quarta-feira, 4 de maio de 2011

Mas será o Benedito?! Não, é o Jerônimo...


O último dia 1° de maio foi palco de uma série de eventos interessantes. A começar pelos acontecimentos na cidade Eterna. No feriado laico - talvez um dos últimos na Itália -, tradicionalmente marcado por manifestações e protestos de trabalhadores, Roma acabou sendo inundada por uma onda de peregrinos e fiéis católicos para um esperado evento: a beatificação de João Paulo II. A por mim suposta artimanha compactuada pelo governo Berlusconi e a alta cúpula da Igreja Católica foi pautada justamente pelo ditado que aqui no interior é muito comum: "matar a cobra no ninho". De fato, com o espetáculo da beatificação, os trabalhadores de Roma calaram-se antes mesmo do início de qualquer movimentação. Não se ouviu nada a respeito de protestos contra a situação catastrófica do trabalho na Itália, contra a ridícula reforma Gelmini, em suma, ouvia-se somente um silêncio que só era rompido pelas aclamações de milhões de fiéis cordeiros que acompanharam o showbiz na praça São Pedro.
A beatificação de João Paulo II vem rápida. De fato, a popularidade do ex-papa era tamanha - óbvio que a partir de sua eleição em 78 João Paulo II soube muito bem usar o mundo das imagens em expansão a seu favor - que a velocidade da beatificação não espanta. Seis anos depois de deixar o pontificado ele torna-se beato, bendito para os milhões de católicos espalhados pelo mundo. Mas lembro-me de algumas curiosidades desses últimos anos sobre as quais é interessante divagar. Quando o polonês Karol Wojtyla - único papa não italiano desde o holandês Adriano VI (que foi pontífice em 1522-1523) - morre, em abril de 2005, a mídia já sabia que a sua popularidade estelar iria ser um fardo para seu sucessor, ainda mais porque todas as discussões pré-conclave indicavam que o próximo papa seria Joseph Ratzinger (um alemão ultra-conservador e pouco simpático; ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício; de uma ortodoxia somente mais declarada do que a de João Paulo - que soube muito bem camuflar suas posições sob holofotes da mídia -; e que, em 1985, impôs voto de silêncio a Leonardo Boff por aqui). Quando do habemus papam, acabamos vendo o óbvio: Ratzinger tinha sido eleito o novo papa.
Depois de tantos alaridos, no momento da benção Urbi et Orbi, os jornalistas brasileiros, durante a trasmissão ao vivo da eleição, começaram a titubear diante do nome escolhido por Ratzinger: Benedictus XVI. E a discussão era: Benedito XVI ou Bento XVI? O nome do novo papa mudava conforme o canal escolhido para assistir ao ato. Foi algo curioso e engraçado. Claro que brincadeiras com a famosa expressão brasileira "Mas será o Benedito!?" não faltaram à época. Também é claro que logo a tradução oficial para o português acabou sendo Bento XVI. Evocar São Bento, suas "Regula Benedicti", seu preceito "Ora et labora", é muito mais interessante para a instituição igreja do que remeter ao negro São Benedito, capuchinho, descendente de escravos, um mero cozinheiro que viveu e morreu enclausurado na Palermo do século XVI. Aliás, é bom lembrar que nessa mesma Sicília do século XVI - ilha que então se encontrava sob domínio dos reis católicos espanhóis Fernando e Isabel - chegam os emissários do Santo Ofício - os antecessores de Bento XVI - para colocarem a inquisição na velocidade com qual havia cruzado toda a Andaluzia.
A "santa inquisição", que já há tempos assolava as terras europeias, tomou, como se sabe, dimensões outras na península Ibérica nos séculos XV e XVI e, com a dominação da Sicília, também nas terras de São Benedito. A finalidade última de perseguir, apreender e tentar a condenação dos heréticos no seio da Igreja me faz irremediavelmente lembrar do outro evento desse 1° de maio: a perseguição e morte de Osama bin Laden. Claro que a conexão entre a "Guerra ao Terror", proveniente do governo Bush, e a "Santa Inquisição" já foi levantada várias vezes. Todo o debate sobre a questão do terror, da separação entre os "maus" e os "bons", da contraposição "Ocidente"/"Oriente" pode e já é colocada em vários planos: seja nas ciências sociais, na filosofia, nas relações internacionais, a discussão está já há um bom tempo em cena. No entanto, é uma questão obscena que me faz pensar agora, qual seja, o nome da operação militar norte-americana que chegou a Abbottabad e matou a cobra no ninho: Jerônimo.
Qual a razão para a escolha do nome? Quem será que nomeou a operação? Enfim, não tive como me furtar de várias analogias, as quais por vezes eram cômicas. A primeira delas, pouco interessante, era imaginar que o tal nome, "Geronimo", pudesse ser o de alguma sigla secreta dos corredores do Pentágono ou da CIA. A segunda, também de pouco agrado, seria com base na ideia do líder apache Gerônimo (e, de fato, esta seria plausível... ainda que, insistir no massacre dos indígenas não me parecesse parte do "politicamente correto" do governo norte-americano). Uma outra me veio juntamente com a imagem da barba do terrorista. Meio como o Flávio de Carvalho no seu Ossos do Mundo, pensei que algum comandante da SEAL poderia ter visto na barba do Osama algo similar à barba de alguma representação de São Jerônimo que o tal comandante, numa viagem de férias, teria por acaso visto em algum museu. Ou mesmo, poderia ele ter ido à National Gallery of Art de Washington e visto o São Jerônimo lendo, que Giovanni Bellini pintou em 1505. Enfim, inventei para mim mesmo uma série de histórias sobre a operação.
