quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O estalinismo cirandeiro





Qué cosas lo aburren?
El discurso vacío de la izquierda. El discurso vacío de la derecha ya lo doy por sentado.
Da última entrevista de Roberto Bolaño (nuevamente)




                                                                                                                          jonnefer barbosa






Há uma nova tendência de moda que pretende se desprender dos trajes démodés do esquerdismo cirandeiro e apresentar-se como “radical”: são os estalinistas de rede social. Mas não há nada de radical no estalinismo. Stálin foi um oportunista criminoso. As guerras civis russas, que derrubaram as forças policiais czaristas, foram vencidas pelo exército vermelho formado, treinado e comandado por Liev Davidovich Bronstein, vulgo Trotsky. Stálin só se tornou líder supremo destas forças perseguindo Trotsky: prendendo-o, torturando-o, matando milhares de apoiadores e quase todos os  familiares, apagando-o da história oficial soviética para em seguida executá-lo no México, em 1940, com Ramón Mercator e uma picareta de gelo. Antes, em 1939, assinou um pacto de não agressão com os nazistas. O pacto Molotov-Ribbentrop só foi rompido, e Stálin se viu obrigado a combater seus antigos aliados, em virtude da Unternehmen Barbarossa: a tentativa de invasão dos nazistas à União Soviética em 1941. Quem defendeu os territórios russos e verdadeiramente venceu a guerra foram as pessoas comuns treinadas por um judeu que se tornou pária, perseguido e assassinado no mais desesperado exílio.



O estalinista cirandeiro esquece tudo isso e louva, em uma contraditória lamúria seguida por centenas de incautos, O Estado, O Partido, A Organização. Mas sem laivos “utópicos” ou derivas “anarquistas”: seu Estado é o mesmo da Polícia Militar – são “trabalhadores” – e seu partido é o que está aí: o estalinista cirandeiro filia-se aos partidos registrados e permitidos pelo TSE. Sua única “clandestinidade” é vender livros por editoras alternativas chiques da burguesia de esquerda paulistana. Sua organização é o Twitter®, o Facebook®, o Instagram®, o YouTube®. Louvam a violência, porém atirariam nos próprios pés se lhes dessem armas (ou seriam abatidos pelos milicianos treinados). O estalinista cirandeiro esquece que a revolução russa implicou a destruição das estruturas e do estado czarista, e que Stálin, seu protótipo de masculinidade, foi um retorno contrarrevolucionário ao czarismo sob assinatura burocrática, ressentida e sanguinária.



Os estalinistas de rede social são cirandeiros pois seu estalinismo, felizmente, é só de fachada. Um marketing, uma marca. Leve e vendável atentado ao pudor politicamente correto.  Como o sangue e a violência o são para Zé do Caixão ou Robie Zombie: máscaras e performances. Mesmo porque, se uma forma estalinista fosse instaurada politicamente, a facção cirandeira seria a primeira a ser exterminada. O antissemitismo arraigado e institucionalizado de Stálin foi também uma forma de racismo necropolítico, obviamente distinto do nazifascismo.



Há um revival estalinista na esquerda brasileira?  Não, apenas alguns jovens incautos fazendo pose de radicais e marketing pessoal nas redes. O objetivo último do estalinista cirandeiro não é a revolução, mas chocar a esquerda acadêmica acomodada com seus cargos (isso é ótimo!) e ganhar alguns seguidores nas redes sociais hoje dominadas por robôs e bolsominions neopentecostais. Luta inglória e perdida.



Os estalinistas serão sempre aqueles que tentarão restaurar e manter a polícia e o poder do Czar. Não o destruir. Os estalinistas são os reacionários da história. A paródia grotesca e genocida de uma revolução. O estalinismo cirandeiro é a paródia de uma paródia.   

                         



 

Insurgências e contrainsurgências na época da acumulação predatória





jonnefer barbosa

publicado em Outras Palavras



Insurgência e contrainsurgência, em tempos de neocolonialismo explícito e da acumulação predatória como prática habitual de governo, deixam de expressar anomalias ou excepcionalidades e passam a ser o cotidiano político de territórios ocupados – como a América Latina conflagrada – dado que o próprio mundo hoje pode ser novamente dividido entre impérios e áreas de ocupação colonial.

Esta hipótese necessitaria de uma digressão histórica mais ampla, que aqui apenas resumirei: se o capitalismo no séc. XIX até a primeira metade do séc. XX estava baseado na mercadoria, e se a partir de 1970 passa a se ancorar na concorrência e no capital humano, vide a interpretação foucaultiana, o capitalismo cibernético contemporâneo, sob o terreno de quatro décadas de prevalência da governamentalidade neoliberal, tem a acumulação predatória ou primitiva (ursprüngliche Akkumulation), tal como chamada por Marx, como vetor principal de sua disseminação e gestão.       

Primitiva, aqui, está muito longe de se referir a um momento originário em que o capitalismo se implementa, abandonando as estruturas feudais. A acumulação primitiva acompanhou as demais formas de acumulação no capitalismo (como a mais valia extraída do lucro, da jornada de trabalho, etc.): é o conflito e a captura incessante entre capital e não capital, o capital e seu fora. No séc. XVI europeu, implicava os ilegalismos da grilagem e da destruição das propriedades comunais, da separação violenta de vassalos e artesãos livres de seus meios de subsistência. Como não mais retiram diretamente seu sustento dos locais onde estão, pessoas despossuídas de seus meios de produção passam a depender de patrões e de salários. Necessitam de mercados, vide o processo pré-industrial de unificação em manufaturas das antigas tecelagens dispersas na Inglaterra, um dos temas da análise marxiana. O capitalismo rompe com a propriedade privada constituída a partir de meios próprios de produção. Para aqueles que não conseguem se inserir no admirável mundo novo do trabalho assalariado, as leis sanguinárias contra a pobreza[1]. Criar a artificialidade de um trabalhador disciplinado e, como consequência, um mercado, exigiu muita violência real: o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros.  “Na história real, como se sabe, o papel principal é desempenhado pela conquista, a subjugação, o assassinato para roubar, em suma, a violência”.[2] E nas vastas regiões do mundo em que a produção da vida acontecia de formas distintas, o capitalismo implicou o regime de plantation, o tráfico intercontinental de escravos. O colonialismo é sombra constante e ubíqua do capitalismo.  

