domingo, 29 de julho de 2007

Imagem e semelhança


À imagem e semelhança!

Tal é a fórmula mágica que sobeja escondida
em toda moderna fala ocidental
Quiçá não tivera sido pronunciada!
A revelação que nos traz
é aquela de destempero da vida humana
Nada mais impalatável do que si mesmo
Ora, resolvo isso tragando deus
À imagem e semelhança!
Nessa simples tática tornamo-nos solventes
Deglutindo todo aspecto humano
Restando ilesa a figura no espelho

À imagem e semelhança!

sábado, 28 de julho de 2007

Ode marítima


Almirante tresloucado distante do mar

Milhas e milhas no seco do deserto naufragou

Acres odores do oceano a espreitá-lo na saudade

Marítimos horizontes de lembranças vagas


Pudesse lançar-se às lufadas de vento tépido

Sonâmbulo Odisseu de volta à casa desmesurada

Ao mar extenso mar voltaria

Dançaria com as correntes e, feliz, perder-se-ia.


sexta-feira, 27 de julho de 2007

Idéia da morte


O anjo da morte, que em certas lendas chama-se Samael e com quem diz-se que também Moisés deveria lutar, é a linguagem. Ela nos anuncia a morte - que outra coisa faz a linguagem? Mas exatamente esse anúncio faz com que morrer seja tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, de quando dura a sua história, a humanidade está em luta com o anjo, para arrancar-lhe o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris pode-se retirar apenas aquele anúncio que, de resto, ele nos tinha, de todo modo, vindo trazer. Disso o anjo não tem culpa, e somente quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido do anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

(AGAMBEN, Giorgio. Idea della Prosa. Macerata: Quodlibet, 2002. p. 117. Tradução: Vinícius Nicastro Honesko)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

El intruso



Estoy, junto con mis semejantes cada vez más numerosos, en los comienzos de una mutación. En efecto, el hombre comienza a sobrepasar infinitamente al hombre (esto es lo que siempre quiso decir la "muerte de dios", en todos los sentidos posibles). Se convierte en lo que es: el más terrorífico y perturbador técnico, como lo designó Sóflocles hace veinticinco siglos, el que desnaturaliza y rehace la naturaleza, el que recrea la creación, el que la saca de la nada y el que, quizá, vuelva a llevarla a la nada. El que es capaz del origen y del fin.

El intruso no es otro que yo mismo y el hombre mismo. No otro que el mismo que no termina de alterarse, a la vez aguzado y agotado, desnudado y sobreequipado, intruso en el mundo tanto como en sí mismo, inquietante oleada de lo ajeno, conatus de una infinidadd excreciente.


(NANCY, Jean-Luc. El Intruso. Buenos Aires: Amorrortu, 2006. pp. 44-45)

terça-feira, 24 de julho de 2007

CANNIBALE



MANIFESTE CANNIBALE DADA


Vous êtes tous accusés; levez-vous. L'orateur ne peut vous parler que si vous êtes debout.
Debout comme pour la Marseillaise,
debout comme pour l'hymne russe,
debout comme pour le God save the king,
debout comme devant le drapeau.
Enfin debout devant DADA qui représente la vie et qui vous accuse de tout aimer par snobisme. du moment que cela coûte cher.
Vous vous êtes tous rassis ? Tant mieux, comme cela vous allez m'écouter avec plus d'attention.
Que faites vous ici, parqués comme des hiutres sérieuses — car vous êtes sérieux n'est-ce pas ?
Sérieux, sérieux, sérieux jusqu'à la mort.
La mort est une chose sérieuse, hein ?
On meurt en héros, ou en idiot ce qui est même chose. Le seul mot qui ne soit pas éphémère c'est le mot mort. Vous aimez la mort pour les autres.
A mort, à mort, à mort.
Il n'y a que l'argent qui ne meurt pas, il part seulement en voyage.
C'est le Dieu, celui que l'on respecte, le personnage sérieux — argent respect des familles. Honneur, honneur à l'argent : l'homme qui a de l'argent est un homme honorable.
L'honneur s'achête et se vend comme le cul. Le cul, le cul représente la vie comme les pommes frites, et vous tous qui êtes sérieux, vous sentirez plus mauvais que la merde de vache.
DADA lui ne sent rien, il n'est rien, rien, rien.
Il est comme vos espoires : rien.
comme vos paradis : rien
comme vos idoles : rien
comme vos hommes politiques : rien
comme vos héros : rien
comme vos artistes : rien
comme vos religions : rien
Sifflez, criez, cassez-moi la gueule et puis, et puis ? Je vous dirai encore que vous ê tous des poires. Dans trois mois nous vous vendrons, mes amis et moi, nos tableaux pour quelques francs.
Francis PICABIA.
("DADA" nº 7, "DADAphone", Paris, 1920). Extraído de Dadá 1916-1966. Documentos do movimento Dadá Internacional. Montagem: Hermann Vogel. Tradução: Betty Kunz.

Sois todos acusados: Levantai-vos! Só se pode falar-vos quando estais de pé. Ficai de pé como se estivésseis ouvindo a Marselhesa, o hino nacional russo ou God save the King.

De pé, como se a bandeira estivesse à vossa frente. Ou como se estivesseis diante de Dadá, que significa vida e que vos acusa de amardes tudo por esnobismo, contanto que seja muito caro.