Pensando nessas referências, acabei me lembrando de um outro São Jerônimo lendo, do mesmo Bellini. Enquanto este, de 1480 e exposto na Galleria degli Uffizi de Florença, mostra o santo sentado à direita do quadro, como que de costas para o Oriente e de frente para o Ocidente, o de 1505 e exposto na capital norte-americana, mostra o santo sentado à esquerda do quadro, como que de costas para o Ocidente e de frente para o Oriente. Curioso como essas associações livres me fazem imaginar as mais variadas conexões. Aliás, não consegui deixar de pensar que o pai da "vulgata", tradução que fora publicada pouco depois da oficialização do cristianismo pelo Império Romano, em algumas representações que dele são feitas, realmente muito se assemelha a Osama bin Laden.
O negro e mouro São Benedito - que, talvez, nunca tenha visto as imagens de Bellini - me lembrou agora do negro e "mouro" Barack Obama - que, com certeza, tem conhecimento das belas imagens do veneziano. No mesmo dia em que Roma via-se quieta diante da efusão de fé de católicos ansiosos por dizer "bendito João Paulo II!", o presidente norte-americano, longe da península itálica, mas perto do Bellini de 1505, vai à TV fazer o anúncio da morte de bin Laden. Cumprindo uma promessa de campanha, Obama sai do Salão Oval da Casa Branca diretamente para os microfones. O negro e "mouro" Obama fala ao mundo que a operação Jerônimo tinha tido êxito: sim, matamos Bin Laden! (o "yes, we can!" estava reverberando...)
Mas, toda a movimentação frenética do 1° de maio fazia com que eu me imaginasse de novo na terra dos reis católicos Fernando e Isabel, mais especificamente no Prado, diante da obra de um outro Jerônimo, este, o flamengo Bosch. Todos os espetáculos - a beatificação de João Paulo II, o anúncio da morte de bin Laden, o recente casamento do príncipe inglês -, que bombardearam minhas retinas nos últimos dias, só me faziam pensar no Jardim das delícias terrestres de Hieronimus Bosch. A força das representações luxuriantes do painel central do tríptico são hoje como que refletidas nas imagens do fim de semana.
Revendo, no entanto, a imagem de Obama deixando o Salão Oval da Casa Branca para dar a notícia, lembrei de um outro Palácio de uma república, a partir do qual várias decisões do "Ocidente" foram tomadas em relação ao "Oriente". Trata-se do Palazzo Ducale di Venezia, curiosamente república na qual morava o autor daquele quadro que talvez o chefe da operação Jerônimo tenha visto na National Gallery de Washington. É muito provável que o chefe da SEAL não tenha entrado no Palazzo Ducale, já que se o tivesse feito talvez a operação de caça a bin Laden pudesse ter tido um outro nome. Explico: ali há uma outra representação de São Jerônimo feita pelo Jerônimo flamengo, o Bosch. Assim como o quadro de Bellini, o tríptico de Bosch que adorna uma das salas do palácio veneziano e em cujo painel central encontramos a imagem de São Jerônimo em oração, também foi pintado em 1505. Porém, há uma diferença crucial entre o São Jerônimo de Bellini e o de Bosch: neste o santo é representado sem a barba e, portanto, em nada se parece com o chefe da Al Quaeda. Da sede do governo veneziano, a porta de entrada do Oriente no Ocidente, não saiam imagens para a operação de entrada do Ocidente no Oriente. Porém, como que a mostrar a "ideia de globalização", é da mesma Veneza que saiu a imagem do Jerônimo presente em Washington e que talvez tenha servido de parâmetro para o chefe da SEAL, ou mesmo para o negro e "mouro" Obama.
Mas agora volto a olhar para a Casa Branca, a sede do "império" que nasceu com o capitalismo do século XX, e não escapo da imagem de uma outra sede de império: Roma. E aí o 1° de maio vem à tona novamente. Ali ninguém então grita por melhorias no trabalho, por condições de pesquisa nas universidades italianas; o coro é uníssono: "beato Giovanni Paolo!". Todos bem-dizem o ex-papa, todos clamam pelas intercessões desse novo benedictus. "Bento" agora não era só para a pouco emblemática figura do ex-prefeito do "Santo Ofício" e atual pontífice, mas para o pop-star João Paulo II. Assim, para o 1° de maio de 2011 da capital do Império passado, não haveria mesmo como gritar em protesto pois quem vai a um show para protestar?
Mas e o 1° de maio na capital do Império atual? Ali não se falava abertamente de Bento, mas de Jerônimo. O presidente, negro e "mouro" como o Benedito (Bento) siciliano, falava do alto de seu palco para o mundo e também fazia do dia do trabalho um dia para se bendizer, já que em nome da "Democracia" (e lembremos que "em nome de" é uma certa forma de "bendizer" o nome. Benedito, Benedito...) é que continuava a guerra ao terror.
Talvez o terror que assola este grande palco que é o mundo contemporâneo possa ser visto em meio a todas as peças que nele são encenadas como o único elemento que fica, que permanece quase que imutável diante do emaranhado de nomes e "operações". O terror que não cala, que, tal como o outro tríptico impressionante de Bosch - As tentações de Santo Antão -, choca o olhar e dá uma sensação de repugnância. Hoje podemos ver que nos interstícios entre as perseguições do Santo Ofício dos séculos XV ao XVII e as operações de desmantelamento de grupos terroristas, entre as lutas impetradas por melhores condições de vida e as aclamações de ídolos do mundo do showbiz, não há nada além de um vazio terrificante, o qual apenas mostra que a humanidade (hoje pouco importa se do dito "Ocidente" ou do dito "Oriente") apenas assiste impassível sua derrocada sem entender nem mesmo o porquê dos nomes, sem se interessar por sua "história" e por seus rumos. Assistimos aos shows dos "Jerônimos" ou dos "Beneditos", dos papas e dos presidentes, mas nos foi interdita a subida no palco do mundo. A intervenção na peça encenada, o agir no mundo nos são mostrados como verdadeiros "impossíveis". Hoje parece que tudo não passa de uma questão de intercessão, enquanto que uma intersecção no mundo é como que um sonho em vão.