No séc. XXI, em tempos de automação, desindustrialização e financeirização do capital, a acumulação gerada pela expropriação da mais valia extraída do trabalho não deixa de existir, mas perde relevância estrutural. Sem os suportes produtivos que mantenham o delírio dos ganhos especulativos, o capitalismo em seus estertores passa a canibalizar tudo: não apenas uma nova modalidade de imperialismo colonial em busca de recursos imediatos (água, petróleo, lítio, previdências públicas), mas se expandem os regimes neo-escravocratas na era do “big data. Tal expansividade também vem acompanhada de uma dimensão intensiva (Karmy): todas as esferas da vida podem ser passíveis de capitalização, da suposta “interioridade” geradora de dados cibernéticos às identidades performadas nas redes sociais, da gestão farmacopornográfica das subjetividades - “o complexo material e virtual que participa da indução de estados mentais e psicossomáticos”[3] (Preciado) - à financeirização das informações biométricas e do genoma de uma população específica.

Diante de um capitalismo sustentado justamente na captura daquilo que sempre está no limite de superá-lo, instavelmente mantido na acumulação predatória e primitiva, as lutas contemporâneas não se pautam apenas por melhores condições de vida das classes trabalhadoras ou pela inclusão em um mercado que já não mais funciona sob o modelo da regulação em prol de sua eventual manutenção: ficou para trás a era das mercadorias e da necessidade de mercados quaisquer, localizados, históricos, que satisfaçam e mantenham trabalhadores-consumidores. Em tempos de acumulação predatória, as lutas que realmente importam, efetivas (wirklich), no sentido benjaminiano do termo, são contra o próprio capitalismo. As revoltas assumem uma dimensão insurrecional.

De outro lado, como não mais se mascara institucionalmente no protocolo das garantias que visavam salvaguardar uma dada consistência produtiva tutelando uma “população trabalhadora”, a forma-Estado em nosso tempo assume uma configuração semelhante à que teve no séc. XVI, com modalidades, intensidades e tecnologias especiais: violência arbitrária e destruidora a fim de configurar, com traços de sangue e fogo, novas e inauditas expropriações.  

As antigas colônias são reocupadas, os aparatos estatais destas tornam-se imediatamente dispositivos para prevenir e rebelar revoltas “nativas”: máquinas coloniais de ocupação territorial, recorrendo a meios militares e paramilitares de contrainsurreição como regra habitual de gestão. Os diagramas da administração colonial do presente operam de maneira distinta às representações do Estado constitucional-parlamentar e possuem prevalência mesmo sob a vigência fantasmagórica deste: ilegalidades, extermínios, desaparecimentos, suplícios são resultados habituais de um poder ocupante e predatório.

Insurgência e contrainsurgência são, portanto, as duas intensidades políticas e governamentais que dão inteligibilidade às revoltas mais recentes que atravessam nosso continente conflagrado.



Limiares  



I. Insurreição.  A mobilização rebelde no Chile não se limitou a uma pauta contra o aumento das tarifas no metrô, mas abrange a exigência da derrubada da totalidade das instituições herdadas do regime genocida de Pinochet, como a Constituição de 1980. A resposta tipicamente contrainsurreicional surgiu com a decretação do Estado de Emergência e do toque de recolher. Uma resposta que significou a exposição ut patet das entranhas do Estado chileno como um todo: violência sanguinária para a manutenção das fortunas de rentistas, tendo como capitães-do-mato Pinochet ou, recentemente, o empresário Piñera.

II. Contrainsurreição. Desde 2005 Angela Merkel é chanceler da principal potência europeia. O primeiro mandato de Evo Morales iniciou-se um ano depois, em 2006. Morales foi deposto recentemente em um golpe de Estado envolvendo o exército boliviano e as forças policiais do país, com iniciativa dos EUA e apoio incondicional de seu mais recente satélite, o estado brasileiro, que também sofreu um golpe de Estado no ano de 2016. Até então Alemanha e Bolívia poderiam ser comparadas: eram as economias com melhores índices em seus respectivos continentes, com líderes longevos respaldados por mandatos populares. O desapreço neocolonial pelo ritual democrático ficou explícito na forma como os celerados que atualmente administram o novo Brasil colônia apressaram-se em reconhecer a autocracia racista e neopentecostal que assumiu na Bolívia ou na maneira como pouco tempo antes trataram as eleições argentinas: a vitória incontestável do peronista Fernandez, imediatamente reconhecida pelo oponente de direita Macri, ambos candidatos do quadrante neoliberal, foi assim descrita pelo chanceler Ernesto Araújo: “as forças do mal estão celebrando. As forças da democracia estão lamentando pela Argentina, pelo Mercosul e por toda a América do Sul.” Até mesmo os slogans do Império pagante são copiados, sem nenhuma inventividade.   

III. Parte da esquerda institucional e progressista não percebeu a ruptura de paradigma governamental: supôs que seus postulados sociais-democratas e sua visão pró-mercado, com programas neoliberais expressos, inibiriam golpes de estado, tal como vistos no continente nos anos 60 e 70. Em um modelo contrainsurreicional e neocolonial, inclusive a social-democracia é vista como inimiga. A estratégia não fica limitada a ganhar da esquerda em eleições, mesmo que manipuladas. O objetivo é neutralizá-la justamente nas potenciais ativações e politizações de massas. Para tal intento mobiliza-se a guerra de informações – milhões aplicados na atuação cibernética - e o extermínio ou a perseguição armada (policial, militar ou paramilitar) em sentido estrito.

IV. Na impossibilidade de cumprimento das promessas teológicas de um discurso neoliberal baseado na precariedade do empresariado de si, o neopentecostalismo apresenta-se como técnica governamental bruta da automutilação e da expiação contínua e sem misericórdia. Se, na hipótese weberiana, a ascese intramundana do protestantismo e a emergência do capitalismo moderno estiveram imbricados - o protestantismo como teologia e, simultaneamente, ética da gestão capitalista (a teoria da predestinação e a ideia puritana da profissão como vocação são, respectivamente, conceitos e âmbitos de pesquisa da sociologia weberiana)[4] - o neopentecostalismo, ao contrário, é o próprio vazio da gestão alçado a elemento teológico normativo e normalizador. O neopentecostalismo é a sacralização da administração sem nenhuma inscrição mundana e sem resquícios de uma ética. Na era do fim do emprego e da apropriação predatória, esta técnica governamental imperial aplicada aos miseráveis – estejam eles nas periferias ou nos condomínios de luxo – promete continuamente a reconciliação com a própria destruição. Mas no sentido de uma justificação e despolitização do injustificável, não de uma alegria niilista. É o empreendedor cuja prática ascética é a destruição de si. É o martírio despido de qualquer resquício cristão: martiriza-se para um líder de cartel, um gangster que vista um terno e porte uma bíblia, um político oportunista. É a técnica que permite, mesmo na ocasião da catástrofe e após o fim das hegemonias, que pessoas sigam um líder e se comportem como governados integrais: uma pastoral da pastoral. O nada possui abismos e matizes: o neopentecostal, assim como o fascista, cultua a despossessão de si e dos demais, sem redenção ou expiação.  O dinheiro puro é o totem sobre o qual gravita o capitalismo rentista e as religiões niilistas de obediência pura, como o neopentecostalismo, são um componente estratégico da contrainsurgência contemporânea.        



