quarta-feira, 9 de julho de 2008

Algumas corruptelas

meditação a cabo.


como um Buda enfadado
a bebericar cervejas

imperturbavelmente

sentado num sofá.




Hai-cai o Muro de Berlim!


Por uma mera vogal ideológica
Todo beato é beat
Todo beat é beato




poema paulistano

pichados Pinheiros de pedra
na palimpsestica paulicéia psicótica.





foto Psychofun

sábado, 5 de julho de 2008

Sobre acólitos e afins...


Tintoretto, Crocifissione


Na celebração eucarística – as missas dos católicos romanos – existe uma figura interessante, cujas funções operatórias são ligadas à organização e à preparação dos instrumentos próprios à realização do rito: o acólito (que, quando ainda infantil, recebe o popular nome coroinha). Este jovem, muitas das vezes incomodado com a paramenta ministerial cujo uso lhe é forçosamente imposto, deve preparar o altar alguns instantes antes da realização da missa (organizando o cálice, as galhetas, as patenas, o ambão, o manustérgio, o sanguinho, a naveta e o turíbulo nos dias de festas, enfim, todos os apetrechos necessários para o grande sacrifício que ali se realizará). Como bom auxiliar, o acólito deve realizar todas as suas tarefas inadvertidamente. Ele, juntamente com os ministros – aqueles senhores de respeito, homens da sociedade local que representam algum papel de importância (em geral são farmacêuticos, médicos, advogados, empresários, enfim, todos operadores de funções sociais constantes) –, deve fazer com que nada fique fora do lugar na ordem dos eventos da celebração. Além destes atos pré-missa, também ao acólito é necessária a participação no próprio ato ritual. Assim, ele deve saber entoar todos os cantos, deve saber todas as respostas litúrgicas prescritas, bem como deve saber se movimentar imperceptivelmente no espaço do altar, de modo a servir o sacerdote com perfeição – colocando ao alcance deste todos os paramentos necessários para a realização do ato sacrificial-eucarístico. Sua participação, portanto, se dá principalmente durante o ato eucarístico, que compõe a parte final da missa: tocam a sineta no momento da consagração, incensam o sacerdote, preparam as galhetas, lavam as mãos dos sacerdotes e ministros e seguram a patena no momento da distribuição das hóstias consagradas aos fiéis. De todos os atos praticados pelos acólitos – confesso que já o fui certa vez –, talvez seja este último o que mais me chamava a atenção. À simplicidade do ato (acompanhar o ministro de eucaristia durante a distribuição das hóstias consagradas, atuando como salva-guarda do corpo de cristo – isto é, com patena em mãos, não pode deixar que nenhuma hóstia caia no chão) corresponde uma responsabilidade imensa: ele, o simples assistente, deve evitar que até mesmo as minúsculas partículas da hóstia consagrada venham a cair no chão, o que faria com que deus pudesse ser vítima de um pano de chão, por exemplo – tendo como triste fim uma estação de tratamento de esgoto de uma cidade interiorana qualquer. Ele, o simples assistente, que deve passar sem ser notado durante todo o ritual da missa, é o portador da salvação do próprio deus. Ele, o simples assistente, a presença irremediavelmente irredutível do infante no mais alto sacrifício que a nossa cultura ocidental jamais ostentou, é, juntamente com sua patena, o verdadeiro redentor do deus-trino. Ele, o simples assistente, a desajeitada criança dentro dos sérios paramentos eclesiásticos, já sempre relegado às penumbras da missa (“movimente-se com destreza de modo a cumprir estritamente tuas funções!!!” talvez seja a frase mais recorrente de um sacerdote), é o já sempre esquecido diante da magnitude do ato sacrificial. Ele, o simples assistente, que acompanha todo o ritual (como uma voz recôndita no algoz, uma brisa que lhe sussurra o que fazer com a vítima) para dele ser esquecido, ainda que, muitas vezes, tenha, com sua patena, resgatado o deus das sevícias do escovão da faxineira e, quiçá, das fétidas galerias de esgoto.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A morte e a mosca


... em todos os tempos, todos, morremos como moscas que o outono lança nos quartos onde rodopiavam cegamente numa vertigem imóvel, atapetando de repente as paredes com sua tola morte. Mas, passado o medo, ele reupera a tranqüilidade evocando o mundo mais feliz de outrora, e essa morte mesquinha que lhe causava frêmitos parece-lhe revelar somente a indigência de uma época votada ao divertimento e à pressa.
Maurice Blanchot, O Espaço Literário, p. 120.