Imagem: Hieronimus Bosch. Detalhe do painel central do tríptico dos Eremitas de 1505. Palazzo Ducale, Venezia.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma árvore


Ali havia uma árvore. Ela dava sombra quando fazia muito calor, ela dava o barulho das folhas com o vento no inverno. Ao lado haviam algumas cadeiras de varanda que sustentavam várias risadas, mas que também aguentavam horas de choro. Da grama com flores não resta mais nada; não que tenham se acabado, mas é que ali agora nascem coisas não apenas para a visão, mas para o paladar: cebolinha, salsinha, couve e várias outras coisinhas de horta. Da árvore, porém, realmente não resta mais nada, nem sombras nem folhas. Aliás, escrevo agora na folha n° 379 de um velho caderno todo rabiscado por crianças ali mesmo, debaixo das sombras de outrora. O papel, de alta qualidade, é de outros tempos: folhas grossas, sem linhas e com os desenhos de mãos que hoje não sabem mais que foram elas que por estas folhas passaram.
A luz do dia já está um pouco branca, pálida, talvez pelo outono que já dá suas mostras. Aqui, dentro do jardim da árvore ausente, fotos antigas e algumas mais novas decoram as paredes - às vezes a contragosto de todos -, vozes antigas e já inexistentes parecem ecoar - vozes vivas e também mortas, com histórias novas ou velhas, reverberam por todos os cômodos.
No espaço vazio onde antes as cadeiras de varanda aparavam nossos corpos agora está um automóvel a reinar (como símbolo do movimento, do não à parada, do fluxo entre a vida e a morte, da intermitência dos tempos). Agora reparo que o grande caderno no qual escrevo tem pequenos furos... podem ser de cupins que em outros tempos, em outra casa - esta que fora feita por tábuas de perobas derrubadas por braços fortes e com muito custo - passaram por ele.
Aqui, neste espaço, trouxe meus amores; aqui cantei e dancei ao som doce e às vezes amargo das modas antigas salteadas por aqueles dedos duros que tão vivamente tocam o acordeão; aqui ouvi histórias bobas, tolas e até banais, mas também outras tantas fantásticas, dignas de deixar um García Márquez, no mínimo, intrigado; aqui vi bebês recém-nascidos gritando por leite e vi também um corpo moribundo que jazia quieto e sem derramar nenhuma lágrima esperar pela morte (a qual lhe foi interdita ali, no terreno da árvore ausente).
E volto a pensar na árvore. Era uma copa frondosa, cheia de folhas, que fazia uma sombra imensa no quintal. Agora a sua inexistência começava a lançar sombras outras, novas, não mais no espaço vazio onde antes haviam cadeiras e hoje há apenas um carro a me lembrar do vazio da vida, mas na minha memória. Agora tudo começa a ficar sombreado: será que as histórias que ouvi tinham começo e fim? Será que vinha aqui com a frequência que agora imagino ter vindo? Será que a copa da árvore era tão frondosa como agora desenho na minha lembrança? São todas questões que se levantam nesta tarde fria, talvez como aquelas outras em que - será? - por aqui passava para ser recebido por um sorriso ou outro. Viro a página, n° 380, e relembro dos cadernos de receita que aqui lia e, tal como Champollion, ajudava a decifrar. Aqui nascera pães, bolachas, bolos... e, assim como o homem, tão logo nasciam, morriam.
Penso em certos verbos, penso em certas ações, penso em certos modelos... talvez influenciado pelos livros de receitas. Mas como dizer "eu nasço"? Como dizer "eu morro"? Ninguém diz eu nasço, ninguém diz eu morro. Aliás, ninguém pode dizer essas ações e "vivê-las". Como dizer nascendo? Como viver a morte? Esses verbos deveriam ser defectivos. Eu não nasço, eu não morro. Sou eterno? Estou fora do tempo? Acho que não, nada disso: nem eterno, nem mortal... mas finito, com a morte como companheira. Também parece que somos só passageiros de uma viagem que chamamos vida... e agora me sinto furtivo entre estas coisas que nos enganam, as palavras.
É com palavras que tentamos reconstruir uma história; é com palavras que queremos lembrar, que queremos refazer imagens... mas elas nos enganam e a árvore foi a árvore, e a sombra foi a sombra, e aquele tempo foi aquele tempo.
Não há mais sombras, não há mais árvore, não há...

Imagem: Martine Franck. France. Languedoc-Rousillon region. 1989.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ocupar o terreno




Tiphaine Samoyault

No último agosto, uma circular do Ministério do Interior indicava a expulsão brutal de numerosos Roms (ciganos) do território francês. Em 11 de setembro de 2010 uma jornada de mobilização, “Os Roms e quem mais?”, reuniu em Montreuil, na Casa da Árvore (Palavra errante), um grande número de personalidades sob a iniciativa de Cécile Canut, Cécile Kovacshazy e Thomas Lacoste. Trata-se de esclarecer e responder a esse novo intolerável. Publicamos aqui a intervenção de Tiphaine Samoyault. Outras contribuições estão disponíveis no site Médiapart.[1]

O que pode a palavra numa situação de urgência extrema, contra uma política que exige que as de resistência sejam efetivas se quiserem ser eficazes? Em que medida pode ela, sem tomar o lugar da ação concreta, ocupar o terreno? A carta de Flaubert a Sand de 12 de junho de 1867, que muito circulou nos últimos tempos, dá uma indicação. Diante de um acampamento de “Boêmios”, ele escreve, “fui muito mal visto pela multidão por ter-lhes dado alguma terra”. Ocupar o terreno, aqui, é dar um solo. A língua é ao mesmo tempo o lugar e o deslocamento para fora do lugar. De moedas de pouco valor ao território que lhes damos ou à terra de acolhida, há apenas a passagem do plural a um singular. Ter necessidade de alguns tostões quer dizer também ausência de solo.