V. Sem as lutas que interrompam a catástrofe, o Brasil bolsonarista encaminha-se para se tornar a maior autocracia neopentecostal do planeta.



VI. O capitalismo neocolonial engendra novamente a urgências das forças de libertação e autodefesa. Processos de subjetivação política rebelde e combatente, que fazem de seus territórios sua potência guerreira, com outras formas de vida e organização, inseparáveis. Não apenas em um sentido defensivo, porém. “Quanto ao imperialismo ianque, não vale somente estar decidido à defesa, é necessário atacá-lo em suas bases de sustentação, nos territórios coloniais e neocoloniais que servem de base para seu domínio no mundo.” (Ernesto Che Guevara, Passagens da Guerra revolucionária: Congo). Porém, no tempo de um imperialismo que se agencia nas próprias infraestruturas do mundo – o Império tornando-se o próprio meio onde atuamos (Tiqqun) – o ataque a tais bases não fica restrito a bloqueios, sabotagens e interrupções à logística imperial. Da deserção ao “eu” capturado e monetizado à fuga e indisponibilidade aos dispositivos de captura cibernética; da defesa de territórios e proliferação guerreira de outras temporalidades à derrubada de sátrapas, como Bolsonaro e asseclas. As bases de sustentação do imperialismo no mundo contemporâneo tornaram-se móveis e versáteis, cotidianizaram-se. O ataque a tais bases, em um sentido guevarista extemporâneo do termo, exige a antecipação a tais movimentos, devir cotidiano.     

VII.  Che Guevara foi capturado e morto por Rangers norte-americanos e pelo Exército boliviano, em La Higuera em 9 de outubro de 1967. Para confirmar a morte do "principal inimigo do imperialismo norte-americano nas Américas”, suas mãos foram amputadas e levadas para os EUA. Em 5 de julho de 2008 uma escultura de Che criada por Féliz Durán foi inaugurada em El Alto, populosa cidade acima de La Paz, em comemoração aos 80 anos do guerrilheiro argentino assassinado na Bolívia. Desde 10 de novembro de 2019, data do golpe de estado, juntas vecinales da região promovem protestos e bloqueios. A logística que mantém a capital está bloqueada. Milhares de juntas estão presentes em todo o país. As lutas insurgentes não se interrompem, pois não são travadas apenas em prol da expulsão do colonizador. Se a regra é a governamentalidade predatória, a rebeldia torna-se uma condição elementar de existência comum.  Rexistências. 

imagem: Alberto Valdes (EFE) 



[1] “Expulsos pela dissolução dos séquitos feudais e pela expropriação violenta e intermitente de suas terras, esse proletariado inteiramente livre não podia ser absorvido pela manufatura emergente como a mesma rapidez como que fora trazido ao mundo. Por outro lado, os que foram repentinamente arrancados de seus modos de vida tampouco conseguiram se ajustar à disciplina da nova situação. Converteram-se massivamente em mendigos, assaltantes, vagabundos, em parte por predisposição, mas na maioria dos casos por força das circunstâncias. Isso explica o surgimento, em toda a Europa ocidental, no final do séc. XV e ao longo do séc. XVI, de uma legislação sanguinária contra a vagabundagem. Os pais da atual classe trabalhadora foram inicialmente castigados por sua metamorfose, que lhes fora imposta, em vagabundos e paupers” MARX, K. O Capital. vol. I. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 805-806.
[2] Op. Cit. p. 786.  Marx falará de um implacável vandalismo expropriatório, que hoje se dirige sobretudo aos povos originários: “(...) a expropriação dos produtores diretos é consumada com o mais implacável vandalismo e sob o impulso das paixões mais infames, abjetas e mesquinhamente execráveis. A propriedade privada constituída por meio do trabalho próprio, fundada, por assim dizer, na fusão do indivíduo trabalhador isolado, com suas condições de trabalho, cede lugar à propriedade privada capitalista, que repousa na exploração de trabalho alheio, mas formalmente livre” Op. Cit. p. 831.
[3] “O verdadeiro motor do capitalismo atual é o controle farmacopornográfico da subjetividade, cujos produtos são a serotonina, o tecnosangue e os hemoderivados, a testosterona, os antiácidos, a cortisona, o tecnoesperma, os antibióticos, o estradiol, o tecnoleite, o álcool, o tabaco, a morfina,a insulina, a cocaína, os óvulos vivos, o citrato de sildenalfil (viagra) e todo o complexo material e virtual que participa da indução de estados mentais e psicossomáticos de excitação, relaxamento e descarga, e também no controle total e onipotente. Nessas condições, o dinheiro se torna uma substância psicotrópica significante e abstrata. O sexo é o corolário do capitalismo e da guerra, o espelho da produção.” PRECIADO, P. B. Texto Junkie. Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições. p. 42.  
[4] “Mas é precisamente isso que, ao homem pré-capitalista, parece tão inconcebível e enigmático, tão sórdido e desprezível. Que alguém possa tomar como fim de seu trabalho na vida exclusivamente a ideia de um dia descer à sepultura carregando enorme peso material em dinheiro e bens parece-lhe explicável tão-só como produto de um impulso perverso: a auri sacra fames.” WEBER, Max. A Ética protestante e o espírito do capitalismo. Trad. José Marcos M. de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 63.   

domingo, 4 de agosto de 2019

Vozes estudantes III - A Filosofia e seu mal-estar.



Marcos Saiande Casado*


Eis que é chegado a crise e mais uma vez ela, a Filosofia, é atacada de maneira direta pelo governante eleito pelo povo brasileiro. Entre todos os saberes desenvolvidos pelas mulheres e homens mundo afora, a “amiga da sabedoria” é tradicionalmente a escolhida como símbolo alvo para se iniciar o movimento de contração do processo de autoconhecimento de uma sociedade.

As razões para que tal medida seja recorrente na sociedade brasileira são múltiplas. Desculpas como contenção de gastos, ausência de profissionais para a oferta de cursos de filosofia para o ensino básico, o não retorno financeiro imediato que a essa área do conhecimento humano possa ofertar a chamada economia de mercado, e, até mesmo, a acusação de ser um território no qual forças malignas operam e são capazes de doutrinar e de incentivar a mentalidade revolucionária nos jovens. Como diz o atual presidente da República: “[...] queremos uma garotada que comece a não se interessar por política”.