Então vós vos sentastes todos novamente? Tanto melhor, pois me escutareis com mais atenção.

Que estais fazendo aqui, apinhados como crustáceos sérios porque vós sois sérios, não é? Sérios, sérios, sérios até a morte. A morte é um assunto sério, não é mesmo?

Morre-se como herói ou como idiota, o que vem a dar na mesma. A única palavra que tem mais do que valor efêmero é a palavra morte. Vós amais a morte que os outros morrem.

Morte! Matai-os, deixai-os morrer! Só o dinheiro não morre, ele apenas sai um pouco a viajar.

Ele é o Deus que se respeita, uma personalidade séria - Dinheiro põe de joelhos famílias inteiras.
Viva o dinheiro! Viva! O homem que tem dinheiro é um homem honrado.

A honra é comprada e vendida como - o Cu. O Cu representa a vida como as batatas fritas e todos vós, com vossa seriedade, cheirais pior que bosta de vaca.

Dadá não cheira a nada, nada, nada.
É como vossas esperanças: nada.
Como o vosso paraíso: nada.
Como os vossos ídolos: nada.
Como os vossos políticos: nada.
Como os vossos heróis: nada.
Como os vossos artistas: nada.
Como as vossas religiões: nada.

Assobiai, gritai, quebrai-me a cara - e então? Sempre vos direi que sois uns imbecis e vos venderei os meus quadros por alguns francos.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ética




A ética se revela somente onde o bem não pode ser outra coisa senão a apreensão do mal. Isto é, o bem não é uma coisa, nem algo que se coloca sobre ou ao lado de qualquer outra coisa má. Ética é aquilo que se revela quando se vê que os conteúdos do autêntico e do próprio são somente o inautêntico e o impróprio. Enquanto dentre os homens inautênticos o bem tiver um lugar separado, a apropriação do impróprio é simplesmente impossível. Insistindo-se nesta separação, a conquista do bem sempre implica um crescimento do mal rejeitado.

A ética não consiste em distinguir o mal do bem para poder distanciá-los, como o faz a moral. Uma ética que consegue atravessar o inferno criado pelos homens - uma ética pós-Auschwitz - não pode se fundar sobre fatos morais, mas sim sobre a práxis humana, isto é, uma práxis sem um fim - a potência do homem.

O homem tem necessidade do possível para viver, caso contrário não seria possível nenhuma ética, nenhuma política, nenhuma atividade livre.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Quinze teses sobre a arte contemporânea



1. A arte não é o descenso sublime do infinito na abjeção finita do corpo e da sexualidade. É a produção de uma série subjetiva infinita com os meios finitos de uma subtração material.


2. A arte não pode ser meramente a expressão de uma particularidade, seja étnica ou pessoal. A arte é a produção impessoal de uma verdade que se dirige a todos e a cada um.


3. A arte é o processo de uma verdade, e esta verdade é sempre a verdade do sensível; do sensível enquanto sensível. Isto significa: a transformação do sensível em um acontecimento da Idéia.


4. Há necessariamente uma pluralidade de artes e, seja quais forem suas intersecções imagináveis, não há maneira de imaginar a totalização de tal pluralidade.


5. Toda arte se desenvolve a partir de uma forma impura, e a progressiva purificação desta impureza compõe a história, seja da verdade artística, seja de sua extenuação.


6. Os sujeitos de uma verdade artística são as obras que a compõem.


7. Esta composição caracteriza-se numa configuração infinita que, no contexto artístico contemporâneo, constitui uma totalidade genérica.


8. O real da arte é a impureza ideal como processo imanente de sua purificação. Dito de outro modo: a matéria prima de uma arte é a contingência do evento de uma forma. A arte é a secundária formalização do acontecimento de uma forma como informe.


9. A única máxima da arte contemporânea é não ser imperial. Isso também significa que não tem de ser democrática, se por democrática se entenda: conforme à idéia imperial de liberdade política.


10. A arte não imperial é necessariamente arte abstrata, neste sentido: abstrai-se de toda particularidade e formaliza o gesto da abstração.


11. A abstração da arte não imperial não se refere a algum público em particular. A arte não imperial liga-se a uma espécie de aristocratismo proletário: faz aquilo que diz, sem distinguir entre pessoas.


12. A arte não imperial deve ser tão rigorosa quanto uma demonstração, tão surpreendente como uma emboscada na noite, tão elevada como uma estrela.


13. A arte só pode realizar-se hoje a partir daquilo que - para o Império - não existe. A arte constrói abstratamente a visibilidade desta inexistência. Isto é o que norteia o princípio formal de cada arte: a capacidade de tornar visível para todos aquilo que para o Império (e portanto, para todos, porém de um outro ponto de vista) não existe.


14. Convencido de controlar o inteiro domínio do visível e do audível através das leis comerciais da circulação e da comunicação democrática, o Império já não censura nada. Simplesmente abandonar-se a esta autorização de gozar pode ser a ruína de toda arte, como de todo pensamento. Devemos nos tornar impiedosos censores de nós mesmos.


15. É melhor não fazer nada que contribuir formalmente para a visibilidade daquilo que, para o Império, já existe.

Alain Badiou


(trad. Jnf).