Flaubert continua a tentar compreender a natureza do ódio que se exerce contra os seres sem terra. “Esse ódio tem algo de muito profundo e complexo. Nós o encontramos em todos os povos de ordem. É o ódio que temos contra o beduíno, o herético, o filósofo, o solitário, o poeta. E há medo nesse ódio. Para mim, que sou sempre a favor das minorias, tal ódio me exaspera. No dia em que eu não mais me indignar cairei por terra subitamente, como uma boneca de quem retiramos sua haste de sustentação.”[2] O boêmio, o beduíno, o herege, o filósofo, o solitário, o poeta: a lista não nos deixa compreender hoje com a mesma evidência a equivalência entre as categorias em 1867. Antes de tudo, ela não liga tão claramente a Boêmia, ao mesmo tempo fantástica e originaria (igualmente objeto de sonho para o destinatário da carta, no Consuelo), e a boemia artística e literária. O poeta, o escritor, o intelectual cujo pertencimento ao espetáculo está consumado, senão assumido, se eles às vezes ainda permanecem como seres desclassificados,[3] não são mais figuras banidas. Mas dois imperativos do engajamento são evidenciados por Flaubert nesse texto: a tomada de partido pela minoria e a possibilidade de indignar-se. Esses dois imperativos, mesmo se às vezes são zombados ou questionados como sendo posturas vãs, permanecem na base da moral pratica do engajamento.

Um terceiro imperativo, implícito, consiste em se manter no lugar mais preciso possível da língua. Ocupar o terreno dando um sal da terra da língua. A crítica dos discursos de poder faz-se assim mais aguda e a exclusão aparece ainda mais violenta. O termo indesejável, por exemplo, merece ser desconstruído para nos deixar compreender sua potência de negação. O adjetivo, como o nome que lhe é derivado (e que aparece somente no século XX), traz uma dupla privação. Em um desejo, de fato, o prefixo de- assinala a ausência. Desejar é etimologicamente deixar de contemplar uma estrela. Constatar a ausência de algo ou de alguém. É desejável aquilo cuja ausência podemos constatar. O indesejável, o qual agrega o segundo prefixo da privação (in-) ao primeiro é, portanto, aquilo cuja ausência não se pode ou não se quer constatar. A recusa não é, portanto, da presença, mas da ausência. Eis o que a formação da palavra nos diz: não recusamos a presença do indesejável, recusamos sua ausência. O indesejável deve esperar esse ponto radical da ausência no qual a falta não é e não se faz mais sentir. O indesejável é aquilo que queremos que nunca nos falte, que não seja nosso arrependimento e nosso ódio. Ele se torna, a partir de então, a figura absoluta da negação, essa aposta na falta que não afeta somente a ordem externa, mas a esfera mais interior, onde o íntimo toca evidentemente o político. O ódio que devotamos ao inimigo, o banimento que sofre o bode expiatório, mantém o inimigo e o bode expiatório no todo político, inscrevem-nos no espaço da cidade, mesmo se essa inscrição toma a forma da guerra, do exílio ou do refugo. A exclusão implica o fato de que houve a inclusão ou de que ela foi possível. A negação que atinge o indesejável, fechando a porta à possibilidade e até à lembrança da inclusão, remete o ser ao nada. Não tendo mais nenhum lugar, não há mais nome.

Do exame lexicográfico desprende-se logicamente a constatação histórica. Assim o substantivo “indesejável” aparece no século XX. A expressão “estrangeiros indesejáveis” expande-se em 1937, provavelmente com os refugiados espanhóis que se fixaram nos campos do Sudoeste: o livro de Anne Grynberg sobre os campos franceses[4] é importante para tais análises, já que implica um retorno para essa história, o que parece ser o fundamento intelectual de todo engajamento hoje. A primeira parte do livro evoca a gênese dos lugares de internamento (notadamente Rieucros, primeiro campo de concentração francês) e mostra como as coisas obedecem a uma lógica lenta mas que não para. É preciso colocar em relação o que se passa nesse momento com a amplitude do racismo banalizado nos anos 1930, do qual nem sempre temos ideia, racismo constatável notadamente nos escritores, por exemplo em Giraudoux, ainda que ele não seja o único (sobre esse aspecto remeto ao artigo de Pierre Vidal-Naquet no começo de suas Reflexões sobre o genocídio). Isso implica também, além das críticas que têm sido feitas, voltar à realidade histórica do anti-fascismo. Podemos criticar com justiça sua função legitimadora e as formas de oposição pouco esperadas a que ele induz[5] sem, no entanto, envia-las a um mito. Depois de ter fornecido sua quota de lendas, de filmes populares, de narrações heróicas, a resistência como que se encontrou simbolicamente desvalorizada, notadamente nas suas formas armadas. Fala-se muito mais de resistência passiva, reconhece-se que o recuo para a vida privada, isto é, o acomodamento, são comportamentos adaptados aos anos sombrios, ao tumulto que vem quando não se erige o carrasco um duplo de si e a compreensão da humanidade deste se apresenta, apesar de tudo, como o ápice da atitude moral.