Nada de novo. A filosofia, essa perpétua idolatria da dúvida, sempre foi o alvo daqueles que ocupam o poder de maneira vil. Foi assim já com Sócrates, condenado pelas acusações de impiedade perante os deuses e de corrupção da juventude simplesmente porque praticava isso que chamamos de Filosofia. Foi assim na queima do “Emílio” de Rousseau na França pré-revolucionária. É assim no Brasil que persegue as obras de Paulo Freire e que considera os textos de Marx um veneno que corrói a ordem social.

Em verdade, o que se combate não é toda a Filosofia, mas aquela que é capaz de gerar mal-estar, de promover estranhamento, de provocar rebeliões. Como disse Sartre, um dos mais importantes filósofos contemporâneos, “de fato, o que há são filosofias”. Entre elas, é justamente aquela que está em “plena virulência”, que não “se apresenta nunca como uma coisa inerte, como a unidade passiva e já terminada do Saber” que se torna fonte de preocupação daqueles que dirigem o destino da nação.

Encontramos nas palavras escritas por M. Heidegger, em “Introdução à Metafísica”, aquilo que certamente é a provocação mais aguda que um pensador poderia fazer em favor da Filosofia. Nos diz o filósofo alemão: “Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez; quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tóquio puder ser 'vivido' simultaneamente; quando tempo significar apenas rapidez, instantaneidade e simultaneidade e o tempo, como História, houver desaparecido da existência de todos os povos; quando o pugilista valer, como o grande homem de um povo; quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo, - então, justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração, como um fantasma, a pergunta: para que? Para onde? E o que agora? ...”.

Grosso modo, esse trecho nos diz que se há alguma finalidade para a Filosofia ela consiste, em concreto, em suspender nossas crenças, em semear o germe da desconfiança, de nos colocar suspensão.

A insubordinação e a capacidade de abrir buracos em sistemas de certeza é o que torna a Filosofia um campo que desde a sua origem desequilibra e instala o mal-estar, sobretudo, nos círculos que pretendem exercer o poder e o controle social. Diz o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica "[...] a semente socialista já tem 200 anos. Vai de derrota em derrota, mas não morre". A Filosofia, um pouco mais velha que o movimento socialista, com seus mais de 2.500 anos, também vai de derrota em derrota, mas não morre. Sempre encontra brechas para sobreviver, para fazer os homens e mulheres refletirem e cumprirem sua função primeira, isto é, ser o templo de louvor a dúvida. 


* Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Imagem: Jan Davidsz de Heem. Estudante em seu escritório. 1628. Ashmolean Museum, Oxford.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Habitar e Construir - Giorgio Agamben


Giorgio Agamben

Gostaria que vocês considerassem as reflexões que hoje lhes comunico sem as separar do contexto em que nasceram: as investigações arqueológicas em que me empenho há quase trinta anos. Como vocês sabem, a arqueologia que aqui está em questão, ainda que estreitamente ligada à história, isto é, à paciente e minuciosa reconstrução de fatos e eventos em uma cronologia, não coincide com esta. Isso se dá porque ela sempre se mantém em relação com o que Foucault chamava de, com uma expressão por certo paradoxal, o a priori histórico, isto é, com um princípio, uma arché, que, mesmo não sendo meta-histórico, não pode todavia ser situado em uma cronologia. Trata-se não tanto de uma origem, mas de uma lacuna entre o ponto de insurgência de um fenômeno e a tradição das fontes que o transmitem. A aposta da arqueologia é que justamente essa lacuna, esse excesso do fenômeno em relação a sua tradição histórica, torna-o compreensível para além do contexto das causas e consequências sobre o qual se debruça a investigação historiográfica. É nessa perspectiva – não meramente historiográfica, mas arqueológica – que gostaria que vocês acolhessem as breves e por certo demasiado sumárias conjecturas sobre o a priori da arquitetura que lhes apresentarei. Também o diagnóstico, certamente crítico, sobre a situação da arquitetura em nosso tempo que resultará dessas conjecturas deve ser visto nesse contexto arqueológico. E, por se tratar de um encontro no qual está em questão a identidade da arquitetura, isso é tão necessário quanto o fato de que em seu próprio nome a arquitetura pareça implicar uma referência essencial à arché.

Assim, procurarei refletir sobre qual poderia ser o a priori histórico da arquitetura moderna (digamos, daquela que começa a partir da metade do século XIX, ou seja, desde quando existem as faculdades de arquitetura). Para responder essa questão, primeiro será preciso perguntar se existe algo como um a priori histórico da arquitetura em geral. Penso que estamos de acordo quanto ao fato de que algo como a arquitetura é possível porque o homem é um ser habitante. A habitação – ou melhor, o nexo entre construção e habitação – é o a priori, a condição de possibilidade, da arquitetura. A arquitetura é a arte da construção, na medida em que é, também, arte da habitação. Émile Benveniste – autor do Vocabulário das instituições indoeuropeias, sem o qual talvez fosse impossível compreender a história da cultura ocidental – certa vez observou que os termos indoeuropeus que designam casa parecem sobrepor duas noções distintas: por um lado, a casa-habitação, que exprime um pertencimento social (que em latim se diz domus, o lugar da família e da gens) e, por outro, a casa-edifício (que em latim se diz aedes). Segundo Benveniste, essas noções, que tendem a ser confundidas na raiz indoeuropeia *dem, devem ser compreendidas como distintas: a casa-habitação e a casa-edifício, mesmo se, ao menos em parte, podem coincidir no espaço, exprimem duas realidades que têm muito pouco a ver uma com a outra. Domi, o estar-em-casa, não significa "encontrar-se em um edifício", mas pertencer a um determinado contexto jurídico e social (a domus-família) no qual se está e se sente em casa, não só porque se está entre os familiares, mas também porque, como mostra a contraposição domi bellique, “em paz e em guerra”, na casa são possíveis certas relações e outras são excluídas, como as que se mantêm com um hostis, um inimigo público. Se as considerações de Benveniste estão corretas, isso significa que a relação entre construção e habitação, mais do que considerada como dada, como seria possível crer, é no mínimo problemática. É sobre essa relação que os convido a refletir.

O Vocabulário de Benveniste, que contém essa análise da raiz *dem, é de 1969. Em 1951, Heidegger havia proferido, em Darmstadt, uma conferência com o título: Construir habitar pensar. Nela, sustentava uma tese contrária: construir (bauen) significa originalmente “habitar” (buan, wohnen) e é apenas o habitar que dá seu sentido ao construir. O homem é um ser que constrói porque habita, mas esse ser unitário do homem está ameaçado por uma desorientação essencial, que a cada vez coloca em perigo a unidade entre construir e habitar.

