de "The Adventures of Huckleberry Finn", 1885.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Pequeno delírio em parágrafo


 a Paulo Leminski
"a poesia é a realidade.
o campo da poesia são os homens.
se fossem as palavras, estaríamos feitos." - Oscar Conde.

Às voltas com uma espécie de realismo visceral, toco palavras como toco a carne. Espúria ilusão dos jogos de braços e abraços, caro Leminski. Não há toque no campo da poesia, a encarnação é o feitiço do per-fazer-se. Estaríamos feitos, mesmo se o abismo das palavras nos engolisse; estaríamos feitos, mesmo se as palavras fossem o sopro que falta nos momentos em que a realidade - o doce insulto da palavra à vida - esboça seus desenhos opacos na carne dos homens: um passo sem solução. O mistério da vida profana é o indulto que as palavras se permitem nos dar - a nós, pobres e tolos palavrórios soltos em carne pelos abismos e pelos campos floridos de um verão quase invernal.

Imagem: Hieronymus Bosch. Jardim das delícias terrestres (detalhe). 1500. Museo del Prado, Madrid.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Imagens de Antanas Sutkus




O despertar é o lapso do sonho da vida. O vagar das imagens em negativo, de Antanas Sutkus - são mais de um milhão de negativos que o fotógrafo mantém em seu acervo e que aos poucos vem revelando -, expande sonho em meio ao turbilhão do despertar traumático da experiência soviética. As fotografias que se revelam, anos após terem sido tiradas, são os impossíveis de outrora que, inesquecíveis no olhar fotográfico de Sutkus, surgem como puncta que tocam os olhares que a eles se dirigem. As máquinas de refrigerante, os rostos em meio a caminhos repletos das folhas outonais, as mulheres e crianças de olhares tristes. É o sonho vívido da vida que, após o vagar inadvertido pelas décadas da oficialidade das poses e retratos, torna-se, por ínfimos instantes (o do olhar de quem se depara com tais imagens), um lapso de memória e, portanto, para lembrar Picabia, a forma da vida. Dos sonhos imaginados em que estamos imersos surgem imagens do despertar. A moça que lança seu olhar à rua, debruçando-se como uma gárgula desde o alto de um edifício, rompe a imobilidade eterna das feias figuras das igrejas e, como um despertar, exibe a beleza em movimento da memória. Sartre caminha no deserto - o apogeu do existencialismo: e como não lembrar da praia em que Camus coloca seu estrangeiro parado, olhando para o mar e para o sol? - acompanhado apenas pela sombra de Beauvoir (e talvez seja uma das melhores imagens de Sartre). As duas crianças que de dentro de uma espécie de tambor (o mesmo que se transforma em embarcação para um menino em outra imagem)  deixam seus sorrisos sonoros ecoarem pelos tempos em que permaneceram negativas. O gesto da criança que se afaga e se apega na então gigantesca mão de um adulto, como que a lembrar que qualquer mitologia de segurança é estraçalhada pelo mais singelo gesto infantil. As fotografias de Sutkus são apenas imagens que irrompem a crosta de uma historiografia oficial e lançam uma sombra de seus presentes revelados em seus passados negativos. Como pontiagudas lâminas, cortam o sonho e apenas remontam uma possível história da vida.































Imagens: Antanas Sutkus. Maratona na rua da Universidade, em Vilnius, 1959; Uma mão de mãe, 1966; Jean-Paul Sartre na Lituânia, 1969; Festival de música, 1970.