Então, em relação à deriva política atual, qual engajamento? A autoridade dada à xenofobia pelo discurso do Estado (o que não é propriamente um racismo de Estado, mas, e isso não é nada, uma base de legitimação do racismo), a propaganda, o desenvolvimento de centros ou de campos de retenção esquadrinham o território degradando o pacto civil, o que parece colocar a resistência num impasse.[6] Não podemos nos contentar em opor a isso um contra-discurso que utilizaria os mesmo canais midiáticos, que se fundaria também sobre símbolos usados ou soberanias mitigadas. As estratégias da inversão desse impasse para frustrar o reflexo da rejeição do outro iniciada pela política atual deve permitir a declinação de diversas formas da presença, deve ser entendida como engajamento contra a ausência implicada pelo discurso explicitamente negacionista, visando o estrangeiro indesejável e a recusa do solo. Além da indignação e da tomada de partido pela minoria, os imperativos do engajamento, para aqueles e aquelas que trabalham não somente com a língua mas nela, implicam a permanência num estado de vigília ativa. A democracia tem necessidade de vigilantes, de seres que passam o tempo levantados durante a noite, que caçam monstros nascidos do sono da razão e que aprenderam a reconhecer que na noite nem todos os gatos são pardos. É preciso rastrear as más evidências que conduzem aos racismos, mostrar precisamente como se exercem as manipulações sobre a linguagem. Uma das derivas mais perigosas da democracia, nas formas que ela toma no Ocidente há mais de meio século, é o relativismo, a ideia de que todos os discursos têm direito civil em nome da liberdade de expressão, isto é, de que eles têm valor. Ora, a expressão sem razão não é livre. E é, ao contrário, “em nome dos princípios democráticos, escreve Maurice Olender, [que] estamos no direito, nos domínios políticos, culturais ou outro, de não dizer sim a todo diálogo, a todo encontro, pois é preciso evitar que a confrontação deixe crer numa equivalência entre escolhas dentre as quais algumas destroem os ideais democráticos[7]”. Caso contrário, permanecemos no pretendido equilíbrio instaurado pelas mídias contemporâneas, o qual fez com que Jean-Luc Godard dissesse justamente que “a objetividade, para a televisão, são os cinco minutos para os judeus e os cinco minutos para Hitler.” As falsas seguranças, as harmonias duvidosas, são signos de uma sociedade fraca; ora, o racismo se aloja precisamente nas fragilidades de uma sociedade, a qual não reconhece mais sua identidade política, social, religiosa ou econômica e que toma frequentemente a forma de uma reflexão ou de uma enquête sobre a origem, reconhecida como mito por todos os saberes seriamente colocados à prova. Por exemplo, a despeito da utilização talvez desastrosa, e para fins abertamente racistas, que foi feita do pensamento dumeziliano do Indo-europeu, sabemos que Dumézil prefere as variantes, as diferenças primordiais ao único. Não somente, como ele especifica numa entrevista publicada no Nouvel Observateur em 1983, ele recusa toda superposição da língua sobre a “raça” e mesmo sobre uma civilização uniforme, mas em tudo ele escolhe o múltiplo, aquilo que é declinado pela história. Desvencilhando-se dessa questão da origem, historicamente sem interesse e politicamente perigosa, e destas, a ela relacionadas, da fonte da cultura e do paraíso perdido, damos um grande passo na percepção de si e do outro como singularidades na diferença mais do que como integridades a serem protegidas. Sobretudo, podemos ter a convicção profunda de que a língua e o pensamento da língua e das linguagens são os lugares em que se põe em questão a compreensão que os homens têm de si mesmos e de seus semelhantes, convicção particularmente forte na virada de um século em que a língua foi o paradigma filosófico maior, enquanto este que começa terá a tradução como questão política.

Manter-se no lugar da língua implica também traduzir. O vetor de saída do território contido na definição mesma do território é, para a língua, a tradução. Porque o plural que está no coração da tradução, que todo o mundo pode cumprir (plural de línguas, dos textos, das memórias, das transmissões), não é somente essa contribuição benéfica de um pluralismo extático que veria no ato de traduzir o exercício de uma multiplicidade honrada, livre, defensora da liberdade de troca e respeitada. O plural que está no coração do traduzir indica que as coisas jamais têm apenas uma só forma, que o um pode desaparecer, que o original pode não mais ser, que o universal não existe e, no fim das contas, que o irredutível assim não o é. Mas esse plural é também inquietante: ele lembra que o traduzir, na sua proximidade com o “não traduzir”, implica a fronteira e tudo o que vem junto: os muros, a violência a colonização, a apropriação, a deformação, a negação do outro, a tomada da autoridade. O traduzir existe nessa tensão entre um mais e um menos a qual é também uma força, porque ele ainda chama à vigilância constante, não a uma crença, mas a um trabalho.

Mas o modo mais profundo, talvez também o mais imediato, de frustrar a ausência pela presença é testemunhar. No coração do testemunho há esta aporia da distância entre um vivido ou um visto e um dito, a qual Primo Levi (e, em seguida, Giorgio Agamben) bem mostrou a radicalidade que ela tinha tomado nos campos de extermínio. Mas há um caráter produtivo da confrontação da palavra com sua falta ou com sua impossibilidade. Encaminhado-se para o sem-língua[8] ou à falta de língua, lembramos ou impomos o fato de que há sempre um resto na ausência, um ódio na negação. E que o indesejável, aquele que queremos suprimir até a ausência, será sempre, apesar de si, o sujeito de um desejo.