Nessa perspectiva, a arquitetura poderia ser definida como a tentativa de manter juntos os dois significados da raiz indoeuropeia *dem, construir e habitar. Construir significa verificar ou realizar um pertencimento social, um estar-em-casa, e, vice-versa, pertencer a um contexto social, estar-em-casa, habitar, significa construir. Mas de fato é assim?

Se voltamos agora à nossa pergunta sobre o a priori histórico da arquitetura moderna, a hipótese que gostaria de lhes propor é que a unidade – por si só problemática – de habitar e construir em algum momento – e por razões que aqui não podemos indagar – se rompeu. O a priori histórico da arquitetura hoje seria precisamente a impossibilidade ou a incapacidade de habitar do homem moderno e, para os arquitetos, a consequente ruptura da relação entre arte da construção e arte da habitação. Isso permite dar sentido ao curioso fenômeno pelo qual ao mesmo tempo em que nascem as faculdades de arquitetura os homens, que até então eram capazes de construir e habitar suas casas, perdem essa faculdade e, com ela, também a capacidade de sentir-se verdadeiramente em casa, quase como se a arquitetura agisse como uma daquelas que Ivan Illich chamou de “profissões desabilitadoras" (hipertrofia das profissões no nosso tempo: tudo o que os homens faziam espontaneamente se profissionaliza). Mas, sobretudo, permite explicar um fenômeno sobre o qual, penso, os estudantes de arquitetura jamais deveriam deixar de refletir: o fato de que, como vocês sabem, o campo de Auschwitz foi projetado e construído por um arquiteto, Fritz Erl, que havia estudado na Bauhaus. Por conta de uma venturosa – ou, talvez, desventurada – circunstância, o projeto do campo, que também fora firmado por outro arquiteto, Walter Dejaco, se conservou. Em 1972, os dois arquitetos foram processados em Vienna e absolvidos. Mas a pergunta que surge aqui é: como é possível que arquitetos, de cuja seriedade é indubitável, tenham podido projetar um edifício onde de forma alguma teria sido possível sentir-se em casa, isto é, habitar? O que pode ser uma arquitetura que se funda sobre a impossibilidade da habitação? Essa é a pergunta que vim lhes colocar.

Além disso, se as considerações desenvolvidas até aqui estão corretas, a tese que delas decorre é que, hoje, a arquitetura se encontra na situação histórica de ter que construir o inabitável.

Pode a arquitetura construir o inabitável? E ainda: não é isso que hoje fazem sem hesitar os arquitetos famosos, quando preferem construir centros comerciais, aeroportos e outros espaços (talvez, também os museus poderiam ser incluídos nessa categoria) em relação aos quais falar de habitação, honestamente, não parece possível?

Algumas palavras sobre o modo como gostaria que fosse compreendida a hipótese que acabo de formular. Essa hipótese de forma alguma deve ser vista como um diagnóstico apocalíptico com pretensões de validade histórica, no sentido de que, em certo momento cronologicamente datável, os homens teriam perdido o nexo entre construção e habitação. O fato de que Alberti, Filarete e o jovem Vasari tenham acenado para o problema da arquitetura dos cárceres, mostra como é preciso ser cauteloso na formulação de hipóteses como a aqui proposta, segundo a qual a arquitetura hoje se encontraria pela primeira vez diante do problema da construção do inabitável. Trata-se, antes, ao menos no meu caso, de hipóteses e paradigmas cujo escopo é tornar compreensível determinada situação histórica, e não de um diagnóstico apocalíptico travestido de investigação histórica. Há muitos anos, no início da minha investigação sobre o Homo sacer, quando escrevi que o campo e não a cidade é hoje o paradigma político do Ocidente, essa afirmação suscitou escândalo e reações polêmicas. Hoje, essa tese, restituída à sua natureza de paradigma filosófico e não como tese historiográfica que coloca tudo no mesmo saco, é aceita por quase todos os estudiosos da política que não são apologistas bem-intencionados do sistema. Permanece o fato de que mesmo um paradigma arqueológico-filosófico também pode ter implicações éticas no plano histórico, no sentido de que, se o problema da habitação não pode ser separado daquele da construção, afirmações como as que lemos em uma história da arquitetura carcerária – segundo as quais o cárcere ainda não encontrou seu poeta – são no mínimo descuidadas, porque talvez não pode nem deve encontrá-lo (a menos que, algo improvável na atual conjuntura política, o arquiteto não pretenda cumprir um gesto revolucionário, no sentido estrito do termo, contra o aparato estatal).

Mesmo assim, às vezes ainda temos que escutar discursos no mínimo irresponsáveis nesse âmbito. Há poucos dias, um ex-prefeito de Veneza, que por décadas ensinou em uma faculdade de arquitetura, declarou que quem diz acreditar que hoje seja possível trazer de volta para sua cidade os habitantes em vez dos turistas é uma alma ingênua. É provável que o autor dessa afirmação procure simplesmente recobrir as próprias responsabilidades na degradação da cidade que devia administrar, mas que o próprio conceito de habitação seja desse modo considerado obsoleto certamente é significativo.

Mas o que significa "habitar”?

O verbo latino habitare, do qual deriva nosso termo “habitação", é um frequentativo de habeo, que significa ter. Nós usamos o verbo ter – como, no mais, fazemos com o verbo ser[1] – como se seu significado fosse um dado. Não é assim. Émile Benveniste, sempre ele, tem um ensaio precioso, cujo título é Ser e ter em suas funções linguísticas, que mostra que não só o significado desses dois verbos é extremamente problemático, mas também que eles estão ligados por uma relação complexa. Assim, descobrimos que o verbo ter – como o verbo ser – não existe na maior parte das línguas. Em muitas línguas, como em árabe ou nas línguas altaicas, ele é substituído por expressões como “ser/estar em” ou “ser de”. A partir disso, é fácil concluir que ter é apenas o inverso de “estar-em”, que é a expressão normal. Mihi est pecunia se inverte como in ego habeo pecuniam: o que era sujeito na primeira expressão se transforma, na segunda, em objeto. A conclusão de Benveniste é que tanto ser quanto ter são verbos de estado. Mas, mesmo sendo vizinhos, eles se diferenciam, pois ser é o estado do essente, de quem é algo, enquanto ter é o estado do avente[2], de quem tem ou possui algo. Ser estabelece entre os dois termos uma relação intrínseca de identidade e ter uma relação extrínseca de posse. Porém, isso de fato é assim? Alguns dos exemplos que Benveniste cita dão a entender que o significado dos dois verbos seja ainda mais próximo do que o linguista gostaria de sugerir.

