sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Parágrafo de imagens e presentes


A dor "esquecida" se entranha e se alastra.

Ao acordar percebi o movimento dos sonhos ainda de forma muito latente. Todas as histórias fantásticas vividas ao longo da noite, tudo aquilo que agora deveria tratar com o carinho lírico, o mesmo com o qual devemos tratar nossas memórias, era imóvel imagem da criação mais fantástica do homem: a eternidade. O porvir, as sombras de um futuro incerto, confundia-se com imagens, da mesma forma incertas, de um passado. No entanto, sabia que o carinho a estas despendido era apenas uma maneira de tentar moldá-las, ou melhor, emoldurá-las em quadros nos corredores das lembranças. Doce ilusão; aliás, ingênuo imaginário. Nem o passado, nem o futuro ganham forma plena, definitiva, estática. Nem mesmo os sonhos, que há pouco preenchiam o vazio da escura noite, poderiam adoçar a angustiosa sensação de estar aqui, presente, nesta criação um pouco menos fantástica do homem: o tempo. A perspectiva futura, engano da esperança no porvir, e as reminiscências do passado, engano do medo do findar; não me restava senão a contra-face animada da vigília: não o puro sono vazio e na escuridão, mas o sono animado por um "h", o sonho. Talvez aqui encontre não a eternidade ilusória da simultaneidade dos tempos - o ver in totum o que agora vemos em parte; o contemplar face a face o que agora videmus nunc per speculum in aenigmate -, mas uma composição meticulosa dos vários tempos no tempo presente. Talvez seja hora de despertar e, vendo-me na iminência de fazê-lo, sinto que acabo de presentear a Troia dos sonhos com um cavalo de madeira repleto da angústia que irá, a todo custo, forçar-me a encarar as ilusões do tempo e da eternidade nas superfícies e dobras imperfeitas das minhas imagens de presente. E talvez assim Valéry possa me dizer que "o homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aqui começam as máquinas. Depois, você se perde numa substância inexplicável, estranha a tudo o que você conhece e que é, entretanto, o essencial."

Imagem: Tintoretto. Lamentação sobre o Cristo morto. 1560. Gallerie dell'Accademia, Venezia.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Asja Lacis





Brecht 'retém' o melhor da teoria literária soviética dos anos 20 (em especial Tiniánov, Tretiakov, Brik) e é o único que lhe dá seguimento nos anos duros da dec. de 30, em que impera o realismo socialista. Daí a polêmica entre Brecht e Lukács não ser, na realidade, senão uma crítica condensada da luta entre duas tradições centrais da crítica maxista. Os escritos sobre literatura de Brecht devem ser lidos no âmbito da teoria literária inaugurada por Tiniánov e desenvolvida por Bakhtin, Mukaróvski e Walter Benjamin.

Em 1923, em Berlim, Brecht conhece a diretora teatral soviética Asja Lacis, e é ela que o põe em contato com as teorias e experiências da vanguarda soviética. Por intermédio de Asja Lacis, Brecht conhece a teoria da 'ostranenie' elaborada pelos formalistas russos e por ele traduzida como efeito de estranhamento, ou simplesmente efeito v. É notável o deslocamento operado por Brecht para mostrar a origem russa de sua teoria do distanciamento. Afirma que sua descoberta se dá em 1926, graças a Asja Lacis. A atriz, que tem um papel na adaptação feita por Brecht de 'Eduardo II' de Marlowe, pronuncia o alemão com um marcado sotaque russo, e ouvi-la recitar o texto produz um efeito de desnaturalização que contribui para que ela desvende um estilo e uma escrita literária baseados no desnudamento dos procedimentos. Nesta inflexão russa que persiste na língua alemã está, deslocada como num sonho, a história da relação entre a 'ostranenie' e o efeito de estranhamento.




Algum dia seria preciso escrever um texto sobre Asja Lacis. Colaboradora de Meyerhold e de Eisenstein, próxima do grupo de Maiakóvski, é a amante de Walter Benjamin, e por intermédio dela Brecht e Benjamin se conhecem. Em fim dos anos 30, Asja Lacis desaparece num campo de concentração stalinista. 'Asja Lacis já não me escreve', registra Brecht em seu diário de janeiro de 1939. Pode-se ainda apreciar a altiva e belíssima figura de Asja Lacis eternizada numa sequência de 'A ópera dos três vinténs', filmada por Pabst em 1931.






