terça-feira, 31 de março de 2009

La religione del mio tempo

E no entanto, também quem estimo e amo,
com quem tenho em comum a alma
por tanta parte, sabe, da língua, o externo
valor de história, como
se a história carregasse ao uno, a um supremo
ponto que nivela toda paixão,
como se o seu fim fosse a homologação

da alma! Não, a história
que será não é como aquela que foi.
não consente juízos, não consente ordens,
é realidade irrealizada.
E a língua, se é fruto dos séculos contraditórios,
contraditória – se é fruto dos primórdios
tenebrosos – se integra, ninguém disso discorda,
com aquilo que será, e que ainda não é,
E este seu livre mistério, riqueza
infinita, nela quebra,
agora, todo limite alcançado, toda forma lícita.
Queimar as instituições,
estupenda esperança para quem agora geme,
é uma esperança que as reais paixões
que nascerão não pode prever, nem os sons

novos das suas palavras.

Pier Paolo Pasolini. La Religione del mio tempo. Milano: Garzanti Editore, 2006. pp. 156-157 (Tradução: Vinícius N. Honesko)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Sobre “não-conformismos” conformistas


A sociedade é integral, antes mesmo de ser governada de modo totalitário. Sua organização envolve mesmo aqueles que a combatem e impõe norma à sua consciência. Mesmo os intelectuais que têm à mão todos os argumentos políticos contra a ideologia burguesa sucumbem um processo de estandartização, que – não obstante um conteúdo crassamente oposicionista -, pela disposição a também se acomodarem de sua parte, de tal maneira os aproxima do espírito predominante, que seu próprio ponto de vista se torna objetivamente cada vez mais contingente, dependendo apenas de frágeis preferências ou de sua avaliação de suas próprias chances. O que, de um ponto de vista subjetivo, a eles parece radical, obedece objetivamente em tudo e por tudo à parte do esquema reservada para seus pares, de tal sorte que seu radicalismo se reduz a um prestígio abstrato, à legitimação daquele que sabe a favor de quê outra contra quê um intelectual tem de estar nos dias de hoje. Os bens pelos quais optam são há muito tão reconhecidos, tão limitados em número e fixados na hierarquia dos valores, quanto os das fraternidades estudantis. Ao mesmo tempo que investem contra o Kitsch oficial, suas convicções, como nas criança obedientes, estão orientadas para uma alimentação pré-selecionada, para os clichês da ojeriza ao clichê. (...) O fato de que todos os produtos culturais, mesmo os não-conformistas, estejam incorporados ao mecanismo de distribuição do grande capital, de que, no país mais desenvolvido, um produto que não obtiver o imprimatur da fabricação em massa praticamente não atingirá nenhum leitor, espectador ou ouvinte, recusa de antemão toda matéria ao anseio divergente. Até Kafka se torna uma peça de inventário do atelier sublocado. Os próprios intelectuais estão a tal ponto fixados no que é endossado na esfera isolada deles, que nada mais desejam além do que lhes é servido sob o rótulo de highbrow. Sua única ambição é “estar por dentro”, no que se refere ao sortimento cultural aceito, encontrar o slogan certo. A marginalidade dos iniciados é ilusão e mero período de espera. Vê-los como renegados é fazer-lhes honra demais; eles usam óculos com armação de tartaruga e lente que parecem vidraças em seus rostos medíocres unicamente para fazerem uma figura melhor a seus próprios olhos e melhor parecerem “brilhantes” na competição geral. Eles já são assim mesmo. A precondição subjetiva para a oposição, o juízo não enquadrado em normas, está em extinção, enquanto seus trejeitos continuam a ser efetuados como um ritual de grupo. (...)





Theodor Adorno. Reprodução Piper. Minima Moralia.
Imagem: Matthew Diffee. Che Guevara / Bart Simpson. 2oo2

domingo, 22 de março de 2009

Kynismós


(...) Essa estética da existência encontra-se distanciada daquela que era realizada pela ética estóica: lá tratava-se de estabelecer a correspondência regrada, harmoniosa, entre palavras e atos, a verdade a vida. Com os cínicos, tratava-se de fazer explodir a verdade na vida como escândalo. A relação entre a vida e a verdade é, ao mesmo tempo, a mais exigente e a mais polêmica. Não se trata de regular a própria vida segundo um discurso e de ter, por exemplo, um comportamento justo defendendo a própria idéia de justiça, mas de tornar diretamente legível no corpo a presença explosiva e selvagem de uma verdade nua, de fazer da própria existência o teatro provocador do escândalo da verdade.