De habeo derivam habilis ("fácil de ter ou manobrar, que se presta ao uso” porque “hábil, capaz de fazer algo”); habitus ("modo se ser, comportamento, manutenção” –, portanto, “capacidade, disposição, hábito" –, por exemplo, o arquiteto tem o hábito da técnica de construção); habitudo ("modo de manter-se ou comportar-se de forma estável", “constituição corpórea” – e, mais tarde, “costume[3]”); habena (cinta, rédea, aquilo por meio do qual se mantém algo junto). Também instrutiva é a fórmula comum bene habet, "tudo bem", ou se bene habere, "estar bem". E, por fim, nosso verbo intensivo habitare, que não significa apenas “estar habitualmente, permanecer”, mas, acima de tudo, “ter estavelmente ou com frequência, ter o habitus ou o costume de algo": note-se a curiosa expressão atestada, por exemplo, em Gregório Magno e no vocabulário monástico, secum habitare, habitar consigo, isto é, ter certo hábito de si, certo modo de ser e de viver em relação consigo, certo uso de si.

Como esses vocábulos sugerem, os significados de ter e de ser parecem quase entrar em indeterminação, quase como se ter significasse "ter certo modo de ser”, ser disposto de certo modo. Nesse sentido, a habitação se torna uma categoria ontológica. Habitar – essa é a definição que gostaria de lhes propor provisoriamente – significa criar, conservar e intensificar hábitos e costumes, isto é, modos de ser. O homem é um ser “habitante” porque existe sob o modo do ter – ou seja, no sentido que se viu, da habilidade, do hábito e do costume. Isto é, o homem é um vivente que transforma o ser em um ter: em habilidades, técnicas, hábitos e costumes. Há uma reciprocidade e uma contínua troca entre ser e ter. E essa reciprocidade é também uma boa definição da ética, tendo em vista que o vocábulo grego ethos tem a ver com o modo de ser e viver com os outros e, acima de tudo, consigo, ou seja, caso não se esqueça de que a ética é sobretudo um secum habitare. Por isso, o homem tem necessidade não só de uma toca ou de um ninho, mas de uma casa, de um lugar onde “habitar”, onde construir, conhecer e exercitar intensamente seus “hábitos”. Construir, que é o objeto da arquitetura, pressupõe ou tem constitutivamente a ver com a habitação, a faculdade de habitar. Assim, a quebra do nexo entre construção e habitação implica uma crise radical para a arquitetura, crise que quem pratica essa arte com seriedade tem que, no mínimo, encarar.

[1] N.T.: O verbo essere pode ser traduzido tanto por ser quanto por estar, em português.
[2] N.T.: Por não ter correspondente específico direto em português, optei por manter o termo original, o qual designa, como especifica na sequência Agamben, “a qualidade de quem tem algo”.
[3] N.T.: Em italiano, habitudine, o qual mantém a raiz habeo.
O texto é parte de uma conferência realizada na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma "La Sapienza", no dia 07 de dezembro de 2018.
Trad.: Vinícius N. Honesko.
Imagem: Shabono Yanomami. Foto de Dennison Berwick




segunda-feira, 8 de julho de 2019

Vozes estudantes II - Em defesa de uma Filosofia inútil





Antonio Júlio Garcia Freire*


Em tempos em que se discute os investimentos na educação superior, contingenciamentos de custos e o obscurantismo parece ser a regra dos debates, a primeira disciplina a ser discutida é a filosofia. De fato, se exige a presença da filosofia perante o júri da sociedade, pois que ela explique sua finalidade, por que deveríamos pagar professores dessa disciplina? Não tardemos, arrastemos os filósofos pelos pés! – não escutem suas súplicas, suas palavras venenosas e sua retórica afiada – o julgamento está pronto, a promotoria é guiada pelo senso crítico da utilidade e do pragmatismo, ela irá revisar os argumentos e propor um acordo justo. E, acuado em um canto, o filósofo é inquerido pelo promotor: afinal, por que haveria de existir um lugar para você nesse admirável mundo novo?

E talvez esse seja o problema que remonta ao começo dos tempos humanos. Milênios atrás foi Sócrates o primeiro a ocupar o lugar dos réus, acusado por sua própria cidade de corromper a juventude ateniense, ensinando os jovens a adorarem falsos deuses. É isso que Platão nos relata em seus diálogos. Com Platão e Sócrates era mais claro o papel da filosofia: descobrir a verdade, colocar de lado os mitos e as aparências, alcançar a essência das coisas através da dialética. É isso que Sócrates supostamente fazia, discutia com pessoas nas ruas da cidade e inqueria sobre o que era a justiça, a coragem ou a verdade. Talvez, a cidade tenha se vingado e ao fazer ao velho filósofo a pergunta que ele, covardemente, nunca havia feito: para que tu serves Sócrates?

Mais do que uma simples demonstração da barbárie e da perversão do que um grupo humano é capaz, gostaria de analisar a cena a partir de outro ângulo. É precisamente disso que se trata: a cidade mata Sócrates porque é isso que suas perguntas estão fazendo com os habitantes, matando os dispositivos políticos-religiosos e as tradições; trata-se de um embate entre estilos de vida do qual apenas um pode sobreviver.

A questão da utilidade aproxima o filósofo de outra figura que ao longo da história também ocupa constantemente esse banco dos réus: o artista. Ao longo dos séculos também se questiona qual a função da arte e qual propósito ela deve ocupar dentro de uma sociedade. Platão também reflete sobre isso quando expulsa o poeta de sua República, sob o pretexto justamente de que a poesia é capaz de mover as paixões em direções indesejadas e de que os artesões que trabalham com a mimesis apenas degeneram a verdade, criando falsas cópias, sendo a boa arte aquela que acalma os ânimos. Não há lugar para o poeta em sua comunidade perfeita.

Walter Benjamin em seu texto O autor como produtor (1934) aborda esse problema, sobre qual seria a utilidade do artista ou intelectual dentro do projeto de uma sociedade emancipada ou, pelo menos, as funções desses sujeitos no processo de emancipação. O caráter revolucionário ou reacionário de uma obra apenas pode ser analisado dentro das relações de produção da época, isso significa que, para além de uma oposição da forma e conteúdo, é a técnica a categoria que permite uma análise mais profunda da obra.