In: Ricardo Piglia. Formas breves. Trad. José Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. pp. 77-76.

Despertar



A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta pela nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nossos pensamento perante elas. Sempre acontecia que, quando eu assim despertava, com o espírito a debater-se para averiguar, sem sucesso, onde poderia achar-me, tudo girava em redor de mim no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mover, procurava, segundo a forma de seu cansaço, encontrar a posição dos membros para daí induzir a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e dar um nome à moradia onde se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de seus ombros, lhe apresentava sucessivamente vários dos quartos onde havia dormido, enquanto em torno dele as paredes invisíveis, mudando de lugar segundo a forma da peça imaginada, redemoinhava nas trevas.




PROUST, Marcel. No caminho de Swann. (trad. Jeanne Marie Gagnebin). Imagem: Aura. Paris, Murat Germen, 2009.

domingo, 23 de outubro de 2011

Na hora de dormir


Desconfio de quando digo muito; desconfio de quando digo pouco; desconfio de quando digo. Às voltas com um fantasma de mim mesmo, penso sobre o tempo perdido, sobre o tempo que se quer perder, sobre essas perdas de tempo que, quando desejadas, são ganhos. A vida e o tempo; o tempo e a vida; eu e ela; ela e eu. E era assim, uma troca de sorrisos. Porém, enquanto eu lhe sorria em português, ela me sorria em italiano; enquanto falávamos juntos, sabiás deixavam seus rastros na poeira das janelas; enquanto pensava em pausar definitivamente, ela só conseguia usar ponto e vírgula (ou seria o contrário?). Não confiar no que digo é talvez um sintoma das palavras que ousávamos falar demais. Talvez tenham sido as metáforas, talvez sejam as metáforas, talvez sejam elas em demasia. E pensava naquela personagem que dizia desconfiar das metáforas, mesmo que seja quase impossível não usá-las. Quando as escutava, pensava que me escondiam algo; quando as usava, pensava que estava escondendo algo de mim mesmo. Acho que é tudo fruto do "como", da comparação irritante e irremediável, dos enganos do uso de algo no lugar de outro, assim como o pensamento sobre o tempo passado como tempo perdido. E voltava a pensar nas trocas de sorrisos (quem tinha sido o intermediário?), e nos intercâmbios de tempos: o meu como seu? o seu como meu? E já começava a ser reticente... e não gosto das reticências, e não gosto de ser reticente, e não gosto de falar quando não deveria, nem de dever falar quando falar é um obscuro meio de metaforizar. Engano, ledo engano, achar que posso esconder de mim mesmo os algos que ficam balbuciando sob as metáforas...

Imagem: Miguel Bakun. Detalhe de "Porta dos sonhos". Coleção Particular. Sem data.

domingo, 16 de outubro de 2011

Paul Gauguin



Gauguin ao trabalho. O esotérico, desertado e deserdado artista, à beira da morte, com a feitura solitária de sua última e prima obra, o retrato da própria filha, na distante Dinamarca, que nunca voltará a ver. Lágrimas misturam-se às cores da palheta. O calvário transmuta-se em tintas e cavalete em meio a uma praia vazia. Resplandece a luz tropical em seu silêncio de morte.

Uma filha que em breve também morrerá, sem poder ter visto o retrato.


Ele sabe disso.


A última obra de Gauguin não deixou vestígios, foi queimada.

Sua obstinação fracassada é o marco de toda e qualquer obra que pretenda ser algo além dela mesma.


A inutililidade de seu gesto é a obra total, gesto de Sísifo que, ao rolar mais uma vez a pedra para cima dos despenhadeiros, condena todos os deuses e destinos no vazio impenetrável de uma provocação desesperada.


Seu tardio e humilde despertar é saber a arte como traço que as ondas do mar também apagarão.