GROS, Frédéric. A parrhesia em Foucault (1982-1984). In: GROS, Frédéric. (Org.) Foucault: a coragem da verdade. (Tradução Marcos Marcionilo). São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p. 163.
Imagem: John William Waterhouse . Diogenes de Sínope. 1882.

terça-feira, 3 de março de 2009

Pequena nota sobre a negatividade


A negatividade como aproximação crítica ao mundo só pode partir do pressuposto inseguro e débil (mas tendo sua forma indissociavelmente ligada a estas duas características: insegurança e debilidade) da impossibilidade do fundamento. Atrelado a este, como selvagem rota de fuga a todo aditivo ou prótese de obturação, um princípio de indeterminação radical do ser. A negatividade é a pura vida em suas ambivalências não resolvíveis, não teorizáveis; a vida na mais completa finitude não cerimonial, impessoal, até mesmo banal. Nada mais que o ser-sem-Deus do mundo profano, e que nem por isso significará uma postura de niilismo militante, tampouco de ateísmo vulgar (lembrar aos incautos que ambos necessitam de fundamentos baseados em asserções plenas de positividade). A negatividade é o riso pirrônico e dionisíaco frente às solenes pretensões de verdade e civilização, sejam quais forem suas embalagens (à direita ou à esquerda, vanguardistas ou conservadoras, dependentes ou não da idéia de deuses). Um riso que facilmente caíra na gargalhada despudorada e trágica do bêbado que percebe que a vida, tal como o vinho, não durará a noite toda.
Imagem: Nikos Economopoulos (GREECE. Macedonia). Turkey farm. 1988

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O peso da morte

Andrea Mantegna, Lamentação sobre o corpo de Cristo (1490). Pinacoteca di Brera, Milão.
Nunca até hoje senti o peso da morte. Jamais ajudei a carregar um féretro. Tive a felicidade de, até hoje, nunca ter visto morrer um ente realmente próximo a mim. Já lamentei a morte de parentes (próximos, claro, mas não daqueles do rol mais interior), de colegas (não um daqueles amigos mais próximos) e conhecidos. Porém, nunca senti o peso da morte. Lembro sempre daqueles que já morreram e com quem mantinha contato: as saudações, os apertos de mãos, os abraços, os beijos... sempre me surge, juntamente com essas lembranças, uma sensação estranha de ter sentido a existência daqueles que já não mais existem. Lembro-me exatamente dos vários beijinhos de cumprimento em minha última tia falecida: "Oi Benisso, com´é que vai?" escuto-a novamente toda vez em que aquela sensação aparece. Engraçado, a leveza da voz de minha tia (que, lembro, não era pessoa fácil...) parece sempre querer me dizer algo. A morte quer me dizer algo?
Experimentar essas palavras, que não mais existem, que não mais são proferidas, palavras por assim dizer "mortas", que se foram com sua portadora, é uma tarefa que para mim urge ser cumprida. Não se trata, no entanto, de uma tarefa (um trabalho) em sentido operativo - como que a nos forçar um sentido próprio para aquelas palavras já totalmente impróprias -, mas de um descansar, um demorar na impropriedade que nos ronda nestas palavras mortas. Tampouco é um afligir-se diante da constatação da mortalidade da palavra (e, por óbvio que seja, da vida... aquela sensação pungente e aguda que por vezes nos bate na cara naqueles instantes únicos em que nos sentimos completamente mortais). Mas é o dar-se conta de que só perdendo a palavra própria, só na expropriação total da vida é que podemos sentir a intensidade da palavra presente, já não "nossa palavra", mas palavra pela qual "passamos" e "nos demoramos".
Lamentar a perda é, por vezes, esquecer-se da redenção que se dá pela perda. Redimir-se na perda de nossa propriedade é a abertura de um tempo possível, de uma palavra humana livre do peso da morte...
Nunca efetivamente senti o peso da morte...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Imóvel

Daniel na cova dos leões, Peter Paul Rubens 1613-1615


Imóvel é não diferir no tempo, é rasgar as amarras das coordenadas, sem por isso deixar-se ficar... Fico, sempre só... à espreita do nada. Nada. Complexa palavra, sempre virgem e desavergonhada que, sem pudores, irrompe a crosta do conceito e permanece alí, como que a dizer algo. Não, não diz nada. Nada. Insistem até em dizer que de lá viemos e para lá voltaremos. Nada. Fico sempre terrificado diante (será que diante?) dele. Não sei, acho que não parei diante dele. Estava imóvel, porém, não parado. Imóvel não é apenas falta de movimento. Não é falta, é plenitude. Detesto a plenitude. Mas também acho que tenho receio (medo?) do nada. O que os difere, plenitude e nada? Nada.
A reserva de alguns diante de temas tidos como sérios às vezes me causa flatulência...

A anedota que faz rir nos diz tanto de verdade quanto o mais sério dos tratados teológicos...
Será que Daniel estava imóvel?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Cerração

Moro em um lugar de cerros
onde a neblina é tão espessa
que nuvens são a ante-sala de minha casa

e chorar, sofrer, desesperar,
fazem parte da geografia local

está na minha genealogia
enfrentar os cerros com cachaça