Como Benjamin tenta demonstrar, o caráter revolucionário de uma obra está na superação das falsas dicotomias, no caso de sua análise: a distância entre o autor e os consumidores de seu produto. Estamos diante de uma obra revolucionária quando ela atravessa essa distância, transformando os consumidores em produtores. Assim é com o processo de emancipação: não se trata de uma bateria com dois polos mestre-escravo com o proletário de um lado e a burguesia de outro, mas podemos encontrar aliados e inimigos em ambos os campos. E é justamente o espírito reacionário que acredita na importância de o artista imprimir sua personalidade em sua criação, e essas criações possuem assim uma função organizadora dentro de uma sociedade, servindo de propaganda: “Esperar uma renovação no sentido dessas personalidades e dessas obras é um privilégio do fascismo” (ibid., p.99).

Benjamin não está distante de Marx, que também via no processo de emancipação da sociedade de classes o fim da profissão do artista. É assim o processo de alienação, na medida em que apenas me reconheço pertencente ao mundo de uma técnica, somente sou astrônomo, médico ou escritor. Há a concentração de talento em uma única atividade que é preciso transformar em mercadoria para continuar sobrevivendo. Uma sociedade emancipada, em uma concepção marxista, é uma sociedade que ultrapassou esse paradigma de classes, que dialetizou categorias apenas aparamente contrárias: “Numa sociedade comunista não haverá pintores, mas homens que, entre outras coisas, farão pintura.” (Marx e Engels, A ideologia alemã, Obras, t. V, 372-372).

É dessa forma que Marx também enxerga a categoria do filósofo. É preciso efetuar a superação entre a falsa dicotomia de um povo inculto que não se preocupada com a verdade e a filosofia – a mãe das ciências como definem alguns. Como ele traz em Glosas críticas ao artigo: “O rei da Prússia e a reforma social. De um Prussiano” (1844, p. 45-46): “Somente no socialismo um povo filosófico encontrará a práxis que lhe corresponde, ou seja, somente no proletariado encontrará o elemento ativo de sua libertação.”

Assim como o artista no advento do capitalismo precisa vender sua força de trabalho – no caso suas obras, ou seja, responder a uma demanda dos ditos movimentos artísticos e as correntes que digam o que é uma “boa arte” – o filósofo também precisa vender sua força. Mas, o que ele vende é sua força intelectual, não pensando temas revolucionários, voltando aos temas estéreis da antiga filosofia e compactuando com a dicotomia filosofia X senso comum. É realmente interessante pensar o que Marx quis dizer com “povo filosófico”. O que significa isso como fim de uma dicotomia.

Na atualidade, o debate aparece marcado por falsas dicotomias, de um lado se discute a utilidade da filosofia, como ela pode participar da emancipação da sociedade. Ora, uma filosofia verdadeiramente revolucionária, dentro das relações de produção, é a que ultrapassa a condição de filósofos e leigos, a que oferece uma nova forma de mediação entre conteúdo e forma. Do outro lado, debate-se sobre a utilização dos recursos de uma sociedade: em tempos que é preciso repensar gastos e investimentos, por que o filosofo deveria ser digno de receber algo pelo seu trabalho?

Bataille, em uma carta a um companheiro, fala da literatura, do que ele acredita serem as condições para uma literatura verdadeira, partindo do paradigma entre dominados e dominantes. Os dominantes seriam aqueles preocupados em aumentar o conjunto de recursos de uma sociedade, produzir o máximo e consumir o mínimo. Os dominados, pelo contrário, apenas desejam consumir e trabalhar o mínimo possível.

Bataille não parece soar distante do presidente do Brasil ou do ministro da educação, cujos discursos não escondem o desdém com o conhecimento produzido pelas universidades, com o custo, considerado “extravagante”, com os professores e alunos. Não é coincidência que a filosofia, a última disciplina a entrar de forma obrigatória na grade escolar, seja a primeira a ser ameaçada de ser retirada. Porque o filósofo é, como Bataille descreve, um fanfarrão da pior espécie. Alguém que apenas esbanja e pouco produz e que, em uma sociedade marcada pela preocupação econômica, pelas utilidades de seus membros, ousa questionar o que funda essa própria utilidade – e, nessa sociedade, tal ousadia é impensável. Essa divisão que Bataille propõem é invertida no final de sua carta, porque aqueles que deveriam servir são precisamente os maiores soberanos, uma vez que podem renunciar à sua soberania e não servir para nada. Esse é seu maior privilégio. Dizem que a filosofia está passando por uma crise, mas talvez sua situação natural seja a crise, resolver a crise da filosofia poderia ser o fim da história de Hegel ou a entrada em um novo modo de produção com Marx, e não acredito ter as respostas para como chegar lá e atravessar as trevas, mas os filósofos que vieram antes acenderam uma lanterna atrás de mim e me permitem ver alguns palmos a frente.

Para completar: defendo uma filosofia inútil, não tenham dúvidas. Inútil, porque é apenas ao existir como algo que não precisa existir que encontramos o que talvez haja de mais radicalmente humano na experiência com o mundo. O fascismo e o reacionário estão do lado da necessidade, de um mundo orgânico que se curva diante da vontade do grupo.

Não acredito ser possível defender a necessidade da emancipação da sociedade, acredito que os existencialistas estejam certos e, em princípio, que tudo seja uma questão de escolha. Contudo, gostaria de escolher um mundo não-orgânico, que também não é o mundo das máquinas, mas um mundo humano, com seus problemas, mas problemas humanos que apenas dependam da humanidade para encontrar alguma solução; mundo no qual as diferenças que nos matam, nos segregam e nos dividem não são necessidades, mas contingências. Por isso, acredito que devemos manter a filosofia em nossas disciplinas, não porque precisamos dela, mas porque um dia não iremos mais precisar, iremos olhar para os tomos do pensamento e sentir saudade de quando precisávamos dos filósofos, assim como olhamos para antigos brinquedos e sentimos saudades de quando éramos crianças. Porém, esse tempo não é hoje.

Todos sabemos como acaba o diálogo: Sócrates é declarado culpado, aceita sua punição e toma a cicuta. Em seu leito de morte, suas últimas palavras são sobre uma dívida, as galinhas que deve a um conhecido. Vamos torcer para não ser esse o destino do filósofo, que o julgamento seja suspenso, a promotoria sem forças para continuar peça que o caso seja arquivado. O filósofo aliviado por continuar respirando – ou preocupado porque ainda precisa terminar aquele ensaio – pega seu casaco e se retira do prédio público.
 