sábado, 15 de outubro de 2011

Simpatia



"Todas as coisas se encontram em esboço / Tudo vive em transformação...". É assim que o poeta das metamorfoses pensa a vida. Nada é acabado, tudo é porvir, ainda que vivamos de restos de um futuro anterior (esse terá sido que não cansa de abalar as estruturas da eternidade), isto é, nesse tempo composto - e, no caso, penso que o resto é o particípio passado que acompanha o futuro. Consternado pelas intromissões da angústia em qualquer tipo de entendimento, não resta senão a dura constatação de saber-se condenado à existência. O tempo, a transformação, o ver as cores menos coloridas, a descida ao Hades da horas, o correr desenfreado da flecha para o alvo que decreta a finitude, são os aspectos de um esboço que, como artífices de nossas vidas, devemos apagar e reconfigurar, reapagar e configurar. Mas será que se trata de uma questão de apagamento e figuração? Engraçado como o com-figurar, o fazer com a figura, pode ser também a mensagem da morte tecida em linhas bordadas nas nossas vestimentas corporais que amarelam desde o nosso nascimento. Figuren, figura, é como os SS chamavam os judeus nos campos de concentração e extermínio (meras formas); e talvez no meu fim de tarde saturnino pense no com-figurar como, justamente, o modo contemporâneo (esse do ego eimi por excelência; do ego que basta por si só e para si só) de com-pôr relações seja justamente: como figuras - e, se lembrarmos do Typos grego, podemos inclusive dizer: fazendo tipo (talvez o que mais me enraiveça). Talvez mais um delírio, mas a impossibilidade das relações parece-me patente. Mas, talvez, eu possa tentar pensar uma síntese - e, claro, synthesis quer dizer com-posição, o outro modo de figurar -, uma outra tentativa de configuração de nossas vidas. E, talvez, esta não seja mais que uma simpatia com o outro. Ora, não é a simpatia nada além de com-paixão (syn-pathos); um outro jeito de configurar os esboços sem a empáfia do fazer tipo, do fazer como se pudéssemos terminar o desenho de nossas vidas. Simpatia, um deixar-se levar ao encontro do outro, um encontro incabado e sempre em movimento. Tal como o lápis imaginário que tece estas linhas, rasurando umas e fixando outras (um esboço), o movimento simpático é como um entregar-se justamente à decrepitude do tempo da condenação, já que a condenação é para todos. Não há inocentes vivos: existimos na condenação da existência, ou ainda, somos culpados. No encontro simpático há um saber-se desesperançado e, por isso, com companheiros de queda, com paixões amigas, com outros, uma vez que só os que fazem tipo crêem-se imagens achiropitas, imagens da eternidade, portanto, não esboços inabacabados, mas quadros intocáveis, incomunicáveis, sem paixão. Talvez o fazer-se em comum não seja nada mais do que um gesto de simpatia...

Imagem: Tiziano Vecellio. Caim e Abel. 1542-44. Santa Maria della Salute, Venezia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Carta ainda impossível


Para minha destinatária impossível.

Querida, queria lhe falar sobre o abandono. Pois é, pode parecer uma coisa fatídica, ou pernóstica ou até mesmo banal - para não dizer um lugar comum, como talvez quereria você -, mas não falar seria algo, como esta carta, da ordem da impossibilidade. Não sei como a ideia me ocorreu; talvez do correr os olhos pelas flores amarelas das sibipirunas, tão negramente esmagadas no piche horrendo desta horrenda cidade; talvez ao ouvir a senhorinha que ao meu lado passava, também ela olhando para as flores, e dizia: "que lindo, tudo amarelo!"; ou talvez pensando que as flores caídas eram o sinal que as árvores me davam sobre o abandono que é a vida - deixavam a beleza do instante primaveril pela tentativa de lograr a subsistência da espécie. Mas talvez os porquês não sejam tão importantes, porque talvez eles mesmos, os porquês, não sejam nada além de um apegamento, de uma tentativa inóspita de apreender a eternidade do instante numa eternidade contínua (mais uma vez algo da ordem do impossível), esquecendo de esquecer, esquecendo que tudo é abandono. Abandonar, querida, também era um jeito convencional de expulsão de alguns da ordem social: colocados para fora, sem bando, sem laço social, sem possibilidades de conversar, sem possibilidades de fazer-se em comum. É, querida, veja como não é nada metafórica a relação do abandonado com a impossibilidade da nossa conversa. Se bem que por vezes penso que as suas cartas apenas não chegam até mim, que elas estão a correr o mundo de mãos em mãos (por aqueles olhos fascinados dos leitores vorazes de cartas alheias) antes de chegar a mim, talvez tarde demais. Mas talvez esse meu pensamento também não seja mais do que flores amarelas esmagadas no negrume do asfalto desta horrenda cidade.

Do seu remetente impossível.

p.s.: Iria deixar-lhe um beijo, porém, acabei me lembrando de que não há nada pior do que um beijo abandonado...