Texto originalmente publicado na revista Vacarme n° 53, do outono de 2010: http://www.vacarme.org/article1959.html#nb1

Tradução: Vinícius Nicastro Honesko

Imagem: Ferdinando Scianna. Roma, Campo di zingari. 1999.

[1] http://blogs.mediapart.fr/edition/roms-et-qui-dautre

[2] Gustave Flaubert, carta a George Sand, 12 de junho de 1867. In.: Correspondance, Gallimard, Pléiade , tome 5, pp. 653-654.

[3] Rolant Barthes escreve : « É porque o escrito é um Desclassificado que el coloca, com energia, talvez com histeria, o problema do Engajamento: “o mundo “saiu” de mim, eu quero a todo custo nele reingressar” = é o engajamento.», La Préparation du roman, Seuil/Imec, 2003, p. 365.

[4] Anne Grynberg, Les Camps de la honte. Les internés juifs des camps français (1939-1944), La Découverte, 1991. Ela mostra como, em 1940, a França era uma verdadeira terra de campos. A zona sul não tinha menos que noventa e três lugares de internamento onde foram deitdos em condições assustadoras dezenas de milhares de estrangeiros, judeus em sua maioria.

[5] Ver o historiador da Alemanha Jürgen Danyel que diz que criticamos justamente a ritualização do anti-fascismo, os clichês do inimigo que aí eram associados e as tendências de quitação, “sua concepção seletiva da história assim como a paralisia de uma oposição intelectual que ela induziu”. Die geteilte Vergangenheit. Zum Umgang mit Nationalsozialismus und Widerstand in beiden deutschen Staaten, Berlin, Akademie Verlag, 1995, p. 12. Ver também o dossiê O Anti-fascimo revisitado da revista do Centro de estudos e de documentação para a memória de Auschwitz, Kimé, n° 104, juillet-septembre 2009.

[6] Sobre essa matéria ver o artigo de Pierre Cornu, « Le discours de Grenoble, point de non-retour du sarkozysme », Médiapart, 25 août 2010.

[7] Maurice Olender, La Chasse aux évidences. Sur quelques formes de racisme entre mythe et histoire, Galaade Éditions, 2008, p. 202.

[8] « A língua do testemunho é uma língua que não mais significa, mas que, pelo seu não-significar, avança no sem-língua até obter uma outra insignificância, aquela do testemunho integral, daquele que, por definição, não pode testemunhar » Giorgio Agamben, Ce qui reste d’Auschwitz, Rivages, 1999.


domingo, 1 de maio de 2011

Glosa gelatinosa


Algo que me espanta - ao menos na aviação - é o fato de sempre se flutuar sobre algo, este oceano imperceptível, às vezes turbulento, que é o ar... (mesmo o ar, com dobras e planos e saliências).

Não há escape na imanência.

Até mesmo o cosmonauta flutua.

Não há flutuação no vazio.

Os significantes flutuantes sempre pairam em um terreno ambíguo. Este, por mais que não tenha a rigidez de um solo (muito menos de uma Ur-land!), possui uma consistência. É uma consistência: quase imaterial, o magma pressuposto da linguagem e dos extratos e sedimentos históricos que a acompanham. Murmúrios ditos e não ditos, multiplicidades babélicas, esquecimento, vasto vasto esquecimento!

A consistência do esquecimento.

Viver é consistir.

O silêncio dos espaços abismais - e a existência quase etérea destes - me apavora.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Use o assento para flutuar



Curioso como em meio a um voo podemos nos ater a certos detalhes da cabine que podem nos deixar um tanto quanto perplexos. Observando os avisos de segurança fixados nas poltronas (inúteis e eufêmicos: nos desenhos demonstrativos, os "personagens" aparecem com rostos apáticos, até, poderíamos dizer, tranquilos, quando, na verdade, um acidente seria uma situação de pânico... um insulto à inteligência), notei um em particular que me deixou atônito: "Use o assento para flutuar".
Obviamente que se trata de uma mensagem para o caso de o avião cair num rio ou no mar. Mas o óbvio nem sempre é o primeiro reflexo de quem lê tal mensagem (ao menos pra mim foi assim). Fiquei pensando: ora, já não estamos usando as poltronas para flutuar? Mas flutuar também não implica a liberdade dos objetos, isto é, criar um espaço entre o corpo que flutua e o solo? Será que há alguma relação filológica entre "flutuar" e o "flatus" (vento) latino? Lembrei-me vagamente das discussões sobre a "flatus vocis" na teologia e filosofia medievais, das disputas sobre os universais e as essências... enfim, foram várias as minhas viagens nesta viagem; várias minhas flutuações nesta flutuação, várias as ambiguidades no meio destas grandes ambiguidades que são as palavras.
Curioso (e aqui outra palavra que nos leva de um desejo a outro, de um desejo de saber à dúvida, ou seria o contrário? Talvez um tostines. Aliás, a tal companhia aérea não oferecia mais que um tostines para comer) é que no instante em que pensava nessa história da flutuação lia um texto de Furio Jesi no qual o mitólogo falava de sua fundamental ideia "máquina mitológica" em termos gastronômicos. A comparação do seu conceito com a preparação de um prato de camarões (receita e modo de preparo que Jesi extrai do famoso "Guide de Culinaire" de Escoffier, publicado em 1921) me remeteu a um recente video que vi, no qual David Lynch compara a criação cinematográfica com a preparação de um prato de quinoa com brócolis.
Os paralelos, comparações e contrastes entre a produção (criação) de um prato e uma elaboração (criação) intelectual me pareceram bastante justos e precisos. Toda a questão de sobre como cortar, trabalhar, cozinhar os camarões tinha realmente a ver com as maneiras de observar, analisar e descrever "materiais mitológicos"; assim como tinham muito em comum a arte de cozinhar a quinoa com brócolis e o fazer cinema: cozinhar os grãos, marcar o tempo, cortar o brócolis, misturar os ingredientes e montar o prato.
Acho que realmente estava usando a poltrona para flutuar, mas agora até mesmo a ambiguidade se tornava ambígua. Ao final do texto, Jesi lembra que ambíguo se diz "ambigu" em francês. Porém, "Ambigu" também designa uma refeição fria em que se servem ao mesmo tempo os pratos salgados com a sobremesa. Ora, o doce com o salgado, os tempos do comer se misturando, as diversas composições possíveis, tudo isso - além de me suscitar a ideia da criação conceitual, ensaística ou cinematográfica - lembrou-me muito uma situação de fim de festa, quando os convivas, após se deleitarem com Baco, perdem a cronologia (e uns mais pudicos dizem: perdem a compostura) e se entregam à ambiguidade dos sabores.
Agora, aqui neste saguão de aeroporto (um não-lugar) só posso perceber que o padre que passa à minha frente, a mãe com seu bebê que chora, estes homens de negócio engravatados e falando sem cessar nos seus aparatos tecnológicos de última geração ("da" última geração...) como que a resolver todos os problemas do mundo, estes anúncios publicitários infindáveis, estes monitores que não param de "informar", são imagens absurdas que parecem não ter nem doce, nem salgado, mas um gosto insosso e que, para mim, mostram-se assustadoras, como fantasmas vagando não em meio a uma festa, muito menos saboreando o doce-salgado do fim de uma festa, mas num culto seríssimo de um templo que capturou toda a ambiguidade das palavras. Tudo parece muito óbvio, tudo está no seu lugar (para tudo se diz: amém!), tudo tem uma função, aliás, é sempre preciso lembrar: "use o assento para flutuar".