sábado, 28 de junho de 2008

Bares proletários


Se há um remanescente da tradição do proletariado oitocentista no séc. XXI, ele certamente não será encontrado nas indústrias assepticamente automatizadas (ou, para usar de um termo corrente, parques tecnológicos de viés toyotista). Não que a exploração não seja mais a condição de manutenção global e pedra de toque para avaliação do capitalismo do presente: o trabalho sujo de produção da mais-valia foi simplesmente deslocado para eixos de total desregulamentação representados seja na informalidade, seja no sub-emprego precarizado com parcas “garantias formais”. Entretanto, com o ocaso da figura dos sindicatos e de todo vínculo (para alguns marxistas: orgânico) entre trabalhadores, o boteco (botequim, bar, birosca, bodegas e significantes afins) incorpora um dos últimos redutos de comunidade entre os deserdados. É nele que sonâmbulos consomem-se no transe etílico em meio ao cheiro de frituras, balcões de fórmicas, mesas de sinuca, petiscos boiando na gordura reaproveitada e muita fumaça de cigarros baratos. No referencial semântico de botequim, em sentido genuíno e estrito, não devemos incluir o grande número de lojas temática que simulam a simplicidade ou rusticidade proletária para o consumo de desavisados turistas da pequena e média burguesia. Estes não-lugares se limitam a estilizar um ambiente da terna e heróica boemia proletária de um capitalismo industrial edulcorado: com suas imitações de gaiola, cervejas e chope tradicionais, grupos de choro contratados e pequenas quinquilharias de coleção (antigas flâmulas de clubes, fotos em branco e preto, placas com ditos populares e mensagens sacanas sobre o fiado). Museus para pseudo-intelectuais onanisticamente saudosos. Ao contrário, o boteco genuíno é a zona limiar onde quem entra sabe que correrá riscos factíveis de não voltar para casa. Aliás, seu freqüentador médio já não está inserido numa estrutura familiar estável, em regra nem a possui. O destemor, a carência e a brutalidade formam ali uma conjunção saturada de tensões (para lembrar de um dos únicos filósofos que costumava freqüentar os genuínos de seu tempo). Não há espaço para estilizações. Não é à toa que só se localizam nas periferias ou nas regiões decadentes. É o cru e o não intelectual da vida; uma negação e sintoma radical das relações materiais de nosso tempo. Território onde aqueles que nada têm a perder a não ser suas algemas, - que lhes continuam a aferroar -, bebem a mais barata das bebidas sonhando com a mais magnífica das desforras.



Imagem. Le Café de nuit - 1888 (V. Van Gogh)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Fragmento nômade



... Seriam apenas dois dias de caminhada até o campo dos Lotófagos. Percorremos em cinco. Era extrema a lassidão com que retornávamos ao local de nosso primeiro deslumbre, e mesmo esse torpor, que acometia desde o mais insignificante osso de nossos corpos, só poderia ter tido sua causa nas experiências vivenciadas naquelas paragens. Era a abstinência sentida, o vazio nos apresentado enquanto tal. Era preciso obturá-lo. Os lotófagos possuíam o que desejávamos com todo vigor da vida, mesmo ao preço dela.

sábado, 7 de junho de 2008

Elucubrações sobre a indi('o's)pensável indi(o)gestão

Pensável gestão dos índios? Indispensável gestão dos índios? Gestão indispensável dos índios? Gestão pensável dos índios? Ou apenas indigestão indispensável aos não acostumados às práticas antropofágicas? Quantos paradoxos sobram para os mandachuvas...

domingo, 1 de junho de 2008

Idéia do fim...


- Talvez um pouco de divagação seja aqui a solução entrópica. Desconexão. O tratamento é infindável. Própria perversão. Descontinuidade.

- Mas, a escrita que escapa ao fim da escrita não suporta pensar o fim. Silêncio.

- Não posso suportar o silêncio. Penso o fim.

- Instantes de fim, fins...

- Mas qual é o fim? Já não sei mais. Talvez existam fins.

- Fins para tudo sei que tem, mas talvez haja fim para o fim. Acho que é como Blanchot dizia da espera. Certamente é sempre espera pela espera... Talvez o fim deva ser tratado como o fim do fim do fim do fim.... Mas não sei.

- Angústias sempre surgem. Talvez seja o tempo.

- Quiçá...

- Escuta...

- Escuto.

- Há quanto tempo está angustiado.

- Não sei. Talvez tempo demais.

- Demais.

- Não, tempo.

- Interessante, parece-me que a vida não é tempo, mas a angústia sim... não sei mais quais limites para o tempo, para angústia, para vida... acho que você me angustia.

- Pode ser.

- Não, não pode ser.

- Quanta bobagem você fala.

- Falo.

- Podia silenciar.

- Não, falo, conto, narro, pretendo não parar... encerro com a morte.

- Então encerre.

- Não. Vivo.

- Não, está morto, desde sempre...

- Não te entendo.

- Não é pra entender, morre...