 
* Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 
 
Imagem: Peter Paul Rubens. Os quatro filósofos. 1611-12. Galleria Palatina, Firenze.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Vozes estudantes I - Sobre ser um problema



Jeovan Lopes de Oliveira Júnior*


Qual é o maior problema que um filósofo pode resolver? Ao longo da história da filosofia, muitos pensadores se dedicaram a diferentes e inquietantes questões. Por que há o ser e, não antes, o nada? Qual é a forma de governo justa? Há limites ao conhecimento humano? Quais são as leis universais do pensamento? Qual é o fundamento do belo? O que é ser livre? Mesmo após dois mil e quinhentos anos de um esforço hercúleo na tentativa de respondê-las, os filósofos ainda não encontraram as respostas que procuram; mas isso, em vez de desapontá-los, redobra-lhes o ânimo para continuar trilhando a estrada da filosofia.

Qual é, entretanto, a questão fundamental que engaja o filósofo, a questão que faz com que ele saia do estado em que se encontra para aderir ao espinhoso caminho do pensamento filosófico? Como tudo o que envolve a filosofia, não poderei dar uma resposta definitiva, aceita por todos; posso apenas apontar aquela que me parece mais forte no momento.

Voltando alguns milhares de anos, podemos ver na Grécia antiga um homem incomodando os moradores de Atenas. Ele interpela importantes figuras da cidade grega com questões embaraçosas que, muitas vezes, causam constrangimento a quem é interrogado. No fundo, ele não procurava a resposta a nenhuma daquelas perguntas; o que queria mesmo era averiguar se a revelação proferida pelo oráculo de Delfos era verdadeira: ser ele o homem mais sábio da cidade. A caminhada filosófica de Sócrates começa com uma inquietação sobre si mesmo.

Alguns séculos depois, na antiguidade tardia, vemos um homem inquieto, tentando insistentemente conciliar sua fé com sua filosofia. Em seu momento de maior perplexidade diante de seus dilemas, diz Santo Agostinho em suas Confissões: “tornei-me para mim mesmo um problema, e esta é a minha fraqueza”. Não poderia ser diferente, o maior problema para o filósofo é o próprio filósofo. Este sempre foi o verdadeiro problema; Agostinho só não tinha se dado conta ainda.

A filosofia exige que aqueles que se envolvem com ela se tornem inquietos, incertos, ainda por se resolver, uma questão em aberto. A filosofia é uma companheira ciumenta e narcisista. Quer que seus amantes lhe dediquem toda sua vida; quer que seus amantes sejam uma espécie de reflexo de si própria. Dá-se tudo para conquistá-la, dá-se tudo para viver conforme as convicções filosóficas em que se acredita. Quem não se lembrará de Wittgenstein, filósofo do século passado que, entendendo que nada mais deveria ser dito sobre a filosofia, larga a carreira acadêmica e vai viver uma vida simples, longe das discussões metafísicas? Mas um filósofo é sempre um problema para si mesmo. Anos depois, o pensador austríaco retoma a discussão sobre aquilo que outrora prometera calar-se. Agora jurava ter uma nova solução ao problema que o assombrava. A nova resposta só surgiu com a mudança ocorrida com o próprio filósofo, que, já não nos espantemos, é o real problema. A um novo problema, de fato, uma nova solução.

Mas será a história da filosofia apenas um amontoado de homens inquietos tentando resolver seus próprios dilemas? Se isto for verdade, por que as dúvidas de Sócrates, Agostinho ou Wittgenstein continuam retornando ano após ano, como almas que ainda não encontraram seu descanso eterno e estão vagando pelo mundo dos vivos? Por que nossas dúvidas são tão semelhantes às dos filósofos que viveram antes de nós? Por que eles insistem em nos deixar sem resposta diante de suas perguntas? As inquietações dos filósofos não dizem respeito somente aos homens particulares que as formularam; na verdade, dizem respeito a todo gênero humano. Os filósofos são uma parte da consciência humana que exterioriza aquilo que a incomoda no seu íntimo. A humanidade, desde sempre e para sempre, pode dizer a si mesma: “tornei-me para mim um problema”.

Se duvidas do que digo, prestes atenção se em algum momento o ser humano alcançou todas as respostas que procurava. Os poetas deram-nas todas? Os sacerdotes extinguiram os espíritos inquietos? A tecnologia moderna está sendo o suficiente para dar conta da realidade? Os filósofos alguma vez sanaram todas as dúvidas do espírito humano? Nesta antropogênese inacabada, o homem faz a si mesmo a medida que vai descobrindo mais inquietações escondidas dentro de si e tenta, de alguma forma, solucioná-las.

Ora, alguém pode dizer, se a filosofia é sobre dar respostas aos problemas do ser humano e ela não consegue fazê-lo de forma definitiva, qual espaço há para sua existência? Não passa de um projeto fracassado. Só pensa dessa maneira quem não enxerga que a dúvida é, antes de tudo, um sinal de liberdade. Só pode duvidar quem não está plenamente determinado, quem tem em si um espaço que não foi preenchido, quem não está com a consciência ausente ou inoperante. Os mortos de nada duvidam. A dúvida causa mudança; a dúvida impulsiona a humanidade adiante. Tolher a dúvida humana é tolher sua liberdade e, por fim, sua própria humanidade. Se a filosofia é o espaço da dúvida, então ela não poderia não existir como um fenômeno humano.

Como pode alguém defender que a filosofia acabe, então? Tal proposição só pode ter origem em uma mente totalitária, que promete enganosamente acabar com os questionamentos e os problemas do mundo. Uma mente que jura ter o segredo para trazer à tona o homem ideal. Propor o fim da filosofia é propor o fim da humanidade como a conhecemos. É uma humanidade que vacila, que sofre e que se arrepende na busca da solução de suas questões; mas é uma humanidade livre, capaz de se reerguer, ainda que com muito custo, perante seus erros. Os homens têm o direito de errar, afinal, eles ainda não estão prontos. O mundo dos mortais está sempre por fazer-se. O fim da filosofia, seja por força, seja por um evento escatológico em que a humanidade encontre todas as respostas que deseja, é o fim do ser humano como o conhecemos.

A esfinge da filosofia continua a lançar seus enigmas. Não é possível subjugá-la pela violência; somente podemos tentar solucionar seu desafio. Nos encontramos como Édipo perante aquela criatura assustadora e majestosa a sua frente no meio do deserto. Após sobrepujar a esfinge, Édipo, pensando ter alcançado a glória, só encontra a tragédia. O que será do homem quando superar a filosofia? Encontrará a perpétua paz do paraíso ou o mais terrível dos sofrimentos do inferno? Seja como for, a filosofia continua a ser o espaço reservado a todos aqueles que se enxergam como um problema. Permitam-nos existir; permitam-nos resolver a nós mesmos. 


* Graduando em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

Imagem: Gustave Moreau. Édipo e a Esfinge. 1864. Metropolitam Museum of Art, NY.