terça-feira, 26 de abril de 2011

Notas sobre o local


Tudo o que para nós hoje compõe uma paisagem aceitável é o fruto de violências sanguinárias e de conflitos de uma rara brutalidade.
Pode-se assim resumir o que o governo demokrático quer nos fazer esquecer. Esquecer que a periferia devorou o campo, que a fábrica devorou a periferia, que a metrópole tentacular, ensurdecedora e sem descanso devorou tudo.
Constatar isso não significa lamentar. Constatar significa: apreender as possibilidades. No passado, no presente.
O território quadriculado no qual corre nosso quotidiano, entre o supermercado e os códigos digitais das portas de entrada, entre as luzes da sinalização e as passagens de pedestres, constitui-nos. Nós somos, desse modo, habitados pelo espaço no qual vivemos. E mais do que tudo ou quase tudo, agora ele funciona como mensagem subliminar. Nós não fazemos certas coisas em certos lugares porque isso não se faz.
O mobiliário urbano, por exemplo, não tem quase nenhuma utilidade - quantas vezes não nos surpreendemos pensando sobre quem poderia ocupar os bancos de uma nova praça sem sucumbir ao mais violento desespero? -; ele tem um sentido e uma função, e esse sentido e essa função são dissuasivas: sua missão é nos lembrar de que "você não está em sua casa a não ser em sua casa, ou onde você paga, ou onde você é vigiado".

O mundo se globaliza, mas ele se estreita,
A paisagem física que nós atravessamos todos os dias em alta velocidade (de carro, nos transportes públicos, a pé, com pressa) tem efetivamente um caráter irreal porque ninguém aí vive nada nem pode nada aí viver. É uma espécie de micro-deserto no qual estamos como exilados, entre uma propriedade privada e outra, entre uma obrigação e outra.
Muito mais acolhedora nos parece a paisagem virtual. A tela de cristal líquido do computador, a navegação na Internet, os universos televisivos ou o playstation nos são infinitamente mais familiares do que as ruas do nosso bairro, povoadas durante a noite pela luz lunar da iluminação pública e pelas portas metálicas das lojas fechadas.
O que se opõe ao local não é o global, mas o virtual.

O global opõe-se tão pouco ao local pois é ele quem o produz. O global designa somente certa distribuição de diferenças a partir de uma norma que as homogeniza. O folclore é o efeito do cosmopolitismo. Se nós não soubéssemos que o local é local, ele seria para nós uma pequena globalidade. O local aparece na medida em que o global se torna possível e necessário. Ir trabalhar, fazer suas compras, viajar para longe de casa, é isso que faz do local o local, este que, de outro modo, seria modestamente o lugar onde vivemos.
Desse modo, falando claramente, nós não vivemos em nenhuma parte.
Nossa existência é somente organizada segundo os horários e topologias dos hábitos personalizados.

Mas não é tudo, quer-SE-ia nos fazer viver hoje no virtual, definitivamente deportados. Aí se recomporia numa curiosa unidade de não-tempo e de não-lugar a vida que SE nos deseja. O virtual, diz uma publicidade para Internet, é "o lugar onde você pode fazer tudo o que você não pode fazer na realidade". Mas aí onde "tudo é permitido" está o mecanismo de passagem da potência ao ato sob vigia. Em outros termos: o virtual é o endereço em que os possíveis jamais se tornam reais e permanecem indefinidamente no estado de virtualidade. Aqui a prevenção ganhou da intervenção: se tudo é possível no virtual é porque o dispositivo assegura que tudo permanece imutável na nossa vida real.

Logo, diz-SE, nós tele-trabalharemos e tele-consumiremos. Na televida nós seremos mais atingidos pelo doloroso sentimento de aborto dos possíveis que ainda habitam o espaço público, a cada nova perspectiva e tão logo abandonada. O desconforto de estar imerso entre nossos contemporâneos frequentemente desconhecidos, nas ruas ou em qualquer outra parte, será abolido. O local, expulso do global, será projetado no virtual para nos fazer definitivamente crer que há somente o global. Recobrir essa uniformidade com multi-etnia e multi-culturalismo será necessário para fazer engolir a pílula.

Aguardando a televida nós lançamos a hipótese de que nossos corpos no espaço têm um sentido político e de que a dominação faz manipulações permanentes para oculta-lo.
Criar um slogan na própria casa não é a mesma coisa que cria-lo numa escadaria pública ou na rua. O fazer sozinho não é a mesma coisa que o fazer em muitos, e assim sucessivamente.

O espaço é político e o espaço é vivo, porque o espaço é povoado, povoado pelos nossos corpos que o transformam pelo simples fato de que ele os contém. E é por isso que ele é vigiado e é por isso que ele é fechado.
É uma falsa ideia de espaço aquela que o apresenta como um vazio que seria preenchido por objetos, corpos, coisas. Ao contrário, é essa ideia do espaço que é obtida removendo mentalmente de um espaço concreto todos os objetos, todos os corpos, todas as coisas que o habitam. O poder presente certamente materializou essa ideia nas suas esplanadas, nas suas auto-estradas, nas sua arquitetura. Mas ela é frequentemente ameaçada pelo seu vício de origem. Que algo tenha lugar no espaço que ela controla, que em favor de um evento um pedaço desse espaço torne-se um lugar, faça uma dobra inesperada, eis tudo o que quer conjurar a ordem global. E contra isso ele, o poder, inventou "o local", no sentido de um ajustamento contínuo de todos os seus dispositivos de apreensão, de captura e de gestão.

É por isso que digo que o local é político, pois ele é o lugar do confronto presente.

TIQQUN. Notes sur le local. In.: Tout a failli, vive le communisme! Paris: La Fabrique, 2009. pp. 218-220. Tradução: Vinícius Nicastro Honesko.

domingo, 24 de abril de 2011

Pesach



Um domingo que não passa e mais uma dessas ironias da vida. Justamente no domingo da passagem a vida parece ter fincado estacas fora do tempo. Sem o ciclo das horas, a angústia tripudia o movimento dos ponteiros deixando a impressão de que a vida passa - esta, sim, a única passagem - e de que em certa medida pareço perdido no ritmo da permanência e da desfiguração dos lugares. Perde-se; não sei o quê se perde, não sei como, mas a sensação é de um espaço aberto. Mas talvez, como na velha história em que o mar Vermelho se abre à passagem, seja essa abertura - uma espécie de não estar presente no próprio presente - um caminho. Aliás, é esse o movimento próprio à passagem.
Na primitiva festa judaica, os cordeiros sacrificados, cujo sangue aspergido sobre as portas era sinal para que o anjo exterminador não sacrificasse o primogênito da casa, eram o mote para se evitar uma passagem mortal. A passagem aberta através do mar Vermelho foi também um movimento de fuga da morte. A re-simbolização cristã da passagem com o Agnus Dei messias foi uma tentativa de encontrar um outro corpo além da morte. Na passagem, portanto, a cultura judaico-cristã procurou a saída da finitude do tempo, uma saída para o eterno. E são, todas as saídas, desvios melancólicos do olhar; são formas de lamentos pelo inexorável que é a perda (aquele "não sei o quê" que a todo instante parece nos fazer querer parar a vida).
Mas pensando em outra passagem, aliás, nas passagens de Paris, lembro-me de Walter Benjamin. O que ele via nas passagens parisienses não era uma saída. Para Benjamin, refletir sobre elementos arquitetônicos passados (as passagens, então, eram já resquícios do capitalismo incipiente do século XIX em pleno entre-guerras, quando as vanguardas artísticas francesas pulsavam a ruptura com a tradição a todo instante) não era uma simples evocação da perda do passado. Pelo contrário, meditar sobre o passado foi para ele o ponto fundamental para tentar encontrar o agora em que um novo sentido poderia se construir. Aliás, é só com a perda (não diriam os psicanalistas que o objeto é sempre impossível?), com o vazio, com a passagem aberta é que podemos criar uma vida nova, criar a possibilidade de relação - de repente, de partilhar a vida (e se amizade é isso, talvez seja ela realmente um importante ponto para podermos pensar a política). E é aqui que penso mais uma vez na plenitude e na totalidade eterna: nada daí nos vem. E este jogo em que pareço ter me metido hoje soa como um engodo, uma suposição pascal permeada pelas imagens de plenitude dos últimos dias (supermercados lotados de gente e mercadoria - o chocolate é o novo sangue que se asperge sobre as portas das casas, mas, desta vez, não para para se evitar o extermínio, mas para celebrá-lo).
Passagem, passagens... Talvez aquelas de Paris que inspiraram Walter Benjamin, talvez estas que, parece, sentimos no tempo, talvez a lança a perfurar as costelas do messias na cruz. E o domingo que não passa, e a vida que parece continuar estacada. Passar, passagens e passados: o tempo, o vetor da história, a imaginação combalida pela solidão pascal (uma solidão de passagem). Talvez seja uma questão de reconciliação com o passado para uma nova passagem. E das Passagens me vem algumas palavras do caro Benjamin nesta, como todas as outras, não pouco confusa pesach: "A humanidade deve despedir-se de seu passado reconciliada - e uma forma de reconciliação é a alegria."

imagem: William Blake. The Descent of Christ. 1804-2o. Yale Center of british art, New Haven.